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segunda-feira, 8 de março de 2021

MULHERES NO MAR


Josi pescou com o pai e diferentes irmãos. Hoje, pesca com um deles e todo dia leva uma história diferente para casa(Foto: Tiago Ghizoni)

"Amamentava meu bebê durante as pescarias", recorda Josi da Silva, de Florianópolis

Nascida numa tradicional família de pescadores, Josi é a única mulher em um grupo de 60 homens que vivem da pesca artesanal na Armação do Pântano do Sul, na Ilha de Santa Catarina

Por Ângela Bastos
angela.bastos@somosnsc.com.br

Josilene Maria da Silva, 34 anos, a Josi, mora na Armação do Pântano do Sul, em Florianópolis. É filha, neta e bisneta de pescadores. Casada com um servidor municipal aposentado e mãe de Enzo, cinco anos, carrega na memória a imagem da época em que o bebê, com apenas três meses, era amamentado no meio da pescaria. Como precisava passar muitas horas no mar, o jeito era improvisar uma pequena cama no fundo da embarcação. O menino gostava do balanço das águas. Passava a maior parte do tempo dormindo.
Pesco desde os 18 anos. Neste tempo todo só me afastei do mar por 10 meses, quando engravidei. Mas voltei em seguida e três meses depois do parto já tinha o meu mini-marinheiro me acompanhando nas pescarias", recorda.

Mais jovem, Josi trabalhava na tosa e banho de animais. Também foi ajudante de pedreiro de um tio. Estava meio perdida sobre o que fazer quando, certo dia, foi ajudar o irmão a recolher as redes. Gostou tanto que nunca mais parou.

— O mar é uma terapia que limpa a alma e acalma os prantos — compara.

Josi foi a décima a nascer numa família de 11 filhos. Ela já pescou com o pai e diferentes irmãos. Atualmente é parceira de um deles, e a única das mulheres em atividade. Um dos encantos da atividade parece estar na alternância das rotinas:

— Todo o dia tem uma situação nova, uma pescaria que surpreende, uma história diferente. É assim a vida de uma mulher pescadora. 

Uma rotina de quem sai de casa à tarde, passa a noite no mar e volta na manhã seguinte. Josi reconhece ser uma atividade pesada. Além de esforço físico, exige muito empenho mental e psicológico. Talvez por isso já tenha decidido: vai se aposentar — deixar de pescar profissionalmente — aos 40 anos.

— A mulher sente mais do que o homem, que tem uma estrutura física mais forte. Além disso, não é só o mar: é casa, é filho, é embarcação, e comércio do peixe. A gente não tem só um emprego, tem quatro, cinco.

Sobre o futuro do filho que se mostra apaixonado pelo mar, diz:

— Mesmo que ele queira pescar, vai ser só por lazer e não por necessidade. Vai ter que estudar para não depender da pesca como meio de sobrevivência.
Em férias, com tempo bom e segurança garantida, Josi permite que o filho Enzo, de cinco anos, dê um passeio de barco, mas quer que ele estude para não depender da pesca para sobrevivência(Foto: Ângela Bastos)

500 metros de rede, uma corvina e pedido à Iemanjá

Nossa equipe acompanhou uma saída de Josi para o mar. Foi em 7 de agosto, um dia de céu limpo e ventos favoráveis. Além de três jornalistas, o irmão, o filho e ela estavam no bote. Cinco horas depois nós voltamos para a retirada das redes. Dos 500 metros de malha saiu apenas uma corvina.

— É assim a vida de pescador — contava, enquanto colhia a rede.

Por isso, a família decidiu investir no turismo e faz transporte de visitantes para a Ilha do Campeche. Isso ocorre nos meses de verão para equilibrar as despesas com redes e embarcação que trabalha nos outros meses. Para ela, a escassez das safras está associada às mudanças climáticas e cita o aquecimento global como um dos fatores. Mas também a pesca descontrolada. Recorda dos tempos em que o pai colocava uma rede de corvina de 30 panos, o que já era considerada uma grande extensão. Hoje, um barco de pesca com guincho faz o mesmo trabalho usando 200 panos.

— Não há limite de malha para capturar um peixe, eles (modalidade industrial) não estão perdoando nada: nem berçário, nem criadouros.

Para Josi existem duas situações bem distintas: enquanto o artesanal espera o peixe vir na costa, o industrial pega toneladas de espécies de diferentes tamanhos.

Josi diz que há quem diga que o peixe nunca vai acabar, e alerta:
Acaba, sim. O mar está mudando, a temperatura do mar está subindo. Antes o peixe procurava a água quente para desovar. Como esquentou, o cardume não vem mais.

Tem outra coisa que incomoda Josi: a sujeira no mar. Na maioria das vezes tem mais galho e tronco de árvore nas redes do que peixe.

— O pessoal invade a praia, constrói casa, vai ocupando aqui e ali. A água leva o entulho, mas um dia a natureza devolve.
Além da diferença física entre homem e mulher, Josi chama atenção para o trabalho extra, como cuidar da casa, da família, da embarcação e até do comércio do peixe(Foto: Ângela Bastos)

Josi usa como exemplo a destruição de casas pela força da maré, em 2010, na Armação do Pântano do Sul. O prejuízo foi tão grande que Exército e Marinha tiveram formar barreiras de contenção com sacas de areia. No lugar das construções antes havia dunas.

— O mar não tira nada de ninguém, só está pegando o que é dele. A natureza é assim, tem o ciclo dela. Ou a gente se adapta, ou a gente vai andar de rolo nas mãos dela.

Josi não se considera uma pessoa religiosa. Mas conta que vez que outra faz um pedido para Iemanjá, entidade que no sincretismo religioso significa a Rainha das Águas.

— Iemanjá, dá uma mexidinha no fundo do mar, dá uma reviradinha para mandar umas coisinhas (peixes) pra nós que estamos precisando.

Mas também acha tempo para agradecer.

— Sempre quando vem peixe, pouco ou muito, eu agradeço. Acho que vem o que tem que vir naquele dia.
Expediente

Reportagem: Ângela Bastos
Edição: Stefani Ceolla
Design: Aline Costa da Silva e Maiara Santos
Fotos e vídeos: Ângela Bastos, Tiago Ghizoni e Jean Carlos de Souza

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* Matéria multimídia originalmente produzida e veiculada no Diário Catarinense e no Jornal do Almoço da NSC TV sobre as mulheres na pesca artesanal em Santa Catarina!

domingo, 15 de março de 2020

O MAR É MULHER

Imagem Andre de Dienes
 O fotógrafo Andre de Dienes nasceu na Romênia em 1913, mas foi na Turquia, aos 15 anos de idade, que aprendeu a pintar e comprou sua primeira câmera fotográfica.
Em Paris, a partir de 1933, trabalhou como fotógrafo free lance para o jornal comunista “L’Humanite” e para a agência “Associated Press”. Tres anos depois, convencido pelo modista Molyneux, começou a fotografar moda.
Em 1938 foi para a América, com a ajuda da revista “Esquire” e em Nova Iorque se consagrou no mundo da moda. Passou também a fotografar os bairros nova-iorquinos e a viajar pelas estradas do oeste do país, quando conheceu e ficou íntimo amigo da então desconhecida Norma Jeane Baker, que mais tarde se transformou na Marilyn Monroe.
A foto acima é de 1944, ano em que se mudou para a Califórnia, onde realizou diversos ensaios de nus ao ar livre, incorporando inovadoras técnicas de montagem às suas fotografias. Passou a trabalhar para os estúdios de cinema e virou o fotógrafo favorito de grandes estrelas hollywoodianas como Marlon Brando, Elizabeth Taylor, Henry Fonda, Fred Astaire, Ingrid Bergman, Jane Russel e Anita Ekberg. André Dienes faleceu na Califórnia, em 1985.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

MULHERES DO MAR

Pescadora de Quissamã atua em toda a cadeia produtiva da pesca 
(Foto: Sintyque Lemos de Moraes Servulo)

Mulheres na pesca: um cotidiano de desigualdade e ausência do Estado

Em parceria com a FAPUR, pesquisa investiga conflitos socioambientais vividos por pescadoras artesanais

Por Victor Ohana, da FAPUR

Mulheres pobres, com pouca ou nenhuma formação escolar, afastadas dos centros urbanos, chefas de família. Esse é o perfil geral de grande parte das pescadoras artesanais que moram nos municípios das baixadas litorâneas e do norte do Estado do Rio de Janeiro: Arraial do Cabo, São Francisco de Itabapoana, Campos dos Goytacazes, São João da Barra, Macaé, Quissamã e Cabo Frio. A realidade dessas mulheres é tão complexa que virou tema de uma pesquisa liderada pela professora Sílvia Alicia Martinez, da Universidade Estadual Norte Fluminense (UENF). Seu estudo teve início em abril de 2017, em parceria com a FAPUR.

A ideia do projeto é entender os principais conflitos socioambientais vividos pelas mulheres das comunidades pesqueiras desses sete municípios. A partir disso, a equipe da professora está elaborando um mapa, identificando esses conflitos e disponibilizando dados e análises de cada caso. Perceber a realidade dessas pescadoras é importante porque, segundo Martinez, elas vivem consequências diretas dos problemas ambientais. Além disso, sobrevivem com a baixa renda, a dupla jornada, no trabalho e em casa, e ainda enfrentam desigualdades no próprio ofício. Isso porque, segundo a professora, as mulheres sofrem invisibilidade em seu espaço de trabalho e são prejudicadas até na sua documentação.

A partir de dados do questionário Pescarte, realizado por pesquisadores da UENF entre 2014 e 2016, observou-se que, das 317 mulheres entrevistadas nos sete municípios, apenas 61,2% possuem a Carteira Profissional da Pesca, enquanto 95% dos 1889 homens entrevistados têm o documento.

“A pesca é uma atividade atribuída tradicionalmente aos homens, fato que acabou tendo seu impacto na invisibilidade do trabalho feminino, seja no âmbito da sociedade, da própria profissão e dos estudos acadêmicos”, relata Martinez. “Por isso, o que pode ser observado é que as mulheres participam da pesca artesanal como um todo, mas não se reconhecem como pescadoras e muitas vezes não são reconhecidas pelos outros. Isso acaba impedindo, por exemplo, a elas obterem o Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP), o qual dá acesso a benefícios sociais, como seguro defeso, microcrédito e assistência social”, explica.

A pesquisadora aponta que outro problema é a falta de dados oficiais e de pesquisas científicas que demonstrem a real participação das mulheres na produção pesqueira no país, o que reforça a invisibilidade dessas mulheres.

“É fato constatado que a chamada ‘invisibilidade’ refere-se ao tradicional ocultamento ou omissão da participação da mulher enquanto ator produtivo do mundo da pesca artesanal. Isso se evidencia na falta de reconhecimento da sua presença nos dados oficiais, no imaginário construído e representado do setor e na maioria das pesquisas acadêmicas. De uma forma geral, essas trabalhadoras estão socialmente ausentes dos registros formais”, justifica.

Pescadora de Cabo Frio atua na captura do camarão; parte das trabalhadoras não possui registro do Estado
 (Foto: Sintyque Lemos de Moraes Servulo)


MAIORIA DAS ENTREVISTADAS CONTRIBUI COM METADE DA RENDA FAMILIAR

O estudo é liderado por Martinez e envolve 18 pesquisadores: seis professores da UENF, dois da Universidade Federal de Rio Grande (FURG), além de três doutores e alunos de doutorado, mestrado e graduação. O primeiro passo foi realizar uma revisão bibliográfica sobre temas como gênero, conflitos socioambientais e atividade pesqueira. Em seguida, o grupo organizou o Seminário Mulheres na Atividade Pesqueira no Brasil, que promoveu a troca de experiências entre pesquisadoras de todo o país. Nessa fase, o conjunto também desenvolveu workshops sobre o tema. Essa etapa serviu para se observar características gerais das pescadoras no Brasil, o que auxiliou na análise das mulheres estudadas nos municípios selecionados.

“A literatura aponta várias questões que contribuem para tornar a situação das mulheres pescadoras mais complexas: elas, geralmente, estão afastadas dos grandes centros urbanos; possuem pouca ou nenhuma escolaridade; são pobres; são chefas de famílias monoparentais; estão inseridas em uma atividade que é também pouco valorizada socialmente, e caracterizada como atividade masculina”, descreve Martinez. “Em consequência de sua condição subalterna e periférica, estas mulheres também têm pouco acesso à saúde e são, em muitos casos, submetidas a situações de violência doméstica, geralmente provocadas por alcoolismo”, complementa.

Na análise inicial da pesquisa, foram utilizados dados quantitativos como o questionário Pescarte e o Censo de IBGE de 2010. Até agora, o que se identificou com a pesquisa foi o perfil geral dessas mulheres. Segundo os dados já apurados, o rendimento do trabalho feminino é decisivo no orçamento familiar: 62% das mulheres entrevistadas afirmaram contribuir com pelo menos metade na renda em casa. Apesar disso, Martinez afirma que as pescadoras não são enxergadas pela sociedade nem pelo Estado.

“Há também a exclusão por parte do setor governamental, no que concerne a falta de reconhecimento de direitos dessas trabalhadoras e, em alguns casos, de seus territórios de trabalho. Essas determinações atingem várias trabalhadoras do setor, em diversas comunidades tradicionais de pesca pelo Brasil. Essa situação se agrava se as pescadoras são negras e quilombolas”, afirma.

Após o término das análises das entrevistas com as pescadoras, a pesquisadora pretende filmá-las para inserir imagens no mapa a ser disponibilizado.

Além da pesca, mulheres também atuam na limpeza dos peixes
 (Crédito: Syntique Lemos de Moraes Servulo)

LUTA CONTRA DESIGUALDADE RETROCEDE NO ÂMBITO POLÍTICO, DIZ MARTINEZ

Para a pesquisadora, a desigualdade entre homens e mulheres ainda está muito presente na realidade brasileira. Martinez explica que o topo do mercado de trabalho é ocupado por homens brancos, e a base, pelas mulheres negras. Além disso, em termos gerais, mulheres ainda recebem menos do que os homens e trabalham mais. Mas o pior de tudo é que, segundo ela, a pauta só vem retrocedendo na política.

“No último ano, principalmente, vimos um grande retrocesso na condução dessa pauta no âmbito político, como se observa por exemplo na composição dos ministérios do governo federal”, analisa. “Há uma situação alarmante também na ínfima representação política das mulheres, como no senado e na Câmara”, complementa.

A pesquisadora critica medidas como a reforma da previdência e a redução de programas sociais, como o Bolsa Família.

“Há que avançar muito ainda para que as opções na vida das mulheres não estejam limitadas por estereótipos de gênero, estigmas e violência. E para isso um ambiente macroeconômico favorável é fundamental. Na reforma da previdência em pauta, os analistas também preveem que venha prejudicar mais amplamente as mulheres. Por outro lado, a diminuição de programas sociais, como o Bolsa Família, que possibilitaram que famílias saíssem da pobreza extrema e favoreceram a entrada da mulher no mercado de trabalho ativo, vai causar consequências nefastas para a sociedade e principalmente para as mulheres”, acusa Martinez.

FAPUR FOI FUNDAMENTAL PARA DESENVOLVIMENTO DO PROJETO, AFIRMA PESQUISADORA

A FAPUR colaborou com a pesquisa oferecendo assistência administrativa. De acordo com a professora, a participação da Fundação foi essencial.

“A FAPUR foi uma parceira de fundamental importância para o desenvolvimento do projeto desde o primeiro momento, já que no edital do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO) as universidades públicas não podiam concorrer. A Fundação, além de ser a administradora das verbas da pesquisa, foi sensível ao nosso apelo para submetermos o projeto e estabelecermos a parceria, apesar de não sermos professores da UFRRJ”, conta ela.

Martinez opina que apoiar projetos que discutam a desigualdade de gênero no Brasil é uma grande colaboração para a sociedade.

“O apoio a projetos que abordem essa problemática de gênero, aliada à de classe, etnicidade e raça, com certeza ajudará a dar visibilidade a questões históricas que estão naturalizadas na sociedade e, por serem vistas como naturais, não são combatidas”, finaliza.

(Do http://pesquisarural.fapur.org.br/)

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

MULHERES DO MAR


FOTO: JEAN CHUNG/THE NEW YORK TIMES

CULTURA DAS MULHERES DO MAR DESAPARECE NA COREIA

Hado-Ri, Coreia do Sul – Certa manhã, Kim Eun-sil levou seu equipamento de mergulho para uma praia rochosa na costa leste dessa ilha coreana e, como tem feito há 60 anos, passou o dia praticando mergulho livre a mais de seis metros de profundidade e pescando frutos do mar com as mãos.

Kim, de 80 anos, acredita que ainda pode empenhar-se mais alguns anos em um trabalho que as mulheres têm feito há séculos, mas que está desaparecendo rapidamente.

'Eu ainda me viro bem no fundo do mar', afirmou, aquecendo seu corpo cheio de artrites na fogueira que preparou com caixas de feira em um cais enquanto esperava pelas outras mulheres. 'Para o meu marido foi moleza, ele mal precisava levantar os dedos. Até morrer, quatro anos atrás, ele não tinha o que reclamar de mim'.

Kim, assim como foi sua mãe, é uma haenyeo, ou uma 'mulher do mar'. Durante muitos anos, as mulheres do mar de Jeju, uma ilha na costa sul da Coreia do Sul, desbravaram as águas perigosas do Estreito da Coreia, mesmo durante os invernos mais frios. Usando apenas pés-de-pato e máscaras de mergulho – sem equipamentos de respiração – elas vão ao fundo do mar, onde procuram abalones, conchas e polvos.

O trabalho é feito tradicionalmente por mulheres, apelidadas de Amazonas da Ásia, em um costume que tem muito a ver com a história triste da ilha e sua geografia.

A inversão dos papeis de gênero tradicionais, com as mulheres sendo as principais responsáveis pelo sustento da família, fez a ilha fugir das relações patriarcais da sociedade coreana.

Entretanto, o trabalho é duro e perigoso. Desde 2009, 40 mergulhadoras morreram, incluindo três este ano. As mulheres mais jovens de Jeju, o maior destino turístico da Coreia do Sul, preferem trabalhar nos resorts e lojas de aluguel de carros, do que no mar gelado, como algumas de suas mães e avós ainda costumam fazer.

O número de mulheres do mar caiu para cerca de 4.500, das 26.000 que estavam em atividade nos anos 60, e 84 por cento delas já têm mais de 60 anos.
'A maioria das haenyeo terá desaparecido nos próximos 20 anos, a menos que consigamos mais recrutas', afirmou Yang Hi-bum, uma autoridade do governo de Jeju.

Há muito tempo que as mulheres do mar são uma parte tão importante de Jeju quanto o Monte Halla, a montanha coberta de neve que fica no centro da ilha. Elas vão ao fundo do mar mais de 100 vezes ao dia, capturando criaturas marinhas com as mãos ou, em alguns casos, com uma lança. Voltando à superfície depois de um minuto, elas dão um assobio alto enquanto exalam e colocam o que pegaram em um saco preso a uma boia.

'As haenyeo foram as primeiras mães a trabalhar na Coreia', afirmou Koh Mi, editor do jornal de Jeju, Jemin Ilbo, e participante de um projeto de pesquisa de nove anos com as mulheres do mar. 'Elas eram o símbolo da independência e da força feminina na Coreia'.
Por isso há muita gente se esforçando para preservar sua cultura em vista das mudanças que transformaram Jeju da 'ilha das mulheres do mar', na ilha dos casais em lua de mel em uma questão de décadas.

FOTO: DIVULGAÇÃO / JEAN CHUNG/THE NEW YORK TIMES

FOTO: DIVULGAÇÃO / JEAN CHUNG/THE NEW YORK TIMES

Em março, a Coreia do Sul entrou com um processo junto à UNESCO para acrescentar as mulheres do mar na lista de Patrimônios Culturais Intangíveis da Humanidade. Os habitantes da ilha creem que o título traria mais orgulho para a tradição e encorajaria o apoio popular para preservá-la.

Atualmente, a ilha de 1.849 quilômetros quadrados, é tão famosa por suas plantações de cítricos, quanto pelas praias de areia branca, campos de golfe e esplanadas com vista para os penhascos negros onde a lava dos vulcões se encontrou com o mar há milênios. Mas até que as máquinas permitissem que as famílias cultivassem o solo rochoso de Jeju e o turismo trouxesse mais oportunidades de trabalho para a ilha nas últimas décadas, Jeju era um dos lugares mais difíceis de viver na Coreia do Sul, onde as árvores são atrofiadas pelos ventos do mar e aonde os reis enviavam seus inimigos em exílio.
No século XVII, quando os homens iam pescar em alto mar em embarcações de guerra a remo e nunca voltavam, o mergulho se tornou um trabalho feito exclusivamente pelas mulheres, afirmou Kang Kwon-yong, curador do Museu Haenyeo, que pertence ao governo. Um documento do século XVIII registrou que as autoridades açoitavam as mulheres e até seus pais e maridos, quando elas não conseguiam pagar as altas taxas em abalones secos, uma iguaria muito apreciada pela elite coreana, o que forçava as mulheres a mergulhar em águas frias, até mesmo durante a gravidez.
 trabalho sempre foi perigoso. Elas trabalham muitas horas em águas congelantes a até 6,4 metros de profundidade. 
Velhas baladas sobre as haenyeo falam sobre 'mergulhar com o caixão na cabeça', ou sobre 'trabalhar no submundo para que nossas famílias possam viver neste aqui'. As mergulhadoras pedem proteção para a deusa do mar, fazendo ofertas regulares de arroz, frutas e imitações de notas de dinheiro.
Até os anos 60, 21 por cento das mulheres da ilha eram mergulhadoras profissionais e seus produtos correspondiam a 60 por cento da pesca de Jeju. Enquanto as noivas de outras regiões da Coreia do Sul deveriam dar o dote ao marido, em Jeju eram os maridos que pagavam o dote.
'O mergulho garantia o sustento da família toda', afirmou Ku Young-bae, de 63 anos, uma das 270 mulheres do mar de Hado-ri, uma série de vilarejos na costa leste de Jeju, antes de mergulhar em uma tarde recente. 'Os homens são preguiçosos', afirmou. 'Eles não sabem mergulhar. São fracos debaixo da água, onde tudo é uma questão de vida ou morte'.

FOTO: DIVULGAÇÃO / JEAN CHUNG/THE NEW YORK TIMES

FOTO: DIVULGAÇÃO / JEAN CHUNG/THE NEW YORK TIMES

Até recentemente, as mulheres do mar de Jeju também trabalhavam no litoral da Coreia do Sul.

'Quando éramos crianças esperávamos que nossas mães voltassem das viagens até o continente', afirmou Lim Baek-yeon, de 53 anos, chefe da cooperativa de mulheres do mar de Hado-ri. 'Isso significava que novas roupas e sapatos estavam chegando'.

As mergulhadoras fazem parte de uma hierarquia muito rígida. As mais jovens ficam longe das águas rasas onde as mulheres mais velhas e fracas mergulham. Quando a escola do vilarejo precisa de reparos, elas doam uma parte do que recebem para a obra.

A independência econômica das mergulhadoras contribuiu para as taxas de divórcio em Jeju, as mais altas da Coreia do Sul. Mas apesar de seu papel essencial, as mergulhadoras não eram vistas com bons olhos por uma sociedade que fechava a cara para mulheres que viajavam para fora de suas ilhas ou que revelassem a pele nua em público. Até que equipamentos que cobrissem o corpo todo fossem criados nos anos 70, elas usavam roupas de algodão artesanais que mostraram a coxa e, muitas vezes, os ombros.

FOTO: DIVULGAÇÃO / JEAN CHUNG/THE NEW YORK TIMES

'As crianças de Jeju não gostavam de admitir que suas mães eram haenyeo', afirmou Lee Sun-hwa, membro do Conselho Provincial de Jeju, cuja mãe e avó eram mulheres do mar. 'As mulheres sempre escolhiam seus maridos para serem os chefes dos vilarejos'.
Em parte, elas são vítimas de sua própria labuta. A criação das roupas de mergulho as encorajou a mergulhar mais fundo e por mais tempo, o que levou a uma pesca excessiva e ao declínio da renda e de seu estado de saúde. Os abrigos à beira mar onde elas se encontram antes de entrar na água estão cheios de embalagens vazias de analgésicos e medicamentos para combater o enjoo causado pelo mar.

FOTO: DIVULGAÇÃO / JEAN CHUNG/THE NEW YORK TIMES
FOTO: DIVULGAÇÃO / JEAN CHUNG/THE NEW YORK TIMES

Para ajudar a manter a tradição viva, o governo de Jeju financia suas roupas de mergulho e subsidia o seguro saúde e contra acidentes. E também equipa os abrigos com aquecimento e duchas quentes.
As mulheres do mar também estão se autoregulando – criando estações voluntárias de proibição da pesca, zonas onde é proibido mergulhar e limites mensais para o número de dias de mergulho – para que a profissão continue e ser sustentável.
Mas Kim, que criou cinco filhos e pagou a universidade do marido com o mergulho, afirma que será a última haenyeo de sua família.
'Minha única filha nem sabe nadar', afirmou.

(Do The New York Times News Service
Fonte: http://nytsyn.br.msn.com/)

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

MULHERES DO MAR

Maria Santa da Lapa, moradora da praia do Pântano do Sul, Ilha de Santa Catarina, é filha e mulher de pescador . Ela conta, com exclusividade para o Tainhanarede como era a pesca antigamente e como as mulheres participavam das atividades pesqueiras na pequena comunidade.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

MULHERES DA PESCA


Mulheres pescadoras são invisibilizadas e possuem menos direitos

Projeto “Mulheres da Pesca”, desenvolvido junto à USP, compartilha histórias de vida dessas personalidades 

Por Leonardo Lopes - Publicado originalmente no Jornal da USP no Ar, Rádio USP 

A atividade pesqueira sempre teve uma relevância notável entre as práticas extrativistas do Brasil. Sobretudo na região costeira, cidades construíram toda sua cultura e dinâmica econômica se alicerçando na pesca. Entretanto, já é intrínseco ao imaginário brasileiro a conexão entre o trabalho pesqueiro e a imagem de um homem.

Mesmo que as mulheres atuem na pesca desde o Brasil Colônia, tanto como pescadoras no mar, quanto no beneficiamento do pescado em fábricas, confecção e reparo de redes, entre outra série de tarefas, elas sempre foram muito pouco reconhecidas. “É uma invisibilidade muito ampla, mesmo nas zonas costeiras. Elas não têm nem os mesmo direitos legais do que os homens pescadores”, contou ao Jornal da USP No Ar, a professora Mary Gasalla, do Instituto de Oceanografia (IO) da USP.

Ela diz que só foi possível notar um progresso no reconhecimento das mulheres pescadoras a partir dos anos 1970. Houve um aumento da participação feminina na atividade pesqueira, acompanhada da construção de um movimento – através do Conselho Pastoral dos Pescadores – em busca de seus direitos como os trabalhistas e previdenciários, por exemplo. Assim, em um processo progressivo de incentivo às mulheres pescadoras que continua até hoje, elas começaram a ocupar postos de liderança dentro das comunidades pesqueiras e se organizar pelas suas reivindicações.

Para escancarar quem são essas mulheres que atuam na pesca há gerações e traduzir suas personalidades, foi criado o projeto Mulheres da Pesca, sediado no Laboratório de Ecossistemas Pesqueiros (LabPesq) do IO. “Realizamos a busca das biografias dessas pessoas basicamente, o objetivo é que todos possam conhecer as histórias de vida dessas mulheres”, explica Mary. Ele é desenvolvido no contexto de outro trabalho elaborado pela professora no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, nomeado Futuro das sociedades dependentes do mar: mudanças climáticas, desigualdades e cooperação em sistemas sócio-ecológicos complexos. 

O Mulheres da Pesca já está acontecendo e convidados especiais foram escolhidos para escrever as primeiras histórias. O lançamento ocorreU sexta-feita última, dia 07, em um evento no IO que comemora o Dia Mundial dos Oceanos, dedicado neste ano ao tema “Mulheres e o Oceano”. Mais informações sobre o projeto podem ser obtidas em seu site oficial.

“O trabalho destas mulheres é praticamente invisível para a maior parte da sociedade. São mulheres que não vemos, não conhecemos sobre, e que têm histórias com uma peculiaridade muito importante. Esse projeto é uma oportunidade para podermos contar um pouco sobre elas”, conclui a professora.


terça-feira, 8 de outubro de 2019

MULHERES NO MAR


O Farol de Santa Marta, olho rubro que na escuridão da noite pisca como aviso aos navegantes, tem de Vera, 58 aos, um afeto que não se apaga(Foto: Tiago Ghizoni)


"O farol é uma bênção para os pescadores", diz Vera Laureano, de Laguna

Nos tempos de menina, Vera dividia o tempo entre o rancho de pescador, na praia, auxiliando o pai; e subindo o morro para ajudar o avô a dar corda para que o Farol de Santa Marta pudesse ser visto pelos navegantes

Por Ângela Bastos
angela.bastos@somosnsc.com.br

Dependesse de Vera Lucia Bernardo Laureano, 58 anos, ela moraria no Farol de Santa Marta, em Laguna. O olho rubro, que na escuridão da noite pisca como aviso aos navegantes, tem dela um afeto que não se apaga. Sentimento nascido nos tempos de infância, época em que subia correndo o morro onde está assentada a edificação para ajudar o avô, um já cansado servidor da Marinha do Brasil, a dar-lhe corda. Era assim, sem luz elétrica ou baterias, que no passado se acendia a lâmpada que se tornara visível a 35 quilômetros a olho nu e, com equipamento, a 90 quilômetros. 

— O farol é uma bênção para os pescadores — diz Vera , enquanto com a tarrafa na mão caminha sobre as pedras dos molhes da Praia do Cardoso, a principal do lugarejo.

Passos lentos, rosto ao vento, olhos fixos no movimento da água. Vera é íntima da região. Teve um avô faroleiro e outro pescador, profissão também do pai e do falecido marido. Natural a identidade com as coisas do mar, e que diga ser pescadora desde sempre.
Era uma correria para mim: eu passava o dia no rancho de praia com meu pai ajudando com café, comida e mexer nas redes; à tardinha, corria para o farol.

Na época, explica, a relação dos nativos com a lanterna no topo do morro era diferente. Havia mais proximidade, pois o lugar não era cercado e o acesso fazia parte da vida dos moradores:

— Hoje dá para ver o tempo (previsão) até no celular, mas antes não. O pescador subia até lá em cima, já que a Marinha passava um rádio informando o faroleiro, e daí eles ficavam em terra ou saíam mar à dentro.

PESCADEIRAS
"A vida nossa é assim"

Cupido, sonhos e luz

O farol serviu de cupido dessa paixão pelo mar:

— Lá de cima eu olhava para o mar e sonhava em sair para pescar, em ir atrás do peixe.

A inconstância das ondas levou os planos. Vieram os filhos e ela teve que cuidar das crianças. As saídas para o mar grosso, como diz, ficaram com o marido. Mas, como num reencontro com a menina de ontem, a aposentada de hoje levanta cedo para ir à praia ver a movimentação dos barcos. Quando algum pescador falta, Vera faz o que mais gosta e os acompanha ao mar. Nem que seja para fazer comida.

— É uma maravilha! É a coisa mais linda quando dão aqueles lanços, e a gente vê aqueles peixes pulando, parece que está sonhando.

Tem vezes que isso acontece à noite, enquanto dorme:
Eu chego a sonhar que estou junto com os peixes, que estou cercando. Aí, quando me acordo, digo às minhas filhas: coisa linda é o cerco!
Para Vera, além de belo, o mar tem poder terapêutico(Foto: Tiago Ghizoni)

Vera conta que sente necessidade desse contato.
— Eu gosto de estar com a mão na rede, na caixa de peixe, no peixe.

Para ela, o mar tem poder curativo:
Se a gente ficar dentro de casa, dá uma depressão. O mar não dá depressão, ele leva os pensamentos ruins, a tristeza, leva tudo.

Quando lhe é perguntado o espaço que o mar tem em sua vida, Vera responde:

— O mar? O mar é a minha vida.

E o farol, o olho rubro que pisca no Cabo de Santa Marta?

— O farol? É luz na minha e na vida de todos os pescadores.

Expediente
Reportagem: Ângela Bastos
Edição: Stefani Ceolla
Design: Aline Costa da Silva e Maiara Santos
Fotos e vídeos: Ângela Bastos, Tiago Ghizoni e Jean Carlos de Souza


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* Matéria multimídia originalmente produzida e veiculada no Diário Catarinense e no Jornal do Almoço da NSC TV sobre as mulheres na pesca artesanal em Santa Catarina!

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

MULHERES NO MAR



Bárbara era adolescente quando começou a pescar. Hoje, aos 31, ensina os filhos a preservar o meio ambiente(Foto: Tiago Ghizoni)


"O peixe quer água limpa", alerta Bárbara dos Santos, que começou a pescar aos 12 anos

Por viver perto do mar desde criança, Bárbara viu cenas bonitas de fartura de peixes e de aves. Mas também presenciou cenas feias, como tartarugas querendo se alimentar com sacola de plástico

Por Ângela Bastos
angela.bastos@somosnsc.com.br


Quem visita comunidades pesqueiras se depara também com a realidade da pobreza. A distribuição de renda desigual faz diferença nas moradias, nas embarcações, na quantidade de redes e outros equipamentos de pesca. Muitas famílias moram em lugares onde não há serviços públicos, como coleta de lixo. A destinação incorreta incide na atividade, pois o lixo é descartado em lugares como encostas e manguezais, e carregado pela chuva.



— Já vi tartaruga querendo comer uma sacola de plástico por achar que é uma alga. A gente tem que cuidar do meio ambiente, pois dependemos dele — pede Bárbara dos Santos, 31 anos, que pesca desde a adolescência, e agora com o marido, em São Francisco do Sul.



Bárbara não tem muito estudo, mas consciência para saber que o lixo não ameaça só o mar. A economia e as comunidades pesqueiras também correm riscos. A cada ano, cerca de 10 milhões de toneladas de lixo chegam aos mares e oceanos. Plásticos e derivados, como a sacola que ela evitou que fosse parar no estômago da tartaruga, são os principais detritos encontrados. Há também redes de pesca estragadas e abandonadas pelos próprios pescadores. Assim como pedaços de isopor que também podem ser engolidos pelos animais marinhos.

Consciência, esgoto e restinga


Nativa de São Francisco do Sul, Bárbara percebe mudanças que refletem nas águas e em suas riquezas(Foto: Tiago Ghizoni)


Por sorte, a questão ambiental é comum a muitas dessas trabalhadoras. Há o entendimento de que obras, como saneamento, são de competência do poder público, e isso deve ser exigido. Mas ações pontuais, como separar o lixo em casa e nos ranchos, e não jogar plástico e latas no mar, dependem de cada um.

A nossa restinga está morrendo por causa do esgoto. Sem tratamento vai tudo para o mar. Então, se a gente cuidar um pouco pelo menos diminui o impacto.



Ao longo da Baía da Babitonga, se observam muitos pontos da pesca artesanal(Foto: Ângela Bastos)



Nativa e filha de pescadores, ela percebe mudanças na natureza se comparado com tempos atrás. Para a profissional, é importante que as pessoas que retiram o sustento do mar tenham mais consciência acerca da preservação.



— O peixe quer água limpa, não quer poluição. Se não mudar, a gente vai deixar de viver esse momento — conta, mostrando o troféu do dia, caixas cheias de peixes tiradas da Baía da Babitonga.

Expediente

Reportagem: Ângela Bastos
Edição: Stefani Ceolla
Design: Aline Costa da Silva e Maiara Santos 
Fotos e vídeos: Ângela Bastos, Tiago Ghizoni e Jean Carlos de Souza

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* Matéria multimídia originalmente produzida e veiculada no Diário Catarinense e no Jornal do Almoço da NSC TV sobre as mulheres na pesca artesanal em Santa Catarina!

domingo, 6 de outubro de 2019

MULHERES NO MAR

Pescadora em São Francisco do Sul, Jô encarna o significado da palavra "pescadeira": vai ao mar, limpa, fileta e ainda vende o pescado(Foto: Tiago Ghizoni)


"Primeiro me apaixonei pelo mar, depois pelo pescador", esta é a história de Joseide Siqueira

Jô forma parceria com o marido Pedro e acredita que mulher na pesca não é uma obrigação, e sim uma opção de vida para aquelas que têm o desejo de liberdade, que encontram na imensidão do mar

Por Ângela Bastos
angela.bastos@somosnsc.com.br

Diferente de outras mulheres que desde criança convivem com o mar, Joseide Aparecida Siqueira, a Jô, 40 anos, descobriu a atividade pesqueira há cerca de cinco anos. Moradora de Curitiba (PR), ela visitava familiares em São Francisco do Sul quando começou a acompanhá-los nas lides com as redes. Viu uma rotina difícil, principalmente por ser ligada às condições do clima. Mas percebeu um lado mais tranquilo do que a correria da cidade. Tornou-se mais uma pescadora na comunidade pesqueira do bairro Paulas.

— Primeiro me apaixonei pelo mar. Depois pelo pescador — brinca, ao lado de Wosly de Paulas, com quem está casada e forma parceria em mais um dia de pesca.

Para Jô, a presença das mulheres na pesca não deve ser vista como uma obrigação. Existiria a possibilidade de ficarem em casa fazendo outro serviço, ou mesmo ligadas à pesca sem a necessidade de embarcar. Mas, para ela, é uma opção. É como se sentisse mais livre ao ver o tamanho do mar e a vida que nele existe.
É uma vida muito boa: você vê o cardume andando, correndo, saltando. Tem vezes que a gente chega a escutar o peixe.

Jô, a filha adolescente e Wosly se sustentam exclusivamente da pesca artesanal

— A gente pesca o peixe, faz filé, vende em casa e dependendo da quantidade entrega para a peixaria comercializar.

PESCADEIRAS
Jô mostra o lanço 


Em certos dias passam 10, 12 horas no mar. Mas nem sempre voltam com pescado, o que exige paciência. Apesar das incertezas, ela não consegue imaginar a vida longe da água.

— Eu não consigo me ver fazendo outra coisa se não pescando. 

Pescar em dupla com o marido tem suas singularidades:

— Às vezes, eu vejo o cardume num lugar e ele noutro. Eu quero que ele cerque o peixe que eu estou vendo, mas ele quer cercar o dele. Faz parte: um sempre acaba cedendo. Se pegar o peixe ficamos felizes, se erramos o cerco nos bate a tristeza.
O dia a dia ensinou a Jô que nem sempre o mar está pra peixe: às vezes, poucos caem na rede(Foto: Ângela Bastos)

Jô brinca para provocar o marido:

— Tem horas que eu quase dou com o remo na cabeça dele (risos). 

Jô acredita que a parceria na pesca fortalece o relacionamento, pois se estende por terra:

— Não somos apenas pescadores, a gente faz outras coisas juntos, como pagar as contas e passear. Nos domingos, a gente pega um pedaço de carne e sai para assar. Depois, voltamos juntos para casa.

Com uma vantagem, brinca:

— No mar também dá pra namorar.
Jô e o marido Wosly: no mar, também dá pra namorar(Foto: Ângela Bastos)

Expediente

Reportagem: Ângela Bastos
Edição: Stefani Ceolla
Design: Aline Costa da Silva e Maiara Santos 
Fotos e vídeos: Ângela Bastos, Tiago Ghizoni e Jean Carlos de Souza

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* Matéria multimídia originalmente produzida e veiculada no Diário Catarinense e no Jornal do Almoço da NSC TV sobre as mulheres na pesca artesanal em Santa Catarina!

sábado, 5 de outubro de 2019

MULHERES NO MAR

Nascida em uma família de pescadores, Jussara, de 31 anos, reconhece que o trabalho é cansativo, mas diz ter encontrado compensações(Foto: Tiago Ghizoni)

"Nesta profissão, não tem dia ou noite", explica Jussara Galvão, pescadora de 31 anos

Muita gente pergunta para Jussara se pescar não é uma atividade cansativa. Ela diz que sim, mas encontrou compensações, como não ficar trancada dentro de uma loja ou escritório

Por Ângela Bastos
angela.bastos@somosnsc.com.br

À primeira vista, quem cruza com Jussara Galvão, 31 anos, pelas ruas de São Francisco do Sul, pode achar que ela é praticante de algum esporte náutico, como bodyboard, stand up paddle, windsurfe, surfe. Jovem, cabelos loiros, corpo tatuado, preferência por roupa de neoprene e óculos com lentes espelhadas. Mas a relação dela com o mar não passa por pranchas e velas, mas por bateiras e redes. Jussara vem de uma família de pescadores. Nesta temporada, ela pesca com o irmão. 

A parceria se formou porque a cunhada ficou grávida e teve que deixar a pesca que fazia com o marido há nove anos. 

— Eu estava desempregada e ele me chamou. Daí eu gostei e fiquei. Pretendo em seguida tirar minha carteira profissional — diz.

Jussara é separada e tem dois filhos pequenos. Quando vai ao mar, as crianças ficam com os familiares que moram na mesma rua. Ela conta que muita gente pergunta se não é cansativo. Até pode ser, mas ela encontrou compensações.

Para mim é bom sair de casa sem precisar me arrumar, vir para o mar do jeito que estou e sem ter que me maquiar. Além de não ficar trancada dentro de uma loja ou escritório.

A pescaria não tem salário, exceto no período de defeso

— Dá para se manter bem sossegada, de boa.

Jussara pesca inclusive aos finais de semana.

— Nesta profissão não tem dia ou noite e toda hora é hora. Mas eu entendi que prefiro estar no mar do que em casa.

À primeira vista, a jovem Jussara pode parecer uma surfista, mas sua relação com o mar passa por bateiras e redes(Foto: Ângela Bastos)

Entre diálogos e silêncios, 300 quilos de peixe

Jussara aprendeu a nadar ainda criança. Acompanhando os pais e o irmão, descobriu sobre as marés e os ventos. Ela acredita que hoje percebe mais mulheres pescando do que antes, e que o número não é maior por que o governo dificulta a retirada da carteira profissional. 

O irmão José Ariel Galvão conta que tinha preconceito em chamá-la para pescar:

— Eu não botava muita fé nela: toda arrumadinha, ajeitadinha, unha pintadinha, mas eu estava errado, pois ela é muito tranquila e está sempre disposta.


José Ariel, irmão de Jussara conta que, no início, tinha receio de chamá-la para pescar, mas acabou mudando de ideia(Foto: Ângela Bastos)

Nem sempre o mar está para peixe, mas já houve dias em que os irmãos tiraram 250, 300 quilos. Em outros dias nem molham as redes. Nos momentos de espera, Jussara e o irmão se deixam levar pelo balanço do mar:
— Às vezes a gente conversa sobre tudo, em outras ficamos calados, só olhando para ver se encontramos os peixes e jogar as redes.

Expediente

Reportagem: Ângela Bastos
Edição: Stefani Ceolla
Design: Aline Costa da Silva e Maiara Santos 
Fotos e vídeos: Ângela Bastos, Tiago Ghizoni e Jean Carlos de Souza


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* Matéria multimídia originalmente produzida e veiculada no Diário Catarinense e no Jornal do Almoço da NSC TV sobre as mulheres na pesca artesanal em Santa Catarina!