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terça-feira, 27 de outubro de 2020

MAR DE POETA

Imagem relacionada
Caiçaras - Ilustração de Percy Lau
Pescador S/A

Não existe atalho
o percurso solitário
entre o sal e o salário
é de suor e de trabalho


terça-feira, 11 de agosto de 2020

A CASA DO MANÉ EM 1890


Casa do morador da Ilha de SC feita de pau-a-pique na região do José Mendes ( Saco dos Limões), em meio a um Bananal. Imagem do ano de 1890.

(Pesquisa do Gilberto Gerlach, via o "Tribuzanas, Tainhas & Rabos de Galo",Link: https://www.facebook.com/tribuza)

sábado, 8 de agosto de 2020

A Extinção da Pesca é a Mesma do Mané...

O Pandorgueiro, músico, compositor e artista plástico Valdir Agostinho, lá da Barra da Lagoa, dá o seu recado. Apresentação acompanhado da banda "Bernunça Elétrica" realizada no último dia 25/5/11 na UFSC.

SEIXAS NETTO, O BRUXO DO TEMPO


"O sonho do astrônomo, historiador, poeta e professor Amaro Seixas Netto era testemunhar a passagem do cometa Halley. Mas ele morreu dois anos antes, em 23 de maio de 1984, às vésperas de completar 60, vitimado por complicações causadas pelo diabetes. A cidade perdia assim um de seus três "bruxos", parceiro de Franklin Cascaes (1911-1983) e Meyer Filho (1919-1991) na luta pela preservação da identidade local. Sujeito de interesses múltiplos, capaz de longas conversas sobre qualquer assunto, Seixas Netto ficou célebre pelas previsões meteorológicas que, diz a lenda, não falhavam nunca. Autodidata, somava a intimidade com os ventos ilhéus à precisão dos equipamentos que, em alguns casos, ele próprio construía. Achava que o segredo era entender os sinais da natureza. Assim, conseguia estimar com semanas de antecedência o que iria acontecer. Escrevia para jornais e, mesmo com a péssima dicção - fruto do hábito tipicamente ilhéu de falar rápido -, tinha programas de rádio... ...Seixas Netto era um homem que parecia estar sempre na fronteira entre o visível e o invisível, a ciência e o misticismo.

Em "Gênese estelar e conceito de universo", livro publicado em 1969, ele revelou a convicção de que há vida além da Terra. "Os mundos habitados, no universo, escapam, certamente, a qualquer relacionamento em número; mas, em todo o universo, existe, inegavelmente, uma certa quantidade de mundos habitados por seres iguais aos da Terra. (...) Pode-se afirmar, considerando a alta percentagem probabilística, que há sistemas solares próximos com mundos habitados. Mas as distâncias são enormes e os métodos e instrumentais em uso hodierno ineficientes para medidas e comprovações", analisou. Em 1954, quando ainda nem tinha 30 anos, Seixas Netto já demonstrava erudição. "O átomo de hidrogênio, o mais simples desde o ponto de vista diagramático, consta, como estrutura fundamental, de um corpúsculo-eletrônico gravi-saltando ao redor de um núcleo, cujo ponto mais recôndito, mais íntimo, é um campo material de elevado nível de densidade na sua força de gravitação", diz um trecho do livro "A Geometria do Átomo".

"Nem deuses nem astronautas", de 1972, critica o famoso "Eram os deuses astronautas?", de Erich von Däniken, que vendeu milhões de exemplares. "Não passa de uma coletânea de 323 perguntas, todas lançadas a esmo", alfinetou Seixas Netto. "

(Perfil traçado pelo jornalista Maurício Oliveira no jornal AN, em 29/08/1999)

segunda-feira, 13 de julho de 2020

UM RITUAL...


...O vigia dá o sinal
e, logo, feita a tocaia,
pula tainha na praia.

É assim... um ritual...
Cada uma das contendas
guarda as suas oferendas....
(Fragmento de coroa de sonetos de Luís Ernesto Heilborn, em "Jardim do Brasil", Ed. Insular)

sábado, 30 de maio de 2020

sexta-feira, 29 de maio de 2020

A LENDA DOS 500 MIL PEIXES

“...Quando os pescadores chegaram na praia com as tainhas do dia, uma mulher que estava passando pediu um peixe para matar a fome. Os pescadores negaram, alegando que haviam apanhado poucos e que eles iam ser divididos. Diante da negativa, ela rogou uma praga, dizendo que na safra do ano seguinte haveria de "aparecer tantos peixes quantos grãos de areia existiam na praia".
O fato teria acontecido no início do século passado em Ponta das Canas, no Norte da Ilha, gerando muitos comentários entre os poucos moradores. Afinal, ninguém conhecia a senhora que havia pedido o peixe, e nem mesmo seu nome era conhecido. O mais intrigante é que assim como apareceu, sumiu, deixando apenas preocupações entre os mais supersticiosos.


Esses temores aumentaram com a proximidade da safra da tainha do ano seguinte. Lá pelo final do mês de junho, no início de uma manhã fria, mas com muito sol e quase nenhum vento, o vigia agitou a bandeira, indicando a aproximação de um enorme cardume.
"Apareceram umas 500 mil tainhas na praia. O que deu o pessoal comeu no dia, ou então escalou. O sal que tinha nas vendas foi todo. O resto ficou lá e foi enterrado", garante Manuel Teotônio da Silva, 95 anos.

Lenda ou não, Manoel Laurindo, como é chamado por causa do nome do pai, garante que levou algumas tainhas para casa. "Eu era pequeno e carreguei o peso que consegui agüentar", recorda.
Nascido na localidade e casado desde 1933 com Cândida Maria, 91 anos, também nativa de Ponta das Canas, Manoel Laurindo cresceu ouvindo lendas e casos, alguns envolvendo o aparecimento de monstros e assombrações - como a do Boitatá...”

(Fragmento de reportagem de Celso Martins, publicada em “A Notícia” em 14/o3/2000)

Conheça mais no
http://sambaquinarede2.blogspot.com

QUADRA ANTIGA



Ilustração Andrea Ramos
Eu marquei meu casamento
Pro tempo da farinhada
Hai muita tainha e laranja
Hai fogaréu na moçada

(Quadra popular registrada no interior da Ilha no século passado)

segunda-feira, 25 de maio de 2020

MATADORES DE PEIXE...


Um ensaio com cheiro de sal e gosto de vento Sul, de Jean Schwartz, sobre a pesca da tainha na Ilha de Santa Catarina. Jean nasceu em Porto Alegre, em 1976. Um fotógrafo autodidata. Mergulhe mais fundo no www.jeanschwarz.com

É PEIXE PRA DUAS CANOAS...

Luiz Henrique Rosa canta "Lugar Comum" de João Donato e Gilberto Gil. Programa "Estamos Aí" com cenas da praia do Santinho, Florianópolis, em 1981. Uma verdadeira raridade.
Nunca se soube que o grande músico catarinense pescasse tainhas, mas observem que em algumas cenas ele aparece no costão do Santinho abanando a camisa. Segundo os pescadores de tainhas, ele está sinalizando que é peixe para duas canoas...

"A sombra da manta
de tainha desliza
ao longo. Mas o vigia,
olhos fitos no ar,
nada vê. Só seu pesar."

(Hoyedo Gouveia Lins -Ilha de Santa Catarina -7 /10/1929 — 19/07 2010)

"TAINHAS À VISTA", UM DOCUMENTÁRIO

domingo, 24 de maio de 2020

TAINHA CRÔNICA


Foto Andrea Ramos
As ovas e o Mercado
"Tagenias. Ou, em grego arcaico, bom para frigir. Principalmente as ovas douradas. Aos poucos, o corpo prateado, de listras escuras no dorso, começa a frequentar as bancas do Mercado, exposto e empilhado como numa morgue da boa gastronomia. Quando deparo com uma “tagenias”, sinto vontade de repetir o ritual de minha avó. Aperto o peito oliváceo de uma delas, duplamente ovada, a boca semiaberta no último esgar da morte. 
Quase levo um susto quando a tainha pisca um olho pra mim, como quem seduz: – Me leva! Sou gostosa, assada ou frita! Aliás, meu nome diz que sou boa para fritar, mas também para ser tostada num braseiro. E às minhas ovas, então, quem resiste? Elas humilham até o caviar... Fritas. As ovas e as postas.
 É como gosto de comê-las, umas como aperitivo. Outras como peixe nobre, embora um tanto gorduroso. Ovas de tainha são “prêmios”, especiarias inigualadas por qualquer outro fruto do mar, aí incluídas as outras espécies de fina estirpe, como as de esturjão, muito salgadas, transformadas em caviar. 
Entre as ovas da nossa tainha mané, que vêm ali da Lagoa dos Patos, e as ovas dos esturjões do Báltico, meu palato é mané e não abre – ou, por outra, a única coisa que abre é a boca, pra comer mais. Pelas manhãs do Mercado Público evolam-se cheiros da Provence, terra que trata os prazeres da mesa, do prato e do copo com a devoção digna de um sacramento. Todo o sul da França é considerado um “mercado ao ar livre”, o próprio ar recende a orégano, alecrim, funcho, alfazema e tantas especiarias herbáceas que qualquer “matinho” tanto pode esconder um mero jardim quanto um fornido guarda-comida. 
Nosso Mercado deveria zelar por esses cheiros e por esse colorido provençal. Tomara que, a pretexto de organizar um novo mix, e de promover uma democracia licitatória, não acabem estragando o que já está bom. E que não encontremos ali, no futuro, algo antinatural, como alguma filial de muambas do Paraguai. 
Boxes que não se destinem à natural vocação da velha casa amarela: ser um tabuleiro de legumes, verduras, frutas, peixes, carnes, víveres, bistrôs para se viver a vida, consumindo umas e “ostras”. Neste outono que se desenha promissor à temporada das tainhas ovadas, vale a pena extrair de um romance de mestre Eça de Queirós – A Ilustre Casa de Ramires – uma receita de tainha bem assada: 
“Aqui está como se prepara, ó estudiosos! Tomai uma tainha. Escamai e esvaziai. Preparai uma massa bem batida com queijo (que pode ser parmesão), azeite, gema de ovo, salsa e ervas fragrantes, e recheai com ela a vossa tainha. Untai-a então de azeite e salpicai-a de sal. Em seguida, assai-a num lume forte. Logo depois de bem passada e alourada, umedecei-a com vinagre superfino. Servi – e louvai Netuno, deus dos peixes...” 
Essa ova “manufaturada” por Eça perde para as nossas ovas naturais, gêmeas, geradas no ventre das nossas tainhas manés. Mas – vinda de quem vem – não custa nada reconhecer que a receita tem lá o seu estilo..."

SÉRGIO DA COSTA RAMOS

(Crônica publicada na edição de 6/4/11, no Diário Catarinense)

MAR DE TAINHAS


ESCAMBO NA PRAIA : TAINHA x GALINHA CAIPIRA!


HOJE VAI DAR PEIXE NO PÂNTANO DO SUL!


Desenho Franklin Cascaes


SÊO FRANCOLINO CHEGOU!
HOJE VAI DAR PEIXE!
"... Nessa época de pesca da tainha, eu me levantava cedo e junto com a minha patroa nós íamos para as praias. A nossa corrida era o Pântano do Sul. Eu me dava muito bem com aquele povo... O dia em que eu chegava na praia eles ficavam satisfeitos porque: ah! hoje vai dar tainha porque o seu Francolino chegou aí." Muitos me chamavam de "seu Francolino"... Então: ah! o seu Francolino chegou. O senhor é como São Pedro que aparece na praia. Me disseram isso muitas vezes. "Porque quando o senhor chega aqui, o peixe aparece". Eu digo só: meu Deus, onde é que está a sugestão, eles se sugestionam com alguma coisa e pronto. Se aparecia peixe? Só acontecia mesmo quando o peixe tinha que passar aí, não é? O peixe vinha..."

(Franklin Cascaes - 1908/1983 - Artista, folclorista e pesquisador de cultura popular em entrevista a Raimundo C. Caruso em "Vida e Cultura Açoriana em Santa Catarina" - Edições da Cultura Catarinense - 1997)