segunda-feira, 30 de abril de 2018

ALÉM DA SOLIDÃO


A praia do Saquinho no clique da Eli Elisa 

MAR DE PESCADOR

A imagem pode conter: 1 pessoa, em pé e atividades ao ar livre

A PESCA ARTESANAL NAS PRAIAS 
DA ILHA DE SANTA CATARINA



... à partir de meados do século XIX, as principais freguesias que se dedicavam à atividade pesqueira eram Ponta das Canas, Barra da Lagoa, Canasvieiras e Campeche”...

A pesca artesanal na Ilha de Santa Catarina representou grande importância na cultura local, dentre outros motivos por permitir ao açoriano que aqui chegou atividade de subsistência fundamental. Aliada à agricultura a pesca artesanal foi certamente um dos aspectos que mais contribuiu para a fixação do homem à terra, numa ilha que muitas similaridades tinha com as ilhas de Açores.




Como escreve Walter PIAZZA no seu livro " A colonização de Santa Catarina", no período de 1748 a 1756 desembarcaram em Santa Catarina cerca de seis mil imigrantes, em sua maioria açorianos. Além das terras o governo português havia prometido auxílio financeiro, incluindo transporte gratuito, armas, ferramentas, animais, farinha e isenção do serviço militar. Mas ao chegar à história foi outra. Os imigrantes ficaram sujeitos ao recrutamento já que um dos principais propósitos da colonização era garantir as terras do Sul sob a bandeira Portuguesa e pouco do que havia sido prometido foi cumprido ficando mesmo os imigrantes sujeitos ao confisco de alimentos.


Dado que as terras da Ilha não eram tão férteis quanto o solo vulcânico dos Açores a maioria das culturas que eram comuns aos açorianos ou que na época interessavam comercialmente à Coroa não tiveram sucesso e os colonos precisaram adaptar-se à outras culturas, como e principalmente pela lavoura herdada dos índios: a mandioca, que logo se tornou a base alimentar da população.



A pesca não tinha grande importância econômica e por isso tornou-se atividade subsidiária. A única atividade pesqueira interessante comercialmente foi à pesca da baleia que durou até o começo do século XX.



Na Ilha de Santa Catarina a partir de meados do século XIX, as principais freguesias que se dedicavam à atividade pesqueira eram Ponta das Canas, Barra da Lagoa, Canasvieiras e Campeche. O trabalho na pesca era intercalado com o trabalho na lavoura. Entre os meses de maio a julho, época da tainha, o homem deixava a roça e o engenho de farinha aos cuidados da mulher e dos filhos para sair ao mar. No século XX a pesca vai se tornar trabalho remunerado, tornando-se a agricultura atividade subsidiária aos cuidados sobretudo das mulheres e os filhos dos pescadores.



A pesca artesanal vai começar a perder importância em meados do século XX, quando vai se tornar comum a saída dos pescadores da Ilha para trabalhar em grandes embarcações no Rio Grande do Sul ou em Santos - SP, onde estavam localizadas empresas pesqueiras emergentes, estimuladas pelos planos de desenvolvimento nacional implementado no pós guerra.



Em Canasvieiras foi possível sentir claramente estas mudanças ao longo do tempo. São comuns as histórias de moradores hoje idosos que quando jovens trabalhavam em Santos ou em Rio Grande. Eram pescadores que cresceram pescando nas redes da praia, aprenderam o ofício na pesca artesanal e encontraram trabalho nos pesqueiros gaúchos e paulistas.



Em meados da década de 1970 o turismo torna-se a principal atividade econômica da região. Hoje ainda é possível assistir a uma pescaria com rede de arrasto principalmente no inverno época da pesca da tainha na praia de Canasvieiras. O rancho dos pescadores é atualmente uma espécie de fortaleza de resistência da atividade tradicional da pesca. A produtividade não compensa economicamente, porém tem significado cultural importante. A própria história da construção do rancho foi quase uma guerra entre especuladores do mercado imobiliário e pescadores locais. Em meados da década de 1980 os pescadores começaram ter dificuldade para encontrar abrigo para as suas embarcações.


sábado, 28 de abril de 2018

TEM TAINHA NA ARMAÇÃO

E o Daniel, do Cardoso Armação, garante que ele tarrafeou as "sagradas" ontem a noite no Matadeiro!
Pois e agora? 

DE OLHO NO PEIXE...

Foto Heverson Santos

ELAS ESTÃO CHEGANDO...

Foto Rodrigo Pacheco
No canto esquerdo da praia dos Ingleses!
(via Silézio Sabino)

QUANTO SE PESCA NO BRASIL?


Poucos são os dados oficiais sobre a pesca artesanal no Brasil. Estatística pesqueira recorrente e com dados atualizados parece um sonho distante para pesquisadores e pescadores artesanais.

A inexistência de informações precisas leva a aplicação de políticas públicas equivocadas, que prejudicam pescadores, consumidores e o meio ambiente.

Uma experiência bem-sucedida de automonitoramento da produção de pescado, no entanto, tem sido realizada por pescadores do lago de Itaparica, no município de Petrolândia, em pleno sertão pernambucano. E mais que conhecer a produção de pescado individual, tem ajudado a repensar políticas públicas no município.

Essa experiência é retratada na cartilha "Automonitoramento da Produção de Pescado", realizada pelo CPP regional Nordeste 2 e pela Colônia dos Pescadores Z 23 de Petrolândia, e agora pode ser acessada digitalmente pelo site do CPP Nacional!

Leia e ajude a compartilhar essa experiência bem-sucedida!!!

sexta-feira, 27 de abril de 2018

ELAS ESTÃO CHEGANDO...

As tainhotas vieram na frente pra avisar que as "sagradas" estão chegando!

RAINHAS BORDADAS

Foto Fernando Alexandre
"Zé Gancheiro" e "Osmarina": na espera e na espreita!
Pântano do Sul

MALHEIRAS

Foto Fernando Alexandre

NO SILÊNCIO DAS ÁGUAS...


O mapa doa assaltos à túmulos (Ilustração: The Guardian)
Mais túmulos correm o risco de serem profanados

Naufrágios da Segunda Guerra Mundial: maior assalto de túmulos do mundo na Ásia

The Guardian: “Dezenas de naufrágios da Segunda Guerra Mundial que contém os restos de milhares de militares britânicos, americanos, australianos, holandeses e japoneses foram ilegalmente destruídos por mergulhadores. Análises de navios descobertos por mergulhadores de descobriram que até 40 navios da segunda guerra já foram parcialmente ou completamente destruídos. Seus cascos poderiam ter contido os cadáveres de 4.500 tripulantes.”

“Governos temem que outros túmulos correm o risco de serem profanados. Centenas de navios – principalmente japoneses que podem conter milhares de tripulantes mortos durante a guerra – permanecem no fundo do mar. Eles também contêm metais valiosos. Entre outros cabos de cobre e hélices de bronze fosforescente. Especialistas dizem que os escavadores estão procurando mais tesouros – chapas de aço feitas antes da era dos testes nucleares, que preenchiam a atmosfera com radiação. Esses navios submersos são uma das últimas fontes de aço praticamente livre de radiação, vitais para alguns equipamentos científicos e médicos.”
Célebres navios de guerra da Grã-Bretanha foram recuperados ilegalmente

“The Guardian revelou no ano passado que os destroços de alguns dos mais célebres navios de guerra da Grã-Bretanha foram recuperados ilegalmente. Isso provocou tumulto entre veteranos e arqueólogos, que acusaram o governo do Reino Unido de não se mexer para protege-los. Três navios – HMS Exeter, HMS Encounter e HMS Electra – continham os corpos de mais de 150 marinheiros. Todos afundaram durante as operações no mar de Java em 1942, uma das escaramuças mais caras para os Aliados durante a guerra. Em 2014, os naufrágios do HMS Repulse e do HMS Prince of Wales e túmulos para mais de 800 marinheiros da Royal Navy foram encontrados com danos.”

Ministério da Defesa do Reino Unido exige que Indonésia proteja os navios

“O Ministério da Defesa do Reino Unido exigiu que a Indonésia proteja os navios navios. Um naufrágio militar deve permanecer inalterado e aqueles que perderam suas vidas a bordo devem poder descansar em paz, disse um porta-voz do ministério. Desde então, mergulhadores na Malásia enviaram fotos mostrando a destruição de três navios japoneses afundados na costa de Bornéu em 1944. E um dos mais preciosos da Austrália, o cruzador leve HMAS Perth, também foi arruinado. Dan Tehan, ministro australiano para assuntos de veteranos, disse ao Guardian:

O HMAS Perth é o lugar de descanso final para mais de 350 australianos que perderam a vida defendendo os valores e as liberdades da Austrália, então os relatórios sobre os destroços foram perturbados são profundamente perturbadores e de grande preocupação.

Milhares de marinheiros descansam no fundo do mar. E veteranos argumentam que os navios devem ser preservados como sepulturas de guerra.
Naufrágios da Segunda Guerra Mundials retalhados por ladrões

“Grandes gruas foram fotografadas acima dos locais de naufrágio. No fundo do mar, mergulhadores encontraram navios cortados ao meio. Muitos foram completamente removidos, deixando um buraco em forma de navio.”

Uma barcaça e mergulhadores assaltando naufrágios da Segunda Guerra Mundial

Uma barcaça para em cima do naufrágio. Mergulhadores descem…
Eles colocam explosivos nos navios que são destruídos…

Ilustração: The Guardian
E recolhem que o sobrou não respeitando as mortes provocadas pelos equívocos da história.

(Fonte: The Guardian, via marsemfim.com.br)

SE ALEMBRAM DAQUELE LANÇO?


VEJA O MAIOR "LANÇO" EM 25 ANOS

O maior "lanço" de Garopaba nos últimos 25 anos ocorreu na temporada 2010, quando registrei em vídeo precário numa pequena Sony com pouca memória e bateria limitadíssima. O que deu para fazer até ficar sem recursos, no entanto, valeu a pena.
 As cenas dão uma ideia da festa popular que se cria a partir do grito "Tem tainha!" do olheiro. A cidade toda (os antigos) vão para a praia assistir ao espetáculo e pegar sua tainha, com ou sem consentimento dos pescadores. O vídeo tinha 27.366 visualizações até essa postagem. Vamos ver. E pode se emocionar.

(Imagens, texto e emoções do Sérgio Saraiva)

quinta-feira, 26 de abril de 2018

SE ALEMBRAM DAQUELE LANÇO?

Fotos Fernando Alexandre
  


Cerco de 24 de junho de 2010 - Pântano do Sul

PESCADORES DE TAINHAS - COMUNICADO

Atenção pescadores da grande Florianópolis

Dia 27, sexta feira, as 18hs na sala da Colônia da Barra da Lagoa, em Florianópolis, vai ser realizada uma reunião com a polícia ambiental.
Assunto: Safra da tainha
Importante que todos compareçam, e divulguem para todos os pescadores.

(Local: ponto final da barra,  em cima da farmácia.)

MAR DO PAULO GOETH


NO CAPITÃO ADEMIR


quarta-feira, 25 de abril de 2018

ÚÚÚÚ!!!!

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, montanha, céu, atividades ao ar livre e natureza
Foto Anthony Medeiros Alaño

Deu peixe!

Camaradagem do Pantusúli acaba de cercar e arrastar 600 tainhotas "na boca da rua", segundo informações da Comandante Zenaide do Pedacinho do Céu!

SECANDO AS REDES, ESPERANDO O PEIXE

DARWIN, UM NAVEGANTE!


A circum-navegação de Darwin

Publicado por João Lara Mesquita 

Como você imagina que Darwin desenvolveu a teoria da evolução pela seleção natural das espécies? Indo a campo, claro! Foi a circum-navegação de Darwin no século XIX.

O jovem Charles Darwin, com apenas 22 anos, passou quase cinco anos à bordo do HMS Beagle, entre 1831 e 1836, navegando ao redor do mundo!

Passando por diversas regiões do mundo e por ecossistemas diferentes, o cientista observou uma enorme variedade de animais, plantas, culturas, fósseis e formações geológicas, e assim formulou ideias sobre como diferentes espécies surgem e evoluem no planeta Terra.


Durante a viagem de cinco anos, Darwin e a tripulação do Beagle passaram a maior parte do tempo explorando a América do Sul, incluindo ilhas como Galápagos. Mais tarde o cientista chegou a afirmar que essa viagem foi o principal evento de sua vida.



A circum-navegação de Darwin teve fim no dia 2 de outubro de 1836, quando Beagle jogou a âncora em Falmouth, na Inglaterra.

Mas… Sabemos muito bem que algumas navegações são longas, exigem paciência da tripulação e geram um grande tempo ocioso que pode ser preenchido com um bom livro.

O que será que o jovem Darwin lia a bordo do Beagle durante todo esse tempo no mar?

A resposta está em uma biblioteca digital, compilada pelo projeto Darwin Online, que reproduz, de maneira ilustrada e detalhada, as 181 obras que compunham a biblioteca flutuante do Beagle.

NAVEGANDO COM O SOL

Canoa solar ajuda comunidades a navegar sem gasolina nas águas da Amazônia 


A canoa solar que ajuda comunidades a navegar sem gasolina nas águas da Amazônia – 
Depois de fazer estudos de navegabilidade, decidiu-se que o desenho da canoa dos indígenas Cofan, no norte da selva equatoriana, era o mais adequado para as águas amazônicas

Sob a pálida luz de uma lâmpada que pendura do teto de um abrigo de madeira, um círculo de homens bebe litros e litros de uma infusão de folhas preparada na noite anterior pelas mulheres da casa.

São quatro da manhã e ainda falta um par de horas para que amanheça em Kapawi, uma pequena comunidade indígena achuar em um canto remoto da Amazônia equatoriana.

Os homens bebem e bebem até que o corpo lhes diz que basta.

E, um a um, desaparecem na escuridão desta noite sem lua para esvaziar o conteúdo de seus estômagos com ruidosos vômitos.

Hilario Saant foi um dos quatro tripulantes que trouxeram a canoa do porto de Iquitos, no Peru, até o território achuar. Foi uma viagem por 1.800 km do rio que demorou 25 dias

Na volta, mais acordados e energizados pela limpeza, começam a relatar e interpretar os sonhos da véspera.

O mundo onírico tem um papel central na vida dos achuar: não só guia suas ações do dia, mas também seus planos a longo prazo, o futuro da comunidade.

E foi justamente em uma dessas cerimônias, um ritual ancestral conhecido como “guayusada”, que os anciãos compartilharam, há mais de meio século, um sonho que acabou sendo premonitório: pelas águas marrons do rio, viram descer “um barco de fogo”.

A canoa solar que ajuda comunidades a navegar sem gasolina na Amazônia 

Mito ou história genuína, o certo é que essa visão se transformou recentemente em uma realidade para um grupo de comunidades Achuar.

Desde abril de 2017, uma canoa alimentada por energia solar percorre 67 km pelos rios Capahuari e Pastaza e liga cerca de mil pessoas divididas em nove assentamentos isolados que vivem em suas margens.

Para os mais pequenos, viajar na canoa é um acontecimento especial

“Meus pais, meus avós sonharam com isso. O sonho é uma mensagem. Os achuar conhecem pelos sonhos. O sonho não é mentira, é a verdade”, diz Hilario Saant, um ancião de Kapawi.

A canoa se chama Tapiatpia em homenagem a um lendário peixe-elétrico da área, e é o primeiro sistema fluvial comunitário solar da Amazônia.

Esse modelo de transporte sustentável que percorre o território por suas rotas ancestrais, os rios, não só materializa um antigo sonho: também responde ao desejo profundo dessa cultura de viver em harmonia com o meio ambiente.

O projeto ainda está em sua etapa inicial. Mas se for bem-sucedido, tem o potencial de ser implementado em outros rios da bacia amazônica, um ecossistema ameaçado pelo desmatamento e pela exploração petroleira e de cujo futuro o clima do planeta depende.

Há uma década, Utne trabalha desenvolvendo o projeto da canoa solar

Tecnologia de ponta, desenho ancestral

“A canoa solar é uma solução ideal para esse lugar porque aqui não há rede de rios navegáveis, interconectados e há uma grande necessidade de transporte alternativo”, explica à BBC Mundo Oliver Utne, o americano que deu vida ao projeto Kara Solar (Kara significa “sonho” em achuar), depois de conviver com a comunidade durante anos.

“Como a gasolina só pode chegar aqui por avião, custa cinco vezes mais que no resto do país”, explica. É um luxo que não se podem dar.

“Por outro lado, a ameaça de chegada de estradas a esse território, um dos lugares com maior biodiversidade do mundo, está muito presente.”

“Trazê-las até aqui significaria a destruição dessa biodiversidade e produziria um impacto muito forte nessas culturas”, argumenta o jovem de pouco mais de 30 anos, cabelos loiros e olhos azuis que os achuar tratam como mais um da família.
Por causa da canoa, as crianças podem ir ao centro de saúde quando estão doentes


Com um teto de 32 painéis solares sobre uma canoa tradicional de 16 metros de comprimento e dois de largura, Tapiatpia encarna a fusão da tecnologia moderna com o conhecimento ancestral.

Feita com fibra de vidro em vez de madeira para estender sua vida útil, a canoa tomou emprestado o desenho de embarcação típica dos indígenas cofanes do norte do Equador.

Depois de vários estudos de navegabilidade, foi o modelo que melhor se adaptou às condições amazônicas.
Desde que a viagem ficou mais barata (a viagem custa US$1, mas os estudantes pagam um preço mais barato), há mais alunos inscritos na escola

As rotas, os horários, o porto central e outros assuntos relativos a seu funcionamento foram decididos pelas próprias comunidades com ajuda da “Plan Junto”, uma organização que se encarrega do aspecto comunitário do empreendimento.

“De nada serve o barco se não houver um grupo de gente pensando em como usá-lo e como aproveitá-lo”, explica Celia Salazar, gerente de operações de campo de Plan Junto.

Mais alunos nas classes
De pé na popa do Tapiaptia, com os olhos direcionados à rota, Saant me conta orgulhoso como pouco a pouco a canoa está mudando a vida da comunidade.

Os jovens Achuar querem aproveitar novas tecnologias, mas sem destruir seu território

“Estamos ajudando a comunidade quando há crianças doentes. Me chamam por rádio e levamos as crianças ao centro de saúde. Tapiaptia ajuda a salvar vidas”, me diz, emocionado.

É que sua relação com o barco se remonta aos dias em que era só uma ideia.

Além disso, ele foi um dos quatro tripulantes que fizeram a viagem épica de 1,8 km durante 25 dias para trazer a canoa do longínquo porto de Iquitos, no Peru, até o território achuar.

Sem deixar de olhar para frente, indica com sinais a rota ao capitão sentado na parte traseira da embarcação.

As pistas de aterrisagem são as únicas lisas da selva

“Agora as crianças podem fazer passeios escolares”, continua. “E, se moram longe, podem ir à escola e voltar no fim de semana e ajudar seus pais.”

Mateo Tseremp é testemunha disso. Professor da única escola secundária para 15 comunidades da área, viu um incremento no número de alunos.

Da canoa, Hilário Saant pode ver os animais que se escondem na selva

“Nos ajuda a trazer mais estudantes à unidade educativa Tuna. É muito mais econômico”, me diz durante uma pausa depois da aula.

A canoa também ajuda os jovens a praticar esporte. Além disso, diz Sant, “na canoa podemos conversar”. O ruído de um motor elétrico é quase um sussurro comparado com o ensurdecedor ruído do barco típico da Amazônia que funciona a gasolina. Outro ponto a favor: como o barco é silencioso, não espanta os animais – em um das viagens, a reportagem viu um boto-cor-de-rosa a poucos metros do barco.

Todas as decisões sobre a canoa e seus usos se discutem em uma assembleia comunitária

Contra as estradas

Mais além das vantagens econômicas de um transporte de custo baixo para essas comunidades que vivem principalmente da caça, a agricultura de subsistência e a pesca, um benefício que eles consideram crucial é que não destrói nem polui o meio ambiente.

“Queremos que as crianças conheçam a mesma selva que eu conheço”, diz Saant com firmeza.

A ameaça dos caminhos que vêm da indústria petroleira e madeireira, contudo, está cada vez mais próxima.
Canelos quer desenvolvimento, mas sem estradas em seu território

Em janeiro desse ano, por exemplo, o governo começou a perfurar a primeira de uma centena de poços petroleiros dentro do Parque Nacional Yasuní, no nordeste do país, em plena Amazônia equatoriana.

Essa área abriga nacionalidades indígenas que vivem em isolamento voluntário.
Cada comunidade tem uma pista de terra para permitir a chegada de aviões -é a única via de acesso

Impacto

Mas que impacto pode ter um projeto tão pequeno como esse na luta global contra a mudança climática?

Na Amazônia, uma região que perdeu cerca de 17% de seus bosques nos últimos 50 anos, segundo o Fundo Mundial para a Natureza, e em que o desmatamento continua crescendo a um ritmo alarmente, o que pode fazer uma pequena canoa?

E mesmo se se multiplicarem, que impacto real podem ter duas, três, dez canoas solares diante do avanço incessante da mineração e da indústria madeireira e petroleira?

A canoa foi batizada de Tapiatpia, em homenagem a um peixe-elétrico lendário da região

Para Utne, “a ideia fundamental é que se possa servir como exemplo de um projeto que funciona para uma economia amazônica”.
“E, se não, ao menos pode ter impacto na vida das pessoas daqui”, diz, com humildade.

*Kara Solar é um projeto conjunto dos achuar, a Fundação ALDEA (sigla em espanhol para Associação Latino-americana para o Desenvolvimento Alternativo) e Plan Junto. 
ANOTE AÍ: 
Publicado por Laura Plitt, BBC Mundo, enviada especial à Amazônia equatoriana 

(via https://www.xapuri.info/)


A SAGA DE JACARÉ E ORSON WELLES

J
Jacaré (Foto: https://fabricioasgomes.wordpress.com/)

A saga de Jacaré e a jangada São Pedro: um grande navegador brasileiro

1939, o comêço do sonho: jacaré assume a presidência da colônia de pesca Z1, a mais importante do Ceará

Manuel Olimpio Meira vivia na pobre comunidade da Praia do Peixe, mais conhecida hoje como praia de Iracema, em Mucuripe, Fortaleza. Ele nasceu em 1903, no Rio Grande do Norte. Mudou-se para o Ceará fixando-se na Praia do Peixe. Tanto faz a origem, ele foi e sempre será relacionado ao Ceará. Foi ali que teve inicio a saga de Jacaré e a jangada São Pedro.


Inteligente, mas iletrado, curioso pelas coisas da vida, uma de sua primeiras medidas, depois de assumir a presidência da colônia Z1, foi se inscrever no curso de alfabetização que ali havia.

Iracema nos anos 40 (Foto: http://www.fortalezanobre.com.br)

Revoltado com as condições dos pescadores, queria aprender a ler e escrever para ir ao Rio de Janeiro reclamar com o ditador Getúlio Vargas. Assim começou a saga de Jacaré e a jangada São Pedro. Ele já ouvira falar nas novas leis trabalhistas, o salário mínimo, etc, e queria incorporar os benefícios também aos pescadores cearenses.

As reivindicações de Jacaré

Jacaré não se conformava com duas coisas em especial. “A presença dos atravessadores que compravam o pescado na praia, por baixos preços, e os revendiam com alto lucro nas peixarias, contribuindo para a perenização da pobreza dos jangadeiro. Também reclamava da Federação dos Pescadores do Ceará que não vinha repassando há muito tempo o imposto de 5% que recaía sobre o pescado, criado pela municipalidade, e que deveria retornar para as colônias.”

Custos da jangada

Naquela época as jangadas não eram dos pescadores, pobres demais para poderem construí-las. Tinham um dono que ficava com 50% do resultado da pesca. O resto era dividido entre os quatro membros da tripulação. “A madeira da embarcação custava caro, era importada do Pará, o que encarecia sua construção. Jacaré, em suas declarações aos jornalistas, enfatizou que, no caso da São Pedro, adquirida por 1:640$000, o gasto com a importação da madeirarepresentava 1:100$000. Com o abusivo preço, demonstrava a impossibilidade dos próprios jangadeiros as possuírem, ficando subordinados aos proprietários.”
Jacaré consegue dinheiro para jangada e forma a tripulação

Os Diários Associados, de Chateaubriand, fizeram uma subscrição e conseguiram arrecadar o dinheiro para a construção. Através de sua cadeia ade rádios e jornais Chateaubriand, com seu faro jornalístico, ‘sentiu o apelo’ daquela aventura. Pediu ampla cobertura a seus veículos em cada parada da jornada. O Brasil começa a saber da ousada travessia. Estava tudo pronto para a partida. Faltava a tripulação.

A saga de Jacaré e a jangada São Pedro. A tripulação: Mestre Manoel Olimpio de Meira, o Jacaré, Mestre Jerônimo, Tatá, e Mané Preto. (foto:http://revistamarina.com.br)

Para comandar a São Pedro, Jacaré chamou Mestre Jerônimo, 35 anos, já um notório mestre.Tatá, o mais velho, tinha 52, pescava desde oito, e também atuava como mestre. Manuel Preto, 39, desde os 6 anos iniciado na pesca, foi outro escolhido. Por fim, Jacaré, que estava com 38 anos, e era proeiro; o único não cearense de raiz, mas o mais politizado, e idealizador do projeto.

A saga de Jacaré e a jangada São Pedro

14 de setembro de 1941:
…o doutor Pimentel, que é o interventor, veio nos cumprimentar e os meninos da Colônia Z-1, cantaram um hino muito bonito. Eu beijei a minha filhinha Maria José, enquanto Tatá, Manuel e Jerônimo despediam-se dos seus. As nove em ponto, quando soprava um bom nordeste empurramos a jangada pra dentro dágua Ia começar nossa grande aventura. O samburá estava cheio de coisas, a barrica cheia dágua e nossos corações cheios de esperança. (…) Havia sol quente e no porto estavam dois navios grandes. Partimos debaixo de muitas palmas e consegui ver, lá longe, os meus bichinhos acenando. Mais de vinte jangadas, trazidas por nossos irmãos de palhoça e de sofrimento, comboiaram a gente até a ponte do Mucuripe. A igreja branquinha foi sumindo e ficou por detrás de farol. Resei pra dentro uma oração pedindo que a Padroeira tomasse contados nossos filhinhos, pois Deus velaria por nós. E assim, principiou a nossa viagem ao Rio.

Foi assim que Jacaré registrou a partida em seu diário de bordo.

“A bússola só serve para atrapalhar a gente… cada porto tem uma estrela para guiar os jangadeiros”

Foi o que disse Tatá aos jornalistas antes da partida. A viagem pelo Ceará transcorreu sem maiores problemas a não ser quando passam ao largo de Iguape, por causa de um “sudoeste miserável”, tiveram que ficar “bordejando” a noite inteira.
Natal, RN

“Em Natal, as festividades assumiram maior proporção e parecem tem enchido os pescadores de orgulho. Tiveram direito a várias regalias, como hospedagem por conta do governo e passeios de carro com visitas a pontos turísticos.”

A transformação de Jacaré

Jacaré, ao sair, pensava levar reivindicações dos pescadores cearenses. Ao se ver a situação de seu colegas em cada parada, aos poucos mudou de ideia:

Quando saí de Fortaleza pensava que só fossem pobres os jangadeiros do Ceará, mais comprovei que pobres são, também os pescadores dos outros estados os quais não têm casa, nem remédios, nem escolas. Eles me pediram e eu levo mensagens suas para o presidente Getúlio Vargas solicitando auxílio. Hoje já não somos mensageiros apenas dos pescadores do Ceará. Somos mensageiros dos pescadores de todo o norte.

De Natal a Cabedelo

“A viagem de Natal a Cabedelo foi outro “pedaço duro”. Navegaram todo o dia de 4 de outubro, a noite inteira e mais quatro horas do dia seguinte.”

Jacaré anotou em seu diário, muitas vezes não escrito por ele, um semi-alfabetizado, mas por outras pessoas que ouviam as histórias:
Os nossos companheiros tudo fizeram por nós. Ofereceram roupa, comida, dinheiro e queriam que a gente ficasse pelo menos dois dias junto deles. A jangada foi carregada por eles até a praia.

Recife e Maceió

As próximas paradas foram Recife e Maceió, onde se sucederam mais festas, segundo anotou Jacaré. Ao descrever a entrada no Palácio do Governo de Pernambuco anotou:

"entramos os pés cheios de lama o interventor não reparou nisso..."

Bahia

O temporal foi em Canavieira. Era quatro hora da tarde quando começou o temporal. Não deu tempo nem de nós chegar na costa e então a chuva e o vento batia e ai passemo o resto da tarde até o outro dia, até as 9 hora da manhã, quando o tempo miorou. Chegando nas praia de Canavieira dirigi-me àquela povoação e uma senhora me disse que ‘aqui ninguém dormiu’. Mas porque? ‘Porque todo mundo está fazendo promessa para que nada acontecesse aos jangadeiros’. Uma muié passou a noite dando uma surra no filho para que ele rezasse por nós.

Espírito Santo

“De Vitória, os jangadeiros queriamir direto para Cabo Frio, última escala da São Pedro, mas um erro de cálculo os levou a Macaé. Na Praia das Conchas.”

Cabo Frio, RJ

“A última etapa trouxe mais sacrifícios. Em Cabo Frio, um “sudoeste” que soprava há 48 horas, acompanhado de mau tempo, criou dificuldades para a partida. Os jornais dos dias 14 e 15 de novembro noticiavam que vários navios estavam impossibilidades de sair por conta do tempo. Mas, a pedido de Vargas, os jangadeiros foram para o mar, a fim de presentear o Presidente e o Estado Novo no dia de aniversário da República. Saíram de Cabo Frio ao meio-dia, do dia 14 de novembro.”

Na Capital Federal

“Às 11 horas do dia 15, aniversário da República, uma “flotilha” de barcos da Federação dos Pescadores do Rio partiu do Cais do Entreposto de Caça e Pesca para esperar a São Pedro.”

A saga de Jacaré e a jangada São Pedro no Rio. ( Foto: http://mardoceara.blogspot.com.br)

“Por volta das 17h50m, em meio aos barcos cariocas, surgiu a vela branca da jangada cearense, entrando finalmente na Guanabara, sob olhares curiosos de uma multidão que se distribuía entre o Cais e a Avenida Rio Branco.”

“Nessa hora, os navios de pesca ancorados tocaram suas sirenes. Os carros, estacionados nas proximidades, acionaram suas buzinas. Mais de perto podia-se ver o semblante assustado dos quatro lobos do mar. Foi uma apoteose.”

” A jangada cabocla e seus tripulantes foram elevados por um guindaste até um caminhão, que percorreu, sob uma chuva de papéis picados, a Avenida Rio Branco, seguindo em direção a Praça Mauá.”

O encontro com o ditador

Pouco depois, ainda no dia da chegada, Jacaré e seus amigos estiveram do Getúlio Vargas a quem expuseram a situação de calamidade que conhecemos. Mais uma das muitas provas que este site vem falando: por mais que se faça, se fale, se escreva, ou se mostre na TV, a maioria da população não se liga nos problemas do litoral. Sem pressão da opinião pública, com bem sabia o sábio jangadeiro, não há força para mudar a situação de deus- dará que persiste até hoje.

Jacaré vira sensação

A imprensa deu ampla cobertura ao “raid”. Os jangadeiros também deram depoimento às rádios. “Em entrevista a Mario Grazini, da Rádio Cruzeiro do Sul, quando perguntado se gostaria de dizer mais alguma coisa, diz não tem nada a dizer porque “a cachola já num funciona”. O locutor insistiu:”

Então home deixe eu dizer: o maior prazer que senti na minha vida foi me dirigir ao presidente da República porque eu fiquei ombro a ombro com ele. E ainda me lembro que parece que alguém dizia que quando eu chegasse aqui o presidente não me ligava importância. Que era golpe errado que nós ia dá. Quando chegar a Fortaleza não procurarei vingança com ninguém. Vou procurar ser amigo de todos aqueles que roubava o meu dinheiro e que muitas vezes quando eu dizia que respeitasse a lei da pesca, o código da pesca, mandavam era me prender. É a autoridade superior a essas pessoas que eu me dirigi e ele me arrecebeu…

Jacaré no rádio.

O Estado Novo e aproximação com os Estados Unidos

A notícia do feito de Jacaré foi longe. No artigo Four Men on a Raft (Quatro Homens numa Jangada), a revista Time (8/12/1941) reproduziu toda a odisséia. E despertou ninguém menos que Orson Welles, “que viria ao Brasil num projeto, inicialmente maior, de aproximação dos Estados Unidos com a América Latina.” Além de filmar o carnaval do Rio em 1942, o diretor de Cidadão Kane quis registrar a saga de Jacaré. As primeiras filmagens aconteceram em Fortaleza. De lá os quatro foram novamente ao Rio de Janeiro, para as filmagens da chegada da São Pedro.

Foto: https://fabricioasgomes.wordpress.com

Orson Welles vem filmar a saga de Jacaré

“As cenas finais estavam programadas para acontecer na Praia do Golfe, perto da Barra da Tijuca, na semana de 19 de maio de 1942. Nesse dia havia grande cerração, os jangadeiros foram convidados pelo diretor a seguirem em um a lancha a motor. Recusaram, afirmando vaidosos já estarem acostumados a mares “tormentosos quanto mais brumosos”.

A saga de Jacaré e a jangada São Pedro. Orson Welles e pescadores no Ceará

O Naufrágio e a morte trágica de nosso herói

“Welles e sua equipe seguiram de carro. A frágil embarcação foi atrelada por um cabo de ferro à lancha. O mar estava agitado e a cerração dificultava a visão. Não avistando Welles na praia, passaram adiante do local combinado, chegando na Barra da Tijuca. De repente, uma onda rompeu o cabo que unia a jangada à lancha, virando a São Pedro e atirando nas profundezas seus quatro tripulantes. Jerônimo, Tatá e Manuel Preto, emergindo com esforço, enxergaram Jacaré tentando vencer as fortes ondas. E ainda conseguiram ouvi-lo gritar para que nadassem e fossem para a costa. Obedeceram, pela última vez…. Jacaré partia, para sempre, em sua última viagem, deixando a velha jangada São Pedro destroçada pelas ondas da Barra daTijuca.”

Essa foi a triste saga de Jacaré e a jangada São Pedro.

O filme It’s All True

Apesar de ter nome, Welles morreu sem edita-lo. Tempos depois It’s All True – Baseado em Um Filme Inacabado de Orson Welles foi editado e refaz a história da saga, com depoimentos do próprio Welles, da equipe técnica e de personagens da trama.

Conclusão

A transformação que aconteceu com Jacaré durante a viagem, isto é, o reconhecimento que a pobreza não era só dos pescadores do Ceará, foi a mesma que sentiu este escriba ao fazer a primeira viagem pela costa brasileira, para o levantamento que se tornou série de TV e livro. Sai com uma ideia do que iria encontrar, já não muito boa. Voltei horrorizado pelo que vi. As condições eram muito piores. Miséria das populações nativas, ausência de políticas públicas, falta de peixes e crsutáceos, depredação e ocupação desordenada da costa, desaparecimento de habitats, etc.

Revendo a saga de Jacaré

Revendo a saga de Jacaré fica ainda mais claro o quanto não avançamos. A situação dos pescadores nativos é dramática especialmente, mas não apenas, no Ceará. Por falta absoluta de políticas públicas não há mais lagostas no estado que já foi o maior produtor do Brasil. O pouco que sobra continua a ser predado por pescadores em desespero que se arriscam com equipamentos rudimentares, pescam de mergulho, o que é proibido, correndo risco de morte ou ficarem aleijados como muitos já estão. E continuam tirando do mar lagostas abaixo do tamanho mínimo sem dar tempo dos estoques se recuperarem. Inexiste fiscalização no litoral do país. E os atravessadores estão, como antes, atormentando os pescadores de hoje. Nada mudou nesse ponto.

A piúba, ou pau-de- jangada

A piúba que, como vimos, já era rara nos anos 40, sumiu de quase todo o Nordeste. O pouco que sobra fica no sul da Bahia. As jangadas de pau hoje são raras em quase todo o Nordeste. Estão ameaçadas de desaparecer. 

Fontes
Fonte principal: http://www.historia.uff.br/stricto/teses/Tese-2007_ABREU_Berenice-S.pdf.
Secundárias: http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/cidade/70-anos-da-travessia-de-jacare-o-que-mudou-1.737640; http://revistamarina.com.br/index.php/2015/05/jacare-jeronimo-tata-e-mane-preto-sobre.html; http://mardoceara.blogspot.com.br/2015/10/do-mar-ao-museu-saga-da-jangada-sao.html; http://mardoceara.blogspot.com.br/2015/10/do-mar-ao-museu-saga-da-jangada-sao.html; http://revistamarina.com.br/index.php/2015/05/jacare-jeronimo-tata-e-mane-preto-sobre.html.

terça-feira, 24 de abril de 2018

MAR-CAIS


Do Lengo D"Noronha
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OLHANDO ILHAS, ESPERO...

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MAREGRAFIAS

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VAMU RAPAZI

" Esse ano a missa do primeiro de maio vai ter uma ponta de tristeza. O seu Getúlio não estará no comando, organizando a banda, arrumando os santinhos, dando ordem na procissão. Ele foi quem criou esse evento para juntar os pescadores e para celebrar o início da pesca artesanal, quando as canoas à remo saem dos ranchos e galopam o mar em busca da tainha. Bem no dia do trabalhador, já que os Pedros do mar são isso mesmo, trabalhadores que, com a força das mãos e o atinado dos olhos, buscam e cercam os peixes que enfeitarão a mesa e matarão a fome.

Há 13 anos que o primeiro de maio é assim no Campeche, uma festa religiosa/místico/popular. Ali cabem todos os que amam essa comunidade valente, sempre pronta para os embates. Café da manhã quentinho com bolos e cucas e depois a caminhada com São José, Maria e Jesus, a família santa dos cristãos. E no meio da missa se misturam a fé católica com as batalhas pagãs, porque seu Getúlio entendia que aquele era um dia para todos. Mesmo os adversários políticos fazem uma trégua e se toleram naquelas horas de celebração.

Seu Getúlio encantou no ano passado, mas a tradição não vai se perder. Em homenagem a todo o seu legado todos nós acorreremos à praia para render graças pelo início da pesca. cada um com seu credo, cada um do seu jeito e todos juntos pelo Campeche.

Na praia, que é nosso coletivo quintal, cantaremos, nos abraçaremos, sorriremos uns para os outros, e festejaremos a vida. A alegre algaravia criada pelo querido maestro/pescador vai seguir acontecendo. E sob sol ou chuva, pediremos proteção à Virgem, à Iemanjá, aos deuses e deusas das águas. E no frescor da manhã veremos o seu Getúlio, com seu passo lento e olhar desconfiado, esboçando um tímido sorriso, feliz por estarmos todos ali, com ele, por ele. Vai ser bonito. Não faltaremos!

No dia do trabalhador esperamos todos na praia. Começa as nove horas e vai o dia todo.