sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

MANÉ-CAIS


Vento súli:
largato devoluto
acarqueta os óio da tarde.

(Fernando Alexandre)

MAR DE SABORES


Bobó de camarão sem aipim

O bobó de camarão é um prato típico da culinária Afro-Brasileira que se popularizou e ganhou fama na região da Bahia. Ele possui uma consistência cremosa e é feito com camarões que são refogados juntamente com temperos verdes e leite de coco.
É um prato delicioso e fácil de preparar. Já provaram?

INGREDIENTES

• 750 gr de camarão descascado 20/30
• 2 a 3 colheres de sopa de farinha de mandioca (ou 750 gr de mandioca cozida e depois batida no liquidificador)
• ¼ de pimento vermelho picadinho
• 1/4 de pimento verde picadinho
• Metade de 1 lata de polpa de tomate
• metade de 1 cebola picada
• 2 dentes de alho picados
• 2 colheres de sopa de óleo de dendê (óleo de palma)
• 50 ml de azeite 
• 1 lata de 100ml de leite de coco
• 1 copo de água 
• Coentros picados q.b
• pimenta q.b
• 1 malagueta
• Sal q.b
• Gengibre ralado (do tamanho de 1 grão de café)

PREPARAÇÃO

Salteie os camarões (temperados com sal e pimenta) no azeite e alho picado.
Na mesma panela, adicione os pimentos, depois a cebola picada, o gengibre e por último a polpa de tomate, a malagueta e a água. Depois refogue e deixe ferver por mais ou menos sete minutos. Rectifique o sal e a pimenta, misture o óleo de dendê e o leite de coco e deixe ferver.
Acrescente a farinha de mandioca, pouco a pouco, mexendo sempre. Polvilhe com os coentros picados e acompanhe com arroz branco.

(Receita tirada com pequenas adaptações do site betissesnacozinha.blogspot.pt)

AO VENTO, NO RUMO CERTO...

Foto Murilo Lula Mariano

No bar do Arante - Pântano do Sul

COMANDANTE ZENAIDE

No Museu da Pessoa, Vila Beatriz, São Paulo!

O UNIVERSO FANTÁSTICO DA ILHA

O longa metragem A Antropóloga é uma ficção de mistério e suspense sobre o universo fantástico das bruxas da Ilha de Santa Catarina. Tem como cenário a belíssima Costa da Lagoa e conta história de Malu , uma jovem natural dos Açores, que está em Florianópolis pesquisando os aspectos comuns existentes entre essas duas culturas. Durante entrevistas com benzendeiras, conhece Carolina, uma criança que sofre de “embruxamento”. Com a morte da criança, Malú se aprofunda na busca da verdade. E a encontra. Direção de Zeca Pires, Roteiro de Tânia Lamarca e Sandra Nibelung, com argumento original de Tabajara Ruas.

MANEMÓRIAS

Foto Ninguem Sabonome
Canasvieiras, anos 60 - No tempo em que ainda se falava português e o mar não era esgoto!

CHINESES NA ILHA! E NO SÉCULO XV...

Semelhança das inscrições rupestres com ideogramas chineses despertou a investigação


 Inscrições rupestres de Florianópolis seriam ideogramas chineses
Filho de pescador ilhéu e agente de vigilância descobre evidências da presença de navegadores chineses em Florianópolis no século XV. Anônimo no Brasil, ele é reconhecido na China e nos Estados Unidos como o maior pesquisador do mundo da área



Foi o interesse apaixonado pela história da Ilha de Santa Catarina que levou Fausto Guimarães, filho de pescador, a “atravessar a ponte” para a China e a ser reconhecido no Oriente e nos Estados Unidos como o maior pesquisador do mundo sobre a presença dos chineses nesta região antes da chegada de Cabral. Agente de vigilância do INSS, ele lançou, sexta-feira (15), às 19 horas, no Restaurante Árabe Falah, em Florianópolis, sua quarta publicação sobre a passagem pelo Brasil de dois dos cinco almirantes da dinastia chinesa Ming, entre os anos de 1421 e 1423. Criado no Morro do Céu, Fausto tornou-se não apenas um grande especialista nas incursões chinesas pelo Novo Mundo, como autor de uma descoberta arqueológica capaz de revolucionar tudo que se sabe sobre as relações entre os indígenas que aqui habitavam e esse povo do Oriente. Capaz também de mudar o entendimento sobre as inscrições rupestres e os artefatos de pesca locais que, na sua hipótese, são uma transferência de tecnologia chinesa na troca de conhecimento com os índios Avás.

Para início de compreensão da importância de suas pesquisas, a partir delas a origem das inscrições rupestres dos sítios arqueológicos teria uma versão muito diferente da conhecida: “Já temos evidências para demonstrar que nos desenhos dos dois costões do Santinho ou da Ilha do Arvoredo, por exemplo, há presença de caracteres chineses”, afirma Fausto. O encontro feliz entre o manezinho da Ilha e o mundo do Oriente aconteceu há 15 anos quando caminhava pela praia do Santinho e é tão 
Inscrições rupestres poderiam indicar a troca de símbolos indígenas e ideogramas chineses (Ilha do Campeche)

fascinante quanto a história que ele passou a contar a partir daí, traduzidas do português para o mandarim e para o inglês. Junto com as publicações, ele tem realizado inúmeras palestras em congressos internacionais sobre as incursões marítimas das dinastias chinesas pelas Américas no período pré-colombiano, patrocinadas pelo governo e por instituições de pesquisa na China e nos Estados Unidos, onde suas teses já são referência.

Não limitado a publicar suas descobertas em forma de romance no primeiro livro “A rampa do Santinho, um legado chinês na Ilha de Santa Catarina” (Editora Insular, 2010), edição bilíngue português-mandarim de 456 páginas, o servidor recorre agora às histórias em quadrinhos para divulgar essa narrativa épica. “A grande maioria dos florianopolitanos e brasileiros – e mesmo os entendidos na cultura local – desconhece completamente os impactos da presença chinesa na Ilha”, enfatiza Fausto, 52 anos, que foge ao estereótipo brasileiro com o cabelo ruivo e os olhos claros. “Desconhecem inclusive o fato histórico das navegações marítimas chinesas”. Em A grande viagem às Terras do Oeste (Brasil) – 1421, a revista em quadrinhos que ele lança na sexta-feira vem para romper um pouco o silêncio sobre esse contato prodigioso entre dois povos fundadores da cultura local, na sua visão. Compõem as ilustrações um mix de tecnologia virtual com alguns desenhos dele mesmo e de outros autores, mas a maior parte são adaptações fotográficas, a exemplo das fotos aéreas da região dos Ingleses e do Santinho, explica Fausto, que trabalha na Previdência Social há 33 anos.

Tanto livro como revista são, conforme o autor, coerentes com paradigmas e estudos já consolidados sobre as experiências dos chineses com outros povos. Sem referências exatas de realidade para compor uma etnografia, optou por preencher as lacunas com as suas suposições, narrando em forma de romance a relação desses exploradores com os índios Avás, que habitavam a Ilha de Santa Catarina e arredores. “Mas tudo que escrevi explorando a imaginação parte das minhas pesquisas e do
Agente de vigilância lança sua quarta publicação

conhecimento estabelecido por outros autores”, esclarece Fausto, que fará distribuição gratuita das revistas no lançamento. Com a ajuda das comunidades Guarani, árabe e chinesa, organizou para o evento uma grande performance com música, dança e teatro em torno de episódios do seu épico que mostram a pluralidade cultural dessas relações entre povos.
Primeiro livro do autor é a história romanceada das relações entre chineses e os índios Avás na Ilha de Santa Catarina

Até 15 anos atrás, antes da publicação do romance de Fausto, os pesquisadores canônicos só falavam das expedições europeias ao Brasil e ao Novo Mundo como um todo. Ao longo de seis séculos, a misteriosa passagem dos chineses manteve-se desconhecida dos historiadores modernos como um tesouro secreto. Com esse episódio, o romance entre a índia Iracema e o marinheiro Xiao também ficou guardado feito uma pérola em concha fechada para ser reinventado pela pena do autor. Interessado pela cultura chinesa desde que estudou acupuntura no Ceata, em São Paulo (1995), e desde a graduação no curso de História da UFSC (1997), Fausto fez sua primeira viagem à China em 2005. Ficou entusiasmado pelas viagens marítimas pré-colombianas ao ouvir de uma guia turística chinesa sobre sua presença no Amazonas, reforçando a ideia da sua presença em Meiembipe (nome indígena de Florianópolis) e confirmar suas suspeitas de que as inscrições rupestres tinham a marca da cultura oriental.

As investigações bibliográficas e em campo acabaram tomando conta do seu tempo livre e deram origem ao segundo livro, que apresenta a trajetória dos seus estudos e fundamenta suas hipóteses. Em Do Shan Hai Jing às épicas viagens do almirante Zheng He; estariam os chineses visitando as Américas e o Brasil há mais de quatro mil anos?, ele explica os elementos que foi interligando para creditar a narrativa sobre os rastros deixados pelos chineses na Ilha. Entre eles estão os registros do Padre Alfredo Rhor, no primeiro congresso local sobre Arte Rupestre, em meados de 1960, revelando ter tirado e extraviado na década de 40 a pedra com a imagem de uma santa que se atribuía à padroeira dos navegantes. Diante desse objeto sacralizado pela comunidade local, as mulheres dos pescadores faziam suas preces para pedir proteção antes de os homens se lançarem ao mar, numa espécie de ritual pagão.
Depois de investir no romance, Fausto recorreu a histórias em quadrinho para divulgar essa história ignorada que desmonta a vulgata ocidental sobre o descobrimento

Décadas depois, conversando com o pai pescador e com as mulheres mais velhas do Santinho, que alegaram ter ouvido a explosão da pedra quando crianças, Fausto verificou que o artefato tinha uma localização e um tamanho muito diferentes dos mencionada pelo arqueólogo. “Segundo os relatos, o santuário devia ter o tamanho de uma porta, e não os 33 centímetros informados pelo padre”. A descrição da imagem feita pelo padre também difere da apresentada pelas mulheres, o que levou Fausto ao seu primeiro grande achado: tratava-se, na verdade, não de uma santa católica, mas de uma mulher grande e forte, com um chapéu quadrado e um manto nas costas, que corresponde à figura de uma chinesa chamada Mazu. Hábil nadadora, essa personagem viveu de fato no século X numa colônia de pescadores chamada Meizhou. no litoral de China. Entre seus feitos, consta ter salvado vários homens de afogamento com seus braços grandes e fortes. Depois de sumir no mar, Mazu foi mistificada como uma espécie de padroeira dos pescadores.
Com equipe de pesquisadores na China

As surpresas não terminam por aí. Nesse trabalho de campo, o autor confirmou no costão esquerdo da Praia do Santinho, bem na entrada pelo mar, a existência de uma pedra com um furo de dinamite, provavelmente a da imagem da Santa dos Navegantes oriental, implodida pelo padre, e descobriu ao lado dela uma espécie de rampa cortada na pedra, visivelmente manufaturada, que serviria ao atracamento das embarcações. Tomou cuidado para registrar essa descoberta na certeza de que em breve suas evidências seriam confirmadas, assim como outros indícios impactantes: num museu de Hong Kong, identificou muitos instrumentos de pesca, como puçá, coca, jererê, tarrafa que os índios usavam na Ilha de Santa Catarina. “Todos esses artefatos para pegar siri existem na China”, diz Fausto, sustentando ainda a tese de que a sofisticação das técnicas de pesca na Ilha, identificadas pela presença abrupta e inexplicável de esqueletos de grandes peixes nos sambaquis, seria resultante desse contato profícuo entre Avás e orientais. “Sem falar na semelhança etimológica e material da jangada nordestina com um pequeno junco chinês”, comenta o pesquisador, com uns olhos arregalados de espanto pelas possibilidades de interconexões multiculturais que a investigação de sua Ilha lhe trouxe. Da mesma forma, reflete, os chineses, que têm como padrão de comportamento o contágio e a apropriação cultural devem ter aprendido muito com os índios.

NO CONTEXTO DA MISSÃO CHINESA PELOS MARES

Estudante de mandarim há seis anos, logo o vigilante-historiador se faria um dos grandes pesquisadores das expedições chegadas à Ilha por ordens do imperador Zhu Di. O chefe da dinastia alistou cinco almirantes para, sob o comando de seu homem de confiança, o almirante Zheng He, cumprirem uma desafiadora missão: descobrir terras além da África e cartografar todos os oceanos do mundo. O imperador estava decidido a implantar uma importante mudança cultural no mapa político e geográfico do planeta. Desejava romper definitivamente com uma tradição de milênios, pela qual os chineses mantinham-se fechados ao olhos do mundo. Nessa expedição, Hong Bao seria o responsável pela “descoberta” de terras, hoje conhecidas como Brasil. Junto com ele, outros chineses, indianos e um africano de nome Kebec, empreenderiam uma impactante relação com os índios Avás, que significa gente em Guarani e substitui a denominação europeia de Carijós (índios escuros e claros).
Na hipótese do historiador, algumas inscrições são feitas de símbolos indígenas e outras de caracteres chineses

Conta o livro, sempre preservando o tom solene e misterioso de um grande épico que versa sobre o encontro de dois povos de diferenças abissais: “Hong Bao é o comandante da missão que se dirige para a terra do Oeste. Sob suas ordens homens e mulheres viverão em comunhão com ideais confucianos. O mundo dos nativos Avás nunca mais será o mesmo. Os chineses levarão seu conhecimento e em troca receberão o respeito dos povos desta terra”. Além de criar a história amorosa de Iracema e Xiao, o romance fala da vida simples do cacique e de seu povo, a trama de Seci para roubar Xiao de Iracema e as armadilhas feitas pelas índias amazonas para capturar seus prisioneiros. Pergunto se essa relação não foi romantizada, considerando que na história mundial os países expedicionários sempre foram truculentos e dominadores com outros povos em suas explorações marítimas. E ele me responde com uma aula sobre o pensamento e a história chinesa, segundo a qual os ditadores que barbarizaram a Ásia não eram de fato chineses, mas pertenciam a outras nações que invadiram a própria China, como os mongóis e manchus. “Ao contrário das explorações europeias que marcaram nossa colonização, a base desse relacionamento chinês com outros povos sempre foi a paz e o respeito”, garante, citando várias fontes bibliográficas e episódios históricos.
Revista em quadrinhos ilustrada pelo próprio autor

Em 2013, Fausto viajou à China a convite da Universidade de Macau e da Universidade de Shanghai para participar do seminário Viagens Marítimas Chinesas do Século XV. Nessa expedição de rota contrária aos antepassados de Hong Bao, apresentou seu trabalho sobre as evidências arqueológicas da possível passagem dos chineses pela Ilha de Santa Catarina antes da chegada dos portugueses, na Associação Macau para promoção e Intercâmbio entre Ásia-Pacífico e América Latina (Mapeau) na cidade de Macau. Em dezembro de 2016, já era o maior especialista no assunto e viajou a vários centros acadêmicos de pesquisas sobre explorações marítimas da China, em cidades como Beijing, Nanjing, Guangzhou, Hong Kong, entre outras, para divulgar seu terceiro livro, em inglês: From the Shan Hai Jing to the Epic Journeys of Admiral Zheng He in the XV Century; Where the Chinese visiting the Americas and Brazil over 4000 years ago? Por todos os institutos de pesquisa onde passou, só recebeu um gesto de imediato reconhecimento de ideogramas chineses quando mostrou as inscrições rupestres do Santinho e da Ilha do Arvoredo: “tui, tui, tui” (sim, sim, sim), respondiam-lhe com aquele gesto de cabeça afirmativo típico dos chineses. 

Na Califórnia, onde o interesse pelo tema é fortíssimo, há também inscrições rupestres com evidências de ideogramas. Os estudos apontam, contudo, que elas resultam de visitas chinesas mais antigas ao continente americano, de cerca de dois mil anos atrás, o que poderia perfeitamente ter ocorrido no Brasil. “Quando se fala em história, tudo são possibilidades”, reconhece Fausto, que não tem a pretensão de ser a última palavra a vencer essa distância de milênios, mas coloca em dúvida a vulgata do pioneirismo ocidental a partir das pegadas orientais que encontra pelas praias e no próprio corpo dos Guarani. “Não podemos mais é manter no encobrimento a presença de culturas anteriores à chegada dos navegadores europeus”. 

Em outubro, o pesquisador anônimo em sua terra, mas famoso entre os sinólogos do Oriente e dos EUA, apresentará seu trabalho num simpósio de quatro dias sobre diáspora chinesa pelo mundo e pelo Brasil, na Califórnia, no hotel Hilton, em São Francisco. Essas viagens a convite de outros países são sempre patrocinadas, mas as pesquisas de campo ou documentais resultam de investimentos do próprio bolso. De tanto estudar as expedições não-ocidentais ao Brasil antes da invasão europeia, ele próprio se tornou um navegador a refazer obstinadamente, pelos livros ou pelas explorações físicas, as pontes que fazem as ligações estreitas entre dois povos muito mais próximos do que nossa vã herança ocidental é capaz de imaginar…
(Por Raquel Wandelli no https://jornalistaslivres.org/)

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

MAR DE POETA

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A morte
vem de
bicicleta e
quebra as
vidraças da
noite com
bolinhas de
acrílico

(Fernando Alexandre)

MAR DO TASSO CLAUDIO SCHERER




TUDO MACONHEIRO

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Sempre atentos! Mesmo em cardumes, os vermelhos olho-de-cão mantém seus olhos bem abertos! 
Na ilha de Santa Catarina, são também conhecidos como "olho de boi" e "maconheiro"!

MAR DE SUPERSTIÇÕES


Superstições marinheiras


Quem é do mar já ouviu falar de pelo menos uma dessas superstições marinheiras.

Todo marinheiro que se preze tem lá suas superstições. Algumas bastante conhecidas pelo grande público, outras só por quem é realmente do mar. Mar Sem Fim fez uma listagem bem humorada para você conhecer alguma delas.

Se você sabe alguma outra superstição envolvendo o universo marinheiro nos conte e nos ajude a aumentar essa lista. Quem é do mar agradece!

Muitas dessas superstições, lendas, mitos, crenças são antigas tradições, heranças da história. Outras nasceram de eventos que navegante algum foi capaz de explicar.

1. Navio seguro é navio batizado…

A tradição de batizar um navio é tão antiga quanto os próprios navios. Sabe-se que egípcios, romanos e gregos já faziam cerimônias a fim de pedir aos deuses proteção para homens que se lançariam ao mar, mas por volta de 1800 os batizados começaram a seguir um certo padrão. Era derramado contra a proa da embarcação uma espécie de “fluido batismal”, que poderia ser geralmente vinho ou champanhe. A tradição que se desenvolveu preconizava que uma mulher deveria fazer as honras e ser nomeada “benfeitora” do navio em questão ao quebrar uma garrafa no casco do barco. Se um navio não fosse corretamente batizado, seria considerado azarado.

2. …uma vez só!

Nunca se deve rebatizar um navio, é azar na certa. Ou seja, batismo bom é batismo feito do jeito certo, com garrafa quebrada e uma única vez.

3. Sexta não!

Jamais partir em uma sexta-feira. Muitos marinheiros recusavam-se a embarcar nesse dia da semana. Não s sabe ao certo a origem dessa lenda mas quase todo capitão se recusa a soltar as amarras em uma sexta-feira.

4. Todos os ratos a bordo

Ratos não são os animais mais desejáveis de se ter por perto, certo? Errado. A última coisa que os marinheiros gostariam é que todos os ratos do navio subitamente fossem embora. Reza a lenda que a debandada de roedores da embarcação é encarada como um mau presságio, alerta de um infortúnio que está por vir.

5. Uma moedinha, por favor

Todos os navios devem ter uma moeda de prata embaixo do mastro. Acredita-se que isso traga boa sorte. As explicações são muitas, mas a tradição parece ter começado com os romanos. Diz-se que a moeda era uma forma de “pedágio” cobrada pelo deus Cáron, incumbido de levar as almas dos mortos em sua barca na travessia do rio Aqueronte. Caso um desastre acontecesse ao navio, a pratinha serviria como o pagamento de todos os marinheiros, que passariam seguramente para o lado de lá.

6. Aquele-que-não-deve-ser-nomeado

A bordo de uma embarcação, há uma palavra proibida. Jamais se deve dizer COELHO a bordo. Acredita-se que o bicho traga muito azar. A explicação vem da experiência, pois o animal tinha o péssimo hábito de roer o casco na época em que as embarcações eram feitas de madeira,e acabaram sendo proibidos de embarcar.

7. Cuidado com o que você deseja

Nunca se deve desejar “boa sorte”a um marinheiro antes de partir. Os marítimos acreditam que dizer “boa sorte” a alguém que esteja dentro de um navio é, contraditoriamente, sinal de azar. Em inglês, costuma-se dizer “break a leg” para alguém que irá navegar – no mar nada acontece como queremos, então se desejarem que você “quebre uma perna” certamente tudo vai correr bem.

8. Assobiar ou não assobiar?

O assobio é um ato relativizado na superstição marinheira, e depende das condições do tempo. Se o navio está passando por uma calmaria, assobiar ajuda a trazer ventos, ou seja, é recomendável. Mas se já está ventando, um assobio desavisado pode convocar uma tempestade, por isso precisa ser evitado.

9. Plantas e flores… em terra firme

Não aceitar plantas e flores a bordo de um navio também é uma das superstições marinheiras. A razão dessa crença vem da lógica – plantas consomem água doce, o bem mais precioso que se tem em uma embarcação.

10. Não se deve mudar o nome do barco ou…

Marinheiros acreditam que não se deve mudar o nome de um barco, caso contrário, isso trará muito azar para as navegações. Porém, há uma saída. Caso o capitão decida dar um novo nome à embarcação, deve fazer uma cerimônia bastante detalhada e cheia de rituais.
(Do https://www.facebook.com/marsemfim/?fref=ts)

OLHANDO ILHAS, ESPERO...

Foto Fernando Alexandre, olhando pra trás!


ÁGUAS DE MEDO E PODER

Na gravura do século XVI, representação mítica e aterrorizante do mar e de suas narrativas

Eternizado nos livros como assustador celeiro de monstros, 
o Atlântico 
é palco de disputas geopolíticas
 há séculos

//Por Karl Schurster e José Maria Gomes Neto

Milênios a fio, até onde a literatura pode nos transportar, o Oceano Atlântico foi concebido como espaço do medo, contraponto à segurança da terra seca, e mesmo aqueles que dependiam de suas águas para sobreviver desconfiavam delas. Um cidadão do Velho Mundo que observasse o horizonte azul via-se diante de um interminável reino do temor, famoso pela instabilidade, relação bem estabelecida já na mitologia, pois os gregos criam que Posídon (nome grego para Netuno), o deus das águas salgadas, podia chacoalhar a terra desde as suas fundações. Seus animais só eram vistos quando retirados de seu elemento e, portanto, muito pouco se sabia de sua biologia, estimulando o surgimento de relatos fantásticos de monstros abissais, tão comuns às narrativas antigas. Para o poeta latino Avieno, por exemplo, esses animais singravam violentamente as águas, enquanto a Bíblia diz que os dentes do Leviatã (um monstro marinho) inspiravam tanto horror que ao vê-los mesmo os mais corajosos se atemorizavam.

Além disso, o Atlântico situava-se no mais sinistro ponto cardeal, o Oeste. Enquanto o Leste evocava o nascer do sol, portanto a vida, e, no Ocidente, o astro-rei se punha e a Terra era engolfada pela escuridão, situação que remontava a gregos e egípcios o mundo dos mortos: Osíris e sua barca mergulhavam no submundo, e Ulisses, em sua odisseia marítima, encontrou lá a entrada para as regiões abissais onde residiam as almas dos finados.

Em que pesem tais temores atávicos, vários marinheiros antigos navegaram as águas atlânticas, chegando ao extremo Norte (talvez até à Islândia) e toda a costa da África Ocidental até a Guiné. Em suas aventuras, a realidade e o maravilhoso com frequência se misturavam, mas alguns elementos são perceptivelmente reais: as longas distâncias (três, quatro meses de viagem), os perigos em quantidade, representados pelos monstros marinhos que acompanhavam as naves (cetáceos, possivelmente), calmarias, algas em quantidade, nevoeiros.

O Atlântico não convidava à segurança e não se prestava à diversão, diferentemente do que hoje ocorre. Seu aspecto era aterrorizante, evocativo de animais selvagens dispostos a levar à morte numa só bocada. Era um espaço imenso e nada conhecido – logo, extremamente temido.

Disputas em alto-mar

Embora tais medos fossem, de fato, sentidos, seguidas vezes homens do mar enfrentaram essas temeridades e cruzaram as águas. Pescadores europeus foram explorar os ricos cardumes do Mar do Norte, e para, além disso, os barcos tornaram-se máquinas militares: os vikings, possivelmente os primeiros conquistadores de oceano aberto, navegaram até as terras longínquas da Inglaterra, da Irlanda, da França e da Ibéria com vistas ao saque e à conquista, e mais ao Norte, das Ilhas Órcades até a Groenlândia, incorporaram novas áreas à esfera cultural europeia. As tecnologias inventadas e melhoradas nesse processo estimularam populações mais ao Sul às aventuras oceânicas, dentre os quais os portugueses, uns dentre muitos que seguiram até as águas piscosas do Norte em busca do sustento – neste caso, o peixe salgado. Séculos se passaram, as naves pesqueiras tornaram-se caravelas, e por mares nunca dantes navegados foram muito além da Taprobana, até a China, e em direção ao Ocidente, tocando terras americanas.

O Atlântico tornou-se, então, um local de disputa para as grandes potências marítimas. Suas rotas, regime de ventos e correntes representavam o segredo político-militar mais precioso do século XV, e os litorais americanos e africanos transformaram-se em pontos de disputa imperial e trampolins para a dominação política: lusitanos, espanhóis, holandeses e franceses, ingleses, dentre outros, cruzaram as vastidões aquáticas no intuito de conquistar terras, homens e riquezas.

Do século XVIII até 1914, a história das relações internacionais quase se confunde com a história das relações políticas entre as potências europeias e sua associação com o mar. O fim da Grande Guerra, como a Primeira Guerra Mundial fora chamada antes do conflito posterior, de 1939-1945, configurou a criação de um novo sistema internacional baseado nas alianças coletivas e referendado pela Liga das Nações, ou Sociedade das Nações. Esse projeto ganhou corpo a partir de 1919 e objetivava manter a paz e o respeito pelos direitos e pela soberania de cada Estado. Os anos do entreguerras tiveram diversas rotas comerciais e civis com o objetivo de manutenção do mercado internacional. O Oceano Atlântico tornou-se fundamental e atuou como palco do comércio mundial no período do pós-Guerra e durante a chamada Grande Depressão de 1929. Em setembro de 1939, começaria outra guerra. Todos os tratados e acordos internacionais seriam revistos mediante o desenrolar do conflito. O imperialismo nipônico e o expansionismo alemão, com a imposição da política externa italiana, pautariam parte dessa disputa reordenadora do cenário internacional. Os Estados Unidos, por trás da suposta neutralidade e da “política de boa vizinhança”, pouco depois decretariam o rainbow plan (plano de defesa do Hemisfério Ocidental decretado pelo presidente Franklin Delano Roosevelt, que fundamentou a presença norte-americana no Brasil, em especial no Nordeste, durante a Segunda Guerra Mundial) e tomariam para si a defesa do continente. As águas do Atlântico transformavam o seu corrente diálogo com o vento em briga.

Nova geopolítica das águas

Quando estudamos a história do mar, neste caso do Oceano Atlântico, estamos tratando de sua relação civilizacional com entorno que o envolve, dando a ele um sentido, transformando-o numa prática social e política. Nesse aspecto, estudar a história de um oceano é também estudar a geopolítica que o cerca com toda sua complexidade e profundidade. O novo século, que emergiu há 14 anos, trouxe uma nova dinâmica para o entendimento entre a civilização e o mar, em especial na América do Sul. Com a emergência no cenário internacional das nações sul-americanas e suas questões regionais/mundiais, o Atlântico volta ao centro do debate, agora como denominado pela Marinha Brasileira metaforicamente, a Amazônia Azul.

Superada a Guerra Fria, sua geopolítica e as implicações da bipolaridade (EUA vs. URSS) para a segurança e a defesa nacional das nações, principalmente no caso dos Estados emergentes, os interesses tornaram-se cada vez maiores nos grandes fluxos comerciais e na internacionalização das suas ações. Assim, começamos a perceber uma nova dinâmica nas relações entre as decisões políticas dos Estados no sistema internacional e sua associação com o Oceano Atlântico.

Nos últimos 20 anos, o sistemático enriquecimento e crescimento do Brasil, hoje a sexta economia global, ao lado do processo de explorações e precificação da riqueza natural, como no caso das descobertas de valiosas jazidas de gás e petróleo no offshore (no mar, em inglês), permitiram a irrupção de uma consciência nacional da urgência de defesa do nosso patrimônio oceânico. Esse tem sido, sem dúvida, um dos mais debatidos e controversos temas da nossa agenda política. De um lado, pelo âmbito nacional, o que fazer com os royalties do pré-sal e como se dará sua partilha entre os Estados da Federação e, de outro, no caráter internacional, colocar em prática a Convenção Internacional sobre o Direito do Mar, acordo multilateral dirigido pela ONU em 1982 e ratificado pelo Brasil em 1988. 

*Karl Schurster é professor de História do Tempo Presente da Universidade de Pernambuco

*José Maria Gomes Neto é professor de História Antiga da Universidade de Pernambuco

(Do http://www.cartafundamental.com.br/)

MANÉMÓRIAS - VENDENDO O PEIXE

Seu Mazinho, limpando peixe na mercearia lá no bairro Coqueiros (década de 30).

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

DANDO NOME...

Foto Fernando Alexandre

MAR DE POETA


Flores brancas
Que bom
São tantas

 (Fernando Alexandre - verão 92)

CAMINHOS...

Foto Chris Moreira

PESQUISANDO OS MARES



Navio Professor Luiz Carlos - 
Uerj inaugura primeiro navio oceanográfico universitário do Rio

A embarcação vai alavancar pesquisas e projetos ambientais, como o monitoramento dos ecossistemas marinhos, aperfeiçoando a formação dos estudantes


Por O Dia

Rio - Na próxima terça-feira (28), a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) inaugura o navio oceanográfico Prof. Luiz Carlos, na Marina da Glória, às 15h. A embarcação vai alavancar pesquisas e projetos ambientais, como o monitoramento dos ecossistemas marinhos, aperfeiçoando a formação dos estudantes.

"A Uerj é a primeira instituição de ensino superior do Estado do RJ a possuir um navio. Com ele, vamos potencializar o estudo das ciências do mar, inclusive como laboratório flutuante", afirma o diretor da Faculdade de Oceanografia, Marcos Bastos.

A embarcação vai atender aos alunos das diversas áreas da Oceanografia, apoiar outros cursos da universidade como Geologia, Geografia e Biologia, além de possibilitar parcerias com órgãos governamentais, empresas e demais instituições de pesquisa.

Com 30,5 metros de comprimento e 7,8 metros de largura, o Prof. Luiz Carlos ultrapassa 250 toneladas, tem capacidade para navegar com 30 pessoas, bem como autonomia para permanecer até 15 dias no mar.

"Vamos aperfeiçoar o monitoramento da poluição da Baía da Guanabara, da Baía da Ilha Grande além de outras baías, regiões costeiras e oceânicas, atuando diretamente em problemas relacionados à pesca, fazendas marinhas e outros recursos naturais", informa Bastos.

O navio, que teve um custo total de R$ 7 milhões, foi construído no estaleiro INACE, no Ceará. O projeto contou com financiamento da Uerj, Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e da Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação do Rio de Janeiro (Secti)

O professor Luiz Carlos Ferreira da Silva

A embarcação carrega o nome do professor da Faculdade de Oceanografia da Uerj, Luiz Carlos Ferreira da Silva, como homenagem ao trabalho realizado por ele, ao longo de muitos anos, na formação de gerações de oceanógrafos e na consolidação desse campo de estudos no Brasil. O professor Luiz Carlos, que é oficial da Marinha do Brasil na reserva e foi Secretário Adjunto da Comissão Interministerial de Recursos do Mar (CIRM), estará presente à inauguração.

Serviço - Inauguração do navio oceanográfico Prof. Luiz Carlos
Data: 28 de janeiro, terça-feira
Horário: 15h
Local: Restaurante Bota - Marina da Glória
Av. Infante Dom Henrique s/n - Glória

INDO, VINDO...

Foto Fernando Alexandre

Água dá, água leva...
(Dito Popular)

MAR DE PIRATAS

O porto de Lisboa, gravura de Theodore de Bry. 1595.

Piratas que atormentaram o litoral do Brasil 

Por

O mundo de 1500 estava sedento por descobertas. Depois do torpor dos dez séculos da ‘era das Trevas‘, o povo queria novidades. Havia dois anos, 1498, que o caminho fora ‘aberto’; a Europa, finalmente conectada com o Oriente, marcou o início do que conhecemos como globalização. Lisboa passa a ser o centro do mundo civilizado. No mesmo período, as caravelas lusasarribaram em Porto Seguro. Não deu outra. A porção de terra que nos abriga virou coqueluche. Três anos depois, chegava o primeiro penetra na festa dos trópicos, o francês Binot Paulmier de Gonneville. O normando armara o navio, ‘l´Espoir de Honfleur (1503 – 1505)‘, para comerciar diretamente nas Índias. Neste período o Brasil atraía piratas aos magotes.

Mau tempo no Cabo da Boa Esperança

Gonneville enfrentou tanto mau tempo que não conseguiu atravessar o Cabo da Boa Esperança. Obrigado a dar meia volta, resolveu xeretar a costa recém “descoberta”. Em 5 de janeiro de 1504 veio dar na baía de Babitonga, onde hoje fica São Francisco do Sul, litoral norte de Santa Catarina. Ali, no bem bom, ao lado dos moradores nativos, os Carijós, os normandos sararam sua feridas. Ficaram amigos dos índios. Devem ter vivido uma bela farra. Na volta, quase um ano depois, Gonneville abarrotou o porão de seu navio de pau- brasil, aves e animais e, não satisfeito, levou também o pequeno Iça- Mirim, filho do cacique carijó, Arosca. Que cabeça tinha o garoto, não? De uma hora pra outra, sair do estado selvagem e partir para a França, é uma aventura ainda maior do que a de quem veio! O rapaz era ainda pequeno, foi acompanhado de um índio adulto, de nome Namoa.


Vinte Luas

O combinado entre Gonneville e Arosca era devolvê-lo em 20 luas. Mas a viagem de volta foi o cão. Alguns tripulantes morreram, entre eles Namoa. Iça- Mirim também adoeceu. Ficou num estado tão lastimável que Gonneville resolveu batizá-lo a bordo, para que não morresse pagão. Ele se esforçou o máximo que pode, mas não conseguiu pronunciar Iça- Mirim. Nosso herói se tornou uma corruptela: Essomeriq. Ao se aproximar da costa da França, o navio foi atacado por um corsário inglês que roubou tudo que os navegadores trouxeram de terra. Inclusive, e mais importante, o diário da expedição. Em sua chegada a Honfleur, DeGonneville imediatamente fez uma queixa diante do Tribunal do Almirantado da Normandia e escreveu um relatório de sua viagem. Vem deste texto as histórias que agora relembramos.
Essomeriq: da Babitonga para a corte


Conta a história que, não conseguindo trazê-lo de volta, Gonneville empresta seu nome à Essomeriq, mais tarde casou-o com a filha (outras fontes dizem sobrinha), Suzanne. Ao morrer, lega ao carijó parte de suas posses, desde que ele e seus descendentes usassem seu nome e suas armas. Conta a história que ‘Essomericq teve 14 filhos, ele viveu 95 anos no verde da Normandia’.


Descendente de Essomeriq no Brasil?


Essa história sempre me fascinou. Ficava imaginando a cabeça do indiozinho que topou subir naquela ‘nave’ parada em sua baía. E de lá navegar para a Normandia em 1505! Como terá sido o primeiro encontro na corte? O que terá passado na cabeça de nosso herói? E como terá sido sua vida, já que descendentes nos dizem que morreu aos 95 anos, com 14 filhos?

Miniuatura do l’espoir, Museu do Mar, São Francisco do Sul.

No início desta Primavera, a Folha de S. Paulo respondeu. O jornal publicou matéria contando da visita que nos fazia a francesa, Dorothée de Linares, 45, que se dizia descendente de Essomeriq. Dorothée veio conhecer a região, fascinada pela história que diz ouvir desde sempre, para transformá-la num livro infantil. Para tanto mantém um site que agora contatamos.
Thomas Cavendish, terceiro a dar a volta ao mundo


Gonneville não foi o único pirata protagonista do século 16. Dezenas de piratas vieram, entre eles outro notável, o navegador e pirata inglês, Sir Thomas Cavendish, terceiro a dar a volta ao mundo (1586). Numa segunda circunavegação, partiu de Plymouth em 26 de agosto de 1591 com cinco navios. A rota natural do Hemisfério Norte costeava o litoral do Brasil. Nessa viagem, Cavendish infernizou o País. Atacou diversas vezes. Incendiou construções de Ilha Grande, aprisionou navios, fundeou em Ilhabela, de onde ordenou a destruição de Santos e São Vicente. Azucrinou. Quem conta é o tripulante…

Mapa da época de Cavendish.


Antony Knivet, em ‘As Incríveis Aventuras E Estranhos Infortúnios de Antony Knivet’


Este livro trata das “memórias do aventureiro inglês que em 1591 saiu de seu país com o pirata Thomas Cavendish e foi abandonado no Brasil, entre índios canibais e colonos selvagens.” Knivet com a palavra: “De tarde, após incendiarmos mais um navio e queimarmos todas as casas (de Ilha Grande, RJ), partimos de lá. Como o vento era bom, mais ou menos às seis horas chegamos à ilha de São Sebastião (Ilhabela), a cinco léguas de Santos, onde ancoramos. Uma vez no porto todos os Capitães e pilotos embarcaram no navio de capitão- mor para saber como pretendia tomar a cidade de Santos.”

O ataque a Santos

“Todos decidiram que nosso barco longo e nossa chalupa com somente cem homens eram suficientes…Knivet: “O piloto português (que haviam capturado em Cabo Frio) contou- nos que aquele era o momento. Pelo tocar do sino estariam no meio da missa. Desembarcamos e marchamos até a igreja, onde tomamos todas as espadas sem resistência.” Havia cerca de 300 homens e mulheres na igreja (era comemorada a Missa do Galo), além de crianças.

Casa do Trem e ao fundo a antiga capela de Santa Catarina, ali reconstruída após o ataque de Cavendish. Aquarela de Benedito Calixto.

O saque a Santos e a destruição de São Vicente

“No dia seguinte o capitão-mor veio com todos os barcos para a barra e logo desembarcou 200 piratas aos quais ordenou que queimassem toda a parte de fora da vila. Então deu ordem para que ateassem fogo em todos os navios ancorados no porto. Permanecemos dois meses em Santos, carregamos nosso navio com açúcar e mercadorias dos navios portugueses que estavam no porto.” A crônica diz que prosseguindo na sua operação de pilhagem, o esquadrão pirata foi por terra até São Vicente, saqueando e queimando todos os engenhos que encontrava pela frente, pilhando e incendiando o vizinho povoado, deixando atrás de si um rastro de ódio e pavor.

Santos e São Vicente em 1615.

“O mar quebrava na popa de nosso navio…”

Depois do castigo imposto, Cavendish segue para para o Estreito de Magalhães. Knivet:“Partimos de Santos para os estreitos de Magalhães com vento favorável e durante 14 dias tivemos tempo bom. Passados dois dias de calmaria, os pilotos mediram suas posições e acharam que estávamos na altura do rio da Prata.” Mas não seria tão fácil assim. A ousadia, e o tempo perdido em Santos, iriam cobrar um preço. Cavendish chegou atrasado na boca do estreito, e pegou tempo desfavorável, “no mesmo dia em que pensamos ter visto terra, um sudoeste começou a soprar e o mar ficou muito escuro, inchado de ondas tão altas que não conseguíamos enxergar nenhum navio da nossa frota, embora estivéssemos próximos. O mar quebrava na popa de nosso navio e arrastava nossos homens assombrados de pavor para dentro dos botes.”
Dois meses de pauleira na região do estreito

Foram dois meses de pauleira brava nas cercanias do estreito de Magalhães. Ali, nas altas latitudes, é comum ventos de 60 a 80 nós (Entre 100 e 140 Km/h). Knivet, que um dia desembarcou para procurar comida, foi pego pelo vento gelado enquanto seu pé havia molhado. Sem roupas para trocar, o marujo conta que, “ao tirar minhas meias alguns dedos saíram junto, vi que meus pés estavam negros feito fuligem e não conseguia mais senti-los de todo. Não mais conseguia caminhar.” Knivet conta que a frota enfim conseguiu entrar: “penetramos ainda mais para os estreitos, apesar do vento contrario e do frio que matou por dia oito ou nove homens de nosso navio.” O mar dava-lhe o troco. “nesse lugar um ourives chamado Harris perdeu o nariz; quando tentou assoá-lo, ele acabou caindo de seus dedos no fogo.”


‘O capitão- mor rumou de volta ao Brasil’

A viagem continuou caótica. A frota se dispersou, um dos navios perdeu o mastro principal e também desapareceu. Sobrou o navio de nosso narrador. Knivet conta que Cavendish rumou para Santos, para tentar encontrar seus pares. Lá ficou por três dias até que parte da tripulação, que havia desembarcado, fora morta como retaliação. Então, decidem voltar para a ‘ilha de São Sebastião’ (ou Ilhabela). No caminho mudam de planos. O portuga preso em Cabo Frio entrega a fraca defesa da Capitania do Espírito Santo, e ‘garante que sem nenhum risco poderiam atacar vários engenhos de açúcar e conseguir boa provisão de gado’. Os piratas ingleses não pensam duas vezes: decidem atacar o Espírito Santo, para onde navegam.
Piratas atacam o Espírito Santo e voltam à São Sebastião

Oito dias depois fundeiam na baía. “O capitão, achando que o português nos desejava trair, sem nenhum julgamento mandou enforcá-lo, o que foi feito imediatamente. Em seguida, escolheu 120 homens, dos melhores que havia em ambos os navios para o desembarque.” Mas desta vez o ataque foi um fracasso. Knivet conta que perderam 80 homens na refrega. Depois da sova, decidem voltar a São Sebastião. Ao chegarem, a primeira providência do capitão foi se desfazer do peso morto: cerca de 20 homens feridos e famintos, inclusive o narrador, foram abandonados em Ilhabela. Durante oito dias Knivet sobreviveu comendo caranguejos. Dias depois, mais 40 homens foram largados em Ilhabela. Finalmente, nosso Indiana Jones do século 16 é feito prisioneiro pelos portugueses e levado para o Rio de Janeiro. A narrativa não para aí. Houve uma série de aventuras em Terra Brasilis, quase dez anos, fugas de canibais, ataques no Rio Grande do Norte, e outros, até que Knivet consegue voltar a Londres onde publica sua saga em 1625.

Por diversas vezes Knivet esteve perto de se tornar banquete.

Caiçaras de pele e olhos claros em Ilhabela

Fica o registro dos desembarques em Ilhabela, justificando caiçaras de pele clara e olhos azuis, não incomuns, naquela ilha. De onde teriam vindo? Agora você já sabe. Os ataques piratas continuaram a todo pano. O país que estava nascendo era a bola da vez. Chamou tanto a atenção que desde 1555 a França havia plantado uma filial de seu país em plena baía de Guanabara, a França Antártica. Voltaremos ao tema, e a mais piratas, em breve.


Fontes: Vinte Luas – Viagem de Paulmir de Gonneville ao Brasil, 1503 -1505, de Leila Perrone- Moisés, Cia. das Letras; https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/10/descendente-de-indio-alcado-a-nobreza-na-franca-refaz-passos-do-parente.shtml; Anthony Knivet, As Incríveis Aventuras E Estranhos Infortúnios De Anthony Knivet, organização de Sheila Moura Hue, ed. Zahar.


(Via https://marsemfim.com.br)

JACK O MARUJO

Resultado de imagem para olhando o mar  desenho
- Esperas algum navio em especial, capitão?
- Não, olho assim o mar porque sei que todos partiram para sempre, disse Jack o Marujo

(Do Nei Duclós)

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

DANDO NOME...

Foto Fernando Alexandre

TERRA E CÉU!


Ocean Meets Sky, de  Terry Fan
 Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu
(Fernando Pessoa) 


PÉ-DO-OUVIDO...

“Se é segredo não me contes, 
se é intriga, não me digas”
(Dito popular da Ilha de Sta. Catarina)

NAVEGANDO COM OS FENÍCIOS


Naufrágio fenício descoberto tem 50 pés e é datado de 700 aC.

Assim como egípcios, gregos e romanos, os fenícios foram um antigo povo, navegador por excelência. A civilização estabeleceu-se onde hoje é o Líbano, e parte da Síria, por volta de 3000 anos antes de Cristo. Criativos, foram os inventores do alfabeto mas, sobretudo, eram marinheiros e comerciantes. Há relatos, não comprovados, de que teriam feito a circunavegação da África.

Heródoto , considerado o primeiro historiador, teria narrado esta viagem que, até hoje, provoca controvérsias ao mesmo tempo em que estimula navegadores a repetirem o feito.

Conheça as rotas fenícias:


Agora as autoridades de Malta informaram que um naufrágio fenício foi localizado no Mediterrâneo central, a 120 metros de profundidade. O barco teria 50 pés (cerca de 16 metros), e sua construção data de 700 AC.

(Do https://www.facebook.com/marsemfim?fref=ts)

DE GAROUPAS E GAROPETAS!

As pequenas, conhecidas como garopetas, são as mais atrevidas. Veja a pescaria do ponto de vista dos peixes.
(Do https://www.facebook.com/InstitutoLarus)

OLHANDO ILHAS, ESPERO...

Foto Fernando Alexandre