quinta-feira, 19 de setembro de 2019

MULHERES DO MAR






Mulheres lutam por mais direitos na pesca
A atuação das trabalhadoras do mar no litoral catarinense amplia o debate sobre a igualdade de gênero

Texto e Fotos: Pedro Stropasolas e Vitor Shimomura

A neblina a todo o momento descansa e a planície da Baía da Babitonga, em São Francisco do Sul, vaporiza lentamente enquanto Tina, protegida sob o rancho de madeira da Praia do Mota, relembra do início na pesca. “Me apaixonei pelo mar quando era muito jovem, ainda criança. Com 15 anos já tarrafeava em toda a Baía de Guaratuba. Eu era conhecidíssima, a menina dos Botos. Eu vivia nadando com os Botos. E assim foi minha vida até uma certa idade, pescando e amando o mar”.

Em Santa Catarina, a mulher depende do mar e vive dele: cria-se na areia, cheira a peixe e entranha-se de salitre. Cristine Lançoni, a Tina, de 51 anos, representa a classe de pescadoras que vem ampliando o debate sobre a discriminação de gênero na atividade pesqueira e cobra do governo ampliação das políticas específicas para a mulher da pesca. Atualmente, segundo a Federação dos Pescadores do Estado de Santa Catarina (Fepesc) existem 41.000 pescadores cadastrados nas 38 Colônias de Pescadores do estado — órgão de classe para trabalhadores do setor artesanal da pesca reconhecido pela Lei 11.699/2008. Do total, cerca de 20% são mulheres, sendo apenas 5% embarcadas, ou seja, que realizam a atividade em alto mar.

Nesta época de frio reaparecem os homens encasacados em conjunto no areal, esperando e vigiando o mar da Praia do Capri, em São Francisco do Sul. No horizonte o contraste é nítido entre as bateras — pequenas embarcações com até sete metros — de pescadores artesanais e as embarcações de carga, atracadas em frente ao porto. Quando pressentem o cardume, os pescadores dão sinal a outros postados para que acudam os cercos e puxem o peixe fresco para a orla. Mãezinha, acompanhada das quatro irmãs, é uma que ajuda na puxada, orienta, brinca e desenrola as tainhas da rede. Com 14 anos, Maria da Graça Araújo Castilho entrou no ramo pesqueiro auxiliando a família na limpeza do Baiacú — cerca de 200 a 300 kg por dia. “Pescador é aquele que levanta cedo para levar seu sustento para casa. Mas homem que chega em casa e ainda pede para mulher limpar o peixe para ele comer, isso não é pescador. Tem muitos homens que respeitam e muitos que não respeitam a força de vontade da mulher de pescar”.

Para Rose Gerber, Antropóloga e representante da equipe da Gerência de Extensão Rural e Pesqueira (GERP) da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (EPAGRI), as mulheres pescadoras, em geral, tem muito claro que a vida é passageira, o que torna a fluidez no ato de se locomover uma característica inerente à atividade pesqueira. Rose realizou, em 2009, a pesquisa Mulheres e o Mar: Pescadoras embarcadas no litoral de Santa Catarina, sul do Brasil, no doutorado em Antropologia Social da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), retratando o cotidiano de 22 pescadoras catarinenses que exercem o ofício em alto mar. O trabalho teve o objetivo de redefinir os conceitos da atividade, marcado pela invisibilidade dessas trabalhadoras em relação às políticas sociais.

Zenaide, pescadora, tem dificuldades em lidar com o machismo em sua profissão

“O machismo continua até hoje. No meio de 200 homens, eu sou a única pescadora a puxar rede de tainha”

“Para mim, arrumar um lugar na pesca foi uma conquista grande porque, no Brasil, o machismo continua até hoje. No meio de 200 homens, eu sou a única pescadora de puxar rede de tainha”, conta Dona Zenaide em meio a uma revoada de gaivotas e urubus que devoravam pedaços de peixes. Em todo o vasto areal que se estende na Praia do Pântano do Sul, em Florianópolis, a pesca é de arrasto, que exige uma grande rede, braços experientes e prazer de estar à beira-mar. “Eu fui a mais metida de todas e recebi críticas de mulher macho porque gostava de ver a pesca. Essas coisas de machismo vai mudando e podando o homem. As mulheres também são homens. É uma cultura que não se tira de uma hora pra outra”.

Por todo o litoral catarinense, quem vive da pesca mora em barracos com aspecto rústico, de madeiras por pintar e telhas de zinco. Na Praia do Canto dos Ganchos, Dona Naca divide espaço do seu rancho com barcos, montantes de redes, pedras vistosas e uma porção de gatos que se emaranham pelas redes como peixes em dia de fartura. Em pé no rancho que leva seu nome, a pescadora elabora uma rede de espera, conhecida como “feiticeira”, remendada por três panos e famosa por sua grande eficiência: tudo que entra nela, não sai. Com a fala pausada e rouca, Naca conta sobre a experiência de estar em alto mar, rodeada de homens, e ter que mudar seu comportamento para fazer parte da comunidade. “Lá no mar eu sou homem porque eu não posso me comportar como mulher. No meio deles, os sinais e o vocabulário são iguais, como se fossem de homem para homem”. Por conta do forte predomínio masculino na atividade, Rose Gerber também conviveu com casos de machismo. A antropóloga relembra quando pediu para um dos pescadores descrever o trabalho da mulher. “Ele falou, como um elogio: ela é um homem, é um animal, não falta, não reclama, tem o jeito para a pesca. É nota mil”.

O reconhecimento da identidade como pescadora é um dos impasses que envolvem a participação da mulher no segmento. Rose Gerber considera que o mercado e as instituições ligadas a essas trabalhadoras, como o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), partem do princípio que elas não existem. Na pesca, o homem geralmente é o mestre da embarcação e ela a “camarada” — pescadora de apoio que auxilia tanto nos serviços em alto mar como no processo de manipulação e comercialização do pescado. Quando se inicia o defeso, paralisação temporária da atividade pesqueira para preservação de espécies, é concedido aos pescadores considerados profissionais pelo INSS, o Seguro Desemprego do Pescador Artesanal (SDPA) — benefício de um salário mínimo que inclui somente as pessoas que “trabalham em regime de parceria, meação ou arrendamento, em embarcação de pequeno porte” ou aquelas que “sem utilizar embarcação pesqueira, exerce atividade de captura ou de extração de elementos animais ou vegetais na beira de beira do mar, rios e lagoas”, como é o caso do maricultor e do caranguejeiro. Para a antropóloga, no entanto, a pesca é “todo o processo de retirar, limpar, eviscerar, transformar e vender. É a extração de produtos do mar, da lagoa, do rio, até a preparação para a comercialização”.

No INSS, os pescadores artesanais recebem a denominação de Segurados Especiais, categoria daqueles que exercem com exclusividade a atividade pesqueira e a utilizam para a subsistência, de forma independente ou incorporados a um Regime de Economia Familiar — quando membros de uma mesmo família são estruturados de forma colaborativa, sem a participação de empregados. Mesmo não tendo direito ao SDPA, a classe de pescadoras que exercem trabalhos em terra e que atuam no processamento da pesca artesanal pode ter acesso a outros auxílios previdenciários, como o auxílio doença, licença maternidade e aposentadoria, porque, neste caso, são incorporadas ao grupo dos Segurados Especiais. Para receber os benefícios da Previdência Social, porém, estas pescadoras artesanais devem apresentar documentos que comprovem o exercício profissional da atividade, como a Carteira de Pescador Profissional e o documento da embarcação registrado pela Capitania dos Portos.

Jeferson Dosin, Especialista em Normas e Gestão de Benefícios da Superintendência Regional Sul do INSS, explica que é comum as pescadoras de apoio utilizarem os documentos do marido — ou companheiro — para requerer os benefícios, pois boa parte delas não possuem embarcação e não estão inscritas nas Colônias de Pescadores. Para Jeferson o servidor do INSS funciona apenas como um verificador do sistema de registro que a pescadora possui no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). É através do Registro Geral da Pesca (RGP), desenvolvido pelo MAPA e alimentado pelas Colônias, que o INSS avaliará o acesso das pescadoras aos benefícios previdenciários.
A pescadora Mãezinha, ao lado da irmã Zenite, participa da divisão de tainhas na Praia do Capri, em São Francisco do Sul

Com o governo interino de Michel Temer, as atribuições do extinto Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), como a emissão da Carteira de Pescador Profissional, foram encaminhadas para a Secretaria de Aquicultura e Pesca, que pertence ao MAPA. Segundo o presidente da FEPESC, Ivo da Silva, é urgente a melhora do planejamento da pesca marinha por parte do MAPA. Para ele, o maior desafio da instituição é reconstruir o sistema de coleta de dados, além de criar uma política específica que fortaleça as pautas pesqueiras em todo o estado. “Não temos nada no Estado e somos o maior produtor de pescado do país. No ministério da Agricultura, não foi criado um departamento para estatística. Então eles não têm controle nenhum. Por exemplo, na Confederação Nacional dos Pescadores e Aquicultores, nós temos catalogados cerca de 1 milhão e 400 mil pescadores. Se você pegar o cadastramento do Ministério da Agricultura, esse número não vai chegar nem a 800 mil. É uma falta de organização total”. Hoje, Santa Catarina é o maior produtor de pescado do país. Estima-se que 70% do pescado produzido no país é proveniente somente da pesca artesanal, segundo o Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais (MPP).

Fundada em 2005, a Articulação Nacional das Pescadoras do Brasil (ANP) surgiu pela necessidade de reconhecimento das mulheres como atores sociais importantes na produção pesqueira do país. No estado, a atuação da ANP é concentrada nos territórios pesqueiros do Complexo Lagunar do Sul de Santa Catarina, na região de Laguna, composto por oito lagoas. Maria Regina Neura Passarella, aposentada com mais de 35 anos de atividade pesqueira e uma das lideranças da ANP no estado, conta que uma das dificuldades é a incapacidade de se levar a discussão sobre os direitos das mulheres pescadoras em relação aos benefícios previdenciários e às condições de saúde para outras regiões do litoral catarinense.

Tina é uma das lideranças femininas catarinenses lutando por direitos que as pescadoras ainda não têm

Segundo a articuladora, as pescadoras são marginalizadas nas próprias colônias de pesca, tendo dificuldades em ter direito à voz. “Em questão de gênero, perdemos em qualquer atividade, nossas colônias não são governadas por mulheres pescadoras, especialmente aqui no sul. Muitos acreditam que elas nem existem”. Tina acredita que “para a mulher ter voz, às vezes ela tem que ser meio rude. E vou ser bem sincera, você tem que lutar e gritar e bater o pé muitas vezes, senão você chega lá e não vai para frente”. Em São Francisco do Sul, as trabalhadoras da pesca vêm se mobilizando para fomentar direitos, que antes eram exclusivos ao homem. “Estamos pedindo dentista para as crianças e para nós porque o pescador sempre está na nossa frente. Tem curso para pescador, mas não tem para pescadora. Mas ela também tem o direito de fazer o curso de pescador, de elétrica, de motor. Não é verdade? Então temos que nos unir e ir pra frente”.

Uma boa oportunidade para abranger e mobilizar mais mulheres no estado será com as atividades do Projeto de Educação em Saúde do Trabalhador da Pesca Artesanal e Formação de Agentes Multiplicadoras em Participação na Gestão do SUS, no mês de dezembro, em Laguna. As pescadoras receberão informações sobre o Sistema Único de Saúde (SUS) e acerca das doenças laborais a partir de um conceito ampliado de saúde, que insere questões de alimentação, educação, meio ambiente, habitação, entre outros. O objetivo é que as mulheres tenham condições de atuar organizadamente para melhorar as condições de vida, de maneira a evitar acidentes e doenças relacionadas ao trabalho. O projeto, que surgiu de uma parceria envolvendo ANP, Ministério da Saúde, Universidade Federal da Bahia (UFBA) e o Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP), foi iniciado no final de abril com uma oficina realizada em Remanso (BA) e prevê a realização de outras 10 oficinas com pescadoras de 16 estados brasileiros. A expectativa é beneficiar 450 pescadoras diretamente.

Desde criança estas trabalhadoras têm o corpo modificado: perdem em agilidade e equilíbrio, a pele enruga, os músculos atrofiam e o ar entra seco. A rotina de trabalho das pescadoras envolve riscos à saúde em função de Lesão por Esforço Repetitivo (LER) e pela exposição ao sol — que podem causar o câncer de pele, dermatites e o envelhecimento precoce. Além disso, podem vir a desenvolver problemas ginecológicos em razão das horas que passam em contato com águas poluídas e enlameadas. Em relação aos homens, as mulheres, em geral, adoecem mais rápido, pois são submetidas cotidianamente não só aos serviços relacionados a pesca, mas também às tarefas domésticas. Maria Regina conta que existem muitos casos de mulheres com membros atrofiados e problemas de coluna, especialmente na região de Laguna, e a maioria delas não tem conhecimento da gravidade. Para a articuladora, as doenças ocupacionais, relacionadas ao esforço repetitivo a partir do trabalho da pesca, não são reconhecidas pelo INSS.

O procedimento para que seja reconhecida uma doença ocupacional, de acordo com o INSS, envolve a realização de uma perícia médica a partir do requerimento do assegurado. Na prática não basta a trabalhadora estar doente, é necessário que a doença tenha relação direta com a atividade que é exercida. Somente desta forma ela poderá receber o auxílio-doença, benefício concedido quando é comprovado que a pescadora está inapta para o exercício profissional. Para a ANP, o que dificulta o acesso das pescadoras ao benefício previdenciário é a ausência de estudos e notificações sobre as especificidades das doenças laborais relacionadas à atividade pesqueira.

De perto, as pescadoras sempre acompanharam o mar. Conhecem sua voz, a mistura de seu hálito e a luz viva que recai sobre ele toda manhã. Vivem dele e com ele dividem histórias para vida inteira. “No jogo de inversão que elas próprias se constituem, entre família, marido e casa, tudo consegue ser atendido graças à fuga momentânea que o mar propicia. Outras viam o mar como um espaço para recuperação da sanidade, do equilíbrio e da vontade de viver diante dos problemas enfrentados, como situações de violência e perdas”, comenta Rose Gerber.

(Do https://medium.com/@zeroufsc/)

INCLUSÃO NO MAR

Escola de marinheiros de Santa Catarina disponibiliza passeios de bote e outras atividades.

"Marinheiro por um dia" para pessoas com deficiência

A EAMSC (Escola de Aprendizes-Marinheiros de Santa Catarina) está promovendo a inclusão social de pessoas com deficiência para realizar no dia 19/09 o evento “Um Dia de Marinheiro para Pessoas com Deficiência”.

Dentre as atividades estão: 
Oficina de Apito 
Oficina de Nós de Marinheiro 
Oficina de Experimentoteca 
Navio de Pedra 
Capela 
Corredor de Navio 
Passeio de Escaler 
Passeio de Bote 
Cabo de Guerra 
Faina de Transferência de Carga Leve 
Praça de Canhões 
Ginásio de Esportes 
Confraternização 
Cerimonial à Bandeira 


*O evento acontecerá no dia 19 de setembro das 14h às 16h30 na Av. Marinheiro Max Schramm, nº 3028 – Jardim Atlântico, Florianópolis.


Contato: (48) 3298-5072 / eamsc.nas@marinha.mil.br

MAR DE POETA

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O MAR
Antes que o sonho (ou o terror) tecesse
Mitologias e cosmogonias,
Antes que o tempo se cunhasse em dias,
O mar, sempre mar, já estava e era.
Quem é o mar? Quem é aquele violento
E antigo ser que rói os pilares
Da terra e é um e muitos mares
E abismo e resplendor e acaso e vento?
Quem o olha o vê pela primeira vez.
Sempre. Com o assombro que as coisas
Elementares deixam, as charmosas
tardes, a lua, ou fogo de uma fogueira.
Quem é o mar, quem sou? Isso saberei
No dia seguinte da minha agonia.
Jorge Luis Borges
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

CAMINHOS...

Foto Fernando Alexandre

MAR DE PIRATAS

O porto de Lisboa, gravura de Theodore de Bry. 1595.

Piratas que atormentaram o litoral do Brasil 

Por

O mundo de 1500 estava sedento por descobertas. Depois do torpor dos dez séculos da ‘era das Trevas‘, o povo queria novidades. Havia dois anos, 1498, que o caminho fora ‘aberto’; a Europa, finalmente conectada com o Oriente, marcou o início do que conhecemos como globalização. Lisboa passa a ser o centro do mundo civilizado. No mesmo período, as caravelas lusasarribaram em Porto Seguro. Não deu outra. A porção de terra que nos abriga virou coqueluche. Três anos depois, chegava o primeiro penetra na festa dos trópicos, o francês Binot Paulmier de Gonneville. O normando armara o navio, ‘l´Espoir de Honfleur (1503 – 1505)‘, para comerciar diretamente nas Índias. Neste período o Brasil atraía piratas aos magotes.

Mau tempo no Cabo da Boa Esperança

Gonneville enfrentou tanto mau tempo que não conseguiu atravessar o Cabo da Boa Esperança. Obrigado a dar meia volta, resolveu xeretar a costa recém “descoberta”. Em 5 de janeiro de 1504 veio dar na baía de Babitonga, onde hoje fica São Francisco do Sul, litoral norte de Santa Catarina. Ali, no bem bom, ao lado dos moradores nativos, os Carijós, os normandos sararam sua feridas. Ficaram amigos dos índios. Devem ter vivido uma bela farra. Na volta, quase um ano depois, Gonneville abarrotou o porão de seu navio de pau- brasil, aves e animais e, não satisfeito, levou também o pequeno Iça- Mirim, filho do cacique carijó, Arosca. Que cabeça tinha o garoto, não? De uma hora pra outra, sair do estado selvagem e partir para a França, é uma aventura ainda maior do que a de quem veio! O rapaz era ainda pequeno, foi acompanhado de um índio adulto, de nome Namoa.


Vinte Luas

O combinado entre Gonneville e Arosca era devolvê-lo em 20 luas. Mas a viagem de volta foi o cão. Alguns tripulantes morreram, entre eles Namoa. Iça- Mirim também adoeceu. Ficou num estado tão lastimável que Gonneville resolveu batizá-lo a bordo, para que não morresse pagão. Ele se esforçou o máximo que pode, mas não conseguiu pronunciar Iça- Mirim. Nosso herói se tornou uma corruptela: Essomeriq. Ao se aproximar da costa da França, o navio foi atacado por um corsário inglês que roubou tudo que os navegadores trouxeram de terra. Inclusive, e mais importante, o diário da expedição. Em sua chegada a Honfleur, DeGonneville imediatamente fez uma queixa diante do Tribunal do Almirantado da Normandia e escreveu um relatório de sua viagem. Vem deste texto as histórias que agora relembramos.
Essomeriq: da Babitonga para a corte


Conta a história que, não conseguindo trazê-lo de volta, Gonneville empresta seu nome à Essomeriq, mais tarde casou-o com a filha (outras fontes dizem sobrinha), Suzanne. Ao morrer, lega ao carijó parte de suas posses, desde que ele e seus descendentes usassem seu nome e suas armas. Conta a história que ‘Essomericq teve 14 filhos, ele viveu 95 anos no verde da Normandia’.


Descendente de Essomeriq no Brasil?


Essa história sempre me fascinou. Ficava imaginando a cabeça do indiozinho que topou subir naquela ‘nave’ parada em sua baía. E de lá navegar para a Normandia em 1505! Como terá sido o primeiro encontro na corte? O que terá passado na cabeça de nosso herói? E como terá sido sua vida, já que descendentes nos dizem que morreu aos 95 anos, com 14 filhos?

Miniuatura do l’espoir, Museu do Mar, São Francisco do Sul.

No início desta Primavera, a Folha de S. Paulo respondeu. O jornal publicou matéria contando da visita que nos fazia a francesa, Dorothée de Linares, 45, que se dizia descendente de Essomeriq. Dorothée veio conhecer a região, fascinada pela história que diz ouvir desde sempre, para transformá-la num livro infantil. Para tanto mantém um site que agora contatamos.
Thomas Cavendish, terceiro a dar a volta ao mundo


Gonneville não foi o único pirata protagonista do século 16. Dezenas de piratas vieram, entre eles outro notável, o navegador e pirata inglês, Sir Thomas Cavendish, terceiro a dar a volta ao mundo (1586). Numa segunda circunavegação, partiu de Plymouth em 26 de agosto de 1591 com cinco navios. A rota natural do Hemisfério Norte costeava o litoral do Brasil. Nessa viagem, Cavendish infernizou o País. Atacou diversas vezes. Incendiou construções de Ilha Grande, aprisionou navios, fundeou em Ilhabela, de onde ordenou a destruição de Santos e São Vicente. Azucrinou. Quem conta é o tripulante…

Mapa da época de Cavendish.


Antony Knivet, em ‘As Incríveis Aventuras E Estranhos Infortúnios de Antony Knivet’


Este livro trata das “memórias do aventureiro inglês que em 1591 saiu de seu país com o pirata Thomas Cavendish e foi abandonado no Brasil, entre índios canibais e colonos selvagens.” Knivet com a palavra: “De tarde, após incendiarmos mais um navio e queimarmos todas as casas (de Ilha Grande, RJ), partimos de lá. Como o vento era bom, mais ou menos às seis horas chegamos à ilha de São Sebastião (Ilhabela), a cinco léguas de Santos, onde ancoramos. Uma vez no porto todos os Capitães e pilotos embarcaram no navio de capitão- mor para saber como pretendia tomar a cidade de Santos.”

O ataque a Santos

“Todos decidiram que nosso barco longo e nossa chalupa com somente cem homens eram suficientes…Knivet: “O piloto português (que haviam capturado em Cabo Frio) contou- nos que aquele era o momento. Pelo tocar do sino estariam no meio da missa. Desembarcamos e marchamos até a igreja, onde tomamos todas as espadas sem resistência.” Havia cerca de 300 homens e mulheres na igreja (era comemorada a Missa do Galo), além de crianças.

Casa do Trem e ao fundo a antiga capela de Santa Catarina, ali reconstruída após o ataque de Cavendish. Aquarela de Benedito Calixto.

O saque a Santos e a destruição de São Vicente

“No dia seguinte o capitão-mor veio com todos os barcos para a barra e logo desembarcou 200 piratas aos quais ordenou que queimassem toda a parte de fora da vila. Então deu ordem para que ateassem fogo em todos os navios ancorados no porto. Permanecemos dois meses em Santos, carregamos nosso navio com açúcar e mercadorias dos navios portugueses que estavam no porto.” A crônica diz que prosseguindo na sua operação de pilhagem, o esquadrão pirata foi por terra até São Vicente, saqueando e queimando todos os engenhos que encontrava pela frente, pilhando e incendiando o vizinho povoado, deixando atrás de si um rastro de ódio e pavor.

Santos e São Vicente em 1615.

“O mar quebrava na popa de nosso navio…”

Depois do castigo imposto, Cavendish segue para para o Estreito de Magalhães. Knivet:“Partimos de Santos para os estreitos de Magalhães com vento favorável e durante 14 dias tivemos tempo bom. Passados dois dias de calmaria, os pilotos mediram suas posições e acharam que estávamos na altura do rio da Prata.” Mas não seria tão fácil assim. A ousadia, e o tempo perdido em Santos, iriam cobrar um preço. Cavendish chegou atrasado na boca do estreito, e pegou tempo desfavorável, “no mesmo dia em que pensamos ter visto terra, um sudoeste começou a soprar e o mar ficou muito escuro, inchado de ondas tão altas que não conseguíamos enxergar nenhum navio da nossa frota, embora estivéssemos próximos. O mar quebrava na popa de nosso navio e arrastava nossos homens assombrados de pavor para dentro dos botes.”
Dois meses de pauleira na região do estreito

Foram dois meses de pauleira brava nas cercanias do estreito de Magalhães. Ali, nas altas latitudes, é comum ventos de 60 a 80 nós (Entre 100 e 140 Km/h). Knivet, que um dia desembarcou para procurar comida, foi pego pelo vento gelado enquanto seu pé havia molhado. Sem roupas para trocar, o marujo conta que, “ao tirar minhas meias alguns dedos saíram junto, vi que meus pés estavam negros feito fuligem e não conseguia mais senti-los de todo. Não mais conseguia caminhar.” Knivet conta que a frota enfim conseguiu entrar: “penetramos ainda mais para os estreitos, apesar do vento contrario e do frio que matou por dia oito ou nove homens de nosso navio.” O mar dava-lhe o troco. “nesse lugar um ourives chamado Harris perdeu o nariz; quando tentou assoá-lo, ele acabou caindo de seus dedos no fogo.”


‘O capitão- mor rumou de volta ao Brasil’

A viagem continuou caótica. A frota se dispersou, um dos navios perdeu o mastro principal e também desapareceu. Sobrou o navio de nosso narrador. Knivet conta que Cavendish rumou para Santos, para tentar encontrar seus pares. Lá ficou por três dias até que parte da tripulação, que havia desembarcado, fora morta como retaliação. Então, decidem voltar para a ‘ilha de São Sebastião’ (ou Ilhabela). No caminho mudam de planos. O portuga preso em Cabo Frio entrega a fraca defesa da Capitania do Espírito Santo, e ‘garante que sem nenhum risco poderiam atacar vários engenhos de açúcar e conseguir boa provisão de gado’. Os piratas ingleses não pensam duas vezes: decidem atacar o Espírito Santo, para onde navegam.
Piratas atacam o Espírito Santo e voltam à São Sebastião

Oito dias depois fundeiam na baía. “O capitão, achando que o português nos desejava trair, sem nenhum julgamento mandou enforcá-lo, o que foi feito imediatamente. Em seguida, escolheu 120 homens, dos melhores que havia em ambos os navios para o desembarque.” Mas desta vez o ataque foi um fracasso. Knivet conta que perderam 80 homens na refrega. Depois da sova, decidem voltar a São Sebastião. Ao chegarem, a primeira providência do capitão foi se desfazer do peso morto: cerca de 20 homens feridos e famintos, inclusive o narrador, foram abandonados em Ilhabela. Durante oito dias Knivet sobreviveu comendo caranguejos. Dias depois, mais 40 homens foram largados em Ilhabela. Finalmente, nosso Indiana Jones do século 16 é feito prisioneiro pelos portugueses e levado para o Rio de Janeiro. A narrativa não para aí. Houve uma série de aventuras em Terra Brasilis, quase dez anos, fugas de canibais, ataques no Rio Grande do Norte, e outros, até que Knivet consegue voltar a Londres onde publica sua saga em 1625.

Por diversas vezes Knivet esteve perto de se tornar banquete.

Caiçaras de pele e olhos claros em Ilhabela

Fica o registro dos desembarques em Ilhabela, justificando caiçaras de pele clara e olhos azuis, não incomuns, naquela ilha. De onde teriam vindo? Agora você já sabe. Os ataques piratas continuaram a todo pano. O país que estava nascendo era a bola da vez. Chamou tanto a atenção que desde 1555 a França havia plantado uma filial de seu país em plena baía de Guanabara, a França Antártica. Voltaremos ao tema, e a mais piratas, em breve.


Fontes: Vinte Luas – Viagem de Paulmir de Gonneville ao Brasil, 1503 -1505, de Leila Perrone- Moisés, Cia. das Letras; https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/10/descendente-de-indio-alcado-a-nobreza-na-franca-refaz-passos-do-parente.shtml; Anthony Knivet, As Incríveis Aventuras E Estranhos Infortúnios De Anthony Knivet, organização de Sheila Moura Hue, ed. Zahar.


(Via https://marsemfim.com.br)

terça-feira, 17 de setembro de 2019

TEM BERBIGÃO NA MASSA!

Foto Ilustrativa
Espaguete com Berbigão
Ingredientes para 4 pessoas:

400 g de espaguete
1 kg de vôngole (berbigão)
1 maço pequeno de salsa
1 dente de alho
pimenta-malagueta seca a gosto
3 colheres de sopa de azeite extravirgem
sal a gosto

Modo de preparo:
Coloque os vôngoles (berbigão) de molho em água salgada por 2 ou 3 horas para que eliminem a areia do interior e outras impurezas, escorra e lave-os em água corrente.
Coloque-os para cozinhar em fogo alto com o azeite, o alho amassado e a salsa picada fininha em uma panela tampada, mexendo de tempo em tempo, até que as conchas estejam todas abertas. Apague o fogo e retire os moluscos das conchas, reservando.
Cozinhe os espaguetes al dente em bastante água com sal. Devolva os vôngoles (berbigão)  para a panela juntamente com o caldo do seu cozimento coado. Escorra a massa e despeje na panela com os vôngoles (berbigão) , mexendo bem por 2 minutos para pegar o sabor. Sirva em pratos individuais decorados com um raminho de salsa fresca. Se quiser, tempere com uma pitada de pimenta seca.

MINHA PRIMEIRA BALEIA

Fotos Perla Harduy Ballena, Español y Mercusur

"Hoy ví mi primera ballena. En la placidez de un amanecer visitado por el viento norte, luego de tantos días del azote del sur, la voz de un vecino me despertó para avisarme de la cercanía de una ballena. Poco importó estar despeinada o con un aliento de león. Salí corriendo al encuentro de la imagen. En silencio miré. En silencio casi ni pensé, sólo sentí. En silencio hablé conmigo misma diciéndome que eso era la vida. Que un pez enorme me mostrara su danza y su maternaje, que pudiera vivir en armonía con los pescadores que pasaban a su lado en sus barcas, casi como saludándose: ESO ERA LA VIDA. Vengo de un país donde también se avistan ballenas, pero de otra manera, un hecho tan natural se ha convertido en un hecho comercial, artificial, económico, digamos: en un objeto, como los tantos que se producen en esta modernidad donde el capital dirige a la realidad. Entonces hoy, recibirlo así, como un regalo de esta naturaleza que no cesa de entregarnos vida, tiene para mí un valor aumentado, pero no por plusvalía. Por eso digo: gracias ballena, gracias Pántano por seguir manteniendo esto como un hecho natural y no turístico. ¡OBRIGADA BRASIL!
(Perla Harduy é psicóloga e escritora argentina, atualmente morando no Pantano do Sul )

QUEM ANDA A NOITE...

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“Quando se anda a noite nunca se deve olhar para o lado direito. Tem que olhar para o lado esquerdo, lado do coração, ou pra frente. Se for olhar para trás, tem que virar todo o corpo, que é pra não ver lobisomem.”
(Dona Lina Alexandre – Lagoa da Conceição, em “Vozes da Lagoa” – Elaine Borges e Bebel Ourofino)

MAR DE POETA

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O mar levantou pro céu
Lavou todas as estrelas
Espelhos das sereias

TARDE INDO...

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, oceano, céu, atividades ao ar livre, água e natureza
Pântano do Sul no clique do Milton Ostetto



OSTRAS LIBERADAS


LIBERADO O CONSUMO DE OSTRAS DA CAIEIRA DA BARRA DO SUL E DA PONTA DO PAPAGAIO

A Secretaria de Estado da Agricultura, da Pesca e do Desenvolvimento Rural anuncia a liberação da retirada, comercialização e consumo de ostras das localidades da Caieira da Barra do Sul, em Florianópolis, e da Ponta do Papagaio, em Palhoça.

As ostras foram liberadas a partir de dois resultados negativos consecutivos para presença de toxina diarreica. O gerente de Pesca e Aquicultura da Secretaria da Agricultura, Sérgio Winckler, explica que ostras e mexilhões se comportam de forma diferente diante da concentrações de algas tóxicas, por isso a desinterdição é parcial. “Existem diferenças nos sistemas de filtração dos moluscos. A ostra concentra menos toxinas, por isso foi possível a sua liberação antes dos mexilhões”.

Novas interdições

A Secretaria da Agricultura anuncia ainda novas interdições nas localidades de Canto Grande e Zimbros, no município de Bombinhas, e Araça, Perequê e Ilha João da Cunha, em Porto Belo. Nessas áreas está proibida a retirada, comercialização e consumo de ostras, vieiras, mexilhões e berbigões e seus produtos, inclusive nos costões e beira de praia. As localidades de Barra e Laranjeiras, em Balneário Camboriú, e Armação do Itapocorói, em Penha, seguem interditadas.

Monitoramento constante

Santa Catarina é o maior produtor nacional de moluscos e o único estado do país que realiza o monitoramento permanente das áreas de cultivo. O Programa Estadual de Controle Higiênico Sanitário de Moluscos é um dos procedimentos de gestão e controle sanitário da cadeia produtiva, dando garantia e segurança para os produtores e consumidores.

domingo, 15 de setembro de 2019

MAREGRAFIAS

Foto Fernando Alexandre

HÁ MAIS...


Há mais marés
que marinheiros...
(Dito Popular)

MAR- CAIS

 Língua Bovina Extra Limpa Big Carnes
sem esperar esperantos
invento esperanças
pra passar a língua no tempo


(Fernando Alexandre)

MARISCOS DO DON PABLO

Foto Duda Hamilton
Porque hoje não é sábado...
Ai vai...

O que precisa

 -1 kilo de Mariscos, pré cozidos e sem casca
-  2 cebolas roxas
- 2 dentes de alho
- 2 tomates médios
- 1 pimentão vermelho médio
- 2 limões galegos...

Fazendo...

 Tudo bem picadinho, para temperar, suco dos 2 limões galegos, uma pitada de vinagre de maçã, azeite de oliva extra virgem, sal pimenta do reino moída na hora e grãos de coentro a gosto. 
Para finalizar um pouco de salsinha bem picadinha, se mistura tudo e se deixa descansar por no mínimo meia hora. 
Comer sozinho ou com uma bolachinha, torradinhas ou pãenzinhos e uma cervejinha bem gelada. 
Buon apetit mon ami!

( Do Pablo Corti, arquiteto de gostosuras e otras cositas más!)

MAR DE PESCADOR

 Instituto de Geração de Oportunidades (Igeof) vai oferecer um curso de formação GRATUITO de pesca artesanal.

Curso gratuito de pesca artesanal : 120 vagas

A capacitação será oferecida pela Capitania dos Portos, entidade parceira dessa iniciativa, que também conta com o apoio do Serviço Nacional de Aprendizado Rural de Santa Catarina e do Sindicato Rural de Florianópolis e Marinha do Brasil. O objetivo é habilitar os alunos com as competências exigidas para a inscrição de Aquaviário na categoria de pescador profissional. Os interessados na oportunidade devem se dirigir até um dos três locais das instituições parceiras, onde vão preencher uma ficha cadastral e também para receber a listagem de documentos necessários para a inscrição: Igeof, Rua Deodoro, 2019, Centro, no 4º andar; Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Florianópolis, Rua Delminda Silveira, 140, Agronômica; ou Colônia de Pesca Z11, Rua Presidente Coutinho, 69, Centro. Com a documentação em mãos, a inscrição definitiva deve ser feita na sede da Capitania dos Portos, na Rua Quatorze de Julho, 440, no Estreito, a partir do dia 16 de setembro até 11 de outubro.

Para este ano serão 4 turmas com 30 vagas cada. A duração do curso é de 30 dias. Os interessados devem estar atentos aos requisitos exigidos: ser pescador artesanal; ser brasileiro ou naturalizado; ter idade mínima de 18 anos completos até o dia da da inscrição e ser aprovado no teste de suficiência física, composto por duas provas de natação.

Após a conclusão e formatura do Curso de Pescador Nível 1, o novo aquaviário estará habilitado para exercer a função de tripulante em embarcações de pesca de qualquer porte e tipo de navegação. Não será permitida a inscrição de candidatos que buscam habilitação para conduzir embarcações nas categorias de esporte e recreio. ”Nosso objetivo é contribuir com a profissionalização desse setor que é tão importante para a economia local e que faz parte da nossa cultura: a atividade de pesca,” comenta o superintendente do Igeof, Yan Santos.

Documentos necessários para inscrição

Para realizar a inscrição, deve ser apresentado fotocópia dos seguintes documentos, acompanhados da via original: carteira de Identidade; CPF, Título de Eleitor; documento de quitação com o Serviço Militar para os candidatos homens com até 45 anos de idade; do comprovante de residência recente de no máximo até dois meses retroativos, que pode ser de água, luz ou telefone. A titularidade pode estar no nome do interessado ou a via original acompanhada de uma declaração de residência.

Também deve ser apresentado o documento de Registro Geral da Pesca ou protocolo de solicitação do registro; Carta/ofício de indicação emitido por uma empresa de pesca ou entidade representativa de pescadores (associação, sindicato, colônia); Atestado médico, que ateste boa saúde física, mental, auditiva e visual; Ficha de inscrição de participante devidamente preenchida (modelo fornecido pelo SENAR) e foto 5×7 com fundo branco e data.

Serviço

O quê: Curso GRATUITO de Pescador Profissional Nível 1;
Quando: A partir do dia 16 de setembro até 11 de outubro;
Onde: A pré-inscrição deve ser realizada no Igeof, presencialmente, das 10h às 12h e das 13h às 18h, Rua Deodoro, 2019, Centro, no 4º andar.

MAR VIVO

Ilha de vegetação em meio à lagoa era flutuante, diz Valtinho – Andréa da Luz/ND

Lagoa Pequena: a lagoinha dos nativos que virou unidade de conservação no Sul da Ilha

Conheça um pouco mais sobre esse ecossistema de restinga que abriga espécies silvestres e resiste à degradação ambiental

ANDRÉA DA LUZ

As histórias da Lagoa Pequena, ou apenas lagoinha como era chamada pelos nativos de Florianópolis, ainda estão bem vivas na memória de Valter Euclides das Chagas, 61 anos, o Valtinho. Natural do bairro Campeche (antigamente conhecido como Pontal), Valtinho é neto dos antigos proprietários da área conhecida atualmente como Novo Campeche.

Do outro lado da avenida, em frente à lagoa, a propriedade era de um tio do
morador que defende incansavelmente a preservação do espaço verde em meio à crescente urbanização. Primeiro intendente do bairro, em 1988, e ex-vereador, hoje trabalha dentro da comunidade como membro do Conselho comunitário do Rio Tavares e em estreita relação com a Amocam (Associação do Moradores do Campeche), da qual já foi diretor.

Nativo da Campina, como era conhecida a região da Lagoa Pequena, entre o Porto do Rio Tavares (ou Cruz do Rio Tavares) e o Campeche, Valter lembra de nadar na lagoinha durante a infância. “A gente nadava pelado para os pais não descobrirem, porque se chegasse em casa com a roupa molhada era puxão de orelha na certa!”, conta. 

Ali, também era local de criação de gado, de roça de mandioca, de engenho de farinha, de lavar roupas e de caçar jacarés – que eram abundantes naquela época. “Os jacarés saíam da lagoa e atravessavam até os fundos da [atual] Pedrita, por onde passava o rio Tavares. A gente comia os jacarés e os ovos deles também. Faz mais de 20 anos que não vejo um por aqui, mas dizem que ainda tem”, pondera.

Ele não é o único que se recorda dos jacarés. O técnico em informática Marcelo Augustus Mocker, 55, natural do Paraná, também morou nas proximidades da lagoa de 1995 a 2009. “Era pasto, dunas e mato. 

Não tinha os loteamentos no entorno do espelho d’água e havia muitos jacarés, que hoje não se vê mais”, diz.

Para Marcelo, não havia a noção de preservação ambiental que temos hoje. “Quando começou a pavimentação da avenida, a ideia era asfaltar todo o entorno, mas houve uma discussão de que iria prejudicar a lagoa. No entanto, nota-se que onde foi pavimentado não houve a expansão imobiliária até a beira da lagoa. E onde não pavimentou, do outro lado, houve uma explosão demográfica que ‘engoliu’ parte daquele ambiente”, analisa.

Engenho e sangradouro

Valtinho aponta a existência de um engenho de farinha onde hoje funciona a sede do projeto de Educação Ambiental da Floram (Fundação Municipal do Meio Ambiente de Florianópolis).

Da estrutura, resta apenas um pilar caído em meio à vegetação. “O engenho foi montado pelo Augusto Alemão, morador do Saco dos Limões, no começo dos anos 1970. Ele comprou o terreno do meu tio, mas logo adoeceu e não chegou a tocar o engenho, que foi se deteriorando com o tempo, sobrando só esse pilar”, conta.

Valter Euclides das Chagas mostra pilar de engenho de farinha na Lagoa Pequena – Andréa da Luz/ND

O avô de Valtinho, Hipólito Bernardino das Chagas, também criava gado e teve engenho perto dali. O estabelecimento foi demolido, mas a casa de Hipólito que era uma das únicas desde a lagoa até a rua Pau de Canela, ainda resiste. “Tudo isso aqui – a região do loteamento Novo Campeche – era área onde meu avô criava gado. Em frente à entrada da lagoa pela avenida Campeche ficava a chamada sangra, onde os bois eram mortos e as entranhas lavadas nas águas da lagoa”, revela Valtinho.

A flora também era outra, sem a presença das braquiárias invasoras (espécie de capim alto presente no entorno do espelho d’água). “Havia árvores mais altas na pequena ilha no meio da lagoa. Eram grandes e dependendo do

vento, soltavam as raízes do fundo e a ilha ia mudando de lugar”, conta Valtinho. Essa história é repetida por alguns moradores da região que brincavam ali quando criança.

Unidade de Conservação

A apenas 14 quilômetros do Centro de Florianópolis, a Lagoa Pequena é o afloramento mais importante do lençol freático da planície do Campeche, no Sul da Ilha. Situada entre os bairros Campeche e Rio Tavares, tem cerca

de 10 hectares e está inserida em um ecossistema de restinga, caracterizada por vegetação arbórea, arbustiva, com trepadeiras e samambaias que se estendem desde as dunas em frente ao mar, passando pelo campo de dunas até a planície arenosa e salina.
Vista aérea da Lagoa Pequena, área de restinga no Campeche, situada entre as dunas e o Maciço da Costeira – Flávio Tin/ND

As modificações ambientais não ocorreram da noite para o dia. Tombada como patrimônio natural municipal em 1988, a Lagoa Pequena sofreu sucessivas degradações até que em 2008 o Ministério Público estadual entrou com uma Ação Civil Pública que resultou na criação de uma área especial ecológica de uso público.

“Ainda assim, o local ficou meio abandonado. Por isso, a partir de 2014, quando houve a readequação do Parque Natural Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição, a área tombada da Lagoa Pequena foi inserida nos novos

limites do parque incluindo áreas de compensação ambiental no entorno, reforçando sua proteção”, explica a chefe do Departamento de Educação Ambiental da Floram, Silvane Dalpiaz do Carmo.

O ecossistema da Lagoa Pequena foi transformado em unidade de conservação com a lei 10.388/18. Sua importância se justifica por abrigar diversas espécies de animais silvestres – como o graxaim, a lontra, o

lagarto-papo-amarelo e o gavião-carijó – por exemplo, além de insetos aquáticos, besouros e outras aves.

O ambiente também impede que o mar e a chuva levem embora toda a areia, serve de local de lazer e contemplação, pesquisa e educação ambiental junto à restinga. Sem falar que é um espaço natural entre o crescente avanço da urbanização.

Embora seja frequentada por banhistas, a qualidade da água não é monitorada pela Floram nem pelo IMA (Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina). Segundo a assessoria do IMA, como está dentro de um Parque Municipal a responsabilidade é do município. O órgão estadual desaconselha os banhos porque não se conhece a profundidade do local e por ser uma área de preservação e proteção.

Privilegiando a vida silvestre

“O foco da unidade de conservação é a recuperação da vida silvestre e da Mata Atlântica, por isso várias atividades são restringidas. As pessoas precisam entender que a presença de animais domésticos, por exemplo, interfere no

equilíbrio dessas espécies. Entendemos que elas queiram passear com seus cães, mas este não é o ambiente adequado porque privilegiamos a recuperação de determinadas espécies nativas que estão sumindo da região”, explica a bióloga da Floram.

O parque se localiza em um importante corredor ecológico que permite a travessia dos animais entre fragmentos florestais ou unidades de conservação, separados por intervenções humanas, como estradas ou áreas agrícolas. Esse deslocamento favorece a troca genética entre as espécies, a dispersão de sementes e o aumento da cobertura vegetal.

No caso da Lagoa Pequena, o corredor faz a conexão entre duas unidades de conservação: a do Parque Natural Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição e a do Parque Natural Municipal do Maciço da Costeira.

No ano passado, outra verba de compensação ambiental resultante da aplicação de uma multa por extravasamento de esgoto sanitário foi utilizada pela prefeitura para a criação do projeto da Base de Educação Ambiental da

Lagoa Pequena.

O trabalho realizado entre Floram, escolas e instituições comunitárias resultou na instalação de um contêiner sede e placas interpretativas sobre o ambiente de restinga e a constituição da fauna e flora da Planície do Campeche. Dispostas ao longo das trilhas do parque, elas permitem uma visita autoguiada.

Na sede, são realizadas atividades pedagógicas para estudantes ou grupos de 15 a 20 pessoas, com agendamento prévio. Também são feitos mutirões e plantio de espécies nativas. “Todo esse trabalho é fundamental para a preservação da lagoa”, avalia Valtinho.


Unidade de conservação abriga também uma paleo-lagoa, mais antiga, com três tipos de vegetação; água fica quase invisível devido à estiagem – Flavio Tin/ND

Veja o que é permitido fazer na Lagoa Pequena

Pode:– contemplar a paisagem e caminhar nas trilhas
– tomar banho
– fazer piquenique (e recolher seu lixo)
– praticar esportes náuticos não motorizados
– fotografar e usar drones desde que não afete a fauna

Não pode:– levar animais domésticos
– pescar
– ouvir som alto
– jogar lixo e entulhos
– alimentar os animais
– acampar
– coletar plantas
– fazer fogo e churrasco
– usar veículos automotores