sábado, 9 de janeiro de 2021

MAR DE POETA


FIZ UM SINAL

O que é o mar, se não abismo?
Porção de sal em sol de açúcar
corte de Netuno numa escuna
cruzeiro solitário na penumbra

Palavra vã, mar, que se propunha
a naufragar o barco da aventura
confusa ao dar a volta ao mundo
capitania usurpada por bandeiras

Fiz um sinal e o mar então abriu-se
para eu passar com a lei da poesia
atrás vinha contrita a natureza

O maná me foi negado, comi areia
gotas de granito no deserto
Quem é o mar senão um crime?

(Nei Duclós)

E OS TEMPOS CONTINUAM SENDO DE LULA




GRELHADAS AO VINHO

Ingredientes

 
* 700 g de lulas limpas
* Sal, limão e pimenta do reino
* Azeite para grelhar
* 2 colheres de sopa de alho picado e frito
 * 1/2 xícara de café de vinho branco
* Salsinha picada
* Outras ervas (se quiser)


 Modo de Preparo
1 - Tempera as lulas e grelhe-as numa chapa pré-aquecida ou numa frigideira de fundo grosso.
 2 - Coloque as lulas e não mexa até que estejam douradas de um lado.
3 - Vire-as então, uma a uma, para que não soltem muito líquido (se isso acontecer, elas podem ficar duras).
 4 - Se necessário, retire este líquido assim que formar.
 5 - Quando estiverem grelhadas, acrescente o alho, o vinho e a salsinha.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

MAR DE SABORES

Foto Chichi Wang/SeriousEat
Defumação de frutos do mar com chá

Postado por Patricia Sunye 

Se você é fã de frutos do mar defumados mas nunca teve coragem de fazer em casa, esta é a receita perfeita para você. A técnica chinesa de defumar com chá é super simples. Envolve o aquecimento de uma mistura de arroz e folhas de chá em uma panela funda ou uma wok forrada com papel alumínio até que a mistura comece a soltar fumaça. O alimento é cozido sobre uma grade ou panela de bambu. Tampe a panela para prender a fumaça e o sabor. É um processo rápido porque a comida cozinha enquanto defuma, e pode ser usado para preparar peixes, camarões, lulas, ostras e mariscos.

Experimente uma mistura de base com partes iguais de folhas de chá e arroz cru, e um pouco de água para diminuir a quantidade de fumaça. Experimente com diferentes sabores de chá - preto, verde, jasmim ou Earl Grey. Se quiser, adicione especiarias (anis estrelado, canela, cardamomo e cítricos). Alguns cozinheiros adicionam açúcar mascavo - ele é usado para acelerar o processo de defumação.


PASSO-A-PASSO DA DEFUMAÇÃO COM CHÁ:


Passo 1: Forre uma wok com 4 camadas de papel alumínio;
Passo 2: Coloque a mistura de chá e arroz sobre a base. O chá não pode ser muito fino ou não vai defumar corretamente. Aqueça a mistura até que ela comece a soltar fumaça;
Passo 3: Coloque os alimentos sobre uma grade a 5 cm acima da mistura de chá. É preciso ter espaço para a fumaça circular. Cubra a wok com papel alumínio ou uma tampa.
Fonte e foto: Taste.com.au - novembro de 2011, página 139

O cozinheiro Tom Hunt criou um prato de ostras defumadas para o site Fish on Friday. Veja a receita abaixo:

OSTRAS DEFUMADAS COM CHÁ
 por Tom Hunt



INGREDIENTES

2 colheres de sopa de folhas de chá verde; 1 colher de sopa de arroz
6 ostras sem as conchas; - 1 colher de sopa de azeite extra-virgem
1 colher de chá de vinagre de vinho tinto ou branco; -1/2 colher de chá de páprica
2 fatias muito finas de bacon ou pancetta (opcional), cortado em 6 pedaços

Em uma panela pequena de cozimento a vapor, espalhe as folhas de chá e o arroz . Coloque a grade em cima. Coloque as ostras sobre a grade, certificando-se de que elas não se toquem. Coloque a tampa. Ligue o fogão em fogo médio. Quando você começar a ver fumaça, cozinhe por mais três minutos. Retire as ostras e coloque em um recipiente com o azeite, o vinagre e a páprica. Deixe marinar por pelo menos 30 minutos. Se for usar bacon, frite até se tornarem crocantes e sirva sobre as ostras.

(Via http://www.observasc.net.br/)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

MAR-CAIS



Foto Fernando Alexandre


Me vendo de costas,
assim...
sou o outro indo embora,
de mim...
(Fernando Alexandre)

O FIM DA ILHA - UM CONTO


Foto Alessandro Gruetzmacher

O Fim da Ilha
por Richard Simas

(Tradução de Margarida Vale de Gato - poeta e acadêmica)

"Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio."
A terceira margem do rio – Guimarães Rosa


Subitamente Fernando mudou o assunto da conversa sobre a pesca à tainha naquela região para me falar de um velho que se opusera a que instalassem a luz numa povoação isolada na ponta da ilha. Segui-lhe o olhar até aos rochedos que se apontavam para o mar mesmo no fim da pequena baía. Também ele vivera em tempos naquela ponta da ilha logo a seguir a mudar-se da capital.
— É muito longe?
Caía a noite. Do lado de fora da janela engordurada do café da praia, os pescadores arrumavam os seus pertences e dispersavam. Uma água branca explodia ao longe sempre que rebentava uma onda, marcando a ponta, no fim.
— Porque se opôs ele com tanta veemência?
Fernando disse que o velho não se manifestara contra o corte das árvores para pendurar cabos em postes altos por toda a ilha. Era uma pessoa prática e compreendia como se devia trabalhar. As casas da sua povoação haviam sido construídas com o mesmo esforço. Não, ele protestara com medo do que poderia vir a seguir.
— O que vinha a seguir?
Coisas que eles não sabiam, respondeu Fernando, e que nem sequer queriam nem podiam prever ou preparar-se convenientemente para elas. Seria demasiado tarde para mudar depois, argumentava o velho. Já não haveria escolha. Tinham passado bem sem luz nem eletricidade desde a primeira casa que construíram na ponta rochosa, eleita pelo seu isolamento. As velas e os candeeiros a petróleo bastavam. Havia lenha nos montes e o mar dava peixe. Encontravam tudo o resto de que precisavam no Pântano. Fernando abanou a cabeça. 
Luz. 
Nem sequer havia pavimento alcatroado até à ponta rochosa.

A filha adolescente do velho tinha defendido a luz, sendo a sua instalação oferecida sem custos. A mãe abandonara marido e filha um ano antes, fugindo com um pintor que vinha todos os anos pintar paisagens nas férias. Nunca mais lhes tinha dito nada, mas o velho insistia que um dia ela havia de regressar. Nunca, dizia a filha. Tudo isto fora há bastante tempo.

— Como se chamavam?
— Talvez Zé.
— Quanto tempo lá viveu você?
— Não muito — respondeu, abanando de novo a cabeça. — Ainda há onze casas na ponta da ilha. Menos de vinte habitantes. Chamam-lhe Saquinho.

A costa estava vazia. Donazinha, a dona do café, estava a apagar as luzes. Fernando levantou-se e apertou-me a mão. No escuro, passou-me um exemplar do seu livro, um dicionário de expressões locais que juntara durante anos. Os urubus pretos e gordos vasculhavam as entranhas dos peixes na orla de areia que o progresso da maré encolhia.

Pus-me a caminho de Saquinho no dia a seguir, assim que a chuva parou de nos fustigar do Atântico Sul. Ao fim da tarde, as nuvens levantaram-se e dissiparam, iluminando subitamente toda a baía. Um espetáculo. Ninguém nos cafés tinha visto Fernando.

Quando a praia se tornou intransponível, subi desde a costa até uma estrada pavimentada na colina. Construções recentes de casas de férias muito elaboradas perfilavam-se no litoral, edifícios imponentes de três e quatro andares com jardins, terraços de vários níveis e fachadas de vidro contemplando o oceano. A maioria parecia trancada a sete chaves naquela época, com frontarias seguras e avisos de câmaras de vigilância. Outras estavam para venda ou ainda em obras, mas não vi ninguém a trabalhar. Ocasionalmente, havia uma divisão iluminada ou um carro estacionado dentro dos portões de entrada.

A estrada estava deserta. Toda a gente me tinha avisado que não andasse sozinho em sítios isolados no Brasil e nunca à noite, mas eu não pressentia qualquer perigo. Continuei, serpenteando pela colina arborizada, mergulhando e subindo a custo, com o mar sempre à vista, sempre audível. Encontrei então a primeira de três pessoas ao cair da noite.

Era um homem de pé junto a um muro, com barba por fazer, as mãos nos bolsos, à espera, como eu às faço às vezes. Teria uns quarenta anos, uma sacola pequena ao ombro esquerdo.

— É por aqui que se vai para Saquinho?
— Saquinho, pois sim. Continue. Quando a estrada acabar, siga pelo caminho sobre os montes.
— É longe?
— Uma hora. Talvez mais.

Agradeci-lhe, deixando para trás as casas de luxo. A estrada tornou-se mais estreita. Os lampiões laranja, fixos a altos postes de cimento, continuavam a tremeluzir. Pairava uma maresia que fazia o piso escorregadio. Se voltasse a chover, eu estava longe de qualquer abrigo. Dobrando uma curva acentuada, vi uma mulher com sacos de plástico em cada um dos braços. Estava debruçada à espreita por entre os arbustos, mas endireitou-se quando eu apareci.

— Olá. — Quis que ela percebesse que eu não representava perigo. Era idosa mas ágil, com calças de fato treino cor-de-rosa e uma blusa desportiva. Óculos de homem.

— Estou a juntar latas – explicou-me. — Valem dinheiro.

Os seus olhos azuis-claros perscrutaram-me.

— Eu vou até Saquinho.

Ela anuiu, mas fiquei sem saber se me compreendia. Desejei-lhe boa sorte. A estrada caía a pique no seu término. Escalei por ali acima, deixando a cada passo mais longe a mulher que procurava entre os arbustos. Agora as casas eram muito poucas, e não havia lampiões. Eu seguia por um trilho de pedra, como me informara o homem, mas lamentava ter partido sem pedir pormenores a Fernando.

Numa tabuleta lia-se “Solidão.” Seria impossível chegar à ponta antes que fosse noite. E se eu voltasse então pelo caminho estreito? 
A massa escura da ilha tornava-se indiscernível do oceano, exigindo-me que olhasse para os pés para evitar o precipício. Mesmo que chegasse a Saquinho, fazia muito escuro para ver o que fosse. Continuei na escalada, esperando a cada curva ver aparecer casas, ou outras pessoas. Talvez luzes.

Dei finalmente com um rapaz encostado ao parapeito rochoso. Se não fosse a sua T-shirt branca, nem teria reparado nele. Tinha uns treze, vinte anos. Um telemóvel iluminou-lhe o rosto. Era impossível passar sem roçar nele.

— Você vive em Saquinho?

Assentiu com a cabeça. Acenou várias vezes, cada gesto uma medida. Esperei que ele me deixasse passar, mas não se mexeu. Encaixei-me no parapeito junto a ele e perscrutei o horizonte obscuro e vasto, sem grande vontade de prosseguir.

A chuva desabou numa rajada do oceano. Um dilúvio. Empurrei o corpo contra as rochas para me proteger, com as suas arestas pontiagudas enterrando-se na minha carne. Quando abri os olhos muito depois, o rapaz desaparecera. Tinham caído rochas que bloqueavam o trilho estreito e as estrelas altas e brilhantes iluminavam a noite. Não fazia ideia que horas eram, não tinha outra hipótese senão desistir do fim da ilha e voltar pelo caminho estreito até à praia do Pântano.

____________
*Richard Simas é um escritor free-lance, com experiência em literatura e artes performáticas, particularmente música contemporâncea. Mora em Montreal e contribui regularmente para revistas de artes e literatura contemporânea. Seu trabalho foi publicado na Europa e América do Norte, incluindo o premio de antologia de viagem do Canadá e o premio Fiddlehead de ficção. É frequente colaborador de Revistas

de musica em Toronto.



The Point of the Island
(Texto original, em inglês)

"Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro – o rio."

«A terceira margem do rio» – Guimarães Rosa

Fernando suddenly switched from talking about local Tainha fishing to tell me about an old man who had opposed light being brought to an isolated settlement on the point of the island. I followed his glance to the rocks jutting into the sea at the far end of the small bay. He too had once lived on the point of the island when he first moved from the capital.

“How far away?”

Night was falling. Outside the grimy beachside café window, the fishermen gathered their possessions and dispersed. White water exploded in the distance every time a wave broke, marking the point.

“Why was he so against it?”

Fernando said the old man had not objected to cutting trees and suspending cables on high poles across the island. He was practical and understood how work had to be done. The houses in his settlement had been built with similar efforts. No, he had protested for fear of what might come afterwards.

“Come afterwards?”

Things they knew nothing about, Fernando answered, and didn’t even want or could foresee and prepare for as necessary. It would be too late to change afterwards, the old man had argued. No longer a choice. They had got along without lights and electricity ever since constructing the first house on the rocky point, choosing it for its isolation. Candles and oil lamps were satisfactory. There was firewood in the hills and the ocean provided fish. They found whatever else they needed in Pântano, the fishermen’s village. Fernando shook his head. Lights. There was still no paved road to the rocky point.

The old man’s teenage daughter argued in favor of lights when installation was offered at no expense. The mother had abandoned her husband and daughter a year earlier, running off with a painter who came each year to paint landscapes while on vacation. They received no word from her, but the old man insisted she would return someday. Never, said the daughter. All this was years ago.

“What were their names?”

“Perhaps Zé.”

“How long did you live there?”

“Not long,” again shaking his head. “Eleven houses remain on the point of the island,” Fernando said. “Less than twenty inhabitants. They call it Saquinho.”

The shoreline was empty. Donazinha, the café owner, was turning off the lights. Fernando stood and took my hand. In the dark, he handed me a copy of his book, a dictionary of local expressions he had collected over the years. Fat black turkey vultures scavenged fish entrails on the margin of sand narrowed by the advancing tide.

I set out for Saquinho the next day as soon as the rain stopped slashing in from the South Atlantic. In the late afternoon, clouds broke and lifted, suddenly illuminating the entire bay. A spectacle. No one in the cafes had seen Fernando.

When the beach became impassable, I climbed from the shoreline to a paved hillside road. Recent, elaborate vacation constructions lined the seafront, imposing three and four-story affairs with gardens, multi-level decks, and glass façades staring at the ocean. Most of them appeared shut and secured for the season with security barriers and warnings about surveillance cameras. Others were for sale or still under construction, but I saw no one working. Here and there a room was lit or a car parked inside the gated entry.

The road was deserted. Every one had warned me against walking alone in secluded places in Brazil and never at night, but I saw no danger. I continued, winding around the forested hillside, dipping and climbing, the ocean always in view, always audible. Then I met the first of three people that evening.

He was standing alone near a wall, unshaven, hands in pockets, waiting as I often do. Perhaps 40, a small pack hanging on his left shoulder.

“Is this the way to Saquinho?”

“Saquinho. This is it. Continue. When the road ends follow the path over the hills.” He smiled.

“How far?”

“An hour. Maybe more.”

I thanked him, leaving the luxury homes behind. The road narrowed. Orange lamps attached to high concrete poles flicked on. Drifting sea mist made the footing slippery. If it rained again, I was far from shelter. Rounding a sharp curve, I met a woman with plastic sacs over each arm. She was bent searching the bushes but straightened when I appeared.

“Hello.” I wanted her to understand I was not a threat. She was old but agile, wore pink stretch pants and a sweatshirt. Men’s glasses.

“I am collecting cans,” she explained. “They are worth money.” Her pale blue eyes searched me.

“I am going to Saquinho.”

She nodded, but I wondered if she understood me. I wished her luck. The road inclined abruptly as it ended. I climbed, with each step leaving the women searching the bushes farther behind me. There were few houses now and no road lamps. The trail was set with stones just as the man had informed me, and I regretted having set out without asking Fernando for details.

A sign read ‘Solidão.’ It would be impossible to reach the point before night. Then what about returning on the narrow path? The island’s dark mass had become indistinguishable with the ocean, requiring me to watch my feet to avoid the precipice. I hesitated to turn back after coming so far. Even if I reached Saquinho, it was too dark to see anything. I climbed on, hoping at each turn for houses to appear, or someone else. Perhaps lights.

I finally came upon a boy leaning against the rocky ledge. If not for his white t-shirt, I would not have noticed him. He was perhaps thirteen or twenty. A cell phone lit his face. It was impossible to pass without brushing against him.

“Do you live in Saquinho?” He nodded. “How far?” He waved several times, each gesture a measure. I waited for him toallow me to pass, but he didn’t move. I wedged into the ledge next to him and peered into the vast and obscure distance, not really wanting to go on.

Rain blew in from the ocean. A deluge. I forced myself against the rocks for protection, their sharp points digging into my skin. When I opened my eyes much later, the boy was gone. Fallen rocks from the hillside blocked the narrow path and high, bright stars lit the night. I had no idea of the hour, no choice but to abandon the point of the island and return by the narrow path to Pântano.


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(*) Richard Simas is a free-lance writer with a background in literature and the performing arts, in particular contemporary music. He lives in Montreal and contributes regularly to contemporary arts and literary reviews. His work has been published in Europe and in North America, including Canada’s Journey Prize anthology and a winner of a Fiddlehead Fiction Prize. He is a frequent collaborator for Musicworks magazine in Toronto.

(Conto originalmente publicado em "Natural in Verso" - Mariposa Azual, 2015 - Portugal)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

A FARINHADA NAS FREGUESIAS E ARRAIAIS DA ILHA DE SANTA CATARINA.

 


 
A FARINHADA NAS FREGUESIAS
E ARRAIAIS DA ILHA DE SANTA CATARINA.
Santa Catarina: a Ilha 1900 - José Luiz Sardá
Virgílio Várzea cita no livro Santa Catarina: a Ilha 1900 que “Na véspera, o carro ou os carros — porque os proprietários às vezes dispõem de dois ou de três, conforme suas posses e haveres — ocupam-se exclusivamente na condução da criação, pequena mobília e utensílios caseiros indispensáveis ao conforto, à lida propriamente doméstica e à do engenho, carregando igualmente os mantimentos necessários à família para uma estada de um a dois meses. Semanas antes, esses mesmos veículos têm acarretado do campo, em carradas seguidas, a lenha que terão de consumir fogão e o forno durante esse tempo, a qual é disposta em montões, ao fundo do terreiro, sob os cafeeiros e laranjeiras. O edifício do engenho que, como de costume quando não está em serviço, serve de celeiro ao café, ao feijão, ao milho, ao amendoim e ao arroz, se acha completamente desimpedido e arrumado, com todo o aparelho e acessórios prontos para a faina da mandioca, bem como a parte onde assentam as salas e demais cômodos reservados à família”.
No início das décadas do século passado de maio a outubro, acontecia as farinhadas. Uma cultura antiga e tradicional do povo açoriano na fabricação da farinha de mandioca. Nesta época havia muitos engenhos de farinhas nas freguesias de São João do Rio Vermelho, Ingleses, Canasvieiras, Ratones, Santo Antonio de Lisboa, Lagoa da Conceição e Ribeirão da Ilha e pequenos arraiais. O plantio e a colheita da mandioca naquele tempo era farta. Os proprietários dos engenhos de farinha eram nativos e de famílias tradicionais, lavradores abastados e donos de vastas roças de mandiocas. Para construir esses engenhos era preciso dispor de um bom capital. Depois que os donos dos engenhos terminassem a labuta da farinhada, os lavradores mais pobres podiam utilizar estes engenhos, desde que retribuíssem com alguns dias de serviços nas lavouras dos donos destes.
A construção era simples e rústica, feitas de parede de pau a pique barreadas e coberto de folhas de tiririca ou de taboa, muito comum nas áreas alagadas. A arquitetura na maioria deles, com pequenas janelas e duas largas portas de saída, uma à frente e outra aos fundos. Localizados sempre a beira dos caminhos e estradas, com pastagem para os animais, próximos aos córregos, rios ou cachoeiras. Estes engenhos na maioria estavam distribuídos nas diversas freguesias e distantes das casas, razão pela qual as acomodações destes ofereciam o mínimo conforto para que as famílias pudessem usufruir e alojar-se durante os longos períodos das farinhadas. Eram divididos em dois espaços: salas, quartos e assoalhados e o outro amplo de chão batido destinado ao aparelho e engenhocas, como: barricas, cocho, fuso, prensa, sevadeira, fornalha e demais acessórios.
Em maio emigravam-se aos engenhos as primeiras famílias de lavradores e proprietários que não possuíam redes. As que possuíam começavam a farinhada depois da safra da tainha. Desta forma dividiam incessantemente as lidas e afazeres nos engenhos e nos ranchos para a pesca da tainha, desde o nascer e ao por do sol. Nesta correria de afazeres, essa gente simples e ordeira trabalhava e se divertia muito. Alqueires de mandioca eram reduzidos a uma excelente farinha torrada e alva, cuscuz, beijus e com o polvilho fazia-se saborosas roscas e broas. Eram separadas e guardadas para o consumo das famílias e na ausência da farinha de trigo, a de mandioca era utilizada para fazer o pão.
Pela altíssima qualidade, sabor e padrão a farinha de mandioca e polvilhada, a sua produção era comercializada, inclusive para diversas cidades do Brasil. Para a farinhada vinha gente de outros arraiais e parentes próximos das famílias. As raparigas com mãos hábeis peneiravam nas gamelas massas de beijus que eram colocadas entre folhas de bananeiras e levadas ao forno. A massa era distribuída sobre a chapa quente e em seguida recolhiam os primeiros beijus torrados que eram arrumados em pequenos cestos de bambu. As brincadeiras, algazarras e as conversas dos rapazes eram uma constante. Ora estavam acarretando a mandioca, cuidado do gado, cevando ou forneando.
Ao mesmo tempo em que as famílias dirigiam para o engenho, os carros de bois seguiam para as plantações de mandiocas junto às encostas dos morros. Grupos de rapazes trabalhavam na extração das grossas raízes de mandiocas, outro se ocupava com os serviços internos no engenho cuidando dos carros e da troca dos bois, da prensa, sovando, dos tipitis, carreiros e o forneiro. O forneiro estava sempre envolvido pela nuvem branca de polvilho e com esmero cuidava da fornalha, pelo aroma, de pronto sabia e conhecia quando a fornada estava no ponto. Sabendo com detalhes todo o processo da fabricação da farinha.
Ao longo dos meses fazia-se um revezamento evitando a fadiga, a rotina e o desgaste físico. Nos mandiocais a colheita começava dos morros para a planície. Para extrair a raiz pegava-se a rama com as mãos, depois era sacudida para tirar o excesso de terra e quebrando-as pelas pontas era despejada em grandes balaios feitos de cipó ou de bambu. Cheios eram levados até um barraco de palha improvisado construído sob as árvores, que servia como ponto de apoio e descanso. Geralmente este trabalho era feito nas primeiras e últimas horas do dia, evitando o calor excessivo do sol.
O processo de raspadura da mandioca era feito nas primeiras horas da manhã. Na continuidade da lida a carga de mandioca era transportada em grandes balaios a um espaço reservado dentro do engenho e próximo ao rústico aparelho, onde as raízes eram despejadas. Tanto a colheita do café, do algodão e da mandioca se empregava o trabalho das mulheres e os demais trabalhos feitos por elas eram dentro das casas, como fazer a fiação do gravatá, do algodão, do linho, os bordados, as rendas de bilros e almofadas, os crivos, as tecelagens e entre outros artesanatos.
Mães e filhas em volta das mandiocas agachavam-se em esteiras de taboas e tiriricas ou sentadas em bancos improvisados com cepos de madeira. Utilizavam pequenas facas e com rapidez e destreza faziam a raspadura da mandioca, posteriormente era ralada, prensada, peneirada e depois levada ao forno para secar. Ao mesmo tempo, o sovador transportava nos balaios as mandiocas raladas para o cocho do escorredor ao ralador. Todo esse trabalho era feito com muita alegria, em conversas corriqueiras, falas graciosas e sonoras gargalhadas das mulheres.
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domingo, 20 de dezembro de 2020

MAR DE BORGES

Foto Fernando Alexandre

O MAR 
Antes que o sonho (ou o terror) tecesse Mitologias e cosmogonias, 
Antes que o tempo se cunhasse em dias, 
O mar, sempre mar, já estava e era. 
Quem é o mar? 
Quem é aquele violento 
E antigo ser que rói os pilares 
Da terra e é um e muitos mares 
E abismo e resplendor e acaso e vento? 
Quem o olha o vê pela primeira vez. Sempre. 
Com o assombro que as coisas Elementares deixam, 
as charmosas tardes, a lua, ou fogo de uma fogueira. 
Quem é o mar, quem sou? Isso saberei 
No dia seguinte da minha agonia

(Jorge Luis Borges ) 
Tradução de Rodrigo Garcia Lopes

MALHEIRAS

Foto Fernando Alexandre

MAR DE SABORES


Camarões ao alho e limão com esparguete

Camarão, limão, alho e esparguete num molho fresco, intenso e 
ligeiramente picante. 
Uma opção rápida e deliciosa para o dia-a-dia.

Ingredientes

Número de doses: 4
800 g de camarão 30/40
12 dentes de alho descascados e ligeiramente esmagados
2 limões médios
malagueta (opcional)
azeite q.b.
200 ml de vinho branco
1 colher de chá de maisena ou fécula de batata
sal e pimenta q.b.
manjericão, salsa ou coentros para polvilhar

Preparação

Retire a casca ao camarão em cru deixando o rabo. 
Faça incisão no dorso e retire a tripa. 
Ignore este passo se usar miolo de camarão. Tempere os 
camarões com um pouco de sal, 
sumo de meio limão, a malagueta bem cortadinha e pimenta moída na hora.
Retire a casca a meio limão (sem a parte branca) e corte 
muito fininho em juliana.
Aqueça um pouco de azeite na frigideira em lume forte. 
Junte os alhos só para largar o gosto no azeite, dourando muito ligeiramente.
Junte os camarões e deixe rosar – cerca de 1 minuto.
Junte imediatamente o restante sumo de limão, a casca cortada em juliana 
muito fina e a fécula ou maisena diluída no vinho.
Deixe fervilhar até engrossar um pouco. 
No total, o camarão não deve ficar ao lume mais de 5 minutos.
Retire do lume e retifique temperos.
Sirva sobre esparguete cozido – ou outra massa – polvilhado com 
manjericão, salsa ou coentros.

TRABALHADORES DO MAR

Foto Fernando Alexandre
 Célio, o "Carestia" e Bruno!
Pântano do Sul

domingo, 13 de dezembro de 2020

SE OS TEMPOS SÃO DE LULA...



Foto Luis Inácio
Lulas com Pimenta e Azeite 
  Ingredientes

1 kg de lula pequena
2 colheres (sopa) de azeite de oliva extravirgem
1 dente de alho
1/2 pimenta dedo-de-moça fresca
sal
1 limão
1 maço pequeno de salsa

Modo de preparo
Limpe cuidadosamente as lulas. Retire a cartilagem e a cabeça da lula já lavada. Separe os tentáculos e a cabeça. Elimine a pena localizada no centro dos tentáculos. Retire então, delicadamente, a pele da cabeça começando pelo alto. Lave em água corrente bem fria, enxugue delicadamente e reserve. Em uma frigideira grande, aqueça o azeite de oliva, junte o alho amassado e deixe dourar. Retire o alho e acrescente as lulas. Cozinhe em fogo médio, adicionando algumas fatias de pimenta dedo-de-moça e ajustando o sal. Sirva as lulas temperadas com o suco do limão e a salsa picada. Rendimento: 6 pessoas

(Do livro "ESCOLA DE COZINHA,"de Francesca Badi e Piero Rainone/Editora Larousse)

TRABALHADORES DO MAR

Foto Fernando Alexandre
Zeca e o cachorro - Pântano do Sul

sábado, 12 de dezembro de 2020

JÁ QUE OS TEMPOS SÃO DE LULA...


Foto Luis Inácio

Lulas à Vinagrete

Ingredientes:
  • 2 litro(s) de água fervente
  • quanto baste de tempero pronto em pó
  • 700 gr de lula em anéis 

  • Molho

  • 2 xícara(s) (chá) de azeite
  • 1 colher(es) (sopa) de alho fatiado(s)
  • 1/2 unidade(s) de pimentão verde picado(s)
  • 1/2 unidade(s) de pimentão vermelho picado(s)
  • 1/2 unidade(s) de pimentão amarelo picado(s)
  • 2 unidade(s) de tomate sem pele(s), sem sementes
  • 1 unidade(s) de cebola picada(s)
  • 2 colher(es) (sopa) de salsinha picada(s)
  • 2 colher(es) (sopa) de cebolinha verde picada(s)
  • 80 ml de suco de limão
  • 1 colher(es) (sopa) de manjericão picado(s)
  • 1/2 xícara(s) (chá) de vinagre de álcool
  • quanto baste de tempero pronto em pó
  • quanto baste de sal

Preparação:

Misture o tempero pronto na água. Em seguida coloque os anéis de lulas para cozinhar por 3 minutos. Retire do fogo e deixe esfriar. 
Molho
Numa vasilha, misture todos os ingredientes e coloque os anéis de lulas. Deixe por 3 horas e sirva. 

Rendimento:

7 porções

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

MAR DE POETA

Foto Andrea Ramos
vai passar
       ouça
             o murmúrio do mar

(Ademir Assunção - em "até nenhum lugar" - Editora Patuá)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

TUDO

 

Fernando Alexandre e Andrea Ramos

JÁ É TEMPO DE ANCHOVAS


Anchova assada com banana

Ingredientes:

- 1 anchova média espalmada 
- 1 cebola grande picada
- 6 dentes de alho picados
- 1 banana verde descascada picada
- suco de 2 limões 
- Sal, pimenta, azeite, alfavaca e açafrão a gosto

Preparação:

Passo 1: Tempere a anchova com sal, pimenta e açafrão. Jogue o suco dos limões por cima.
Passo 2: Então cubra com a mistura de cebola e tomate e, finalmente, cubra com folhas de alfavaca.
Passo 3: Cubra com papel alumínio ou filme plástico e leve à geladeira por uma noite, de preferência, já no refratário que vai usar para assar.
Passo 4: No dia seguinte, tire as folhas de alfavaca, regue com azeite.
Passo 5: Logo após, cubra com pedacinhos de banana e leve ao forno médio (200 a 220 graus) envolto no papel alumínio por cerca de 40 minutos.
Passo 6: Retire o papel alumínio e deixe no forno, na mesma temperaturo por mais meia hora, ou até o peixe ficar bem firme.

TRABALHADORES DO MAR

Foto Fernando Alexandre
Aldemir - Pântano do Sul