sábado, 23 de março de 2019

MINHA ILHA?

DESTERRO EM 1786
Minha ilha?

Minha ilha são muitas. Vasto arquipélago de palavras, costumes, cores, belezas e odores. Pedaços desgarrados ansiando, à deriva, sonhando com uma África distante, utópica. Cumprindo sua sina, sua saga. De frente para tudo, de costas para o infinito. Sempre abraçada, envolta pelo mistério profundo das águas, dos mares e oceanos que nos unem e nos separam para sempre.

Minha Ilha ?

Minha ilha ainda é a “”Meiembipe” dos “cariós”, amistoso povo da nação Tupi-Guarani que migrou do chaco paraguaio para cá no século XIII em busca do Atlântico. Primeiros moradores e donos absolutos por cerca de três séculos deste paraíso com mais de cem praias, lagoas, enseadas, muito verde e mar prá tudo quanto é lado. Amistosos e valentes “Cariós” que os primeiros navegadores aqui encontraram – antes mesmo desse tal “descobrimento” de 1500 – e dividiram com eles suas baías e portos seguros, sua água potável e abundante, sua madeira para os reparos nas embarcações, seu milho e sua mandioca. “Cariós” que os “descobridores” insistiram em chamar pejorativamente de “Carijós” (um tipo de galinha), e também em caçar e escravizar até a extinção em menos de dois séculos. Minha ilha continua “carió” no pirão d’água, no caldo de peixe, nas canoas de Guarapuvus, nas redes de pesca, nos balaios, nas palavras, na medicina, no seu imaginário.

Minha ilha?

Minha ilha , com certeza é portuguesa. E também muito açoriana nas 6 mil almas que aqui desembarcaram lá pelos anos de 1750. De ilha para ilha. Desterrados em Nossa Senhora do Desterro. Na memória e na bagagem, uma forte religiosidade, uma rica literatura popular, uma culinária diversificada, rituais, danças, festas. Minha ilha tem bruxas, lobisomens, boitatas. Bruxas açorianas, cariós, contemporâneas. Bruxas que resistem nos costões desertos, nos ranchos de canoa das poucas praias ainda isoladas, no meio de suas matas cada vez mais devastadas, no fantástico imaginário de seus moradores: “...Tosca marosca, rabo de rosca / Aguilhão nos teus pés / E relho na sua bunda / Por cima do silvado e por baixo do telhado / Aqui vamos nós com mil diabos.”

Minha ilha? 

Minha ilha não quer ser Florianópolis. Não quer homenagear nenhum “marechal de ferro” sanguinário, que depois de fuzilar quase duzentos de seus filhos troca o nome da cidade para humilhá-la e espezinhá-la ainda mais. Minha ilha não quer ser Miami. Não quer abrigar esse turismo predatório que transforma tudo numa mesma coisa em troca do dinheiro fácil e rápido. Minha ilha quer continuar sendo diversa e variada, alegre e colorida.

Minha ilha?
Minha ilha tem um povo simples, alegre, que fala “ansim, ansim, cantadinho, cantadinho, num tem?”. Um tal de “manezês”, essa estranha, surpreendente e sonora língua que causa “invejume” em muitos e tá sempre “istrovando” o chamado português culto. Minha ilha é mulher generosa, cortesã que sempre abrigou todos em suas reentrâncias, cantos, encantos e recantos. Todos. Navegantes, desterrados, amotinados, fugitivos, sonhadores.

Minha ilha?
Minha ilha é agora. E aqui.
(Fernando Alexandre)
( Crônica originalmente publicada na revista "Almanaque Brasil", fevereiro de 2000)

NA LEMBRANÇA...


Neri Honorato, do Pantano do Sul, tem 72 anos e pesca desde criança.

NAQUELE TEMPO...


Tia Ilda - como todos nós chamamos aqui no Pântano do Sul - uma das últimas benzedeiras da ilha,  conta causos para a TV Câmara no Escuta Aqui Ó! Direção: Ricardo Vom Busse.

AO MOLHO DE CERVEJA


 

Ingredientes:
1 kg de marisco com casca(s) 
2 lata(s) de cerveja 
180 gr de extrato de tomates 
1 unidade(s) de cebola 
1 dente(s) de alho amassado(s) 
1 maço(s) de cheiro-verde 
quanto baste de sal
quanto baste de pimenta-do-reino branca moída

Preparação:
Limpe bem a casca dos mariscos esfregando-os com uma buchinha. Elimine os que estiverem com a casca quebrada. Lave-os com água fria e reserve-os. Numa panela alta, refogue no azeite a cebola picada em rodelas finas e o alho amassado, até dourar. Em seguida, adicione o purê de tomate, o sal e a pimenta do reino. Cozinhe o molho por 5 minutos, adicionando água de vez em quando para não secar. Em seguida, coloque as duas latas de cerveja, a salsinha e a cebolinha picadas. Cozinhe o molho em fogo alto até levantar fervura, depois diminua o fogo. Experimente o molho e corrija o sal se necessário. Coloque os mariscos na panela e cozinhe-os até as cascas se abrirem (isso leva de 3 a 5 minutos). Em seguida, retire-os do caldo e coloque-os num recipiente. Coloque então, uma concha do molho que ficou na panela por cima dos mariscos e sirva-os quentes. Dica: aproveite o restante do molho que sobrou na panela e adicione farinha de mandioca para mexer um pirão. Sirva com arroz branco.

MAR DE POETA

Vento sul
Leva os sonhos de verão!
A hora de plantar
As sementes de inverno

(Do Hiero Hieronymus Parth)

ANUVIADO

Foto Fernando Alexandre
Pântano do Sul

MAR DE PESCADOR


Conheça uma modalidade de pesca sustentável. O Cerco fixo flutuante foi trazido ao Brasil por japoneses há mais de 100 anos, no Pântano do Sul!.

A VERDADEIRA HISHTÓRIA DA ILHA


LÁ NO FUNDO...


Barco encontrado no fundo do rio Nilo combina com descrição milenar feita por Heródoto


Heródoto foi um dos mais famosos historiadores gregos. Em um de seus livros, conhecido simplesmente como Histórias de Heródoto, o primeiro livro em forma de narrativa que se tem notícia, publicado por volta de 450 aC, o historiador, que estava escrevendo sobre sua viagem ao Egito, descreve um tipo de barco de carga viajando pelo Nilo, chamado baris. Segundo seu relato, a embarcação era construída com alvenaria, forrada de papiro e possuía um leme que passava por um buraco na quilha.

Esse sistema de direção havia sido visto em representações e modelos durante o período faraônico do Egito, mas não havia nenhuma evidência arqueológica de sua existência. Até agora. Um navio naufragado com estas características foi encontrado no fundo do rio Nilo. A embarcação pode ter ficado imperturbada por mais de 2.500 anos, mas agora está finalmente revelando seus segredos – os cientistas acreditam que o achado mostra detalhes da estrutura descrita por Heródoto, cuja existência tem sido debatida há séculos.

A embarcação, chamada de Navio 17, foi encontrado na cidade portuária de Thonis-Heracleion, agora submersa, perto da Boca Canópica do Nilo, datada do Período Tardio, entre 664 e 332 aC. Neste local, os pesquisadores já exploram mais de 70 naufrágios, descobrindo inúmeros artefatos que revelam detalhes impressionantes sobre o antigo centro comercial e sua cultura.
Semelhanças
A parte acima mostra os restos do navio observados pelos arqueólogos, enquanto a parte de baixo é uma projeção do restante da embarcação. Foto: 
Christoph Gerigk/Franck Goddio/Hilti Foundation

Embora esteja na água há pelo menos 2.000 anos, ele está incrivelmente preservado – os arqueólogos foram capazes de observar 70% do casco. As observações mostram que o barco exibe vários elementos descritos por Heródoto em sua visita ao Egito. “Foi só quando descobrimos esse naufrágio que percebemos que Heródoto estava certo”, diz em entrevista ao jornal The Guardian o arqueólogo Damian Robinson, do Centro de Arqueologia Marítima de Oxford.

Um artigo de 2013 já falava sobre as possíveis coincidências da embarcação encontrada no fundo do rio com aquela descrita pelo historiador grego. “As articulações das tábuas do Navio 17 são escalonadas de uma forma que lhe dá a aparência de uma ‘camada de tijolos’, como descrito por Heródoto. As tábuas do Navio 17 são montadas transversalmente por espigões (pedaços de madeira usados para conectar partes) notavelmente longos que podem chegar a 1,99m de comprimento e que passam por até 11 estacas. Essas estacas correspondem às ‘estacas longas e próximas’ da narrativa de Heródoto. Heródoto também menciona a quilha do baris e o Navio 17 tem uma quilha que é duas vezes mais espessa que a tábua e se projeta de dentro do casco”, escreveu o arqueólogo Alexander Belov, do Centro de Estudos Egiptológicos da Academia Russa de Ciências.

Em 450 aC, Heródoto testemunhou a construção de um baris. Ele observou como os construtores “cortavam tábuas de dois côvados de comprimento [cerca de 100 cm] e as organizavam como tijolos. Nos fortes e longos espigões [pedaços de madeira] eles inserem as tábuas de dois côvados. Há um leme passando por um buraco na quilha. O mastro é de acácia e as velas de papiro”, descreveu o historiador.

Descoberta histórica

Nem tudo é exatamente como descrito pelo historiador, porém. Existem algumas inconsistências. A embarcação que Heródoto descreve teria estacas mais curtas, que agiam como “nervuras” que seguravam as tábuas de acácia do casco. Além disso, os baris de Heródoto não tinham armações de reforço, enquanto o Navio 17 possui várias.

Estas diferenças podem ser explicadas se o Navio 17, com cerca de 27 metros de comprimento, for maior que os baris que Heródoto viu em sua viagem ao Egito.

Mesmo com estas pequenas incongruências, porém, os arqueólogos estão extremamente satisfeitos de ter encontrado uma embarcação que se encaixa quase perfeitamente na descrição milenar do historiador grego. “Heródoto descreve os barcos como tendo longas “costelas” internas. Ninguém realmente sabia o que isso significava. Essa estrutura nunca foi vista arqueologicamente antes. Então descobrimos essa forma de construção neste barco em particular e é exatamente como Heródoto disse”, Robinson diz ao The Guardian. 

(Via https://hypescience.com/)

sexta-feira, 22 de março de 2019

TRABALHADORES DO MAR

Foto Fernando Alexandre
Todas as águas!
Pântano do Sul

MAR-CAIS


Foto Júlio D'Acâmpora
Cochilo. Na linha
eu ponho a isca de um sonho.
Pesco uma estrelinha.

(Guilherme de Almeida, "Meus haicais", Poesia vária, 1947)

MATADORES DE PEIXE...


Um ensaio com cheiro de sal e gosto de vento Sul, de Jean Schwartz, sobre a pesca da tainha na Ilha de Santa Catarina. Jean nasceu em Porto Alegre, em 1976. Um fotógrafo autodidata. Mergulhe mais fundo no www.jeanschwarz.com

MAR DE POETA

Foto Fernando Alexandre

noite indo
dia vindo
manhã sendo

(Fernando Alexandre)

BÁSICO & CLÁSSICO

Peixe Frito com Pirão d’Água
500 gr de peixe cortado em postas
2 cs de sal
1 l de óleo ou gordura de porco
200 gr de farinha de mandioca
400 ml de água
Salsinha picada
Limão em gomos

1. Tempere o peixe com metade do sal.
2. Frite as postas no óleo ou gordura quentes. Quando os peixes estiverem crocantes escorra sobre papel toalha.
3. Ferva a água e tempere com o restante do sal. Acrescente, aos poucos, a farinha na água, mexendo vigorosamente até formar um belo pirão.
4. Sirva o peixe frito com o pirão, salpicando tudo com salsinha. Guarneça com limão.

( Receita do Chef Narbal Correa, do recém lançado livro "A cozinha do bom pescador")

MAREGRAFIAS

Foto Fernando Alexandre

TRABALHADORES DO MAR

Foto Fernando Alexandre

VOAR É COM OS PÁSSAROS...



quinta-feira, 21 de março de 2019

NA PRAIA...

 Scott Fitzgerald na praia com Zelda.

MAREGRAFIAS

Foto Fernando Alexandre

JACK O MARUJO


- O sr pensa muita bobagem, capitão?
-Muita. Só assim consigo dizer coisa que preste. Quem fica matutando demais só fala asneira, disse Jack o Marujo.

DE ILHAS, BENZEDURAS E SUTURAS...


Foto Andrea Ramos

“Deus te criou, eu que te benzo e deus te cura”.
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Benzedura
"- Mas você não é médico, porque quer benzer? 
- Tem mal que médico não cura." 

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"Fui visitar uma benzedeira na casa dela no sul da ilha de Florianópolis. Mais de 100 anos de vida, conta-me que aprendeu a rezar com a mãe, mas não porque queria, porque ela quando jovem não queria benzer, queria mesmo é dançar. Dançava muito.

Um dia desses quando moça foi para Cachoeira e estava descansando quando uma mulher veio pedir para ela benzer um menino. Ela disse que não, que não benzia. A mulher disse: "deixa disso que eu sei que tu benze, tua mãe benze". Ela meio que sem graça disse que ia benzer, e assim fez sua primeira benzedura para mal olhado, mas logo avisou "não conta pra ninguém". O menino pegou jeito e logo já estava em todas as bocas. A mãe dela faleceu e ela que só sabe cinco rezas, a de cobreiro, zirpa, calor de figo, empiche e mal olhado. Cobreiro tem que benzer nove vezes e cruzar os pauzinho, adverte e reza. “Sabe o que é calor de figo? É quando desce uma aguaceira pelas canela, assim ó” – e gesticula com as mãos a água descendo das canelas. “Eu não sei benze fungado, mas tô benzendo e tá curando”. No “não conta para ninguém” a fama se espalhou de dançarina para benzedeira, rendeira, mas não parteira, nem macumbeira que ela avisa. O que eu não sei rezar minha mãe ajuda, ela que sabia todas as orações, já rezei até para espinha de peixe. 

- E esse machucado na testa? – pergunto vendo o curativo grande na testa. 

- Ah isso aqui eu cai e machuquei o joelho – ela levanta a calça com o joelho infeccionado e os pontos de sutura muito avermelhados. 

- E não tá doendo? -.

- Não dói não. – eu examino com calor local, secreção. Ela me diz:

- O médico foi tão bonzinho que costurou, eu tava toda cheia de sangue ele não me deixou esperando, disse para eu voltar na sexta-feira para tirar os pontos, mas na última sexta-feira eu não fui, quero tirar só com ele -. 

- Mas era importante tirar os pontos – comento mansamente.

- Mas ele disse que vai resolver o problema da minha pele – ela diz e aponta para o rosto - vou tirar os pontos só com ele -. Penso um pouco. 

- Eu acho que está infeccionado - ela logo me diz – mas eu já benzi, benzedura forte com zirpa, até vi uma rosa branca no meu quarto no final da tarde. 

- Certo, quem sabe vamos fazer assim, eu tiramos aqui os pontos do joelho e na sexta-feira você tira os pontos da testa – que estavam limpos e cicatrizando. 

- Bem que tô sentindo umas ferroada, não consigo dobrar o joelho assim ó – e ela tenta dobrar o joelho, e segue - Vai doer? – . 

- Menos que ter um filho – respondo, ela solta uma risada larga – se é menos que ter um filho eu aguento, tive oito -. 

- Tá combinado? Acho que vamos ter que tomar um remédio por uns dias – explico e olho nos olhos de benzedura. 

- Amanhã de manhã eu vou lá – e ela segue me contando e rindo das histórias de benzedeira.

Um dia ela estava passeando e uma comadre pediu para ela benzer a criança, “eu sei que hoje é domingo mas dá última vez que você benzeu minha filha deu tão certo”. “Domingo eu não benzo, tem muita missa” mas ela disse que “ia benzer escondidinho, por causa da distância”, logo alguém espalhou que ela estava benzendo e teve que benzer uma “porção de menino”. Até as benzeduras que ela não conhece ela já benzeu, “não sei benzer coluna, mas estou benzendo e está curando”. Mas se for mal de carne quebrada encaminho para o Seu Patrício – quase uma rede de benzeduras de plantão. “Vem aqui, benze aqui” e assim foi. 

Ela também me adverte que não come peixe, mesmo vivendo na vila de pescadores. Só come frango e dá risada, mas distribui os peixes que ganha de presente quando reza para a pesca e o barco vem cheio. Já benzeu um padre, a Xuxa e o repórter que foi lá no último final de semana e ela estava muito preocupada que apareceu na televisão benzendo com o curativo na testa. "

(Florianópolis 30/05/2017)

* Mayara Floss é catarinense e acadêmica do curso de medicina na Universidade Federal do Rio Grande. Escreve semanalmente para o blog "Rua Balsa das 10" (www.balsa10.blogspot.com ) e também para o blog "Causos Clínicos" (www.causosclinicos.wordpress.com ). Recentemente lançou junto com o coletivo do Rua Balsa das 10 o livro "Estórias da Rua que foi Balsa" que mistura, educação popular, resistência, cuidado e escrita.

Benzedura
- Mas você não é médico, porque quer benzer? 
- Tem mal que médico não cura. 

Viveu bem?
- Não, quando consegui o salário da invalidez, já estava muito velha para ir passear. 

SEM ÁRVORES, SEM VIDA...

A fragata-de-trindade.

Fragata-de-trindade, restam apenas 30 indivíduos. As aves não conseguem nidificar porque não há mais árvores….

A ilha de Trindade é a mais distante do continente. Fica a 1.200 Km do litoral do Espírito Santo. Trindade faz parte do arquipélago de Trindade e Martim Vaz, que recentemente, no Governo Temer, finalmente ganharam proteção, tornando-se um misto de APA e Mona com 471 mil quilômetros quadrados de extensão. Proteção bem-vinda, já que elas abrigam 270 espécies de peixes recifais – 24 ameaçados de extinção –, maior índice de diversidade entre todas as ilhas brasileiras e um dos maiores do Atlântico. Mas não são só peixes os ameaçados. Na lista mais crítica está a fragata-de-trindade.

Conheça alguns aspectos de Trindade

De formação vulcânica, a ilha emerge no meio de um mar de cor azul arroxeado, típico das profundidades abissais, como um enorme paredão. A um terço da distância entre o Brasil e a África, Trindade fica longe o suficiente da poluição atmosférica para que o ar seja totalmente limpo, o que proporciona uma visão ainda mais privilegiada de suas formas e cores. Sua altura máxima é de 600 metros, e a geografia é única.
Trindade e sua beleza dramática. Foto: Simone Marinho.

Trindade tem morros e picos que mais parecem calombos com ‘inchaços’ lembrando feridas, resultado do derrame de lava, ora com texturas lisas, ora com rasgos profundos produzidos pela erosão eólica. O colorido é de tons fortes, destacando-se todos os matizes do amarelo, do verde, e do cinza; e alguns do terracota . Em contraste com o azulão roxo do mar, e o azul celeste do céu, o conjunto forma uma beleza dramática rara de ser vista. Sobre a descoberta, e aspectos geopolíticos, o Mar Sem Fim já escreveu em outra matéria.

A Fragata-de-trindade

A ave, endêmica de Trindade, está na situação ‘criticamente ameaçada de extinção’, restam apenas 30 indivíduos vivos. O grande problema é que para se reproduzir é preciso fazer um ninho, e ninhos são feitos em árvores que foram cortadas de Trindade. Com 9,2 quilômetros quadrados, Trindade sofreu o que quase todas as ilhas oceânicas, em rotas de navegação do passado, sofreram.

Ilhas oceânicas e as navegações do passado

No período das grandes navegações era comum que portugueses (depois holandeses, espanhóis, ingleses e franceses) desembarcassem à procura de lenha para os fogões de bordo. Depois de descobertas, estas ilhas se tornavam ponto de apoio aos navegadores. Os europeus costumavam soltar animais como galinhas, porcos, cabras e bodes, que se tornavam alimento nas grandes travessias. Só que, por não terem predadores, estes animais ‘exóticos’ se proliferaram a ponto de dar cabo de grande parte da vegetação. Até recentemente, Trindade ainda abrigava bodes que, depois de muito ‘mimimi’ dos órgãos ambientais, finalmente foram mortos por atiradores de elite da Marinha do Brasil. Tarde demais…

A luta para evitar a extinção

Cientistas da FURG (Universidade Federal do Rio Grande) e do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), além da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande de Sul), a UFMG (universidade Federal de Minas Gerais), a UFAL (Universidade Federal de Alagoas), o Museu Nacional do Rio e a UnB (Universidade de Brasília) deram-se as mãos, e buscam uma solução que evite mais esta extinção. Este lindo trabalho é apoiado pela, mais que excepcional, Fundação Boticário de Proteção à Natureza.
O ninho artificial. 

Ninhos artificiais

O resultado da união dos pesquisadores são ninhos artificiais, feitos em uma estrutura que simula uma árvore, forte o suficiente para resistir aos fortes ventos de Trindade. No momento estes ninhos artificiais estão em teste, assim que aprovados, serão levados para Trindade. Enquanto isso, resta torcer.
Fontes:https://www.bbc.com/portuguese/geral-46940925; https://conexaoplaneta.com.br/blog/ninhos-artificiais-ajudam-a-salvar-da-extincao-a-fragata-de-trindade/.

(Via https://marsemfim.com.br/)

MAR-CAIS


Topei nessa utopia
Tá topada
No tato
Ou na porrada

(Fernando Alexandre - Outono de 87)

quarta-feira, 20 de março de 2019

OUTONO OU TUDO!

Luz de outono
Olhos latem
como cão sem dono
(Fernando Alexandre)

ITA É PEDRA, ITA É MAR!

"Maremoto no Coração"

MAR DE SABORES


Bobó de peixe

Ingredientes
500 gr de filé de peixe em cubos (4 cm x 4 cm) suco de 1 limão 
1 dente de alho picadinho 
Sal e pimenta do reino a gosto 
3 col. (sopa) de óleo 
1 cebola de cabeça picadinha 
1 caixinha de polpa de tomate (200 gr) 
2 xíc. (chá) de mandioca cozida e picada 
1 vidrinho de leite de coco (200 ml) 
1 xíc. (chá) de água filtrada 
1 col. (sopa) de coentro fresco picado

Preparação

PASSO 1
Tempere o peixe (usei tilápia) com o suco de limão, sal, pimenta e o alho.
Deixe tomar gosto, por no mínimo 30 minutos.

PASSO 2
Em uma panela grande, coloque o óleo para esquentar, junte o peixe, frite, por mais ou menos 10 minutos.

PASSO 3
Acrescente as cebolas, a polpa de tomate e cozinhe por mais 15 minutos em fogo baixo.

PASSO 4
Enquanto o peixe vai cozinhando no molhinho, pegue o liquidificador, coloque a mandioca cozida picadinha, o leite de coco e a água filtrada, bata.

PASSO 5
Adicione a mistura do liquidificador ao peixe, mexendo sempre, até ferver.

PASSO 6
Desligue o fogo, acrescente o coentro picado! 
Sirva quente!

(Do https://pt.petitchef.com/)

LINHA D'ÁGUA

Foto Fernando Alexandre

A LATA DE ATUM E A ESCRAVIDÃO

Captura de atum. PIXABAY

A conexão entre a sua lata de atum e a mão de obra escrava

A Tailândia é o principal exportador mundial do peixe, com uma indústria pesqueira marinha que se presta especialmente à escravidão moderna

Qual é a chance de que a última lata de atum que você comeu tenha sido produzida com mão de obra escrava? Se a origem for tailandesa, isso é mais provável do que você imagina. Rastreamos a viagem realizada pelo atum dos mares que rodeiam o país asiático até as prateleiras dos supermercados australianos. Após entrevistar mais de 50 pessoas, algumas delas obrigadas a fazer trabalhos forçados, conseguimos avaliar se as marcas podem dizer que suas cadeias de abastecimento estão livres de mão de obra escrava.

Acreditamos que apenas uma das marcas de atum em conserva que operam no país pode afirmar, com absoluta certeza, que entre seus provedores não se esconde nenhum escravo.

Embora não possamos mencioná-la, por causa dos princípios éticos que garantiram que nossa investigação tenha sido feita independentemente de qualquer questão comercial, nossos resultados reforçam a necessidade da Lei sobre Escravidão Moderna, aprovada pelo Parlamento australiano no final de 2018, para conscientizar as empresas sobre a importância de acabar com a escravidão nas redes de abastecimento em escala global.
A exploração dos trabalhadores migrantes

A Tailândia é o principal exportador mundial de atum e um dos maiores exportadores de todo tipo de peixe. Sua indústria pesqueira marinha se presta especialmente à escravidão moderna devido ao seu tamanho, à falta de regulação, à grande capacidade de operações ilegais realizadas sob seu manto e à exploração dos trabalhadores imigrantes.

Há mais de 50.000 embarcações pesqueiras e cerca de 500.000 trabalhadores na indústria. Investigações realizadas por grupos como Greenpeace e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) advertem que a maioria das pessoas que sobem nesses barcos cumprem todos os requisitos para serem consideradas escravos modernos: são forçados a trabalhar sob ameaça, são controladas ou diretamente são propriedade de seus chefes, são tratadas como mercadoria e não podem abandonar seu posto de trabalho.

Qualquer pessoa enganada ou traficada para trabalhar em localidades distantes de seu lugar de origem e que não tenha liberdade de circulação, seja ela física ou financeira, é um escravo moderno.


Em 2014, 82% dos 172.430 pescadores distribuídos em 42.512 barcos tailandeses eram imigrantes, bem como a maioria dos empregados de plantas de processamento

As estatísticas compiladas pelo Departamento de Pesca da Tailândia revelam dados chocantes: em 2014, 82% dos 172.430 pescadores distribuídos em 42.512 barcos eram imigrantes, assim como a maioria dos empregados das usinas de processamento. Os traficantes convencem migrantes do Camboja e de Mianmar, principalmente, com promessas de trabalho bem remunerado. Ao chegar à Tailândia, porém, essas pessoas descobrem que a história é bem diferente.

Os imigrantes não têm direito às proteções concedidas aos trabalhadores tailandeses, cobrando em geral 25% menos que o salário mínimo do país. Tampouco podem integrar os sindicatos, um direito que os locais têm.

Portanto, por serem estrangeiros e não terem recebido educação nem contarem com a habilidade de se comunicar em tailandês, eles se encontram numa situação de especial vulnerabilidade à exploração, numa indústria em que as frotas rebeldes se movem à margem da lei com operações de pesca ilegais. E onde a segurança e as condições de trabalho são aplicadas de maneira deficiente.
Falta de transparência

As práticas na indústria pesqueira tailandesa (e em outros lugares do Sudeste Asiático) se tornaram conhecidas no mundo todo em 2015, graças ao trabalho de investigação dos jornalistas da agência Associated Press (que lhes valeu o Prêmio Pulitzer por Serviço Público). Desde então, as respostas emitidas pelos governos e as empresas mostram a insuficiência do marco legal e de gestão existente para acabar com o problema de uma vez por todas.

A transparência é um tema central. As práticas ilegais são ocultadas deliberadamente por sua própria natureza, e os métodos que os varejistas poderiam utilizar para averiguar como trabalham suas cadeias de abastecimento, como o envio de pesquisas aos fornecedores (e aos provedores destes), não dão nenhum resultado.

O que dificulta a transparência na indústria pesqueira é que não basta conhecer o provedor ou o atacadista. Nem sequer a origem geográfica do peixe. Os varejistas precisam conhecer os detalhes de cada jornada de pesca e a mão de obra empregada. No entanto, mesmo tendo acesso a essas informações, não é possível saber se a mercadoria foi transferida de um barco a outro em alto mar. Ou seja: o problema continua existindo apesar dos certificados emitidos pelo Marine Stewardship Council (organização internacional que estabelece um padrão para a pesca sustentável) – que, em qualquer caso, não se encarrega de supervisionar as condições trabalhistas.

São necessários uma melhor coordenação e mecanismos mais efetivos para vigiar o risco a que os trabalhadores se expõem do barco de pesca ao supermercado, passando pela fábrica.


São necessários uma melhor coordenação e mecanismos mais efetivos para vigiar o risco ao que se expõem os trabalhadores desde o barco de pesca até o supermercado, passando pela fábrica
Há muito a fazer, mas é um começo

Reside aí a necessidade de criar leis que levem ao fim da escravização moderna. De acordo com a Lei sobre Escravidão Moderna da Austrália, as empresas que tenham registrado prejuízos de mais de 100 milhões de dólares australianos (260 milhões de reais) deverão informar o que estão fazendo para evitar o uso de mão de obra escrava na elaboração de seus produtos.

A partir de 2020, as companhias serão obrigadas a apresentar “declarações de escravidão moderna”, detalhando a fonte da qual obtêm seus produtos e as ações que realizaram para garantir que não existe mão de obra escrava em sua cadeia de abastecimento.

Ainda há um longo caminho a percorrer. A lei não inclui sanções pelo não cumprimento das ações. E não existe um órgão estatutário que ofereça orientação e supervisão, como estabelece uma norma similar promulgada no Reino Unido em 2015.

Mas já é um começo. A lei pelo menos exerce pressão sobre as marcas para que sejam mais transparentes em relação às suas cadeias de abastecimento e para que melhorem as condições de trabalho. Até agora, os resultados foram díspares: algumas marcas investiram na limpeza de suas cadeias de abastecimento após serem colocadas em evidência, enquanto outras se fazem de desentendidas.

Esperamos que os consumidores sejam conscientes dos riscos envolvidos na escravidão moderna e, com o tempo, possam investigar a informação compartilhada publicamente por suas marcas favoritas.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês em The Conversation.
(Via https://brasil.elpais.com/)

MAR DO JUAN MALDONADO

Pantusuli do Juan Maldonado

PÉS NA AREIA!

O documentário PÉS NA AREIA - Um retrato da resistência caiçara - aborda a quase extinção do povo nativo e das tradições culturais em praias badaladas do litoral norte de São Paulo, como Maresias, Cambury, Baleia, Barra do Sahy, Juquehy e Barra do Una, na costa sul de São Sebastião.
O filme está disponível em alta definição (720p) para quem tiver uma conexão de internet boa. Interessados em adquirir o DVD enviem e-mail para a.penedo@uol.com.br.

terça-feira, 19 de março de 2019

MAR - CAIS

Foto Fernando Alexandre
acordei bemol
tudo estava sustenido
sol fazia
só não fazia sentido

(Paulo Leminski)

SEM TAINHAS EM 2019?

Foto Fernando Alexandre 
Impasse sobre a Safra da Tainha: Órgãos ambientais querem proibir a pesca em 2019

A Câmara Técnica da Tainha, instituída no seu respectivo CPG - Comitê Permanente de Gestão e Uso Sustentável dos Recursos Pelágicos das Regiões Sudeste e Sul (CPG Pelágicos SE/S), reuniu-se nos dias 13 e 14 de março em Brasília. O encontro tinha como objetivo revisar o relatório da safra do ano de 2018 e discutir a safra deste ano. No entanto, os representantes do setor produtivo e dos órgãos ambientais não chegaram a um consenso neste segundo ponto.
Acontece que no ano passado adotou-se o sistema de cotas de captura para as frotas controladas, sendo 2.221,17 toneladas para frota de cerco e 1.196,01 toneladas para o emalhe anilhado, totalizando 3.417 toneladas. Devido a uma série de desafios enfrentados no processo de monitoramento, as empresas de beneficiamento reportaram ao final da safra um total de 492 entradas de tainha, que somaram um volume de 7.209 toneladas da espécie provenientes de frotas controladas e não controladas (submetidas e não submetidas às cotas). Desses registros, 5.663 toneladas foram provenientes da pesca industrial, ou seja, 2.246 toneladas a mais do que a cota determinada.
É preciso ressaltar, que ninguém esperava a supersafra que ocorreu em 2018, que resultou em grandes capturas em um curto espaço de tempo, o que gerou acumulo de peixes nas entradas das indústrias que consequentemente, levaram mais tempo para registrar as capturas no sistema. Reconhecendo que a morosidade no processo de declaração das pescarias, foi um dos principais fatores para o excesso de captura, o setor produtivo fez diversas sugestões a esse respeito, como a declaração 100% digital que permite um controle em tempo real do que foi pescado, sistema de cotas individuais, entre outras medidas.
Quanto ás toneladas excedidas, o setor propôs que o mesmo seja compensado em forma de “desconto” na cota total dos próximos anos. No entanto, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e a ONG OCEANA, insistem em suspender a safra da tainha para a pesca industrial em 2019.

Uma safra primordial

Suspender a safra da tainha este ano trará consequências enormes para a modalidade de pesca de cerco, que a considera uma das mais importantes do ano. Economicamente, toda a região Sul do Brasil também sentiria o baque, somente na venda para as empresas de beneficiamento a safra de 2018 gerou mais de R$36 milhões de reais, isso sem falar nas vendas diretas para mercados, peixarias, restaurantes, exportação de ovas, etc. Além disso, a safra da tainha está culturalmente enraizada no estado de Santa Catarina, onde sua população a aguarda com grande entusiasmo.

Espera-se agora, que ICMBio e demais órgão ambientais levem em consideração todos esses fatores e estejam dispostos a chegar a um senso comum com o setor produtivo. O próximo encontro para discussão do assunto está agendado para dias 09 e 10 de abril.

(Via Sindipi)

MAR DE HUMOR?


MAREGRAFIAS

Foto Fernando Alexandre

SOSSOBRANDO...

Foto Fernando Alexandre
Na praia, o que sossobra das tempestades...

MAR DE ILHAS




Paranaenses pedem proteção da Ilha do Mel e condenam construção de agressivo complexo industrial no litoral do estado 

Em busca de mais informações, clareza e transparência na proposta apoiada pelo governo do Paraná, que prevê a construção de um porto privado em frente à Ilha do Mel, no litoral do Estado, no município de Pontal do Paraná, e de uma rodovia que, só para ser feita, derrubaria cinco milhões de metros quadrados de Mata Atlântica em bom estado de conservação, mais de 20 organizações que trabalham pela conservação da biodiversidade e instituições de pesquisa se uniram e criaram a campanha #SalveAIlhaDoMel.

O movimento busca estimular a população a exigir, por meio do site da campanha, esclarecimentos do poder público sobre o modo duvidoso e antidemocrático com que a viabilização de um gigantesco complexo industrial em Pontal vem sendo defendida. Até agora, mais de 210 mil e-mails já foram enviados pela sociedade.

Entre os apoiadores da causa, então nomes como SOS Mata Atlântica, Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), Observatório de Justiça e Conservação (OJC) e até a norte-americana, Sea Shepherd. A instituição é mundialmente conhecida pelos confrontos que trava contra navios noruegueses e japoneses caçadores de baleias e golfinhos nas águas geladas do Oceano Ártico. Uniu-se ao grupo, por entender o grande impacto dessas propostas que, até agora, não foram devidamente debatidas com a sociedade.

No site da campanha, um vídeo também denuncia a manobra, conduzida por representantes do governo do Paraná, para aprovar a licença de construção da chamada “Faixa de Infraestrutura” – que inclui a nova rodovia e um canal de dragagem.

A manipulação desconsiderou um pedido de vista feito por membros do Conselho de Desenvolvimento Territorial do Litoral Paranaense (COLIT), entre eles, um representante da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Eles pediam vista defendendo que mais de 100 questionamentos da sociedade civil sobre os impactos sociais e ambientais causados pelas obras ainda não haviam sido respondidos. Por ser um direito previsto no regimento interno do COLIT, o pedido chegou a ser aceito, mas pouco tempo depois, acabou cassado de modo opressor e ilegal.
Danos socioambientais incalculáveis

Do modo como estão sendo propostas, as obras gerariam prejuízos incalculáveis e irreversíveis à região. Mais de 170 danos socioambientais foram listados pelos Estudos de Impacto Ambiental (EIAs) feitos para a construção do porto e da Faixa de Infraestrutura, entre eles, a diminuição da qualidade de vida da população, a inibição de novos investimentos em turismo devido às atividades portuárias, redução da disponibilidade de água subterrânea de boa qualidade, contaminação dos recursos pesqueiros, maior ocorrência de problemas de saúde, aumento da criminalidade e até, do trabalho e da prostituição infantil.

A piora das condições de trafegabilidade na região em função do maior número de caminhões é outro dano reconhecido pelas análises. Na operação do novo porto, milhares de contêineres precisariam ser transportados e, para cada contêiner, seria necessário um caminhão. No próprio relatório técnico, estima-se a previsão de 138.240 viagens de caminhões por ano ou, aproximadamente, 388 por dia. Um volume elevadíssimo de carga pesada para uma estrada de pista simples e que também teria a prometida função de atender a veranistas e pontalenses.

“A estrada está sendo vendida à população como a solução para os congestionamentos que predominam na PR-412, que dá acesso a Pontal do Paraná. O que não está sendo considerado, no entanto, é que a nova rodovia proposta seria de pista simples, como a PR-412, e sua construção tem como maior objetivo avalizar, como condicionante dos órgãos ambientais, o licenciamento do porto privado e do conjunto de outras empresas ligadas ao pré-sal”, lembra o diretor do Observatório de Justiça e Conservação, Giem Guimarães. “Certamente, haverá ainda mais trânsito e congestionamentos caminhões de carga para a população local enfrentar”, completa.

Só a construção da Faixa de Infraestrutura vai ter custo de R$ 369 milhões. Depois, seriam feitos, ainda, um gasoduto, uma ferrovia e uma linha de transmissão de energia. Fala-se até da possível instalação de uma termelétrica no local. Toda essa estrutura para atender ao novo porto privado, construído muito próximo do porto estadual de Paranaguá, onde existem condições amplas de expansão e melhor aproveitamento de sua capacidade logística.

A localização pretendida para o porto é em frente – mais especificamente a 3 km – da Ilha do Mel, o segundo local turístico mais visitado no Paraná, atrás apenas do Parque Nacional do Iguaçu, e um “Patrimônio da Humanidade” reconhecido pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). O mesmo título também já foi concedido pela organização a Fernando de Noronha, um dos destinos mais procurados e valorizados do Brasil. Com a proximidade da Ilha e diante dos prejuízos ambientais gerados ao entorno, haveria risco de a perda do reconhecimento por parte da UNESCO ocorrer.

Ilha do Mel: um paraíso natural sob ameaça
Interesses individuais e históricos “manchados”

A empresa acionista-majoritária da construção do porto é o Grupo JCR, do empresário João Carlos Ribeiro. Ele também é dono de outras corporações e atua no ramo imobiliário na região há décadas. Empresas como Techint, a construtora Odebrecht, a Melport Terminais Marítimos (controlada da Cattalini) e a Subsea 7 também têm interesses diretos na viabilização do complexo industrial.

Além de estarem envolvidas em sérias denúncias de corrupção – a exemplo da Odebrecht – corporações como a Cattalini carregam um histórico nada positivo na região. O navio Vicuña, que explodiu três vezes e afundou em 15 de novembro de 2004, causando pânico na população, danos a residências próximas, sérios prejuízos financeiros a pescadores e a morte trágica de incontáveis animais, era da Cattalini.

O acidente foi causado durante a operação de descarga de onze mil toneladas de metanol. Camila Domit, bióloga e pesquisadora da UFPR, trabalhou no resgate da fauna depois da explosão recorda o drama do que viu. “Muitas tartarugas e mamíferos foram encontrados já mortos e encalhados nas praias com óleo na parte interna da boca e orifício respiratório, no caso dos golfinhos. Também achamos muitas aves com os corpos tomados de óleo e peixes agonizando, com óleo nas brânquias. Foi uma das situações mais tristes que já vivemos”.

Após o incidente, dúvidas sobre o cumprimento efetivo das indenizações e compensações que a Catallini foi obrigada a fazer ainda permanecem e os prejuízos da explosão do navio à biodiversidade e à sociedade são tão grandes, que se tornam impossíveis calcular. “A chegada de mais um porto na região, com novos e maiores navios, é inegável, aumenta significativamente a chance de que tragédias parecidas com aquela voltarem a ocorrer”, lembra Camila.

De tão grandes, são impossíveis de calcular os prejuízos causados pela explosão do Vicuña em 2004. Até hoje, a efetividade das compensações ambientais que foram feitas gera muitas dúvidas.
Prejuízos às comunidades tradicionais e interesses estrangeiros

As obras expulsariam comunidades tradicionais que ocupam a região há séculos. No contato com elas, são comuns relatos de ameaças de grileiros e funcionários dos maiores interessados na viabilização das obras para que deixem o lugar onde vivem. Com os prejuízos que vai gerar à fauna marinha, o complexo industrial também comprometeria até mesmo a pesca artesanal, de subsistência.

Outra possibilidade que precisa ser levada em conta é a chance real de, depois de finalizado, o Porto Pontal ser vendido a corporações estrangeiras. Os chineses, por exemplo, há anos já viram no litoral do Paraná oportunidades de lucro fácil. A gigante CMPORT, por exemplo, uma das maiores operadoras de terminais de contêineres do mundo, é grande interessada na compra de portos no Estado.

De acordo com Glavio Leal Paura, professor da Universidade Positivo (UP) e especialista em trânsito, logística de estradas e planejamento de cidades, é contraditório e questionável que “um projeto que acumula incoerências relativas a questões básicas de engenharia de trânsito e logística vá adiante”.

“O inchaço populacional, os impactos ambientais e a utilização além da conta da infraestrutura local provocados pelo porto também trariam desvalorização imobiliária para muitos proprietários, além do aumento da criminalidade, como, infelizmente, ainda ocorre na vizinha Paranaguá”, explica.

Para o diretor-executivo da SPVS, Clóvis Borges é fundamental alertar a sociedade para que faça resistência à proposta de construção desse complexo industrial no litoral do Paraná, que pretende ser aprovado às pressas, sem considerar a opinião da sociedade.

Para ele, permitir que esses empreendimentos sejam viabilizados é ser conivente com verdadeiros crimes contra a sociedade e a natureza. “Não podemos consentir com a destruição de um patrimônio natural com características tão únicas, assistindo sem reação a perda de ambientes naturais protegidos por lei e colocando em risco espécies raras. É preciso fazer frente a propostas abusivas e exigir investimentos sérios e planejados em turismo para a região”, defende.

“Infelizmente, a história revela, não são incomuns tentativas que envolvem alternativas abusivas de empreendimentos de alto impacto social e ambiental sejam expostas como a salvação para todos os problemas”, conclui.
Intenções suspensas voltaram a receber autorização

A licença prévia e o licenciamento ambiental da Faixa de Infraestrutura estavam suspensos até o dia 12 de fevereiro, quando, após solicitação do Governo do Paraná, o ministro João Otávio de Noronha, do Superior Tribunal de Justiça (STJ) derrubou a liminar que suspendia o licenciamento concedido pelo Instituto Ambiental do Paraná (IAP) para a construção da Faixa de Infraestrutura, em Pontal do Paraná.

Em novembro de 2018, o desembargador Cândido Alfredo Leal Júnior, do Tribunal Regional Federal da 4ª região (TRF4), havia concordado com os argumentos do Ministério Público do Paraná (MP-PR) – que apontava diversas nulidades no caso – e suspendido a concessão para a licença e a abertura dos licenciamentos. Isso para “evitar a ocorrência de danos ambientais e prejuízos às comunidades envolvidas (inclusive indígenas) e ao erário”, que se refere às finanças públicas.

A decisão do dia 12 foi mais uma amostra de que a opinião da sociedade não está sendo considerada no processo. Mais de 210 mil e-mails já foram enviados pela população ao poder público, que não retornou com mensagens de consideração. Mas continua a responder com condições como essa.

O que a campanha #SalveAIlhaDoMel pretende é reforçar a ideia de que a sociedade não pode permitir que interesses individuais predominem sobre os coletivos, nem aceitar discursos de “ganância disfarçada de desenvolvimento”.

Para entender melhor a polêmica e enviar um e-mail a representantes do Governo do Paraná sobre o abuso que representa a situação, acesse aqui.
Venda de produtos em apoio à defesa da Ilha do Mel

A campanha #SalveAIlhaDoMel lançou, em dezembro de 2018, uma linha de camisetas e ecobags para dar fôlego às ações e incremento de recursos a novos trabalhos conduzidos pelo movimento – na área jurídica, de comunicação e parcerias estratégicas, por exemplo -, que busca conscientizar a opinião pública sobre os riscos e prejuízos que seriam causados ao litoral do Paraná, caso o complexo industrial portuário se instale em Pontal.

São camisetas e Ecobags com duas opções de ilustrações diferentes, disponíveis em algodão cru (produzidas com mínimo impacto ambiental) ou pretas. Elas são feitas com algodão orgânico e 100% certificado.

Toda renda obtida com a venda dos produtos será dedicada ao apoio de novas ações favoráveis à conservação e proteção dos patrimônios natural e cultural, tremendamente ameaçados pela possibilidade de construção do complexo. Parte dos recursos também vai ser destinada a ações em benefício da comunidade e de crianças da Ilha.

A expectativa da campanha é de que televisores, projetores e outras necessidades das escolas locais possam ser atendidas com esses recursos. As opções podem ser conhecidas no site da campanha.

Os produtos já podem ser encontrados em Pontal do Paraná, na loja FOLKS, em Nova Brasília, nas lojas, BeeHouse, Pousadinha, Pousada das Meninas, Pousada das Gêmeas, Pousada Treze Luas e no Canto da Vó Maria e, na Encantadas, na Pousada Fim da Trilha. 

Imagens: divulgação campanha #SalveAIlhaDoMel

(Do http://conexaoplaneta.com.br/)