quarta-feira, 17 de outubro de 2018

TRABALHADORES DO MAR

Foto Fernando Alexandre
Geisiel, na rede!
Pântano do Sul

MAR DE POETA


Tela do artista catarinense Meyer Filho

...Ó ilhas quando não de corvinas
Tainhas de ovas douradas
Casco inchado de baleeira
Farinha em prato de barro
Rendas de bilro e tarrafas
Bruxas por vezes lamparinas...

(Fragmento de poema de Hugo Mund Jr.)

LÁ NO FUNDO

Desenho mostra como era a caravela Santa Maria 
(Reuters/U.S. Library of Congress)

Caravela Santa Maria afundou na histórica viagem de Descoberta da América

Referência mundial em arqueologia submarina, o explorador americano Barry Clifford revelou ter encontrado o que seriam restos da caravela Santa Maria, uma das três embarcações utilizadas pelo navegador genovês Cristóvão Colombo (1451-1506) na expedição que entraria para a História pela Descoberta da América.

Carcaça da caravela Santa Maria no mar do Caribe

A carcaça da nau foi encontrada no Mar do Caribe, próximo do Haiti. O jornal britânico The Independent divulgou os resultados da recente expedição de Clifford em sua página na internet. “Todas as evidências geográficas e de topografia subaquática sugerem fortemente que se trata da embarcação de Colombo”, afirmou o explorador à publicação.
Num recife a mais de 10 metros de profundidade

Presos a um recife a mais de 10 metros de profundidade na costa norte do Haiti, os vestígios da embarcação foram encontrados pela equipe de Clifford em 2003, quando eles fotografaram o material. Depois disso, eles vêm estudando as imagens e realizando novos mergulhos.

As expedições foram patrocinadas pelo canal de TV americano History Channel – e a descoberta deve render um documentário.

Os Indícios da Caravela de Colombo

Um canhão com características típicas dos fabricados naquela época, encontrado junto com os restos da caravela, é o mais forte indício que levou Clifford a concluir estar diante dos destroços da histórica embarcação de mais de 500 anos.

A localização é outro fator: o lugar onde os destroços foram encontrados corresponde ao apontado por Colombo em seu diário de viagem. Com 36 metros de comprimento, a caravela Santa Maria foi uma das três naus que saíram da Europa em 1492 e chegaram ao Caribe – patrocinadas pela monarquia espanhola. O interesse era descobrir uma nova rota para o comércio com o antigo Oriente. Em dezembro daquele ano, ela naufragou acidentalmente. Apenas Nina e Pinta voltaram ao continente europeu, no ano seguinte.

Currículo do mergulhador
O mergulhador, arqueólogo subaquático e explorador Barry Clifford ficou famoso mundialmente em 1984, quando, após 15 anos de buscas, encontrou o navio pirata Whydah, naufragado em 1717, na costa nordeste da América do Norte.

The Whydah Pirate Museum

A descoberta deu origem ao The Whydah Pirate Museum, instituição com sede em Provincetown, Massachusetts, nos Estados Unidos. A embarcação Whydah, construída em Londres para ser utilizada como navio negreiro, é considerada a primeira nau pirata encontrada que pôde ser comprovada como tal.

Clifford nasceu em 1945, em Cape Cod, Massachusetts. Graduou-se em História e Sociologia no Western State College, do Colorado. Antes de se dedicar ao mergulho, foi professor e treinador de futebol americano. Nos anos 1970, abriu uma empresa de exploração subaquática e caça a tesouros em naufrágios.

(Do Estadão/com Reuters - via https://marsemfim.com.br)

DESCOBRINDO OUTRA AMÉRICA!

A primeira homenagem do Novo Mundo a Colombo. JOSÉ GARNELO ALDA

Hispanidade? Na América, o 12 de outubro é ensinado como invasão e colonização

A chegada de Colombo ao Novo Mundo não foi uma descoberta, e sim uma conquista

Perguntamos a jornalistas de vários países do continente

Oficialmente, em 12 de outubro a Espanha comemora o seu Dia da Festa Nacional, também conhecido como Dia da Hispanidade. Na verdade, o que se comemora é o descobrimento da América por Cristóvão Colombo, em 1492. Um momento... descobrimento? E aqui começa a desavença. A história que se aprende no lado de lá do Atlântico fala de viajantes e descobridores que chegaram ao Novo Mundo capitaneados por um aventureiro que muitos espanhóis acham ser compatriota seu. Essa lição deixa de fora os nativos que já viviam na América antes da chegada dos espanhóis, o saque dos recursos naturais e inclusive a verdadeira nacionalidade de Colombo, que era genovês.

Entretanto, a história que se ensina atualmente aqui na América é diferente. Fomos perguntar a jornalistas locais e correspondentes em vários países das Américas sobre como o 12 de outubro é entendido neste continente.

Argentina
Por Federico Rivas

Na Argentina não é mais obrigatório saber de cor os nomes das três caravelas do Colombo. Muito menos que o genovês presenteou vidrinhos coloridos aos indígenas que o receberam numa pequena ilha das Antilhas. Mas esses ficaram na cabeça de todos os que frequentaram a escola durante a ditadura militar (1976-1983) e nos primeiros anos da democracia.
Todo mundo estuda Colombo. Mas e os irmãos Pinzón? RIDOLFO GHIRLANDAIO

Já na década de 1990, o discurso escolar substituiu pouco a pouco o termo “descobrimento” por “encontro de culturas”, sobretudo quando o debate motivado pelos quinto centenário do desembarque de Colombo estimulou todo tipo de corrente revisionista. Mas só em 2010 o 12 de outubro deixou de ser oficialmente chamado de Dia da Raça, por ser “ofensivo e discriminatório”. Um decreto assinado pela presidenta Cristina Fernández de Kirchner em 2010 substitui essa denominação por Dia da Diversidade Cultural Americana.

A troca de nome obrigou ao Estado a mudar os conteúdos escolares obrigatórios. A efeméride atualmente serve para recuperar a memória pré-colombiana, enquanto os detalhes históricos da conquista foram deixados de lado. Em vez de desenharem as caravelas de Colombo, as crianças argentinas agora pintam a wiphala, bandeira multicolorida que representa a diversidade cultural.

Chile
Por Cristian Galegos

A definição do 12 de outubro no Chile é ambígua. Para alguns é o Dia do Descobrimento da América, outros o chamam de Dia da Resistência Indígena e, embora oficialmente se intitule Dia do Encontro de Dois Mundos, é mais conhecido como Dia da Raça. O que está claro é que ninguém o chama de Dia da Hispanidade nem de Dia de Colombo.

A questão do nome possivelmente fica em segundo plano quando há motivo para um feriado. A forma como as escolas ensinam/comemoram os dias que antecedem a data é pitoresca e folclórica, com eventos e muitos trabalhos escolares sobre o tema. Há, no entanto, dois elementos comuns a todos os estudantes chilenos, ou pelo menos aos estudantes dos anos 1990: o material bibliográfico da Icarito, revista de recortes de história indispensável nas casas chilenas, junto com o célebre livro de História azul da Santillana, e as encenações com fantasias.

A representação da chegada de Colombo é sem dúvida a mais interessante. Lembro como o método das educadoras era simples e não muito engenhoso. Na minha escola, separavam as classes em dois grupos: os indígenas e os espanhóis. Figurino e roteiro não primavam pela sofisticação. Os indígenas eram vestidos com ponchos de lã (complicado nesta época de calor primaveril em Santiago), com uma faixa na cabeça e descalços. Os espanhóis usavam armaduras de cartolina ou papelão, dependendo do orçamento da escola. A espada era essencial.

O menino escolhido para ser Colombo não se parecia em nada com o das fotos da Icarito. As caravelas eram feitas à mão pelas professoras, e tudo isso culminava num espetáculo presenciado pelos pais, no qual as duas partes se enfrentavam numa grande batalha. Até havia a leitura de passagens bíblicas, mas o divertido mesmo era essa luta caricatural pela conquista.

Atualmente, as escolas encaram essa comemoração como um encontro entre as diferentes culturas da região, promovendo encenações com trajes dos diferentes países da América Latina.

Colômbia
Por Sally Palomino

Alguns livros usados antigamente nas escolas primárias da Colômbia precisaram ser retirados de circulação. Embora a história seja a mesma, mudou a maneira de ensinar o descobrimento da América. Parece haver um consenso entre os professores nos últimos anos de que a chegada de Colombo representou um “assalto” não só contra a riqueza do país, mas também contra seus costumes e a cultura. A data é celebrada atualmente com o nome de Dia da Raça e destaca o respeito aos indígenas.

Nas escolas, no 12 de outubro já não se enfatiza a conquista, porque no centro do discurso está a exaltação das raízes culturais. Os alunos fazem representações em que narram a vida dos povos e seus costumes. Além disso, na mesma data se celebra o Dia Nacional da Árvore, estabelecido por decreto, e os colégios usam isso como pretexto para falar da riqueza natural. Em alguns deles, os alunos semeiam árvores nesse dia.

Parecem ter ficado para trás as encenações de anos atrás, quando os alunos precisavam se virar para recriar as caravelas Santa María, Pinta e Niña. Agora, os relatos de indígenas (povos cada vez menos numerosos na Colômbia) são o foco da comemoração. A narrativa do “encontro de dois mundos”, mais que a da conquista, parece ter se cristalizado nas aulas de história dada aos colombianos.
A estátua de Colombo em Detroit se deu mal no ano passado.

Estados Unidos
Por Nicolás Alonso

O poema 1492, que relata as façanhas de Cristóvão Colombo e suas viagens exploratórias, é utilizado por muitas escolas nos Estados Unidos para ensinar às novas gerações como foi a conquista da América. Os versos detalham os descobrimentos de territórios, a presença de nativos e o comércio de ouro.

Mas cada vez mais se questiona no país o relato das aventuras do Colombo, e existe uma crescente divisão entre os que comemoram o legado do explorador e quem o despreza por ter subjugado comunidades indígenas. Em muitas cidades norte-americanas, incluindo Minneapolis e Seattle, o dia deixou de se chamar Columbus Day (Dia de Colombo) e virou Dia dos Indígenas.

O mesmo dilema se apresenta nas salas de aula. Há Estados, como Carolina do Sul e Texas, onde se apresenta uma imagem valente e admirável de Colombo. Mas em outros, como a Califórnia e o Colorado, os professores optam cada vez mais por traçar um retrato mais completo do colonizador, que inclui o tratamento opressivo às populações nativas dos territórios aonde chegou.

México
Por Mónica Cruz

Os livros escolares do equivalente ao ensino fundamental e médio no México descrevem a chegada de Cristóvão Colombo ao continente como o início das expedições espanholas a um novo território, mas também da exploração das populações indígenas e dos recursos naturais na região. Este é um fragmento do livro de História para o sexto ano do ensino fundamental da Secretaria de Educação Pública:

“Como resultado das viagens de exploração do século XVI, os europeus conseguiram uma grande expansão econômica devido ao saque e à exploração dos recursos da América. Isso beneficiou muitos europeus. No entanto, sua chegada ao território representou uma tragédia para muitos povos e culturas. Basta pensar nos milhões de indígenas da América que morreram depois da Conquista espanhola.”

O livro de História I para o segundo ano do ensino médio da Ediciones Castillo (parte do currículo oficial) diz: “O processo que este evento desencadeou durou séculos e tem vários significados segundo o ponto de vista de que se observe. Do ponto de vista europeu, foi uma conquista; do ponto de vista indígena, tratou-se de uma invasão”.
Início do poema ‘1492’. Seus primeiros versos dizem: “Em mil quatrocentos e noventa e dois / Colombo navegou o oceano azul.// Tinha três navios e partiu da Espanha / Navegou sob o sol, o vento e a chuva. // Navegou de noite; navegou de dia. / Usou as estrelas para achar o caminho”.

Peru
Por Jacqueline Fowks

As escolas no Peru adotaram o enfoque por competências (aprender a fazer), abandonando os eixos temáticos de ensino, e nessa mudança Cristóvão Colombo parece ter perdido peso na história. Há 35 anos, uma tarefa típica no ensino primário seria desenhá-lo e colori-lo no caderno, acompanhado das três caravelas. “O 12 de outubro é uma data cívica no calendário escolar – como o Dia da Bandeira, a Batalha de Angamos e as festividades pátrias –, mas algumas datas são mais importantes que outras”, diz ao EL PAÍS a diretora de uma escola pública no Cercado de Lima. Não é feriado.

“Quanto a Colombo tudo bem, porque provou que a Terra não era plana e foi uma oportunidade para que conhecessem um novo mundo: esse é o ângulo que se ensina no terceiro ano do primário, quando as crianças têm oito anos. Mas assim como descobrimento é equivalente a Colombo, conquista é igual a espanhóis. Um dos professores diz que os espanhóis vieram para levar tudo embora e nos subjugar”, acrescenta a diretora.

Sob outro ponto de vista, uma aluna do sexto ano (12 anos de idade) numa uma escola bilíngue e particular de Lima recorda que viu o tema quando era pequena, na segunda ou terceira série. “Mas no meu colégio não se comemora o dia nem vemos nada. Foi o início da colonização da América pelos espanhóis, trouxeram cavalos, levaram lhamas, e os espanhóis transformaram o chiclete em um produto que antes não conheciam”, explica.
O que todos sabem são os nomes das caravelas Santa María, Pinta e Niña.

(Do http://brasil.elpais.com/)

terça-feira, 16 de outubro de 2018

MAR DE BALEIAS

 Surfistas salvam filhote de baleia preso em rede de pesca em Laguna

Por Renan Medeiros, interino*

Dois surfistas retiraram um filhote de baleia-franca que estava preso a uma rede de pesca no fim da tarde desse domingo, em Laguna, no Sul de Santa Catarina. A mãe do filhote acompanhou o procedimento, que levou aproximadamente três horas e foi bem-sucedido.

Por causa do conhecimento que têm do local e pela experiência em mergulhos na região, João Baiuka e Fhilippe Peixoto foram acionados por pessoas que avistaram as baleias. Eles foram até o local com uma moto aquática e coletes salva-vidas. Depois de três horas na água, conseguiram cortar a rede e salvar o filhote, que voltou ao mar acompanhado da mãe.

Udesc: (48) 99696-6025 

Polícia Militar Ambiental: Laguna:(48) 3647-7880/ Maciambú: (48) 3286-1381/ Florianópolis: (48) 3665-4770 / Rio Vermelho: (48) 3665-4487 / Maracajá: (48) 3529-0187

(Do http://dc.clicrbs.com.br/sc/)

MAREGRAFIAS

Foto Fernando Alexandre


PANTUSÚLI DO SILÉZIO SABINO

MARES DE PORTUGAL


olhares cegos

será negra a noite
mas nela encontrarás luz
suficiente

entre noite e noite
muitas cores povoarão
o dia e o teu registo

mas
a cor do dinheiro
ficou esquecida
nos teus postais

olha como quem vê
não como quem ignora

(ahcravo gorim)
(torreira; safar redes; 2016)



DIZEM QUE...


"Quando a lestada garra de tirá água do mari e a despejá em riba dos hômi, o sino vai tocá pruquê genti vai morrê"
(Sabedoria praieira)

MAR DO MILTON OSTETTO

LÁ NO FUNDO...

Timóteo Peixoto, 75 anos, quer ajudar a manter viva a memória das embarcações submersas na costa catarinense
Foto: Marco Favero / Diário Catarinense

Marinha localiza 234 embarcações naufragadas na costa de Santa Catarina 

Por 
RENAN MEDEIROS 

Com semblante tranquilo e ares de quem conhece cada metro cúbico das águas marítimas em Laguna e nos municípios vizinhos, o pescador Timóteo Peixoto, 75 anos, aponta para alguns metros ao sul do ilhote do Cardoso, visto à distância, onde há restos de um naufrágio centenário. 

A tranquilidade dele contrasta com a movimentação intensa de homens e mulheres carregando peixes entre os barcos e galpões de triagem e preparação dos pescados. Assim como Timóteo, outros moradores do litoral catarinense têm conhecimento da existência do patrimônio submerso, mas os detalhes que os envolvem ou o papel deles para explicar a história do Brasil ainda são desconhecidos pela maioria. 

Essa realidade começa a mudar. Pouco a pouco, Santa Catarina está descobrindo o potencial arqueológico subaquático que tem nos 531 quilômetros de costa. 

Nos últimos anos, levantamentos e pesquisas se tornaram mais frequentes, não apenas para saber a localização dos naufrágios, mas para conhecer a sequência de fatos que antecederam o infortúnio dos marujos que, sem escolha, lançaram-se às águas séculos atrás, enquanto assistiam suas embarcações submergirem. 

A Marinha do Brasil, responsável pelo patrimônio submerso no mar sob jurisdição brasileira, trabalha desde 2011 na elaboração do Atlas dos Naufrágios de Interesse Histórico da Costa do Brasil, com o mapeamento de todas as embarcações afundadas desde o descobrimento, em 1500, até 1950, para contemplar as batalhas da Segunda Guerra Mundial. 

Até agora, o levantamento já identificou 2.125 naufrágios em águas marítimas brasileiras, dos quais 234 estão na costa catarinense. O número sobe quando também se considera aqueles ocorridos depois de 1950. Menos da metade deles, porém, têm a localização exata conhecida. 

Outras pesquisas, mais concentradas em pontos específicos, já foram ou estão sendo produzidas. São trabalhos ainda incipientes, porém que abriram o caminho para ampliar o conhecimento deste pedaço da nossa história.

Patrimônio cultural na Praia da Cigana
Depois de uma caminhada pela praia que inclui subidas em dunas, Timóteo aponta para o mar na direção do Catalão, uma embarcação espanhola naufragada na Praia da Cigana, em Laguna. 

A água escura não permite que seja observado de longe. Por isso, a reportagem cogita ir a nado até o navio soçobrado, mas o pescador veta a ideia. 
— Ali a correnteza é muito perigosa — avisa. 

Neste ano, o Catalão completa um século de naufrágio. O navio de bandeira brasileira que transportava uma carga proveniente de contrabando afundou em uma noite de 1908. 

Alguns moradores dizem que colidiu com a Laje de Campo Bom e veio até a praia para que a embarcação fosse abandonada com segurança para os ocupantes. 

Naufragado no início do século 20, o Catalão se enquadra no conceito de patrimônio cultural subaquático, definido pela Unesco como todo resquício de existência humana que esteja submerso por pelo menos 100 anos. Apesar do conhecimento sobre o mar, Timóteo admite não saber de detalhes da embarcação. 

— Só sei que está aí desde que me entendo por gente — frisa.

Pescador conhece a localização dos navios que sucumbiram no Sul de Santa CatarinaFoto: Marco Favero / Diário Catarinense

Um santuário cheio de segredos e armadilhas

Navegadores pioneiros na costa catarinense descobriram, da pior maneira possível, as armadilhas das nossas águas. Dotada de um litoral acidentado, capaz de oferecer abrigos às embarcações, mas com vários pontos de leito marinho traiçoeiro para os primeiros navegadores, Santa Catarina concentra alguns santuários de naufrágios. 

São navios que afundaram desde o século 16. Entre Florianópolis, São José e Palhoça um conjunto de embarcações dos séculos 16 e 17 que sucumbiram ao Atlântico repousam na região das praias de Naufragados, do Sonho e da Ponta do Papagaio. 

Para conhecer suas origens, um extenso trabalho de pesquisa, chamado Projeto Resgate Barra Sul foi conduzido entre 2006 e 2012, autorizado pela Marinha e pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). 

Os pesquisadores encontraram restos da carga de uma embarcação que afundou no século 16, incluindo um canhão de bronze, com brasão espanhol, e um conjunto lítico com quatro pedras. 

Uma delas trazia o brasão de "Leon y Castilla" e o emblema português, sugerindo que o navio fosse do período da União Ibérica, entre 1580 e 1640. O estudo leva a crer que o sítio arqueológico seja o que restou da nau "La Proveedora", da armada capitaneada por Diego Flores de Valdés e Pedro Sarmiento de Gamboa.

Intervenções são ameaças

Procurar materiais com valor monetário em sítios arqueológicos, inclusive submersos, é uma atividade que está ganhando adeptos, mas a prática é ilegal. Por lei, qualquer intervenção em bens afundados, inclusive para pesquisa, deve ser autorizada pela Marinha. 

Além da extensão da costa brasileira, outra dificuldade na preservação é o desconhecimento que se tem sobre a localização exata dos milhares de naufrágios e outros sítios arqueológicos submersos. Foi isso que motivou a Marinha a dar início ao projeto Atlas dos Naufrágios de Interesse Histórico da Costa do Brasil. 

— A importância desse patrimônio para o país é muito significativa, pois são testemunhos materiais do passado da humanidade. São fontes para pesquisas arqueológicas que contribuem para revelar aspectos relacionados à ocupação de parte do litoral brasileiro por povos antigos há milhares de anos, assim como para revelar aspectos relacionados à história da navegação ao longo da costa brasileira, iniciada com a chegada dos europeus em fins do século 15 — explica o capitão de corveta Ricardo dos Santos Guimarães, encarregado da Divisão de Arqueologia Subaquática, vinculada à Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha. 

Ele é um dos responsáveis pelo levantamento de todos os naufrágios na costa brasileira datados até 1950. Dos 2.125 registros já identificados pela Marinha, apenas 998 (isto é, 47%) têm ao menos alguma estimativa de localização.

Foto: Marco Favero / Diário Catarinense

Impasses na legislação

Por lei, toda intervenção não autorizada em sítios arqueológicos constitui crime contra o patrimônio. Mas a legislação brasileira não agrada a maioria dos pesquisadores e já há uma proposta de alteração no Congresso com o objetivo de frear a exploração comercial dos naufrágios, hoje permitida se houver pesquisa, aval da Marinha e o atendimento a uma série de condições. 

— A lei permite, por exemplo, o pagamento de recompensa pelos bens culturais submersos que sejam removidos, o que incentiva a "caça ao tesouro" e a retirada irresponsável dos bens do meio em que se encontram, colocando em risco a integridade do patrimônio subaquático brasileiro — expôs a ex-deputada federal maranhense Nice Lobão (PSD), quando apresentou, em 2006, um projeto de lei para tornar mais rígida a legislação. 

A proposta de Nice Lobão foi aprovada há mais de dez anos pela Câmara, mas está engavetada no Senado desde dezembro de 2014. 

Paralelamente à tramitação do projeto de lei, outra discussão permeia entre os arqueólogos. Em novembro de 2001, a Unesco aprovou a Convenção sobre a Proteção do Patrimônio Cultural Subaquático, mas o Brasil não é signatário. O motivo é que o país entende que alguns pontos do texto atentam contra a soberania nacional.

— Acredito que a decisão do Brasil em aderir ou não à Convenção deva ser precedida de amplo debate sobre o assunto, com a participação de representantes da Unesco, arqueólogos subaquáticos, representantes da Marinha, do Iphan e Ministério de Relações Exteriores — avalia Guimarães, o encarregado da Divisão de Arqueologia Subaquática, da Marinha. 

Na avaliação dele, a Convenção, na prática, submete a realização de projetos de pesquisa arqueológica nas Águas Jurisdicionais Brasileiras à aprovação estrangeira, além de não estabelecer com clareza a quem pertencem os bens submersos que vierem a ser encontrados na "Amazônia Azul" — termo cunhado pela Marinha para se referir ao mar sob jurisdição do Brasil. 

Enquanto o país avalia a legislação e a relação com a comunidade internacional, ao mesmo tempo em que vai conhecendo melhor o próprio patrimônio subaquático, os principais aliados na preservação são aqueles que convivem com os naufrágios diariamente e têm uma ligação quase afetiva com eles. 

Em Laguna, os pescadores não gostam de ver alguém retirando partes das embarcações para vender como sucata. Por isso evitam informar a localização exata dos navios que repousam em águas mais profundas. 

— Às vezes alguém vem perguntar, mas a gente procura não dizer, não — conta Timóteo.

A esquina do Atlântico

A região do Cabo de Santa Marta tem importância histórica para a navegação. Há registros de mapas destacando o local desde 1502, já com o nome que tem hoje. E toda esta relevância tem motivo: ao sul do Cabo, a praia segue praticamente em linha reta até o Rio da Prata, no Uruguai. 

Por isso, esse último refúgio para quem navega recebe dos marinheiros o apelido de "Esquina do Atlântico". Perto dali, uma armadilha já fez inúmeras vítimas. Pouco mais de 20 quilômetros à sudeste do Cabo de Santa Marta, cinco quilômetros mar adentro, existe a Laje de Campo Bom. 

Trata-se de um monte de pedra submerso que já foi responsável por colisões de grandes embarcações. O pescador Timóteo Peixoto a conhece bem. 

— São 36 metros de profundidade antes de chegar na laje. Sobre ela, são apenas dois metros — explica. 

Para evitar novos acidentes, no fim do século 19, deu-se início à construção do Farol de Santa Marta. O bisavô de Timóteo, Eliziário Patrício, tinha 21 anos quando a luz do farol que ajudou a construir acendeu pela primeira vez, no dia 1º de maio de 1890. 

O homem moreno e baixo, com 1,66 metros de altura, foi um dos primeiros pescadores da região, até então um local ermo e quase desabitado. Foi Eliziário quem trouxe a primeira professora. Também organizava missas, proibia festas e determinava as regras para a pesca, sempre respeitadas pelos outros pescadores. 


Foi na região do Cabo de Santa Marta, entre Laguna e Jaguaruna, que o pesquisador Alexandro Demathé, do Grupo de Pesquisa em Educação Patrimonial e Arqueologia (Grupep) da Unisul, de Tubarão, identificou 72 registros de naufrágios, baseado em livros, jornais antigos, sites internacionais e entrevistas com pescadores. 

A dissertação de mestrado dele, em 2014, foi um trabalho inédito de levantamento na região.

— Uma característica desses naufrágios é que poucos deles tiveram mortes. Normalmente, o capitão traz a embarcação com problema para perto da costa e todos os ocupantes se salvam — conta.

Atualmente, o Grupep se concentra em uma embarcação que apareceu um mês atrás, soterrada em Jaguaruna. Por enquanto, acredita-se que se trate de um navio alemão de 1896. Demathé explica que o objetivo é dar uma "biografia" ao navio.

Foto: Artes NSC / Artes NSC

(Do http://dc.clicrbs.com.br/sc/)

domingo, 14 de outubro de 2018

NAVEGANDO EM OUTRAS ÁGUAS


Fotos Fernando Alexandre

"Isabela Catarina", canoa bordada da pesca da tainha no Pântano do Sul, pertencente a família Arante,  já está navegando em outras águas: agora vai deslizar pelas estivas, molhar a quilha e cercar tainhas na Praia dos Ingleses!
Escutando o ÚÚÚÚ!!!! característico do Pântano ordenando o cerco das tainhas desde 1992, quando foi comprada pelo Seo Arante do Seo Credencio, veio da Gamboa!
Foram 26 anos de cercos no Pântano do Sul!
ÚÚÚÚ!!!!

MAREGRAFIAS

Foto Fernando Alexandre
LAGOAMAR

DANDO NOME...

Foto Fernando Alexandre
"Esperança nos mares a navegar,
 leva e traz esperança
tem alguém a te esperar! "

(Quadra popular)

CAMINHOS...

Fotos Fernando Alexandre
 
Praia do Saquinho

MAR DE SABORES


Sushi Híbrido

Por Nicanor Maria Sanchez

O atual crescimento de restaurantes especializados em comida japonesa, em especial o sushi, tem atraído o interesse dos consumidores em relação à origem dos ingredientes. Porém, a dificuldade dos consumidores não se limita apenas ao manusear os tradicionais hashis, mas também em identificar a procedência da carne de pescado, servido geralmente cru. 
Os pescados que encontramos no mercado podem ser capturados no meio ambiente por técnicas de pesca, cultivados em fazendas de engorda utilizando técnicas de aquicultura, ou até mesmo obtidos com a aplicação de técnicas que combinam captura do meio natural e consequente cultivo em ambientes controlados. 
Para esclarecer os consumidores e categorizar com maior clareza a procedência de alguns pescados, um grupo de cientistas americanos, noruegueses e canadenses estudou a origem de diversos produtos comercializados pelo mundo, propondo uma nova categoria de produtos: os híbridos.

O trabalho publicado na Marine Policy englobou inúmeras pescarias que utilizam técnicas de aquicultura e vice-versa. Os pesquisadores analisaram exemplos que comprovam a adoção da terceira categoria de híbridos, já que empregam ambas as técnicas de obtenção de proteínas provenientes do meio aquático. 
Anchovetas, polacas do Alaska, Lagostas, ostras, vieiras, salmões, atuns, camarões, enguias, mexilhões e carpas prateadas foram as espécies analisadas, sendo grande parte destas categorizadas como híbridos. 
Segundo os autores, a nova classificação pode trazer um melhor entendimento quanto ao crescimento potencial de fontes de alimento e um melhor manejo dos impactos gerados pela produção de pescados, além de esclarecer ao consumidor a verdadeira origem do alimento que esta sendo servido, incluindo o sushi.

Leia o artigo completo clicando aqui.

(Do http://www.observasc.net.br/)

MAR DO MILTON OSTETTO

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, nuvem, céu, montanha, oceano, árvore, atividades ao ar livre e natureza
Foto Milton Ostetto 

sábado, 13 de outubro de 2018

MAR DE HELENA KOLODY


Foto Fernando Alexandre


ILHAS
Somos ilhas no mar desconhecido
.O grande mar nos une e nos separa
Fala de longe o aceno leve das palmeiras 
Mensagens se alongam nas líquidas veredas
.
Cada penhasco é tão sozinho e diferente! 
Ninguém consegue partilhar a solidão
Ilhas no grande mar, aprisionadas, 
Apenas o perfil das outras ilhas, vemos.
.
Só Deus conhece nossa exata dimensão. 

(Helena Kolody, em "Vida Breve", 1964)

CAMINHOS...

Foto Fernando Alexandre

TEM POLVO NA MESA


Arroz com polvo bêbado

Ingredientes
Número de doses: 5
2 Xicaras arroz
1 Xícara de café de azeite de oliva
3 Dentes de alho amassados
1 Polvo de cerca de 1 quilo, limpo e cozido
em pedacinhos
Água do cozimento polvo
1/2 Garrafa de aguardente
1 Limão
1 colher de sopa rasa de Açafrão
1 colher de chá de colorau
Sálvia fresca umas folhinhas
Salsinha e cebolinha
Cominho fresco uma colher de chá
2 Tabletes de caldo de peixe
1 Lata de atum (em água e sal)
Água para acrescentar no arroz
Sal e pimenta a gosto

Preparação
Lave e corte o polvo em pedaços.
Coloque os pedaços em um refratário de vidro redondo e regue com limão, deixe marinar por 1 hora depois cubra com o aguardente e deixe por umas 4 horas marinando.
Depois de marinado, jogue fora o aguardente e reserve os pedaços do polvo.
Em uma panela coloque azeite e deixe esquentar, refogue a cebola e o alho, junte os pedaços do polvo e todos os temperos, cubra com um pouco de água, quando estiver fervendo jogue os cubos de caldo de peixe e deixe cozinhar ate o polvo ficar molinho ou do jeito de que gostar.
Depois de cozido retire a água (caldo do cozimento) para fazer o arroz. Misture a lata de atum com os pedaços do polvo cozido. Reserve.
Após fazer o arroz, misture com os pedaços de polvo. 
Sirva quente e com uns temperinhos frescos por cima.
Dicas: Se gostar pode colocar Coentros picados
Nessa receita eu usei duas sacolinhas de polvo já pré cozido.

(https://pt.petitchef.com/)

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

MAREGRAFIAS

Foto Fernando Alexandre
PAU & CORDA

MAR DE PESCADORES

Foto e desenho do site http://www.cityofsound.com/

 Postado por Patricia Sunye

Em sua migração anual, o atum-rabilho Thunnus thynnusdesce da Sardenha no início de abril para lançar seus ovos nas águas quentes do Golfo de Santa Eufemia, na costa da Calábria, seguindo depois para o oeste em direção à Sicília. O atum-rabilho, ou tonno rosso, é valorizado entre os conhecedores. Sua carne é firme, carnosa e intensamente vermelha. A musculatura mais gorda do ventre, ouventresca, é particularmente procurada e alcança valores expressivos. Atualmente os pescadores calabreses procuram o peixe com sonares e outros equipamentos sofisticados. Mas até 1960, eles capturavam estes grandes peixes com um antigo e elaborado sistema de redes conhecido como La Tonnara. De acordo com os registros históricos, os árabes introduziram La Tonnara na Sicília em 1.000 d.C. O método se espalhou para a Calábria, e durante séculos representou trabalho para os pescadores da Calábria e Sicília.

La Tonnara consistia de uma série complexa de longas redes estendidas ​perpendiculares à costa. O atum se aproximava das redes e instintivamente virava, passando a seguir as redes na direção do corpo da armadilha, chamado la isola. A porção principal da armadilha formava um retângulo composto por uma série de camere, ou câmaras, cada uma separada por portas. Os atuns iam nadando através das câmaras, até chegar na câmara final,la camera della morte, a câmara da morte. Apenas a última câmara tem um fundo formado de rede. Num dia calmo, sem vento, os pescadores estendiam suas redes e esperavam. La tonnara se estendia por milhas, com inúmeros barcos esperando e monitorando, cada barco tendo uma tarefa específica. O último barco, ou o barco capitão, era responsável por içar a câmara da morte. Quando ela estivesse cheia, o capitão levantava uma bandeira alertando os demais pescadores. Todos vinham observar a luta entre os homens e os peixes. Antes de matar os peixes com arpão, os pescadores entoavam um canto lúgubre pedindo perdão ao atum pelo que iria acontecer.


Os pescadores que ficavam no barco da matança encaravam um perigo considerável, pois estes enormes atuns, pesando até 225 kg, são lutadores ferozes, e ocasionalmente, os pescadores perdiam uma mão ou perna. Os sinos das igrejas anunciavam o sucesso da pescaria, e os maiores peixes eram dados ao padre. Em um bom ano, a cena se repetia várias vezes entre abril e julho. Em outubro, os atuns retornavam para a Sardenha. Na metade do século XX, os japoneses – grandes fãs dos atuns – chegaram com seus barcos e equipamentos modernos, e capturavam os atuns antes deles chegaram àtonnara. Para competir, os pescadores da Calábria deixaram de lado este ritual ancião e se voltaram para a tecnologia moderna. Pizzo viu sua última tonnara em 1963.

Imagens de uma das últimas pescas, em italiano! 

Adaptado do belo livro “My Calabria”, de Rosetta Constantino.

Foto Gambarito Silva
"Nem sempre galinha,
nem sempre sardinha."
(Dito Popular praieiro)

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

MAR DE POETA


Somos sussurros
o que sossobra
dessa geração de palavras

(Fernando Alexandre - Inverno 86)

LENÇÓIS PANTANEIROS

Dunas do Pantusuli!!

NAVEGANDO NO TEMPO

As antigas civilizações do Mediterrâneo se desenvolveram em torno do mar. Por ele viajavam, comercializavam e também faziam a guerra. Os arqueólogos estão fazendo grandes descobrimentos sobre os grandes barcos da antiguidade que estão mudando radicalmente a visão que tínhamos dessas civilizações!

Previsão do tempo...

Não há sábado sem sol,
nem noiva sem lençol,
nem domingo sem missa,
nem segunda sem preguiça
(Dito popular registrado por Lucas Boiteux na Ilha no começo do século passado)

OLHANDO ILHAS, ESPERO...

Foto Fernando Alexandre

JACK O MARUJO


- O senhor leu algum livro, capitão?
- Nenhum, disse Jack o Marujo. As páginas não sobrevivem em alto mar. Borram tudo. Só leio meu diário de bordo, quando consigo decifrar os garranchos.
- E tem muitas histórias no seu diário?
- Só informações sobre o clima, as marés, as correntes e as estrelas. Houve um tempo que perdi o calhamaço e acharam numa praia distante.
- E ele estava inteiro?
- Nada. Estava incompreensível. Eu adivinhei as letras pela memória.
- Mas aí não dá para confirmar nas informações técnicas, não?
- O diário não da confiança para ninguém. Existe porque viajei e quando viajei anotei. Tenho boa caligrafia, mas uso tinta vagabunda e isso põe tudo a perder.
- Assim mesmo gostaria de ler um trecho do seu diário capitão.
- Lembro de um que diz: Galeão espanhol se aproxima a trinta nós vindo do leste. E ainda estou azeitando a garrucha.
- Isso foi quando, no século 18?
- Não, foi ontem. O tempo é o único fantasma.

SEO AGOSTINHO, ME DÁ UM PEIXINHO!

Valdir Agostinho e a Banda Bernunça Elétrica, sábado, dia 20 de outubro de 2012, praia do Pântano do Sul, deck do Restaurante "Pedacinho do Céu", "Festival Pantusuli", promovido pela ong "Ilhas do Brasil."