Mostrando postagens com marcador Mar de Crenças Rezas e Benzeduras. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mar de Crenças Rezas e Benzeduras. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 31 de julho de 2020

EU QUE TE BENZO!

Trabalho de Conclusão de Curso é um videodocumentário que registra as práticas terapêuticas religiosa-populares realizadas por benzedeiras de Florianópolis. A chamada medicina popular existe desde o início das civilizações, mesmo antes da medicina científica (ou alopática) que conhecemos atualmente. Embora muitas destas práticas não sejam reconhecidas e sejam, por vezes, desvalorizadas pelas instituições tradicionais como universidades, as pessoas continuam procurando essa forma de cura. Esse audiovisual apura como o conhecimento para a benzedura é adquirido, realizado e praticado. Ele também discute quais as principais doenças e motivos que fazem as pessoas recorrerem a essa prática milenar. Além das benzedeiras, foram entrevistados um historiador, uma psicóloga, uma antropóloga, um médico e um ambientalista que contribuem para fornecer uma análise mais crítica sobre a benzedura e falam sobre as suas experiências relacionadas à benzeção.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

HOJE, DIA DE SÃO PEDRO...


Se inté dia di São Pêdru
Nau houvé um corso fórti
Esqueçam todus tainha
Pôs u anu foi sem sorti


(Quadra popular registrada pelo
prof. A. Seixas Netto, século passado, na ilha)

quinta-feira, 25 de junho de 2020

FÉ NA PESCA!

Rancho na praia do Estaleirinho - Camboriú

ODOYA, RAINHA DOS MARES !

Imagem Reprodução sem crédito

Conta o mito da criação, que dos seios fartos de Iemanjá brotaram os Oceanos e com eles os orixás seus filhos: Exu, Ogum, Oxossi, Xangô e Oxum, a senhora das águas doces.
Iemanjá é o grande útero da vida no Ayê, na Terra. Esposa de Oxalá, é chamada de Yá, Mãe, por ser a grande mãe das origens (Yey-Omo-Ejá). Iemanjá vem de Yá Muja  e quer dizer a mãe, onde todos os filhos são peixes. Criou Omolu, filho de Nanã, a anciã, primeira esposa de seu marido Oxalá.
É o orixá mais popular de todos, sincretizada como uma sereia, metade mulher, metade peixe. Na mitologia grega enfeitiçava os marinheiros com seus cânticos. Apresenta-se como uma mulher sensual, no alto de um rochedo no mar, eternamente a amirar a própria beleza.
Adora receber presentes: flores, perfumes, jóias, bonecas, sabonetes, nas cores azul e verde, em tons claros, que lembrem a água. O branco e o prata são utlizados na confeção de seus colares. Seu elemento é água,  seu metal é a prata.
Iemanjá gosta de comer milho branco temperado com azeite de dendé, cebola, camarão seco, favas, arroz, entre outras iguarias.
Suas ferramentas são um alforje de prata, um abebé prateado, enfeitado de pedras verdes, azuis e brancas transparentes.
Seus filhos são autoritários tipo maternal,  de bom gosto, trabalhadores, bons decoradores, sensíveis, competentes, eficientes e solidários.
As filhas de Iemanjá são voluntariosas, fortes, rigorosas,  protetoras, altivas e algumas vezes impetuosas e arrogantes.Gostam de luxo, das fazendas azuis e vistosas, das jóias caras. Tem tendência à vida suntuosa, mesmo que as necessidades do cotidiano não lhe permitam tal fausto.

Sua saudação é ODOYA!

quarta-feira, 27 de maio de 2020

BENZENDO AS REDES




Ilda Martinha Vieira, a tia Ilda, do Pântano do Sul, foi uma das últimas benzedeiras da Ilha de Santa Catarina.  Suas rezas curavam zipra, cobreiro, engasgo e protegem contra o mau olhado. E até as redes dos pescadores recebem a sua benção, como ela conta no vídeo.

terça-feira, 19 de maio de 2020

A TAINHA E SUAS ESCAMAS ABENÇOADAS


A Escama "estratégica" da Tainha

Uma das crenças mais difundidas a respeito da tainha é que ela seria um peixe abençoado por ter a imagem de Nossa Senhora estampada em suas escamas.
Fora esta crença popular a escama da tainha ainda tem uma função "estratégica" entre o rol de artimanhas dos pescadores.
Um dos principais fatores que garante o sucesso de uma pescaria tradicional é o "segredo" com respeito ao local onde está o cardume de Tainhas. Geralmente este cardume é chamado de "o peixe" e saber onde "o peixe" está, onde "o peixe dorme" e qual a quantidade do peixe é fundamental para o sucesso da pescaria.
Então durante a Época da Tainha, é comum os pescadores utilizarem as mais diversas estratégias para garantir o "segredo" sobre "o peixe". Então é muito comum entre os pescadores de uma localidade, mentir, enganar, despistar sobre o resultado de uma pescaria a fim de não revelar o "segredo" para os outros pescadores.

É aí que as escamas da tainha são utilizadas para cumprir esta função estratégica.

Muitas vezes quando o pescador quer dar a impressão de que matou muita tainha na noite anterior (mesmo tendo matado 2 ou 3), ele limpa as tainhas e junta as escamas e o sangue delas para espalha-los ao redor da canoa, por cima da rede e na proa da canoa, passando assim a impressão de que matou muitas tainhas.

Já com o intuito contrário, se ele matou muita tainha e quer esconder o sucesso da pescaria para que seus "concorrentes" não se dirijam para o pesqueiro utilizado na noite anterior, ele limpa todas as escamas de dentro da canoa, ou que tenham caído no chão, e lava todo o sangue de tainha que esteja na rede ou na proa da canoa.

(Do blog https://canoadepau.blogspot.com/)

domingo, 26 de abril de 2020

BENZENDO...

Benzedeiras - ofício tradicional. Um filme de Lia Marchi.
Um filme sobre mulheres, comunidade, saúde, afeto, fé, tradição, organização popular, sustentabilidade.
Informações: contato@olariacultural.com.br

terça-feira, 14 de abril de 2020

BRUXAS DAQUI

Desenho de Franklin Cascaes
Viagem bruxólica a India
" As bruxas roubam a lancha baleeira de um pescador e fazem uma viagem ultra supersõnica até a India para buscar ingredientes - ervas e especiarias afim de produzirem o "unto sem sal" e passando no corpo realizam a metamorfose bruxólica."

(Franklin Cascaes nasceu na primavera, em 16 de outubro de 1908, na praia de Itaguaçu, na parte continental da Cidade e  faleceu em Florianópolis, 15 de março de 1983.Foi um pesquisador da cultura açoriana,  folclorista, ceramista, gravurista e escritor brasileiro.)

quarta-feira, 8 de abril de 2020

A CRUZ DO PADRE

Resultado de imagem para cruz do padre florianópolis

Conheça a história da "cruz do padre", entre o Campeche e a Joaquina
Estrutura homenageia sacerdote que morreu afogado e é rodeada por causos de arrepiar

Gabriela Wolff
gabriela.wolff@horasc.com.br


Imponente entre as dunas, visível aos olhos de quem caminha pela praia do Campeche à Joaquina, em Florianópolis, a cruz de cimento de mais de dois metros chama atenção. Fincada em 1961 em homenagem a um padre que morreu afogado no mar bravo em frente, a cruz virou ponto de referência, local de orações, devoção e de lendas entre os mais antigos.

O historiador Hugo Adriano Daniel, nativo da região, é pesquisador da história do Rio Tavares e relata que a cruz foi colocada naquele ponto poucos dias após a morte do padre gaúcho Alfredo Dullius, na época com 45 anos. Segundo relatos orais e registros, na encosta do morro, próximo aonde hoje se localiza a Igreja de Pedra do Rio Tavares, que antigamente pertencia ao Colégio Catarinense, existia um casarão, em que padres e seminaristas costumavam passar os fins de semana em meio a natureza. Naquele tempo, a luz elétrica ainda não havia chegado na região, e a estrada era totalmente de terra:

— Logo depois do almoço, no dia 26 de dezembro de 1961, o padre Alfredo e seminaristas pegaram a trilha em meio às dunas e foram tomar banho de mar. Pelos relatos, o padre entrou na água de batina, e no primeiro mergulho caiu em uma corrente de repuxo e não conseguiu mais sair. Até tentaram salvá-lo, mas não foi possível — conta Hugo. 

Os seminaristas saíram desesperados em busca de ajuda. Alguns foram em direção a base aérea, que enviou um avião de treinamento militar, que localizou o corpo boiando a cerca de um quilômetro da costa. Pescadores do Campeche também tentaram em vão, chegaram a jogar cipó-banana, mas não teve jeito. O mar estava tão revolto que tiveram dificuldades até para erguer o corpo para a canoa, e foi preciso amarrar uma corda e arrastá-lo até o pico do Campeche, no local chamado Pontal, uma operação que durou mais de três horas.

O bombeiro aposentado Artur Nunes, 84 anos, nascido e morador do Rio Tavares até hoje, recorda que foi uma grande comoção entre todos, e na mesma semana o padre Alvino Bertholdo Braun, que era o pároco da Igreja de Pedra, encomendou a cruz:

— O padre veio falar com o meu pai para fazer o cepo para a cruz, que depois fizemos de ipê-amarelo com 2,2 metros. A cruz era grande e pesada, levamos até as dunas pela Picada da Isidoro de carro de boi. No dia de colocar teve uma missa muito grande, encheu de gente — recorda.

Quem ele era

O padre era professor no Colégio Catarinense há três anos e também capelão auxiliar da Escola de Aprendizes Marinheiros no Estreito, por isso tinha muitos amigos e conhecidos na cidade, conforme explica o historiador.
O advogado Aluísio Dobes, 75 anos, foi aluno do padre Dullius no Colégio Catarinense no 1º Científico, equivalente ao Ensino Médio nos dias atuais. Ele conta que o sacerdote tinha uma característica muito interessante:
— Ele tinha um olho verde e outro azul. Era professor de história mundial, e colocamos o apelido nele de "long play", pois ele abria um mapa mundi no púlpito e com uma vareta apontada, começava a falar e não parava mais contando a história. Foi um choque muito grande quando ele morreu, todos gostavam dele. Eu não estava mais na escola porque tinha ido servir o exército, mas soube pelo boca a boca dos amigos — recorda.
— Depois disso, passaram a chamar aquele lugar de Picada da Cruz do Padre. Os antigos chamam assim até hoje, essa coisa de "Pico da Cruz" foram os surfistas que inventaram — conta. 
Seu Artur explica que há uns 15 anos tiveram que substituir a cruz original por uma de concreto, pois a madeira apodreceu devido a maresia. 

Lendas em torno da cruz

Morador do Campeche, o historiador Hugo conta que cresceu ouvindo os pescadores falarem que tinham medo de passar na Picada da Cruz, pois o fantasma do padre aparecia:
— Outra curiosidade é que os pescadores relataram que quando resgataram o corpo, o padre estava com as mãos em oração, e em nenhum momento o corpo afundou — recorda.
Para Artur, tudo era imaginação dos pescadores:

— Já ouvi falar que viram vultos próximo da cruz, mas é tudo lenda, coisa da cabeça das pessoas — finaliza.

Mas, por via das dúvidas, se você tem medo dessas coisas, é melhor evitar a picada.
(Do www.clicrbs.com.br)

terça-feira, 17 de março de 2020

MAR DE BRUXAS?

Fotos Andrea Ramos
Tia Ilda Maria, do Pântano do Sul, uma das últimas benzedeiras da ilha, benzendo redes da pesca!
A FÉ QUE CURAVA DOENÇAS

"Os primeiros tempos isolados do poder central e vivendo num ambiente inóspito, os primeiros imigrantes açorianos instalados na Ilha de Santa Catarina tinham na fé o principal recurso contra as doenças que afligiam a população na primeira metade do século XVIII. Benzedeiras e curandeiros eram a tábua de salvação para todos os males que atingiam os moradores da colônia.

A fé em um Deus supremo e a sorte regiam os lares dos primeiros imigrantes açorianos instalados na Ilha de Santa Catarina na primeira metade do século XVIII. Nesse tempo quando uma pessoa caía doente, acometida por qualquer um dos inúmeros males que rondavam a então escassa população ilhoa, a saída era recorrer às receitas caseiras de chá e ervas ou rezar muito.

Diante dessa quase ausência de chances de salvação, um recurso era buscar conforto nas práticas nada ortodoxas – e sem base cientifica – do curandeirismo e das benzeduras. Mesmo que sustentadas em conhecimentos empíricos e crendices, as ações de leigos com status de doutores se convertiam na última saída para quem quisesse salvar o enfermo da condição de entrevado ou da morte iminente. Os registros históricos são pródigos em narrativas sobre as enormes dificuldades enfrentadas pelos colonizadores. Desde os relatos dos viajantes navegadores europeus até estudos mais recentes feitos por pesquisadores, todos reforçam os desafios da terra nova, desconhecida e assustadora.

Respeitado pesquisador da cultura açoriana, Franklin Cascaes (1908-1983) reproduziu, por meio de peculiar e curiosa narrativa, o drama vivido pelos doentes nos primeiros tempos da imigração:
[...] Nesses tempos longínquos, na Vila Capitali, nem havia doutore (s) de dar remédios. As boticas eram pobres e o atendimento era feito por boticários que, na maioria das vezes, mal sabiam soletrar o be-a-bá. Ora, em situações de desespero, com relação a doenças que atacavam e corroíam o organismo humano até dá-lo à morte, o jeito mesmo era recorrer a Deus e aos Santos e, consequentemente, aos benzedores curandeiristas que existiam, e ainda existem entre as populações como figuras mitológicas respeitadas e, às vezes, muito xingadas, porém, sempre procuradas em ocasiões de desespero e desesperança como a única estrela de salvação[...]

[...] Os curandeiros substituíam os doutores das vilas e cidades, vivendo o espírito curandeirista e espiritualista de seus antepassados, receitavam e ainda receitam verbalmente plantas medicinais, extraindo, por meio de um processo de cozimento ou de infusão, princípios medicamentais. Usavam e ainda usam aplicações em forma de cataplasma ou de sinapismo de seivas, folhas ou frutos para atalhar o avanço das moléstias que, até nos dias em que vivemos, atacam e destroem os organismos químicos que mantém a vida nos corpos de argila humana crua. Quando bispavam que as doenças que atendiam eram males espirituais de inveja, de quebranto e muitos outros, recorriam às virtudes de poderosas benzeduras, que aprenderam com os mais velhos e respeitados curandeiros vindos entre levas de colonos, seus ascendentes, lá das Ilhas dos Açores, pra mó de viverem nesta terra abençoada, acolhedora e fantástica [...]

*Texto extraído do livro “A Saúde em Florianópolis – das benzeduras na Velha Desterro aos novos conceitos de promoção de saúde”. Coordenação de Edevard J. de Araújo - 2010

(Pesquisa e edição de José Luiz Sardá)

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

A BRUXA DO SAQUINHO!

Desenho de Franklin Cascaes
"O Senhor Rosalino Oliveira gostava muito de contar estórias de assombrações e outras. Certa ocasião, estávamos sentados na linda praia de Pântano Sul, Ilha de Santa Catarina, quando ele se lembrou dessa estória...
... Meus pais contavam que no (praia) Saquinho existiu um casal que ganhou como presente do trabalho sexual oito filhas, sem nenhum varão entremeado. Depois do nascimento da sexta filha, nasceram duas gêmeas. O casal ficou muito preocupado com a dádiva lá de riba do alto, isso porque sabiam de antemão que, ao nascer a sétima filha de um casal de gente de argila humana, a mais velha tem obrigação espiritual de batizar a mais moça, para afugentar o triste fado bruxólico que ela recebe naturalmente ao nascer neste mundo de Nosso Senhor, como também os pais devem aplicar-lhe o nome de Benta. Meio confusos e apavorados com a presença do caso bruxólico natural que sabiam envolver suas duas filhas, a sétima e a oitava, gêmeas, resolveram consurtar a sinhá Candinha Miringa, velha e tradicional médica benzedeira e curandeira lá das bandas do Sertão do Peri, mó de tomar conselhos e ouvir suas sábias e firmes palavras com relação às coisas do mundo dos deuses ocultos. - Sim, sinhá Candinha, - falou seu Manoel Braseiro, o pai das gêmeas, - eu confio muito na senhora e sempre ouvi falar que o seu saber espiritual com relação às coisas do outro mundo é verdadeiro e consolador(...)

(Fragmento de Bruxas Gêmeas, conto de Franklin Cascaes em "O Fantástico na Ilha de Santa Catarina" - Volume II - Editora da UFSC - 1992.)

domingo, 16 de fevereiro de 2020

MAR DE CRENÇAS, REZAS E BENZEDURAS...


"Entre nossos valentes e audazes pescadores existem crenças bastante arraigas, naturalmente herança dos seus antepassados. Desde que põem o pé na praia com destino à pescaria, fazem o possível para não falarem em pena de aves, em cobra etc. Quando estão preparando seus apetrechos e aparelhos de pesca, evitam que senhoras grávidas os toquem, ou passem por cima dos aparelhos. Têm verdadeiro horror quando recebem encomendas de peixes e muito principalmente quando são feitas por mulheres. Se estiverem na praia preparando-se para irem ao mar realizar o trabalho de pesca e um dos camaradas por acaso falar dos elementos já citados e por eles considerados azarentos, chegam até a desistir e, se o fazem, conservam-se contrariados, prevendo sempre o mau êxito da pescaria na ocasião. Os mais fanáticos chegam a voltar do mar, quando já estão pescando, se, por esquecimento, um camarada falar num dos elementos que eles considerem azarados.

Costumam embarcar na canoa com o pé direito. Acreditam piamente que quebranto, mau-olhado e inveja. Alguns escondem os peixes que pescaram, quando voltam da pescaria, embaixo do paineiro da canoa, para que quando chegarem na praia os "olhos grandes" não os vejam. Se um pescador tem a felicidade da fazer uma pescaria farta, os que não conseguiram na mesma ocasião também fazê-la atribuem a causa do fracasso ao poder maléfico dos "olhos grandes". Para afastá-lo, consultam uma benzedeira experimentada e entregam seus aparelhos e apetrechos aos cuidados dela, na certeza de que ela, com o emprego das suas benzeduras de efeitos rápidos e poderosos, quebrará as forças maléficas e traiçoeiras dos "olhos grandes", anulando o seu efeito diabólico, colocando-os para sempre no fundo do mar sagrado "onde o galo preto não canta" conforme cita a reza.

Se os instrumentos estiverem muito impregnados pelas forças anuladoras do quebranto, a pobre benzedeira passa por grandes sofimentos físicos no momento de praticar o ato da benzedeura contra os poderes misteriosos do mal. Boceja, verte lágrimas, espreguiça-se, enfim, fica exausta. Depois de terminado o trabalho, a benzedeira respira fundo e se dirige ao dono dos instrumentos de pesca e faz o comentário dos elementos sobrenaturais que "viu com os olhos que a terra há de comer" e dos que ela sentiu maltratar-lhe o corpo "sem dó nem piedade".

"Credo! Cruz! Virge Maria! Sô Janjão!. "Puxa que passê um bucado mali". "Si não fosse os 'contra' que carrego comigo, pra mode me defendê, e não tivesse feito a benzedura com fôia de guiné e arruda, não sê não o que haverá acuntecido".
"Tive inté arripio no fio da espinhela". "O máu zóio que butaro em riba dos seus traste de pescaria é zóio de quemá inté pimenta braba". "Vôte bicho ruim! "Credo, mô Deus, esta gente dagora não pode vê os zôtro miorá de vida". "Dargum tempo não era ansim. Quás não havia essas coisa".

Então, "seu" Janjão, que havia escutado religiosamente a "sinhá" Chica benzedeira, concordou plenamente com o que ela o expusera, e respondeu-lhe: "É, sinhá Chica, prô mode destas e dôtras é que eu acostumo a incundê os pêxe que mato em baxo do pânero da canoa". "Sinhora, quando mato um bucadinho de pêxe má mió, essas gente fica quás doida pra riba da minha canoa". "Nesse dia não posso cume nem drumi dereito, pra mode de tanto abri e fachá a boca". Fico inté com o braço dereito cansado de tanto levá a mão na boca, pra mode fazê o sinali da cruz dentro dela; mas não arresove, é quebrante muito forte".

E voltando-se para a mulher: "Eu não te disse, Noca que quando vi a Dica cáquela barrigona muito grande em vorta da minha canoa, junta cá muié do finado Zé Antonho, a oiarem muito pro lado que tava a espinhela e os pêxe que não ia arresurtá coisa boa".


SUPERSTIÇÃO DOS NOSSOS AUDAZES 
PESCADORES DA ILHA DE SANTA CATARINA

(De " Crônicas de Cascaes" 
Primeiro volume Fundação FRANKLIN CASCAES - 1956
Acervo: Museu Universitário Oswaldo Rodrigues Cabral/UFSC, pesquisa de
José Luiz Sardá )

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

O UNIVERSO FANTÁSTICO DA ILHA

O longa metragem A Antropóloga é uma ficção de mistério e suspense sobre o universo fantástico das bruxas da Ilha de Santa Catarina. Tem como cenário a belíssima Costa da Lagoa e conta história de Malu , uma jovem natural dos Açores, que está em Florianópolis pesquisando os aspectos comuns existentes entre essas duas culturas. Durante entrevistas com benzendeiras, conhece Carolina, uma criança que sofre de “embruxamento”. Com a morte da criança, Malú se aprofunda na busca da verdade. E a encontra. Direção de Zeca Pires, Roteiro de Tânia Lamarca e Sandra Nibelung, com argumento original de Tabajara Ruas.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

MAR DE SUPERSTIÇÕES


Superstições marinheiras


Quem é do mar já ouviu falar de pelo menos uma dessas superstições marinheiras.

Todo marinheiro que se preze tem lá suas superstições. Algumas bastante conhecidas pelo grande público, outras só por quem é realmente do mar. Mar Sem Fim fez uma listagem bem humorada para você conhecer alguma delas.

Se você sabe alguma outra superstição envolvendo o universo marinheiro nos conte e nos ajude a aumentar essa lista. Quem é do mar agradece!

Muitas dessas superstições, lendas, mitos, crenças são antigas tradições, heranças da história. Outras nasceram de eventos que navegante algum foi capaz de explicar.

1. Navio seguro é navio batizado…

A tradição de batizar um navio é tão antiga quanto os próprios navios. Sabe-se que egípcios, romanos e gregos já faziam cerimônias a fim de pedir aos deuses proteção para homens que se lançariam ao mar, mas por volta de 1800 os batizados começaram a seguir um certo padrão. Era derramado contra a proa da embarcação uma espécie de “fluido batismal”, que poderia ser geralmente vinho ou champanhe. A tradição que se desenvolveu preconizava que uma mulher deveria fazer as honras e ser nomeada “benfeitora” do navio em questão ao quebrar uma garrafa no casco do barco. Se um navio não fosse corretamente batizado, seria considerado azarado.

2. …uma vez só!

Nunca se deve rebatizar um navio, é azar na certa. Ou seja, batismo bom é batismo feito do jeito certo, com garrafa quebrada e uma única vez.

3. Sexta não!

Jamais partir em uma sexta-feira. Muitos marinheiros recusavam-se a embarcar nesse dia da semana. Não s sabe ao certo a origem dessa lenda mas quase todo capitão se recusa a soltar as amarras em uma sexta-feira.

4. Todos os ratos a bordo

Ratos não são os animais mais desejáveis de se ter por perto, certo? Errado. A última coisa que os marinheiros gostariam é que todos os ratos do navio subitamente fossem embora. Reza a lenda que a debandada de roedores da embarcação é encarada como um mau presságio, alerta de um infortúnio que está por vir.

5. Uma moedinha, por favor

Todos os navios devem ter uma moeda de prata embaixo do mastro. Acredita-se que isso traga boa sorte. As explicações são muitas, mas a tradição parece ter começado com os romanos. Diz-se que a moeda era uma forma de “pedágio” cobrada pelo deus Cáron, incumbido de levar as almas dos mortos em sua barca na travessia do rio Aqueronte. Caso um desastre acontecesse ao navio, a pratinha serviria como o pagamento de todos os marinheiros, que passariam seguramente para o lado de lá.

6. Aquele-que-não-deve-ser-nomeado

A bordo de uma embarcação, há uma palavra proibida. Jamais se deve dizer COELHO a bordo. Acredita-se que o bicho traga muito azar. A explicação vem da experiência, pois o animal tinha o péssimo hábito de roer o casco na época em que as embarcações eram feitas de madeira,e acabaram sendo proibidos de embarcar.

7. Cuidado com o que você deseja

Nunca se deve desejar “boa sorte”a um marinheiro antes de partir. Os marítimos acreditam que dizer “boa sorte” a alguém que esteja dentro de um navio é, contraditoriamente, sinal de azar. Em inglês, costuma-se dizer “break a leg” para alguém que irá navegar – no mar nada acontece como queremos, então se desejarem que você “quebre uma perna” certamente tudo vai correr bem.

8. Assobiar ou não assobiar?

O assobio é um ato relativizado na superstição marinheira, e depende das condições do tempo. Se o navio está passando por uma calmaria, assobiar ajuda a trazer ventos, ou seja, é recomendável. Mas se já está ventando, um assobio desavisado pode convocar uma tempestade, por isso precisa ser evitado.

9. Plantas e flores… em terra firme

Não aceitar plantas e flores a bordo de um navio também é uma das superstições marinheiras. A razão dessa crença vem da lógica – plantas consomem água doce, o bem mais precioso que se tem em uma embarcação.

10. Não se deve mudar o nome do barco ou…

Marinheiros acreditam que não se deve mudar o nome de um barco, caso contrário, isso trará muito azar para as navegações. Porém, há uma saída. Caso o capitão decida dar um novo nome à embarcação, deve fazer uma cerimônia bastante detalhada e cheia de rituais.
(Do https://www.facebook.com/marsemfim/?fref=ts)

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

BRUXAS DE ITAGUAÇU

Foto Pedro Leite
Salão de Festas das Bruxas do Itaguaçú

Diz a lenda que as bruxas da região queriam fazer uma linda festa aos moldes da alta sociedade. O local para o encontro festeiro seria a praia do Itaguaçú, o mais belo cenário da terra, todos seriam convidados, os lobisomens, os vampiros e as mulas-sem-cabeça.
Os mitos indígenas também compareceram, entre eles estavam os curupiras, os caiporas, os boitatás
, e muitos outros. Em assembléia, as bruxas decidiram não convidar o diabo pela razão de seu imenso fedor de enxofre e pelas atitudes antisociais, pois ele exige que todas as bruxas lhe beijem o rabo como forma de firmar seu poder debochadamente absoluto.

A orgia se desenrolava, quando surge de surpresa o diabo que entre raios e trovões, raivozamente irritado pela atitude marginalizante das bruxas castiga todos transformando-os em pedras grandes, que até hoje flutuam nas águas do mar verde e azul da praia do Itaguaçú.

Daí o nome do lugar na língua indígena:

ITA = Pedra + GUAÇU = Grande

terça-feira, 20 de agosto de 2019

DE BENZEDEIRAS & BENZEDURAS



Centro Cultural Nau Catarineta apresenta:

Venha encontrar todas essas histórias e muita cultura a bordo da Catarineta!
Bon Voyage.

“DONA FULANA MORREU E LEVOU CONSIGO TUDO O QUE APRENDEU? Contos e fotografias de benzedeiras e benzedores na Ilha de Santa Catarina”

Dia 24 de agosto de 2019, sábado, em Santo Antônio de Lisboa, na Casa Açoriana, às 16 horas

Obra da fotografa Virginia Yunes e da antropóloga Marta Magda Antunes Machado, traz contos e fotografias sobre benzedeiras e benzedores da Ilha de Santa Catarina. Resultado da parceria das duas pesquisadoras de diferentes áreas de atuação profissional e artística, a obra procura ser uma resposta contemporânea para o conhecimento, o registro e a salvaguarda das narrativas, das práticas de benzedura e dos modos de vida locais dessas figuras populares nos diversos bairros da cidade. Os contos e as fotografias descrevem e retratam em detalhes como são as benzeduras, as moléstias às quais elas atuam como uma alternativa de cura e os contextos em que as mulheres e os homens de reza exercem o seu saber e poder pelo gesto de abençoar e afastar os males da alma e do corpo, protegendo a vida e servindo em favor da saúde e felicidade das pessoas, dos animais, da natureza e das suas comunidades. Com uma investigação longa e cuidadosa, os estudos da antropóloga e da fotógrafa têm por objetivo preservar, difundir e valorizar esse legado que, por vezes, parece permanecer invisível às gerações atuais. E que, no entanto, mantém vivas a memória e a história da gente e das configurações locais onde costume e práticas revelam as inúmeras peculiaridades socioculturais de cada lugar de Florianópolis.