domingo, 24 de novembro de 2019

NO TEMPO DO BERBIGÃO



Foto Divulgação ND
BERBIGÃO ENSOPADO COM PIRÃO ESCALDADO
 Ingredientes
1 kg de berbigão cozido e sem casca 500g de berbigão com casca, bem lavados
2 colheres (sopa) de óleo
1 cebola picada
2 tomates picados, sem sementes
1 dente de alho picado
2 colheres (sopa) de alfavaca picada
Sal a gosto
Para o pirão
1 xícara (chá) de farinha de mandioca
700ml a 1l de água fervente Sal a gosto
Fazendo
1. No fogo médio, refogue a cebola e o alho no óleo, até murcharem, e então acrescente o tomate picado.
2. Quando o tomate já estiver quase desmanchado, acrescente o berbigão com casca.
3. Quando as conchas estiverem abertas, junte o berbigão já cozido e sem casca, a alfavaca e mais uma xícara (chá) de água. Acerte o sal e deixe ferver por 10 minutos.
4. Enquanto isso, prepare o pirão colocando a farinha de mandioca e sal a gosto numa bacia. 5. Vá acrescentando a água fervente aos poucos, misturando sempre com um garfo. Se desejar um pirão mais mole, coloque mais água.
6. Sirva, num prato de sopa, o pirão escaldado e, sobre ele, o berbigão ensopado.
(Do ndonline.com.br) 

MAR DE PIRATAS

Barba Negra - Divulgação/Disney

HÁ 301 ANOS MORRIA BARBA NEGRA, O MAIS ICÔNICO PIRATA DA HISTÓRIA

Neste dia, em 1718, morria o pirata Edward Teach, que havia cuidadosamente cultivado a imagem de lunático brutal, mas não era nada disso

PAULA LEPINSKI 

No dia 22 de novembro de 1718, Barba Negra, possivelmente o maior ícone da era da Pirataria, ia parar no Baú de Davy Jones. Senha pirata para: encontrava o Diabo no fundo do mar.

Ao alvorecer daquele dia, um ataque surpresa da Marinha Real Britânica pegou a tripulação do Adventure desprevenida e desfalcada. Ainda assim, a batalha que se seguiu foi intensa. Os poderosos canhões do navio de Barba Negra mataram cerca de 29 marinheiros ingleses, dois terços das forças ali presentes.

O duelo que se seguiu foi sangrento, e poderia ter terminado bem para os piratas se não fosse a presunção de Barba Negra e a falta de treinamento de sua tripulação.

O número de ferimentos no corpo do capitão do Adventure é um indício do quão bravamente ele lutou: cinco ferimentos de bala e vinte de espada. Mas somente quem estava lá viu isso.

Após a batalha, o corpo de Barba Negra foi arremessado no mar. Já a sua cabeça, foi colocada na proa do navio da Marinha Real Jane para mostrar a todos que um dos maiores piratas daquele tempo estava morto.

A VIDA DE BARBA NEGRA 
A imensa porção de pelos que ocupava a face do inglês Edward Teach não é o único motivo pelo qual ele ficou conhecido como Barba Negra. A fama se espalhou porque, durante os assaltos a navios inimigos, Teach acendia fósforos e pavios na ponta dos cabelos. Seu rosto, iluminado pelas chamas, aparecia como uma imagem demoníaca que ficava para sempre cravada na memória dos inimigos. Por essa e outras táticas, era considerado um especialista em terror psicológico.

Ele espalhou o terror pelos mares no início do século XVIII com o seu navio Queen Anne’s Revenge, depois rebatizado de Adventure, equipado com 40 canhões. Apesar de receber a fama de ser sanguinário e tirânico, algo que ele mesmo alimentava, era um líder calculista que usava a força somente quando julgava necessário. Não há conhecimento de nenhum prisioneiro que ele feriu, torturou ou assassinou.

Astuto, era próximo de marinheiros ou piratas, mas tratava de ficar amigo das autoridades dos lugares por onde passava. Dava-lhes presentes ou comissões pelos produtos saqueados, envolvendo-os num sedutor esquema de corrupção.

Foi assim, por exemplo, que o governador da Carolina do Norte, Charles Eden, lhe presenteou com um navio quando Teach estava prestes a perder a autorização para navegar. Eden ainda deu-lhe provisões e o casou com uma garota de 16 anos, sua 14ª esposa.

Estima-se que Barba Negra tinha entre 35 e 40 anos quando foi morto pelo tenente Robert Maynard e seus homens da Marinha Real Britânica. Hoje, suas façanhas tornaram-se folclore, inspirando contos, livros e filmes.

+ Saiba mais sobre os piratas através dessas obras:

Breve História dos Piratas, Silvia Miguens (2013)


Piratas no Brasil: As incríveis histórias dos ladrões dos mares que pilharam nosso litoral, Jean Marcel Carvalho França (2014)


Barbarossa: o Almirante do Sultão, Pirata e Construtor de um Império, Ernle Bradford (2013)

ESTÃO CHEGANDO...

Imagem viralizou nas redes sociais, mas órgãos ambientais não confirmam manchas em Florianópolis – Foto: Divulgação/ND

Manchas de óleo em praia de Florianópolis são um mistério para órgãos ambientais
Notícia viralizou nas redes sociais, mas denúncia não foi confirmada por nenhum órgão de fiscalização; autoridades monitoram situação

Da ANDRÉA DA LUZ

O suposto aparecimento de manchas de óleo na praia de Jurerê Internacional, no norte da Ilha de Santa Catarina, é um mistério para os órgãos ambientais.

A notícia veio à tona depois que uma moradora de Biguaçu, na Grande Florianópolis, disse ter encontrado duas porções do material na areia da praia nessa quinta-feira (22).

Franciele Santana alega que passeava com a família em Jurerê Internacional, quando encontraram o material e fotografaram. No entanto, em vez de comunicar algum órgão, eles teriam recolhido e descartado as massas de óleo no lixo.
Relação com óleo do Nordeste

Apesar de ter viralizado nas redes sociais, a possibilidade de se tratar de resquícios do derramamento de petróleo ocorrido no litoral nordestino é muito remota.

De acordo com o oceanógrafo da Epagri Carlos Eduardo Salles de Araújo, ainda que fosse carregado pelas correntes marítimas, o material levaria pelo menos dois meses para chegar à costa catarinense.

Araújo também informou que a Epagri não tem equipamento de controle de imagens em tempo real para poder monitorar o litoral.

Além disso, não há registros da ocorrência das manchas na costa do país abaixo do Espírito Santo, por onde a massa poderia ter passado antes de chegar à região Sul.

O estado mais próximo à Ilha de Santa Catarina atingido pelo problema ambiental foi o Espírito Santo, onde as manchas foram registradas pela primeira vez em 7 de novembro. Ao todo, dez estados e mais de 409 localidades já foram afetados.
O que dizem os órgãos ambientais

IBAMA – Por meio de assessoria de imprensa, o Ibama informou que, até o momento, o setor de emergências ambientais não recebeu nenhum comunicado sobre ocorrências com óleo em Santa Catarina.

O órgão federal atua no monitoramento e na gestão da emergência ambiental relacionada ao óleo que atingiu as praias do Nordeste.

Conforme informações do Ibama, as manchas se concentram sob a superfície da água, o que impede a visualização por satélite, sobrevoo e monitoramento com sensores para detecção de óleo. Desta forma, o monitoramento é feito por agentes de campo em inspeções regulares nas praias e estuários.

IMA – O setor de fiscalização do IMA (Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina) pediu apoio à Polícia Militar Ambiental para realizar uma vistoria. As equipes farão uma varredura com drone nesta sexta-feira (22) e com embarcações no sábado (23).

FLORAM – Com a repercussão do caso, a Floram (Fundação Municipal do Meio Ambiente de Florianópolis) enviou uma equipe ao local, na tarde desta sexta-feira. Após percorrer a praia de ponta a ponta, desde Canajurê até o outro extremo, nada foi encontrado, nem na areia nem na água.
Leia também:
Tragédia ambiental

Os primeiros registros de manchas de óleo encontradas no litoral brasileiro foram em 30 de agosto, nas cidades de Conde e Pitimbu, na Paraíba.

De acordo com as investigações da Marinha, o vazamento foi causado por um navio-tanque que transportava grande quantidade de óleo para fora da costa brasileira.

Cerca de 10 toneladas de manchas de óleo foram retiradas da Praia de Suape, no Cabo de Santo Agostinho, em 20 de outubro – Foto: Léo Domingos/Fotos Públicas

Segundo o Ibama, os resíduos não podem ser colocados em lixo comum. O armazenamento pode ser feito em big bags, sacos plásticos específicos para resíduos oleosos, tambores metálicos, containers, ou outros recipientes que evitem vazamento ou provoquem reação, e que possam ser removidos sem o rompimento da embalagem.

O contato com o petróleo cru é especialmente danoso para plantas e animais e, no ser humano, pode causar irritação na pele e nos olhos. Antes de mergulhar em alguma praia afetada, a recomendação é consultar os registros de balneabilidade nas prefeituras ou órgãos ambientais locais.

MAR DE PESCADOR

Foto Fernando Alexandre
Além do seguro-desemprego, programa taxa benefício a pescadores

Seguro-defeso beneficia hoje cerca de 570 mil pescadores em todo o País

Além de taxar o seguro-desemprego, a Medida Provisória do programa Verde Amarelo também desconta uma parcela do benefício pago a pescadores artesanais no período de defeso (em que a atividade é proibida por causa da reprodução das espécies).

O secretário especial adjunto de Previdência e Trabalho, Bruno Bianco Leal, postou um vídeo nesta quarta-feira, 20, com o presidente do Sindicato Nacional dos Aposentados, João Inocentini, que manifestou apoio à taxação do seguro-desemprego, dando como exemplo o seguro-defeso.

Segundo Inocentini, desde 2004, o sindicato reivindica que os pescadores contribuam ao INSS no período em que recebem o benefício. "O pescador nunca consegue se aposentar por contribuição já que trabalha por seis meses e recebe o benefício por outros seis meses", afirmou. Ele estima que, em média, ao contribuição no período defeso vai acrescentar em torno de quatro anos no tempo para se aposentar.

O seguro-defeso beneficia atualmente cerca de 570 mil pescadores em todo o País. O benefício, no valor de um salário mínimo (hoje, R$ 998) é pago no período de defeso ao pescador que exerça a atividade de forma artesanal, individualmente ou em regime de economia familiar, ainda que com auxílio de parceiros. Com a taxação, o benefício terá 7,5% descontados, ou R$ 74,85.

O programa Verde Amarelo foi anunciado pelo governo na semana passada com o intuito de estimular a contratação de jovens de 18 a 29 anos com remuneração de até R$ 1.495 (1,5 salário mínimo). As empresas que fizerem a adesão ao programa vão ter uma redução de até 34% nos impostos que pagam sobre a folha de salários, desde que ampliem o número de funcionários.

Hoje, quem recebe o seguro-desemprego não é taxado. O benefício é assegurado pela Constituição de 1988 com o objetivo de fornecer suporte financeiro ao trabalhador formal demitido sem justa causa enquanto busca recolocação no mercado. É pago por um período que varia de três a cinco meses, de forma alternada ou contínua.

A parcela do seguro-desemprego é calculada a partir de uma média dos últimos três salários recebidos, levando em consideração gratificações e horas extras, por exemplo. Como o benefício só é pago a trabalhadores com carteira assinada, o benefício nunca será menor do que um salário-mínimo (R$ 998). Desse valor, R$ 74,85 serão descontados (o correspondente aos 7,5%).

O valor máximo pago no seguro-desemprego, de acordo com a tabela de 2019, é de R$ 1.735,29. O imposto, neste caso, será de R$ 130,15.

Já que vai ter de contribuir ao INSS sobre o valor do seguro-desemprego, esse tempo em que recebe o benefício passará a contar para o cálculo do INSS. A cobrança do imposto sobre o seguro-desemprego passa a valer daqui a três meses.

O programa Verde Amarelo tem data para acabar. O limite para contratar nessa modalidade é 31/12/2022. Como os contratos podem ter prazo de dois anos, o programa se extingue em 31/12/2024. A taxação sobre o seguro-desemprego e o seguro-defeso, porém, não tem data para cessar.

MAR - CAIS

Resultado de imagem para Rede com lua!

vadia vida
que me invadia
& noite

(Fernando Alexandre)

sábado, 23 de novembro de 2019

NA PRAIA...


Foto Milton Ostetto 
Pantanu du suli... uma viagem no tempo...

CADEIA IMPRODUTIVA

PBS.TWIMG.COM



















AO COCO


BOLO DE PEIXE COM COCO
  
Ingredientes
 
- 250 gramas de filé de pescada (pode ser outro peixe)
- 1 colher de sopa de margaina (ou manteiga)
- 1 cebola média picada
- 2 tomates (sem pele e sem sementes)
- 1 xícara de batatas cozidas e amassadas
- 1 pacote de coco ralado (250 gramas)
- 3 ovos
- Sal e pimenta à gosto
- Suco de 1 limão
- Salsa e cebolinha verde picada

Maneira de preparar

Tempere o peixe com sal, pimenta e limão. Faça um refogado com a maragarina, a cebola e os tomates. Junte o peixe e deixe cozinhar por 10 minutos. Depois de pronto, amasse com um garfo e junte com a batata, a salsinha, a cebolinha o coco e os ovos, sendo as claras batidas em neve. Leve ao forno numa forma untada e deixe por aproximadamente 30 minutos.

(Receita de Olíria Neves Silvio, do Bananal - Laguna, no livro "Cozinha Pesqueira Catarinense" - Edição ACARPESC - 1990)

DE CARAVELAS, NAUS E GALEÕES


Portugal foi nos séculos XIV, XV e XVI o primeiro a iniciar a idade da descoberta, um século antes de Espanha e dois séculos antes de Inglaterra e Holanda.

Durante a época dos Descobrimentos, ousados e intrépidos marinheiros com nomes como, Bartolomeu Perestrelo, Gonçalves Zarco, Tristão Vaz Teixeira, Diogo de Silves, Diogo de Teive, Gonçalo Velho Cabral, Gil Eanes, Afonso Gonçalves Baldaia, Nuno Tristão, Dinis Dias, Álvaro Fernandes, Diogo Gomes, António da Nola, Duarte Pacheco Pereira, Antão Gonçalves, Pedro de Sintra, João de Santarém, Pedro Escobar, Lopo Gonçalves, Fernando Pó, Gaspar Corte Real, Miguel Corte Real, Álvaro Martins Homem, João da Nova, Fernando Noronha, António Saldanha, Gonçalo Álvares, João Fernandes Lavrador, Pêro de Barcelos, Diogo Cão, Bartolomeu Dias, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, António Abreu, Francisco Serrão, Simão Afonso Bisagudo, João de Lisboa, Estevão Fróis, Cristóvão de Mendonça,(1) Gomes de Sequeira, Lourenço de Almeida, Tristão da Cunha, Afonso de Albuquerque, entre muitos outros, (2) partiram em águas desconhecidas em busca do desconhecido.

Portugal país pequeno, que nesses séculos pouco mais que um milhão de habitantes teria, tornou-se, graças aos sacrifícios, engenho e arte de marear dos seus gloriosos marinheiros, na primeira potência marítima global.
(1)
Cristóvão de Mendonça foi quem cartografou e mapeou a Áustrália em 1524/25. Esta importante descoberta foi mantida em segredo por causa da cobiça e por não termos gente suficiente para a povoar. Foram já encontradas provas da nossa estadia, através de artefactos de pesca, de dois canhões e de outros achados provenientes de Portugal. Já depois da nossa chegada a Timor em 1511, consta-se que o navegador António de Abreu, teria navegado até a essas terras, denominadas Ilha do Ouro.

(2)

Na longa lista dos ousados marinheiros acima mencionada, há que notar também os feitos heróicos de mais dois cujos nomes todo o mundo conhece. Cristóvão Colombo e Fernão de Magalhães. Apesar dos seus relevantes serviços terem sido prestados à Espanha, é de referir que todos os seus conhecimentos náuticos, foram feitos em Portugal.

MAR DE SALGADO

Foto Sebastião Salgado

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

MAR DE POETAS


Trecho inicial de O NAVEGANTE / THE SEAFARER
(Anônimo, verso aliterativo anglo-saxão, 960 d.C):

Quero cantar eu mesmo | | minha vera versão
versar várias viagens, | | de como dias
duros, árduos | | tristezas enfrentei
amargas angústias | | suportei a sós,
moradas de mágoa | | provei na popa
as torres terríveis | | das ondas onde
a nervosa noturna vigília | | me levava até a proa
roçando os recifes. | | Algemado pelo gelo,
os pés presos | | pelos ferros do frio
enquanto o sofrer suspirava | | quente em volta do peito
fome feroz dilacerava | | por dentro o coração
marexausto. | | Disso nada sabe
quem se distrai nas cidades | | quem nunca deixou terra firme
como eu (cansado e miserável) | | no mar glacial
um inverno vivi | | pelas trilhas-do-exílio
privado de minha tribo | | [ ]
suspenso sobre sincelos; | | granizo voava no vento
Lá eu nada ouvia | | salvo o mar rugindo,
estrondo de onda gelada. | | Às vezes só a canção do cisne
me divertia; | | ruídos de mergulhão
cantos de maçarico | | em vez de riso humano,
gritos de gaivotas | | eram meu hidromel.
Tempestades espancavam penhascos, | | as andorinhas respondiam
(suas asas geladas) | | sempre ao grito da águia
(geada: suas asas). | | Nenhum parente aqui
pra proteger e consolar | | minha alma miserável.
Pois os que aproveitam | | os prazeres da vida
no conforto das vilas | | de suas vidas vazias
vaidosos e alegres de vinho | | mal adivinham
que cansaço suportei | | na senda do oceano.
Névoa da noite enegrecia, | | vinha neve do norte,
gelo engolia a gleba, | | granizo algemava a terra toda,
tão gélidos grãos. | | Pois meu peito agora se agita,
provoca meu pensamento, | | quer que eu me lance
nessas ondas imensas | | tumulto das cristas-de-sal—
meu desejo sopra sempre | | o espírito pra frente
me quer desterrado, | | longe daqui
errando atrás | | de terras estranhas—

[ . . . ]

Tradução: Rodrigo Garcia Lopes, em "O Navegante" (Editora Lamparina, 2004).

Pintura de Daniel Christie, baseada no poema "The Seafarer"

ESTIVADAS

Foto Fernando Alexandre

OLHANDO ILHAS, ESPERO...

Foto Fernando Alexandre

MARAZUL

Foto Fernando Alexandre
Pântano do Sul

A VOLTA DAS GUARÁS



O fantástico voo das guarás vermelhas em Florianópolis - Fabrício Basílio Almeida/Divulgação/CSC

Cerca de mil guarás são vistas em Florianópolis mais de 250 anos após o último registro

Um bando com cerca de mil guarás voltou a habitar os manguezais de Florianópolis nos últimos dias. O último registro oficial da espécie na região foi em 1763, publicados no livro “Aves de Santa Catarina”. Atualmente o bando está no manguezal do Itacorubi.
Fabrício Basílio Almeida, pesquisador do observatório de áreas protegidas e do Laboratório de Gestão Costeira Integrada da UFSC, colaborou com as informações sobre a ave. Para ele, uma hipótese plausível é que os animais tenham vindo da região norte do Estado: “Nestes locais existem grandes bandos e um deles pode ter vindo para cá. Foi uma surpresa para nós este retorno e estamos muito felizes. É propício que ocorra a procriação e estamos torcendo por isso”.

As guarás vivem em grandes colônias e costumam se alimentar no período de maré baixa e em manguezais. Em seguida, realizam revoadas em grandes grupos no fim da tarde para dormirem em meio a vegetação. Infelizmente, sua plumagem chamativa e colorida chamava a atenção de caçadores, que utilizavam suas penas para exportações e adereços festivos.

A novidade reforça a importância para a proteção e preservação da biodiversidade nas unidades de conservação do município, principalmente em áreas de mangues, pois estas aves costumam se alimentar de caranguejos presentes nos manguezais. A Floram (Fundação Municipal do Meio Ambiente de Florianópolis), que gere a unidade, ressalta que estas áreas servem de proteção para os bairros da região costeira, pois amenizam a força da maré em eventos climáticos extremos, evitando enchentes.

Literatura

Este pode também ser um bom momento para ler “O Voo da Guará Vermelha”, de Maria Valéria Rezende.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

TRABALHADORES DO MAR

Foto Fernando Alexandre

MAR DO TASSO CLAÚDIO SCHERER


MAR DE POETA


EXÍLIO

Fui expulso por ti, minha sereia
do mar, onde costuro a odisséia
No exílio componho a criatura
de barco ancorado numa estrela

A terra firme é o sonho do marujo
só quando decide o fim da lida
ser obrigado a abandonar a vida
nem amor paga o preço da loucura

Eu me submeto à ordem da rainha
timbrada em sóbrio pergaminho
e entregue no deserto por recrutas

Aguardo com a espada na bainha
e um pouco de ferrugem na garrucha
Mas a guerra é certa e serás minha

Do livro ARRASO POEMAS DE AMOR

DESPENCANDO NA MORRA!

A marca dos 100 pés é um dos mitos do surf em ondas gigantes. O maior desafio para surfar uma onda deste tamanho não é só ter coragem e infraestrutura, mas também achar a onda gigante.
Nos últimos anos Big Riders tem viajado o mundo todo em verdadeiras “missões impossíveis” em busca de ondulações gigantes. Mas sempre existe o fator imprevisibilidade que pode mudar tudo quando falamos de uma “parede” de água com mais de 35 metros de altura.
Nesta última segunda-feira, Garrett McNamara achou uma das grandes da história do surf. Segundo o release oficial a onda surfada por GMac tinha mais de 90 pés, algo como 30 metros de altura.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

VOCÊS VERÃO!


UM BOM POEMA...

Foto Andrea Ramos
um bom poema
leva anos
cinco jogando bola, 
mais cinco estudando sânscrito, 
seis carregando pedra, 
nove namorando a vizinha, 
sete levando porrada, 
quatro andando sozinho, 
três mudando de cidade, 
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto

(PAULO LEMINSKI)

MAR DE OLHARES

Georgy Dmitriyev. Moon and Waves (2014) Georgy Dmitriyev

POVOS DO MAR

Povo de Bajau. Eles nasceram para mergulhar.
Povo de Bajau, mergulhadores: habilidades prodigiosas

Mergulhadores, Povo de Bajau, grupo semi- anfíbio 

Por


O povo de Bajau, mergulhadores do arquipélago malaio, passa quase toda a sua vida no mar. Eles vivem em barcos ou em cabanas empoleiradas em palafitas em recifes rasos. E migram de um lugar para outro em flotilhas que carregam clãs inteiros. Eles sobrevivem com uma dieta composta quase inteiramente de frutos do mar. E para coletar, gastam 60% do seu dia de trabalho embaixo d’água. Fonte básica, The Economist.


O wikipedia informa que “os Sama-Bajau são tradicionalmente das muitas ilhas do Arquipélago de Sulu nas Filipinas, áreas costeiras de Mindanao, norte e leste de Bornéu, no mar de Celebes, e ao longo das ilhas indonésias orientais.”
Não é novidade que suas habilidades de mergulho são prodigiosas. Eles às vezes descem mais de 70 metros e podem permanecer submersos por até cinco minutos. Usam nada mais do que um conjunto de pesos para reduzir a flutuabilidade. E um par de óculos de madeira com lentes feitas de sucata resistentes à distorção pela pressão.

Os ‘ciganos do mar’. (Foto:Picture Media)

Características genéticas que os adaptam ao seu estilo de vida

Como os Bajau têm vivido assim por muito tempo (evidências históricas sugerem pelo menos 1.000 anos), pesquisadores especularam que eles carregam características genéticas que os adaptam ao seu estilo de vida. Agora Melissa Ilardo e Rasmus Nielsen, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, mostraram que isso é verdade.

Site news.com.au/: “crianças de até quatro anos pescam peixes, polvos e lagostas de barcos artesanais na costa leste de Sabah, na Malásia. Junto com suas famílias, moram em cabanas de madeira sobre palafitas e trocam seus frutos do mar por necessidades com ilhéus na cidade de Semporna.

Foto: jamesmorgan.co.uk/

O povo Bajau é refugiado das Filipinas. E escolheu viver no mar por toda a vida. Todos os dias as crianças pegam suas pirogas artesanais e, equipadas com uma rede e lança, partem em busca de comida. As crianças não têm oportunidade de ir à escola, portanto sem perspectivas futuras.”

A resposta do mergulho

Imergir o rosto em água fria e exigir que prenda a respiração, diz a Economist, aciona o que é conhecido como a resposta do mergulho. Isso envolve redução da frequência cardíaca para economizar oxigênio.

Foto: pinterest

O redirecionamento do sangue dos tecidos superficiais para os órgãos mais sensíveis ao oxigênio, como o cérebro, coração e os pulmões; e contração do baço, um órgão que atua como uma reserva de emergência de glóbulos vermelhos oxigenados, de modo que um suprimento aumentado dessas células é liberado na corrente sanguínea.

A prova das mudanças genéticas

Melissa Ilardo, pesquisadora, viajou para a Indonésia. Recrutou 59 bajaus dispostos a dar amostras de saliva para análise de DNA. E também para medir os baços. Para agir como controle, ela também recrutou 34 membros do Saluan, um grupo de moradores de terra, mas vizinhos próximos dos bajaus. As varreduras do baço mostraram que os Bajau são 50% maiores que os do Saluan. Esta diferença, entretanto, não está relacionada ao indivíduo mergulhador, ou um outro que passasse a maior parte do tempo trabalhando acima das ondas em um barco. Isso sugere que é a linhagem de Bajau, e não a atividade real do mergulho, que é responsável por um baço maior.

Foto: www.thetalkingdemocrat.com

Juntando esses resultados, Ms Ilardo e Dr Nielsen argumentam que a necessidade de coletar alimentos por meio do mergulho realmente levou à evolução, no caso dos Bajau, de um grupo que literalmente nasceu para mergulhar.

Fontes: https://www.economist.com/news/science-and-technology/21740737-meet-bajau-group-people-amphibious-life-have-evolved-traits?fsrc=scn/fb/te/bl/ed/agroupofpeoplewithanamphibiouslifehaveevolvedtraitstomatchhumanevolution; http://www.news.com.au/travel/world-travel/asia/bajau-people-of-malaysia-are-refugees-banned-from-living-on-land/news-story/c0173eea5bbaf9315e93d49d19dbe65f; https://en.wikipedia.org/wiki/Sulu_Archipelago.

(Do https://marsemfim.com.br)

DANDO NOME...

Foto Fernando Alexandre

MOQUECA BAIANA

Foto Divulgação
Redimento: 4 pessoas
Tempo: 50 minutos
Fácil
INGREDIENTES
1 kg de peixe (cambucu ou cação) em postas grossas
1 limão
Sal a gosto
2 dentes de alho amassados
Pimenta-do-reino moída na hora a gosto
3 de tomates maduros picados
1 cebola grande cortada em cubos
½ pimentão verde, cortado em cubos
½ pimentão vermelho cortado em cubos
½ pimentão amarelo cortado em cubos
3 ramos de coentro
3 colheres de sopa de azeite de dendê
6 colheres de sopa de azeite extravirgem
200 ml de leite de coco e a mesma medida de água
Camarões miúdos ou camarões secos (opcional)
PREPARO
Tempere as postas de peixe com suco do limão, sal e a pimenta-do-reino. Reserve.
Numa panela grande, coloque o azeite de oliva, a cebola o alho amassado e deixe fritar bem.
Em seguida, coloque os tomates picados (com semente e tudo), os pimentões cortado em cubos e, se gostar, mais um pouco de pimenta-do-reino.
Coloque as postas de peixe ajeitando com cuidado.
Coloque o leite de coco.
Em seguida, o azeite de dendê, o coentro e a mesma medida da garrafa que veio o leite de coco com água.
Tampe a panela.
Deixe em fogo alto até levantar fervura.
Depois, baixe o fogo e deixe cozinhar por 15 minutos.

Dica do chef: O ideal é preparar em panelas de barro, mas, se não tiver, pode fazer na penela que tiver em casa. Recomendo que seja pelo menor e menos funda. Sirva com arroz branco e um pirão.

OLHANDO ILHAS, ESPERO...

Foto Fernando Alexandre

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

MALHEIRAS

Foto Fernando Alexandre

500 ANOS DEPOIS


Fernão de Magalhães autor da mais extraordinária viagem marítima desde sempre.
Fernão de Magalhães, circunavegação faz 500 anos 
Por

Oriundo do norte de Portugal, não se sabe ao certo o local de nascimento, se Porto, ou Trás-os-Montes. Também não é precisa a data de nascimento, provavelmente 1470. Ainda jovem foi para Lisboa. Torna-se escudeiro ao serviço de D. Manuel I. Em 1505, parte para a Índia na armada de D. Francisco de Almeida. Ali permanece por anos. Durante o período, participou em campanhas militares no Índico, lutando na conquista de Sofala, Quiloa e na tentativa da conquista de Malaca. Retorna a Portugal em 1513. Poucos anos depois, em 1517, se desentende com D. Manuel I, troca Portugal pela Espanha onde oferece seus serviços a Carlos I. Propôs-lhe atingir as Molucas pelo Ocidente. O que tinham estas ilhas de especial? Eram a única produtora mundial de cravo, além de outras especiarias. Durante os dois anos seguintes Fernão de Magalhães estudou a navegação, juntou mapas e documentos, e convenceu Carlos I. A comemoração mundial da primeira circunavegação será em 2022, quando completam cinco séculos do término da épica viagem. O Mar Sem Fim sai na frente, como preparação, e comemora agora os cinco séculos da partida.

2019 – V Centenário do início da primeira circunavegação do globo

No dia 20 de Setembro de 1519, os cinco navios, Trinidad, comandado por Fernão de Magalhães; Victoria, San António, Concepción e Santiago,– saíram de Sanlúcar de Barrameda, na foz do Guadalquivir. Começava a mais extraordinária viagem marítima desde sempre. A soma dos tripulantes era de 265 homens.

A frota de Fernão de Magalhães.Ilustração: www.timetoast.com.
Fecho de ouro para a era das grandes navegações portuguesas


A viagem de Magalhães também é considerada o fecho de ouro para a era das grandes navegações portuguesas. Elas começaram com a tomada de Ceuta, em 1415, e a descoberta da Madeira, em 1418. Nos cem anos seguintes, Portugal surpreenderia o mundo descobrindo mais da metade de todas as terras conhecidas até então. A saga ultramarina é considerada por diversos estudiosos uma das mais ousadas e importantes da história da humanidade. Para Adam Smith, “um dos maiores e mais importantes acontecimentos registrados na história da humanidade.” Infelizmente, só nós, brasileiros, não sabemos disso. Nosso ‘ensino’ decidiu por bem banir este capítulo da história. Como já dissemos antes, ‘o movimento náutico português foi o precursor da globalização, cujo ápice vive a nossa geração’.


Ilustração: National Geographic.
Embarque na viagem de Fernão de Magalhães

Para nossa sorte, na frota de Magalhães seguiam ao menos seis ‘literatos’. Eles foram os autores de seis relatos escritos da viagem, o mais conhecido dos quais, o do italiano Antonio Pigafetta. Entretanto, o livro ‘Fernão de Magalhães – A Primeira Viagem À Volta Do Mundo, contada pelos que nela participaram, publica na íntegra, e comenta, os seis relatos. É dele que vem o texto a seguir.

Livro Primeiro – De Sevilha até à saída do Estreito de Magalhães
“Aos perigos inerentes a esta empresa podia acrescentar uma desvantagem a mais para Fernão de Magalhães. Os capitães dos outros quatro navios que estariam sob o seu comando eram seus inimigos, pela única razão de serem espanhóis, ao passo que Magalhães era português. A 20 de setembro partimos de São Lucar. Navegamos para sudoeste, e a 26 chegamos a uma das ilhas Canárias, chamada Tenerife, situada em 28º de latitude norte. Detivemo-nos três dias num local apropriado, para nos aprovisionarmos de água e lenha. Em seguida entramos num porto da mesma ilha, onde passamos dois dias. Em 3 de outubro fizemos-nos à vela, diretamente rumo ao sul.”


No Rio de Janeiro
“…Depois de passar a linha equinocial, ao aproximar-se do polo Antártico, perdemos de vista a estrela Polar.” Finalmente a frota chega ao Rio, onde Pigafetta relata as trocas que fizeram. “Fizemos aqui vantajosíssimas trocas. Por um anzol ou uma faca deram-nos cinco ou seis galinhas; por um pente, dois gansos; por um espelhinho o peixe suficiente para alimentarmos dez pessoas. Trocamos também por bom preço as figuras das cartas de jogar. Por um rei de ouros deram-nos seis galinhas, e ainda se convenceram de que tinham feito um magnífico negócio. Os brasileiros não são cristãos, nem tampouco idólatras, porque não adoram nada. A natureza é sua única lei.”


Descrição das canoas
Pigafetta: “os seus barcos são chamados canoas e são feitos de um tronco de árvore escavado com uma pedra cortante, usada em vez de ferramentas de ferro que não conhecem. São tão grandes estas árvores que numa só canoa cabem trinta e mesmo quarenta homens, que se servem de remos que se parecem a pás dos nossos padeiros.”

Descrição dos indígenas

“Os homens e as mulheres são tão vigorosos e tão bem proporcionados como nós. Comem algumas vezes carne humana. Mas somente a dos seus inimigos. Não é pelo apetite nem pelo sabor que o fazem, mas por um costume. Para não serem menos ferozes que outros, determinaram comer, de verdade, os inimigos aprisionados. Os brasileiros, tanto homens como mulheres, pintam o corpo, principalmente a cara. Quase todos os homens têm o lábio inferior com três perfurações, através das quais passam pequenos cilindros de pedra de duas polegadas. Nem as mulheres nem as crianças usam este incômodo adorno. A cor de sua pele é de um tom mais azeitonado do que negro. Demoramo-nos treze dias neste porto, após o que prosseguimos a nossa rota. Costeamos o país até 34º 40′ de latitude sul onde encontramos um grande rio de água doce (era o Prata).”

Figuras fantásticas, o imaginário de Pigafetta no rio da Prata


“Aqui habitam os canibais, ou comedores de homens. Um deles, de figura gigantesca e cuja voz parecia a de um touro, aproximou-se de nosso navio para animar os seus camaradas, que, temendo que lhes quiséssemos fazer mal, se afastaram do rio. Se retiraram com seus haveres para o interior do país…saltamos em terra cem homens e perseguimo-los para capturarmos alguns, mas davam tão grandes passadas que nem mesmo correndo ou saltando os pudemos alcançar.”

Porto de São Julião, Argentina, e os Patagões


“…Chegamos aos 49º 30′ de latitude sul. Encontramos um bom porto, e, como se aproximava o inverno, julgamos conveniente passá-lo ali.” Pigafetta se refere a San Julian, na província de Santa Cruz. Neste local, mais uma vez, o imaginário falou mais alto: “…um dia quando menos esperávamos se apresentou um homem de figura gigantesca. Este homem era tão alto que a nossa cabeça apenas chegava à sua cintura. O seu vestuário, ou melhor, o seu manto era feito de peles muito bem cozidas umas às outras, de um animal que abunda neste país, como adiante veremos…Parece que sua religião se limita à adoração do Diabo. O nosso capitão chamou este povo Patagões. Permanecemos neste porto cinco meses…”

Motim contra Fernão de Magalhães



O clima na flotilha era o pior possível. Eram quatro capitães espanhóis sob comando de um português. Pior que a rivalidade que temos com nossos ‘hermanos’. Não podia dar outra. Explode um motim. Com a palavra, Antonio Pigafetta: “Apenas ancoramos neste porto (São Julião), os capitães dos outros quatro navios planejaram uma conspiração para assassinar o capitão-general. Estes traidores eram: João de Cartagena, vedor da frota, Luís Mendonça, tesoureiro, Antonio Coca, contador; e Gaspar de Quesada. A conspiração foi descoberta. O primeiro foi esquartejado e o segundo apunhalado. Gaspar de Quesada foi perdoado, mas alguns dias depois organizou nova traição. Então o capitão- general expulsou-o da frota e abandonou-o na terra dos Patagões com um sacerdote seu cúmplice. Sucedeu-nos deste local outra desgraça: o navio Santiago que tinha sido destacado para reconhecer a costa naufragou entre os escolhos.”

A descoberta do Estreito de Magalhães, obra de Oswald Walters Brierly.

Navegando para a boca do Estreito de Magalhães

“Continuando nossa rota para o Sul. A 21 de outubro, estando em 52º de latitude sul, descobrimos um estreito, que chamamos ‘o estreito das Onze Mil Virgens’, porque foi no dia que a igreja as consagra. Este estreito, como depois pudemos verificar, tem 440 milhas de comprimento, e meia légua de largura, pouco mais ou menos, e desemboca noutro mar, a que chamamos Pacífico. Toda tripulação acreditava que o estreito não tinha saída para o oeste que não era prudente mesmo ir procurá-la sem ter os grandes conhecimentos do capitão-general. Este, tão hábil como valente, sabia que era preciso passar por um estreito muito oculto, mas que tinha visto numa carta feita pelo excelente cosmógrafo Martim da Boémia, que o rei de Portugal guardava na sua tesouraria.”


O Estreito de Magalhães.

Livro segundo – Desde a saída do estreito até à morte do capitão Magalhães e nossa partida de Zebu
Pigafetta é econômico quanto ao grande problema desta etapa: o frio intenso e o vento normalmente muito forte em toda a região. E principalmente, no inverno. Já naveguei por ali, e posso afirmar: mesmo com toda a tecnologia, e as roupas sintéticas que hoje temos, não dá pra ficar mais de meia hora exposto ao vento e ao frio, mesmo com três ou quatro camadas de roupas. O sofrimento da tripulação da frota de Magalhães foi mais que tenebroso.


O frio tenebroso no Estreito de Magalhães
Busco exemplo em matéria recente que fizemos sobre o terceiro homem a fazer a circunavegação da Terra, o inglês Thomas Cavendish. Quem relata é o marinheiro Anthony Knivet , eles estavam no mesmo local, o estreito: “ao tirar minhas meias alguns dedos saíram junto, vi que meus pés estavam negros feito fuligem e não conseguia mais senti-los de todo. Não mais conseguia caminhar… nesse lugar um ourives chamado Harris perdeu o nariz. Quando tentou assoá-lo, ele acabou caindo de seus dedos no fogo.”

Saindo do Estreito de Magalhães. Medo do escorbuto, e a fome, dominam

“Dia 28 de novembro saímos do estreito e entramos no grande mar, que logo chamamos ‘mar Pacífico’. Navegamos durante três meses e vinte dias sem comermos nenhum alimento fresco. O biscoito que comíamos já não era mais pão, mas um pó misturado com vermes, que haviam devorado toda a substância, e que, além disso, tinha fedor insuportável, por estar empapado com urina de rato. A água que nos víamos obrigados a beber estava igualmente putrefata e repugnante.

Ilustração de Gustave Doré. O escorbuto foi responsável por mais mortes no mar do que tempestades, naufrágios, combate e todas as outras doenças combinadas.
Comendo pedaços de couro para não morrer

“Para não morrermos de fome chegamos mesmo ao terrível transe de comermos pedaços dos couros de boi com que se encontra revestido o mastro grande. Estes couros, sempre expostos, estavam tão rijos que havia que os pôr de molho ao mar durante quatro ou cinco dias para embrandecerem um pouco, em seguida os cozíamos e comíamos. Muitas vezes a nossa alimentação reduzia-se a serradura de madeira; até os ratos, tão repugnantes ao homem, chegaram a ser um manjar tão procurado que se pagava um ducado por cada um.”


A peste ataca a tripulação: escorbuto

“Mas houve pior: a nossa maior desgraça era vermo-nos atacados por uma doença em que as gengivas inchavam até ao ponto de ultrapassarem os dentes, tanto da mandíbula superior como da inferior. Os doentes não podiam comer nada. Morreram dezanove. Entre eles o gigante patagão e um brasileiro que ia conosco. Durante estes três meses e vinte dias percorremos quatro mil léguas, pouco mais ou menos, no mar que chamamos Pacífico, porque enquanto durou a nossa travessia não sofremos a menor tempestade.”

Escorbuto, pavor dos marinheiros quinhentistas.

Sobre a própria viagem
Pigafetta: “Se ao sairmos do estreito tivéssemos continuado a correr para oeste pelo mesmo paralelo, teríamos dado a volta ao mundo. E, sem encontrarmos nenhuma terra, teríamos voltado ao Cabo Desejado ao cabo das Onze Mil Virgens, dado que os dois estão em 52º de latitude sul. Penso que ninguém no futuro se aventurará a empreender uma viagem semelhante (de fato, foram precisos 58 anos para que o próximo, Francis Drake, fizesse nova circunavegação).”


Navegando ao largo do Japão
“Na nossa rota passamos perto das costas de duas ilhas muito altas, uma das quais está a 20º de latitude sul e a outra a 15º. A primeira chamas-se Cipangu (Japão) e a segunda Sumbdit-Pradit. Em seguida começam a aparecer novas ilhas, estas bem próximas das naus.” Nossos amigos haviam chegado às Filipinas. Pigafetta: “Tendo avistado à nossa roda, ao quinto domingo da Quaresma, que se chama Lázaro, umas tantas ilhas, demos-lhes o nome de ‘arquipélago de São Lázaro‘ (atual Filipinas).” Ali novos encontros aconteceram. Pigafetta: “sexta-feira, 22 do mês (março), os insulares cumpriram sua palavra, e vieram com duas canoas cheias de nozes de coco, laranjas, um cântaro com vinho de palmeira e um galo. Compramos-lhes tudo o que trouxeram.”

Explorando as Filipinas

A frota de Fernão de Magalhães explorou dezenas de ilhas das proximidades. Ficaram amigos de um dos ‘reis’ , com quem trocaram presentes. A amizade prosperou. Indígenas foram batizados, e missas rezadas. Pigafetta: “o capitão-general perguntou qual era, nas imediações, o porto mais apropriado para aprovisionar os seus navios e comerciar com as suas mercadorias. Disseram-lhe que havia três, a saber: Ceylon, Zubu (atual, Cebu), e Calagan, mas que Zubu era o melhor, e, como ele estava decidido a ir aí, ofereceram-lhe pilotos para o conduzir.” Entusiasmado com a boa maré, e procurando selar a amizade, Fernão de Magalhães cometeu seu único erro na épica viagem. Erro que lhe custaria a vida. Mais uma vez, palavra de Pigafetta: “O capitão disse ao rei que se ele tinha inimigos se juntaria voluntariamente a ele com seus navios e os seus guerreiros para combater.”

Batizando ‘reis’.
Em Cebu, para comerciar

“No domingo, 7 de abril, entramos no porto de Zubu. Passamos perto de muitas aldeias onde vimos casas construídas em cima das árvores. Perto da povoação, o capitão mandou içar todos os estandartes e amainar as velas, dando uma descarga geral de artilharia, o que causou grande alarme entre os insulares.”

A escaramuça em que se meteu Magalhães


“Sexta-feira, 26 de abril, Zula, um dos chefes da ilha de Matan enviou ao capitão um de seus filhos com duas cabras, dizendo-lhe que não enviara tudo que lhe prometera, não era por sua culpa, mas de Cilapulapu, o outro chefe, que não queria reconhecer a autoridade do rei de Espanha, mas que, se o capitão o queria socorrer na noite seguinte, apenas com uma chalupa com homens armados, comprometia-se a combater e subjugar completamente o seu rival. O capitão-general determinou ir em pessoa com três chalupas. Pedimo-lhes que não fosse ele próprio, mas respondeu-nos que, como bom pastor, nunca deveria abandonar o seu rebanho.”
A refrega fatal…’se lançaram sobre nós com horrível gritaria’

“Esperávamos pelo dia, e saltamos então em terra com água pelas coxas. As chalupas não podiam aproximar-se por causa dos recifes e bancos de areia. Éramos 49 no total, porque deixamos 11 de guarda às chalupas. Precisávamos de andar dentro de água um pedaço antes de atingirmos terra firme. Os insulares eram 1500, formados em três batalhões, que imediatamente se lançaram sobre nós com uma horrível gritaria. O nosso capitão dividiu seus homens em dois pelotões.”

‘Uma flecha envenenada atravessou a perna do capitão’

“Os mosqueteiros e os balistários atiraram de longe durante uma meia hora. Mas causaram pouco dano ao inimigo. Por outro lado, confiando na superioridade do número, atiravam-nos nuvens de lanças, de paus endurecidos ao fogo, de pedras, e até terra, sendo muito difícil defendermo-nos. Uma flecha envenenada atravessou a perna do capitão, que mandou logo retirar devagar e em ordem, mas a maior parte de nós fugiu precipitadamente, de maneira que ficaram apenas 7 ou 8 com o capitão.”

“Por duas vezes lhe derrubaram o capacete…”
“Como conheciam nosso capitão, principalmente contra ele dirigiam seus ataques, e por duas vezes lhe derrubaram o capacete. Durou o desigual combate quase uma hora. Por fim, um insular conseguiu ferir, com a ponta de uma lança, a testa do capitão, o qual, furioso, o atravessou com a sua espada, deixando-lha encravada no corpo. Quis então tirá-la, mas não o pode fazer por estar gravemente ferido no braço direito. Deram-se conta disso os indígenas e lançaram-se todos sobre ele; um deles, descarregando-lhe uma lançada na perna esquerda. Fê-lo cair de bruços, arrojando-se então sobre ele. Assim morreu o nosso guia, a nossa luz, e o nosso conforto.”

‘A morte de nosso guia’.Ilustração: www.timetoast.com.


A confiança de Magalhães
Pigafetta: “O rei podia ter-nos socorrido, mas o capitão-general, longe de prever o sucedido, quando pisou em terra com a sua gente ordenou-lhe que não saísse do balangué (tipo de barco) e que permanecesse como mero espectador, vendo como combatíamos. Chorou muito ao vê-lo sucumbir. Esta desgraçada batalha deu-se em 27 de abril de 1521.” Em seguida a esta batalha, ainda houve novas escaramuças em que mais tripulantes foram mortos. Mas a viagem tinha que continuar. Pigafetta: “Elegemos depois em seu lugar dois governadores: Duarte Barbosa, português, e João Serrão, espanhol.”


Livro terceiro – De Zubu até à saída das ilhas Molucas
“Deixamos a ilha de Zubu e ancoramos na ponta de uma ilha que chamam Bohol, a dezoito léguas de Zebu. Como as tripulações, dizimadas por tantas perdas, não eram suficientes para os três navios, decidimos queimar um, a Concepción, depois de mudarmos para os outros dois tudo o que nos podia ser útil.”


A fome atormenta de novo

Os dois navios restantes vieram pingando de ilha em ilha, mas sem nelas desembarcar. Até que…Pigafetta:”Chegamos a outra ilha, maior, que estava bem provida de toda a espécie de víveres, o que para nós foi uma fortuna, porque estávamos tão esfomeados que estivemos muitas vezes a ponto de abandonar os nossos navios e estabelecer-nos em qualquer terra, para nela terminarmos os nossos dias.”

Briga de galo no século 16

Depois de desembarcarem para recolherem víveres, Pigafetta explora a ilha e escreve admirado: “Têm também grandes galos domésticos, que, por uma espécie de superstição, não comem, mas ensinam-nos a combater entre eles, fazendo apostas, e ganhando prêmios os proprietários vencedores.”Fica aí, o registro, para aqueles que ainda acreditam no mito do ‘bom selvagem’.

Em Bornéo

Entre muitas outras ilhas, nossos heróis desembarcam em Bornéu, Pigafetta:” Dizem que o rei de Bornéu tem duas pérolas tão grandes como ovos de galinha e tão perfeitamente redondas que, colocadas sobre uma mesa lisa, nunca ficam em repouso.” A esta altura, uma das naus sobreviventes estava se desmantelando. Quem conta é Pigafetta: ” ao sairmos desta ilha voltamos atrás a procurar um lugar apropriado para carenar os navios (colocá-lo no seco para limpar e consertar o casco), pois um tinha uma grande entrada de água e o outro, por falta do seu piloto, encalhara perto de uma ilha chamada Bilalon (atual, Sampanmangio).” E completa, “levamos 42 dias neste serviço.”

Recepção a Magalhães em Bornéo.
Chegada nas ilhas Molucas
Sexta-feira, 8 do mês de novembro, três horas antes do por do sol, entramos no porto de uma ilha chamada Tadore (era uma das Molucas).”Mais uma vez desembarcaram e ficaram amigos do rei. Pigafetta descreve detalhadamente os costumes da corte, e os da população, suas casas, modo de viver, etc. Enquanto isso, faziam comércio trocando miudezas com as famosas especiarias como noz-moscada, cravo, gengibre, etc. É chegada a hora da partida: “O primeiro navio a desfraldar as velas foi a Victoria, que se fez ao largo onde esperou pela Trinidad. Mas este navio levantou âncora com muita dificuldade, e neste meio-tempo os marinheiros descobriram que tinha uma grande entrada de água no porão.”

O conserto da nau, e decisão de alguns de ficarem nas Molucas
Levou muito tempo mesmo com o rei local ajudando com mergulhadores, Pigafetta:” Estes homens mergulharam no mar com a cabeleira flutuante, porque supunham que a água, ao entrar pelo orifício, arrastaria os seus cabelos indicando-lhes a sua localização. Mas, depois de uma hora de procura subiram à superfície sem nada terem encontrado.” Pigafetta diz que por causa disso, voltou a ideia de carenarem o Trinidad, que rei ‘prometera ajudar com 250 carpinteiros.”

A decisão de ficar
Antes de partirem em definitivo, janeiro de 1552, mais mudanças que nosso escriba detalha; “Houve alguns de nós que preferiram ficar nas ilhas Molucas em vez de retornarem a Espanha, já que receavam que o navio não resistisse a tão grande viagem.” Finalmente, aconteceu a partida:”Então os navios despediram-se com uma descarga recíproca de artilharia. Os nossos companheiros seguiram-nos na chalupa tão longe quanto puderam, e por fim separamo-nos chorando. João carvalho ficou em adore com 53 europeus. A nossa tripulação era de 47 europeus e 13 indígenas.”

Fernão de Magalhães e os encontros com os gentios.

Livro quarto – Regresso a Espanha desde as ilhas Molucas
Pigafetta segue descrevendo as ilhas pelas quais passaram. Numa delas, ficaram por 15 dias para nova carenagem na Victoria. Estiveram em Timor onde mais uma vez desembarcaram. Na saída, mais algumas baixas. Tripulantes cansados da saga decidiram por lá ficar. Pigafetta: “terça- feira 11 de fevereiro, à noite deixamos Timor e entramos no grande mar chamado Laut-Chidol (o mar do Sul).” Neste ponto houve mais uma decisão de gênio, que Pigafetta não atribui a Juan Sebastian Elcano, espanhol, que assumiu o comando. Como sabiam que os portugueses costeavam a Índia e a costa africana, eles desceram para o Sul, para não encontrá-los, em mais uma rota totalmente nova e desconhecida. “Rumamos a oeste-sudoeste, deixando ao norte, à direita com medo dos portugueses.”


No Cabo da Boa Esperança

“Para dobrar o cabo da Boa Esperança subimos até 42º de latitude sul, e tivemos que permanecer 9 semanas frente a este cabo com as velas colhidas, devido aos ventos de oeste (contrários) e do noroeste que tivemos constantemente e que acabam numa terrível tempestade. Finalmente, com ajuda de Deus, dobramos o terrível cabo a 6 de Maio, mas tivemos que nos aproximar dele a uma distância de 5 léguas, sem o que nunca o teríamos passado. Navegamos depois em direção noroeste durante dois meses inteiros sem descaso. Neste intervalo perdemos 21 homens entre cristãos e indígenas.”

Mais mortes e uma descoberta ‘curiosa’

“Fizemos uma observação curiosa: ao lançamento-los no mar, os cadáveres dos cristãos ficavam sempre com a cara voltada para o céu e o dos indígenas com o rosto mergulhado no mar.”

Ilhas de Cabo Verde

“Carecíamos completamente de víveres, e, se o céu nos não houvesse concedido tempo favorável, teríamos morrido todos de fome. Quarta-feira, 9 de julho, avistamos as ilhas de cabo Verde e ancoramos na chamada de Santiago.” A tripulação desembarca atrás de víveres, mas nem bem conseguiram alguns tiveram que abortar e voltar à navegação. Portugueses descobriram quem eles eram…
O retorno depois de três anos


“Graças à Providência, no sábado, 6 de setembro, entramos na baía de Sanlucar, e, de 60 homens que se compunha a tripulação quando saímos das ilhas Molucas, não restavam mais que 18, na maior pate doentes. Dos demais, uns ficaram na ilha de Timor, outros foram condenados à morte por crimes e, enfim, outros morreram de fome. Desde a nossa saída da baía de Sanlucar até o nosso regresso calculamos ter percorrido mais de 14.460 léguas, dando a volta completa ao mundo, navegando sempre de Leste para Oeste.”


Fernão de Magalhães e a nau Victoria. Ilustração: HULTON ARCHIVE/GETTY IMAGES.
Em Sevilha
Terça-feira, 8 de setembro, ancoramos junto ao molhe de Sevilha e disparamos toda a artilharia.

Porto de Sevilha em 1590, por Alonso Sanchez Coello.
Terça-feira, saltamos todos em terra, em camisa e descalços, com um círio na mão, e fomos à Igreja de Nossa Senhora da Vitória e à da Santa Maria de Antígua, como havíamos prometido fazer nos momentos de angústia. Regressei, enfim, a Itália onde me consagrei para sempre ao excelentíssimo senhor Filipe Villiers de L’Isle- Adam, grão-mestre de Rodes, a quem também entreguei o relato da minha viagem.

O CAVALEIRO ANTONIO PIGAFFETA

(Nosso escriba não fala, mas quem assumiu o comando da Victoria foi Juan Sebastian Elcano. Por isso, em muitas fontes atribui-se a viagem a Magalhães – Elcano)
Assista à animação sobre a circunavegação de Fernão de Magalhães

Fonte: Fernão de Magalhães – A Primeira Viagem À Volta Do Mundo, contada pelos que nela participaram, editora Publicações Europa-América