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sexta-feira, 30 de agosto de 2019

MARES DE PORTUGAL

Foto Antonio Cravo
a agulha

desfazer nós
metáforas baratas de falsos consensos
acender uma vela
por pequena que seja
ver e mostrar
saber e dizer

sem pretensões de longe
sem ilusões de muito
falar e dizer
porque calar
é consentir
sabedoria de povo
quantas vezes calado

fina e diminuta a agulha
a picadela

isso tão só

- o ti augusto segura o nó da corda que prende a calima ao fundo do saco -

(torreira; companha do marco; jun, 2014)

(Do ahcravo gorim)

terça-feira, 19 de março de 2019

MARES DE PORTUGAL

A imagem pode conter: oceano, água, céu, atividades ao ar livre e natureza

lavradores do mar
abrem nas ondas regos
ao mar vão semear redes
sem saberem da colheita
chamam terra à areia
onde retornam espuma dorida
não lhes fales das serras
do silêncio do chilrear das aves
nunca o entenderão
são lavradores do mar
(torreira; 2016)

sábado, 9 de março de 2019

MARES DE PORTUGAL


mãos de mar (16)

para o menino bonito

o meu povo trabalha duro
não tem tempo para brilhantinas
ordenados milionários
viagens em classe executiva

o meu povo
os copos que bebe
saem-lhe do corpo e sabem a sal

o meu povo
tem direito a ser respeitado
por todos
em especial pelos gravatinhas
que não o conhecem
nem falam a sua língua

o meu povo
respeita todos os povos
porque todos os povos
são o meu povo

o meu povo
tem a sabedoria dos dias de parca paga
que reparte com as mulheres
e os filhos

o meu povo
está cansado de meninos bonitos
com muita escola e poucos princípios

o meu povo
convida o menino bonito
para um dia de trabalho

(Do ahcravo gorim , poeta e fotógrafo português)

sábado, 6 de outubro de 2018

MARES DE PORTUGAL


Enviado por bacelarvet
A sobrevivência dos pescadores da ria de Aveiro e, nomeadamente, do concelho da Murtosa, depende das seguintes capturas: - enguia (cada vez mais escassa e, por isso mesmo, com cada vez menos pescadores a sobreviverem da sua pesca) - choco, linguado, sável e lampreia (espécies sazonais e complementares, capturadas com artes de emalhar) - bivalves...

segunda-feira, 25 de junho de 2018

MARES DE PORTUGAL


torreira

torreira é nome 
de mulher
feito terra

escuto a sua voz
a camaradagem
o ser completa

torreira é o mar
os barcos
as companhas

é o rio as gentes
os saberes
o pouco de tanto

o mais por belo
que seja
vazio de corpos
é paisagem

(Do ahcravo gorim- torreira; safar redes; 2018)

sábado, 11 de novembro de 2017

MARES DE PORTUGAL


Foto Ahcravo Gorin
os afectos e as malhas

mandei escrever no braço
o amor por ti

não esqueço

nunca esquecerei
és-me enquanto me for
eu aqui pescador

tece o tempo
as malhas que os afectos
acolhem
malhas largas

os deixam ir sem saudades de
outras miúdas são
nelas se guardam os mais caros
os mais perto do coração

quem amiúda
as malhas alargadas?

(torreira; companha do marco; 2011)


o agostinho a porfiar o saco


(Ahcravo Gorin)

segunda-feira, 10 de abril de 2017

MARES DE PORTUGAL

Foto: arte de Johann Egger - esculturas feitas de pedras , na Ribeira das Naus, entre o muro e o rio Tejo/Lisboa

"Desta vez, aportei com o pensamento voltado para a navegação."


quarta-feira, 1 de março de 2017

MARES DE PORTUGAL

Este tipo de pesca só existe em Portugal, nas zonas entre Espinho e Vieira de Leiria e na Costa de Caparica

A Arte Xávega é agora Patrimônio Cultural Imaterial de Portugal

A Arte Xávega, um tipo de pesca tradicional na Costa da Caparica, município de Almada, foi este mês inscrita no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, na sequência de uma proposta elaborada pelo Centro de Arqueologia de Almada e apresentada pelo município.
De acordo com a publicação feita em Diário da República, a 16 de fevereiro, "a Diretora-Geral do Património Cultural decidiu favoravelmente sobre o pedido de inscrição da Arte Xávega (Costa da Caparica, Almada) no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, apresentado pelo Município de Almada".
Na publicação em Diário da República, Paula Araújo da Silva refere que a aprovação advém da sua importância enquanto identidade dos dois núcleos piscatórios da comunidade onde se pratica e pela sua “profundidade histórica e evidente relação com práticas homólogas de outras comunidades piscatórias em Portugal, designadamente no litoral Centro e Norte”. É destacada ainda a “importância técnica e científica de que se reveste o pedido de inventariação em apreço, desenvolvida ao longo de diversos anos com recurso aos métodos e técnicas etnográficas”.

A Arte Xávega é técnica tradicional de pesca com recurso a uma rede de cerco, lançada no mar e depois puxada para a praia. A arte, como é designado o conjunto constituído por cordas, alares e saco, é lançada ao mar a partir de uma embarcação, deixando em terra a ponta da corda designada por ‘banda panda’. Depois de largar a rede, a embarcação regressa à praia trazendo a outra ponta de corda, designada por ‘banda barca’. Logo que a segunda corda chega à praia, começa o processo de alagem em simultâneo de ambas as cordas, puxando para a praia a rede, cuja boca é mantida aberta com recurso a flutuadores e pesos.

Na comunidade piscatória da Costa da Caparica, este tipo de pesca realiza-se ao longo de todo o ano, estando largamente dependente das condições meteorológicas e do estado do mar, assim como, na época balnear, das condições de acesso às áreas de praia concessionadas. Esta comunidade piscatória é constituída por dois núcleos localizados na freguesia, um na Costa da Caparica e outro na Fonte da Telha, cada qual conta com cinco companhas de Arte Xávega, que exercem a sua atividade em toda a frente atlântica até, mais a Sul, à Lagoa de Albufeira.

(Do http://www.mundoportugues.pt/)

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

MARES DE PORTUGAL -


sofrida vida, parca paga
mariscador

subir os dias
a pulso
um a um
sem saber se

não ter patrão
e ser escravo

curvar-se até
às conchas
cavar a lama

ser mariscador


 (ahcravo gorim ria de aveiro; torreira)

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

MARES DE PORTUGAL

crónicas daxávega (37)

das artes e do estar

a cada um a sua arte
no seu tempo

aparelho-me de palavras
imagens sentires

redes estranhas estas
pelo corpo

não ser barco
nem pescador
é ser como sou

outra forma de estar

(torreira; companha do marco; 2011)

domingo, 25 de setembro de 2016

MARES DE PORTUGAL

crónicas da xávega (31)

o abraço

desenhar as palavras
à altura da vaga vencida
será tarefa árdua

chegar onde estes homens
dizer deles o que
sem saber como chegar até

escaldante como a areia
o pensar ser

morrer na praia é desejo
viver no mar é urgente

o abraço

(foto e poema do ahcravo gorim)
(torreira; companha do marco; 2014)

ao calão, o delmar viola

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

AS MÃOS, SEMPRE AS MÃOS...


(crónicas da xávega (38)

as mãos

regresso sempre às mãos
às mãos e ao peso
que sobre elas
tudo

ao pão suado salgado
sofrido esmifrado

aos braços ferramenta
aos escravos da fome
dos filhos do hoje
do manhã do nunca
do sonho
do desespero
da esperança

regresso sempre às mãos
nem sempre
vazias

(Do  ahcravo gorim)
(torreira; companha do marco; 2012)

o saco aproxima-se, os bordões apertam as mangas, os homens esperam o pão

domingo, 28 de fevereiro de 2016

MARES DE PORTUGAL


assim o vento
sou o que o vento
levará ao mar
depois de tanta terra

o meu tempo é
não foi nem será
é
e serei nele
os que comigo

chego súbito
como quem parte
sem despedida
assim o vento

(ahcravo gorim)

(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio, 2014)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

MARES DE PORTUGAL


porquê contar

começa um ano 
continua o tempo

por sobre a areia
nem pegadas
que o vento

das gentes pó
a areia o mar
a memória

fica o retrato a falar
do que perdi a conta

tempo houve em que
era assim
ainda é ainda é ainda

não conto nada
registo o que posso

(torreira; século XX)

o carregar das redes para secarem ao sol






domingo, 18 de janeiro de 2015

MARES DE PORTUGAL


Fotos ahcravo gorim 

dos homens que vão ao mar
diz-se que nem sempre voltam
mas diz-se sempre
que são HOMENS

(ahcravo gorim)

sábado, 6 de dezembro de 2014

MARES DE PORTUGAL


meditação depois de

recusa a terra
dono ter para além
de ser ela tudo
todos

terra e tempo
confundem-se no seres
tu aqui mais um
tão só

aceita o instante
em que és
fruto e terra

adubo serás

(Do ahcravo gorim)
(cais do bico; murtosa)