sexta-feira, 4 de outubro de 2019

MULHERES NO MAR


Entre uma tarrafeada e outra, Cida mostra que não abriu mão daquilo que aprendeu a gostar: o convívio na praia(Foto: Tiago Ghizoni)

"Dei um carteiraço no homem que me proibiu de pescar", conta Cida da Silva

Ela entrou para o mundo da pesca com 21 anos. Eram tempos difíceis para sobreviver, marcados pelo preconceito, uma época em que os homens se achavam donos do mar

Por Ângela Bastos
angela.bastos@somosnsc.com.br

Do agreste pernambucano para as águas frias do Sul catarinense. Assim é a trajetória de Maria Aparecida Mendes da Silva, a Cida, 59 anos, pescadora artesanal profissional. Cida morou 23 anos no Farol de Santa Marta, em Laguna, onde participava ativamente das atividades pesqueiras e ambientais. Hoje, ela mergulha as redes nas águas salobras da Lagoa de Santo Antônio. Vez que outra, arrisca tarrafear num dos territórios mais concorridos, o canal, onde botos ajudam os pescadores.

— Aqui é um lugar muito bonito, apesar da disputa pelo espaço. Eu evito conflito e fico um pouco distante, pois tem homem que pode se achar o dono do pedaço — diz.

Foi justamente uma atitude machista que levou Cida a se profissionalizar. Lá pelos anos 1990 ela resolveu tarrafear dentro do cerco da tainha, o que é permitido pelos pescadores no momento em que a embarcação cerca o peixe na beira da praia. Certo dia, quando isso acontecia, um homem gritou:

— Tu não podes tarrafear. Dentro do lance só tarrafeiam profissionais.

Cida conta que emudeceu. Mas ficou revoltada e decidiu não abrir mão daquilo que havia aprendido a gostar: o convívio na praia.

— Eu senti que era discriminação, porque havia muitos ali, até crianças pescando — recorda.
Ao ser impedida por um homem de pescar, Cida não se deixou vencer: recorreu ao Ibama e buscou a carteira profissional(Foto: Tiago Ghizoni)

Um tempo depois ela decidiu procurar o Ibama e providenciar a documentação exigida. Mais tarde a situação se repetiu. Ela se preparava para atirar a tarrafa dentro do cerco quando o mesmo homem voltou a dizer que ali era só para profissionais. Cida deu-lhe o troco. Tirou a carteira de pescadora profissional do bolso e respondeu:

Tens razão, aqui é só para profissionais. Dei-lhe um carteiraço.

Encanto, sobrevivência, valentia

PESCADEIRAS
"Cidoca na pesca!"
Cida explica que foi um problema envolvendo um terreno que a fez morar na praia do Farol de Santa Marta. Lá, conheceu o pescador Jorginho, falecido há pouco tempo, e que a convidou para ajudar a desmalhar.

— Era uma pessoa muito boa e sabedora que eu estava sem grana. Com isso, ganharia uns peixinhos para levar para a casa — recorda.

A proximidade com o mar a encantou. Gostou, pegou jeito e se ofereceu para o desmalho nos botes que chegavam carregados. Porém, a partilha era pouca. Observou, então, o trabalho da estiva — colocação de paus embaixo dos barcos na hora de colocá-los e retirá-los da água. Única mulher na estiva, Cida teve que enfrentar preconceito. 
Sob o olhar dos homens que fazem a pesca com ajuda de botos no Canal da Lagoa de Santo Antônio, em Laguna, Cida joga sua tarrafa naquele que é um dos territórios mais disputados (Foto: Ângela Bastos)

— Eu entrei na pesca com 21, 22 anos. Era o ano de 1982, tempo em que o machismo era bem maior do que hoje — acredita.

Cida manda um recado às mulheres que sentem discriminação na pesca:
Eu digo que não desistam, sejam valentes. A luta não é fácil, mas a gente só perde quando desiste.
A pescadora Cida trabalha em Laguna(Foto: Tiago Ghizoni)

Expediente
Reportagem: Ângela Bastos
Edição: Stefani Ceolla
Design: Aline Costa da Silva e Maiara Santos 
Fotos e vídeos: Ângela Bastos, Tiago Ghizoni e Jean Carlos de Souza

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* Matéria multimídia originalmente produzida e veiculada no Diário Catarinense e no Jornal do Almoço da NSC TV sobre as mulheres na pesca artesanal em Santa Catarina!

TRABALHADORES DO MAR

Fotos Fernando Alexandre
Capitão Ademir, patrão dos mais experientes do Pântano do Sul, faz  manutenção da "frota" enquanto espera as tainhas encostarem!

MANEMÓRIAS

Foto Ninguemsabe Onome
Morro das Pedras, no tempo em que ainda se discutia o sexo dos mariscos!

FAROL DA BARRA - O MAIS ANTIGO



Foto Nilton Souza
No século XVII, o porto de Salvador era um dos mais movimentados e considerado um dos mais importantes do continente. Em função disso era preciso auxiliar as embarcações que chegavam à Baía de Todos os Santos em busca de pau-brasil e outras madeiras-de-lei, açúcar, algodão, tabaco e outros produtos que eram levados do Brasil para abastecer o mercado consumidor europeu.

Foi no final desse século, após o trágico naufrágio do Galeão Santíssimo Sacramento, nave capitânia da frota da Companhia Geral de Comércio do Brasil num banco de areia frente à foz do rio Vermelho, a 5 de maio de 1668, que o Forte de Santo Antônio da Barra foi reedificado (1696) durante o Governo Geral de João de Lencastre (1694-1702).

Foi no forte que foi construído o primeiro farol - um torreão quadrangular encimado por uma lanterna de bronze envidraçada, alimentada a óleo de baleia.
De acordo com o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia este foi o primeiro Farol do Brasil e o mais antigo do Continente (1698), quando passou a ser chamado de Vigia da Barra ou de Farol da Barra.

O diário de bordo do corsário inglês William Dampier, em 1699, relata: "A entrada da Baía de Todos os Santos é defendida pelo imponente Forte de Santo Antônio, cujos lampiões acesos e suspensos para orientação dos navios, vimos de noite."
O Decreto Regencial de 6 de julho de 1832 determinou a instalação de um farol mais moderno, fabricado na Inglaterra, em substituição ao antigo. Ao término das obras, inauguradas em 2 de dezembro de 1839, o novo equipamento de luz catóptico erguia-se sobre uma torre troncônica de alvenaria, com alcance de dezoito milhas náuticas com tempo claro. Em 1937, o antigo sistema "Barbier" (incandescente a querosene) de iluminação foi substituído por luz elétrica, comemorando-se o primeiro centenário do farol a 2 de Dezembro de 1939.
O complexo arquitetônico do Forte de Santo Antônio da Barra, do qual faz parte o Farol, está situado a 5 km do centro de Salvador e é onde hoje funciona o Museu Náutico da Bahia. É no Farol da Barra onde começam e terminam os grandes desfiles do carnaval baiano.

Com tanto cabeludo, com tanto pôr-do sol...

"Farol da Barra", vinil de 1978 dos Novos Baianos
( também disponível em cd), grande sucesso no rádio e num grande número de vitrolas da época. A música virou quase um hino tupiniquim da chamada contra-cultura.
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Farol da Barra
  (Galvão e Caetano Veloso) 

  Quando o sol se põe 
Vem o farol/ 
Iluminar as águas da Bahia /
No Farol da Barra, o encontro é pouco/
  A conversa é curta, tudo é tão rápido como se furta /
  Como a luz bate nas águas/
  Como tudo que se passa / ;
Com tanto cabeludo, com tanto pôr-do-sol  /
Bem cabia uma profecia: até o ano 2000,/
O Farol além do pôr-do-sol será o pôr-do-som  /
  Onde verás uma realejo, onde verás um violão.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

NA MESA


BACALHAU – RECEITA BÁSICA DE UM DOS PRATOS MAIS FAMOSOS DA CULINÁRIA BRASILEIRA
O bacalhau é um alimento milenar que nasceu na Europa no século IX. Veja abaixo uma receita básica desse alimento

Na mesa comFABRIZIO FASANO JR.


O bacalhau é um dos alimentos mais consumidos no Brasil, principalmente em época de páscoa. É fácil de preparar e não há necessidade de colocar sal, já que é um produto conservado em sal. Os portugueses levam os créditos, mas foram os Vikings que criaram esse alimento.

INGREDIENTES
500g de bacalhau dessalgado
7 batatas pequenas cozidas
4 tomates pequenos cortados em rodelas
3 pimentões verdes
3 pimentões vermelhos
3 pimentões amarelos
1 garrafa de vinho branco seco
2 ovos cozidos
2 cebolas grandes cortadas em rodelas
1 pote de azeitona sem caroço
Azeite a gosto
1 ramo de salsinha
Manteiga a gosto

Modo de Preparo
Em uma panela coloque os tomates e acrescente o azeite a gosto
Depois acrescente as cebolas, salsinha picada, azeitonas e acrescente mais um pouco de azeite
Coloque o bacalhau e refogue por uns 5 minutos
Acrescente a batata cozida e o vinho branco e mexa levemente
Por último coloque os pimentões e deixe refogando por 40 minutos
Desligue o fogo e acrescente mais azeite
Ao servir coloque os ovos cozidos cortados em rodelas em cima bacalhau

Uma curiosidade? O bacalhau não é um peixe. Ele é feito de vários peixes específicos, que sofrem um processo de salgar e secar. Veja abaixo uma receita simples e saborosa desse prato delicioso.

Essa receita rende 8 porções e o gasto médio dela é de R$ 60 reais. É um prato de nível fácil, pois você precisa apenas colocar os ingredientes na panela para refogar. Quando você for dessalgar o bacalhau, faça isso na geladeira, porque vai conservar melhor o alimento. Evite fazer isso fora da geladeira. Fica a dica!

TUDAZUL


Foto Fernando Alexandre
No Pântano do Sul já está tudazul!

VIAGEM

Resultado de imagem para Quilha de barco pintura
O beijo da quilha

na boca da água
me vai trocando entre céu e mar,
o azul de outro azul,
enquanto
na funda transparência
sinto a vertigem
da minha própria origem
e nem sequer já sei
que olhos são os meus
e em que água
se naufraga minha alma

Se chorasse, agora,
o mar inteiro
me entraria pelos olhos

(Mia Couto)

MULHERES NO MAR


Paulina aprendeu a pescar aos seis anos com o pai e 72 anos depois ainda está na atividade, em São Francisco do Sul(Foto: Tiago Ghizoni)

"Se pudesse, eu morava no mangue", diz Paulina Oliveira, pescadora de 78 anos

Foi no lugar rico em diversidade, onde rio e mar se encontram, que pela primeira vez Paulina sentiu o cheiro da maresia. Mais de 70 anos depois, ela continua a frequentar o berçário natural de onde retira espécies que ajudam no sustento da família

Por Ângela Bastos
angela.bastos@somosnsc.com.br

Com seis anos de idade e água acima do umbigo. Assim, e pelas mãos do pai, Paulina Marques de Oliveira se iniciou como pescadora. Estava traçado o destino de vintém da menina que nunca se afastaria do mar. Mais de 72 anos se passaram, e agora a viúva que mora em São Francisco do Sul continua perto da água. Todo dia vai ao mangue, joga caniço, põe as redes. Especializou-se em pescar e limpar um peixe rejeitado por muitos por temor de intoxicação, o baiacu, iguaria disputada por tradicionais clientes donos de restaurantes.

Paulina tem o rosto riscado de ângulos. Resposta de uma vida simples e marcada pelo sol. Recém-amanhece e a rotina da pescaria movimenta a casa onde abriga filhos e netos. Em dias quentes é ela a primeira a sair da cama e a tomar café. O corpo é frágil, mas os passos rápidos. Não fosse a estatura menor que um metro e meio, a agilidade poderia ser comparada à de um maçarico, pássaro aquático de corpo leve e pernas altas, comum no litoral. 

Paulina avisa:

— Estou pronta. Vamos que já é hora, se não a maré baixa e a embarcação encalha.

Um casal de filhos segue a mãe. Isabel, separada e mãe de duas crianças; e Daniel, quarentão solteiro, que puxa o carrinho (reboque) levando bateria, galão com diesel, baldes, caniços, redes. Além de uma térmica com café e um pacote com bolachinhas doces.

— Antes eu levava tudo na mão. Mas chegou a idade e as pernas estão mais fracas — explica Paulina.

São em torno de 300 metros até o porto, onde a bateira de madeira fica amarrada. A embarcação é pequena, antiga, desgastada pelo uso. Antes que o filho ligue o motor, a comandante avisa:

— Tem que esgotar. A gente nunca sabe o que vem por aí — enquanto olha para o céu nublado.

Paulina ficou em silêncio por quase meia hora em que o barco navegou. 

— Se eu pudesse, eu morava no mangue — disse, então, enquanto suas mãos castigadas se enterravam na lama em busca de pequenos caranguejos usados como isca.

Foi nesse lugar rico em diversidade, onde rio e mar se encontram, que pela primeira vez Paulina sentiu o cheiro da maresia.
Meu pai pescava com camboa. Eu era pequeninha e ficava agarrada nos paus até a maré baixar. Aí, sim, tinha que juntar os peixes.

Camboas eram armadilhas utilizadas pelos índios para capturar os peixes durante a maré do mangue. A técnica usa reentrâncias e esteiras que se enchem de acordo com o sobe e desce das águas. Na curva forma-se uma espécie de grandes tanques fora da circulação das águas. O local é procurado pelos peixes para se alimentarem, reproduzirem e fugirem do fluxo contínuo da maré.

— Os peixes vinham e ficavam. A gente voltava para casa cheia de alimento — rememora.

Paulina a caminho do mar e os encantos do mangue(Foto: Ângela Bastos)
Sustento, aprendizado e agradecimentos

É do mangue que Paulina também continua a tirar ostras e mariscos como parte do sustento, já que o salário de aposentada não é suficiente para as despesas. 
Fome não se passa. O mar sempre dá alguma coisa, por isso eu sempre agradeço por esta coisa tão linda que temos.

Paulina nunca deixou de pescar. Mesmo quando foi empregada numa empresa de pinus, em Joinville, e como doméstica, em Araquari.

— Eu aproveitava a noite, depois de soltar o serviço, para jogar minhas redes no rio. Eu não sei viver longe disso.

Esta proximidade a tornou uma profunda conhecedora da região. Poucas pessoas sabem tão bem sobre as curvas do Rio Parati, em Araquari; a fundura do Canal do Linguado, que liga Baía da Babitonga e o Atlântico; os sambaquis da Ilha Comprida. Também as fases da lua, a hora das marés, o quadrante dos ventos:

— Naquele tempo a gente não aprendia na escola. Era com os pais e com a gente mais velha.

De origem afro-indígena, Paulina guarda um pouco da menina que retirava os peixes das armadilhas feitas pelo pai(Foto: Tiago Ghizoni)

Quando morrer, casquinhas de ostra no caixão

Paulina aprendeu a respeitar as forças da natureza.

— Muitas vezes eu estava pegando iscas e desabou temporal, trovoada que alumiava tudo. A primeira coisa que até hoje faço é enterrar a faca na lama para não chamar o raio. Nestas horas, a gente fica nas mãos da tormenta.

Uma das forças que Paulina diz respeitar é o vento, capaz de virar e jogar a embarcação. Uma vez, estava sozinha e a remo e não conseguia um lugar abrigado. Foi quando diz ter sido inspirada por Deus e entoou os versos: 

Ouça os versos de Paulina

— Eu nunca tinha escutado isso. Mas também nunca esqueci — explica.

Paulina se declara descendente de bugre, numa referência aos primeiros habitantes da região. Parece confirmar o que diz quando se acoca sobre os calcanhares, posição que varia enquanto joga o caniço dentro d’água. Gosta de pescar no remanso e em silêncio, o que também parece agradar os baiacus que se sucedem a morder a sua isca. Ela avisa:
Quando eu morrer quero casquinha de caranguejo, casca de marisco e de berbigão dentro caixão. Tudo isso como recordação das coisas que já tirei muito por aí.

Os filhos riem, mas já confirmaram que irão atender o pedido da velha pescadora.


São Pedro dos pescadores 


O Evangelho conta que Simão era pescador no Mar da Galileia e certo dia, depois de muito tentar e nada pescar, ouviu de Jesus: ‘Você será pescador de homens’. A partir daí, Simão começou seguir Jesus. Pedro é considerado o primeiro Papa da Igreja e tem seu dia comemorado em 29 de junho, sendo o Padroeiro dos Pescadores. 
Navegantes somos todos nós


  
A devoção para com Nossa Senhora dos Navegantes começou quando portugueses e espanhóis deram início às grandes navegações. Quando os colonizadores chegaram ao Brasil eles desembarcam com a adoração em Nossa Senhora dos Mares, da Boa Viagem, de Nossa Senhora dos Navegantes. Prova disso é que a grande maioria das igrejas e capelas dedicadas a Nossa Senhora dos Navegantes está situada no litoral do Brasil. 


A padroeira Nossa Senhora Aparecida


  
Nossa Senhora Aparecida é a padroeira do Brasil. Sua imagem foi encontrada por pescadores no rio Paraíba do Sul, no estado de São Paulo, em 1717. 


Iemanjá, a Rainha do Mar 



Para religiões de matizes africanas, Iemanjá é a principal divindade feminina associada às águas, além de ser ligada à fertilidade, à maternidade e ao processo de criação do mundo e da continuidade da vida.​


Expediente
Reportagem: Ângela Bastos
Edição: Stefani Ceolla
Design: Aline Costa da Silva e Maiara Santos
Fotos e vídeos: Ângela Bastos, Tiago Ghizoni e Jean Carlos de Souza
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* Matéria multimídia originalmente produzida e veiculada no Diário Catarinense e no Jornal do Almoço da NSC TV sobre as mulheres na pesca artesanal em Santa Catarina!

PESCA


Muitas vezes, é após o retorno dos profissionais do mar, que Adriana aproveita a conversa na beira do cais para trocar experiências (Foto: Ângela Bastos)


Das 38 colônias de pescadores em SC, apenas uma é presidida por mulher

Adriana Linhares conduz a entidade em Balneário Piçarras, no Litoral Norte

Por Ângela Bastos
angela.bastos@somosnsc.com.br

Adriana Ana Fortunato Linhares, 31 anos, é presidente da Colônia de Pescadores de Balneário Piçarras, a Z-26. Caso único entre as 38 espalhadas por Santa Catarina. O marido chegou a fazer campanha para o cargo, mas considerou que teria pouco tempo devido às saídas para o mar e, na última hora, a convenceu a entrar na disputa. Além da experiência de pescadora, ela sentiu-se fortalecida pelo aprendizado do curso Jovens do Mar, feito em 2016 na Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri).

O programa foca em temas importantes para o comando de uma associação profissional, como liderança, gestão e empreendedorismo. São trabalhados temas como socialização, identidade, família, gênero, ética, cidadania, legalização da pesca e do mar. Ainda assim, Adriana levou um tempo para perceber a responsabilidade que havia assumido. 

A sede estava fechada há meses, havia acúmulo de documentos, material para ser despachado e o espaço se encontrava totalmente desorganizado. Não havia computador e moradores de rua usavam o lugar.

— O primeiro ato foi chamar os 38 associados para uma grande faxina. Conseguimos dar uma melhorada no ambiente e depois lidar com outro desafio, a falta de recursos financeiros.

Adriana reconhece a invisibilidade das pescadoras e acredita que isso depende também de um posicionamento da própria mulher:
Eu sempre falo: quando a gente for fazer alguma coisa, como um cadastro numa loja ou preencher uma ficha na escola do filho, não se deve dizer que somos do lar ou autônomas. Precisamos dizer que somos pescadoras artesanais.

A presidente da colônia também concorda que esta falta de conscientização tem como base a ausência de respaldo na legislação.

— O INSS só reconhece a mulher pescadora que vai ao mar. A grande maioria trabalha em terra, já que não são todas que aguentam 12 horas na pescaria e depois vir para casa fazer todo o serviço doméstico, como cuidar dos filhos, levar as crianças para a escola, manipular o peixe, limpar o camarão, comprar o óleo diesel para embarcação.

Apesar de ser em dobro, diz, este trabalho não é reconhecido: é considerado obrigação.
A pescadora trabalha muito, mas para a sociedade é como se fosse uma obrigação da “mulher do pescador”. Quando a embarcação é puxada para manutenção, por exemplo, somos nós que ajudamos a lixar e pintar.

Para uma das queixas atuais de muitas mulheres, a emissão das carteiras profissionais, Adriana responde que, em setembro, deve se iniciar o recadastramento automático. Com isso, o profissional poderá fazer uma autodeclaração, utilizando o celular. Aquele que não tiver acesso irá procurar a colônia ou associação para regularizar a situação.
"Cada embarcação é uma pequena empresa"

Quanto à escassez de peixes, diz, depende muito do clima. Assim como da poluição. Para Adriana, existe falta de conscientização das pessoas, inclusive dos turistas que, nas férias, vão para o Litoral e sujam as praias com bitucas de cigarros, latas de bebidas e plástico.

Adriana se mostra inquieta com a falta de dados sobre a atividade da pesca artesanal em Santa Catarina. A presidente da colônia de Piçarras entende que isso permitiria apresentar reivindicações ao governo:

— Vamos ter que organizar a frota, que hoje é desconhecida. Não sabemos quantos pescadores somos, nem quanto é pescado. Sequer as toneladas de peixe e camarão capturadas em nossas redes. Poderíamos fazer isso com cada liderança dos municípios — sugere.

Para Adriana, a organização é fundamental para as famílias que vivem da pesca artesanal.

— A gente tem que entender que cada embarcação é como se fosse uma pequena empresa. Nós precisamos acreditar na pesca e num futuro melhor. Nós vamos reescrever a história da pesca no nosso Estado.

(Do https://www.nsctotal.com.br/)

CAMINHOS...

Olhar, clique e caminho da Walkiria Pereira

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

MULHERES NO MAR


Naca é a mais tradicional pescadora na Praia da Cruz, em Governador Celso Ramos, na Grande Florianópolis(Foto: Tiago Ghizoni)

"Tenho o mar nas veias", afirma Naca Cabral Mence, pescadora há 57 anos

A Naca menina, a mais velha entre seis irmãos, gostava tanto de acompanhar o pai nas pescarias que nem reclamou de ter sido retirada da escola. Tampouco das marcas no corpo da corda amarrada à cintura para que calças largas do pai não lhe caíssem

Por Ângela Bastos
angela.bastos@somosnsc.com.br

Vênus, o planeta mais brilhante, ainda cintila no céu de maio quando uma lâmpada se acende na casa de Nair Maria Cabral Mence, 68 anos, a Naca. São 5h e a mulher de estatura pequena e voz forte abre a porta. Minutos depois, desce a rua sem saída que leva à Praia da Cruz, em Governador Celso Ramos, agasalhada em casacos e envolta pela escuridão. Os cachorros se assustam e latem. Mas os vizinhos permanecem sossegados. Sabem que é Naca a caminho do mar.

É o começo de mais um dia de trabalho para a pescadora artesanal mais antiga do Canto dos Ganchos, comunidade pesqueira da cidade que fica na Grande Florianópolis. Somam-se 57 anos de profissão desde que, aos 11, ela começou a pescar com o pai, dono de uma canoa de um pau só na Praia do Cabral, sobrenome da família, hoje Baía das Bromélias, na mesma cidade.

A menina, a mais velha entre seis irmãos, gostava tanto de acompanhar o experiente pescador que nem reclamou de ter que deixar a escola. Tampouco se importava com as marcas das cordas amarrada à cintura para que as largas calças do comandante não lhe caíssem perna abaixo.

— Desde criança minha vida é isso. O mar é um vício que entra na gente e segue por toda a vida — diz a aposentada pelos anos de profissão, enquanto empurra a bateira de madeira para dentro da água.

Naca pesca sozinha. Já teve filhos e amigas como parcerias, mas prefere trabalhar de forma solitária. Uma forma de agradar o mar, que gosta de silêncio.

A pescadora se casou aos 16 anos e aos 35 ficou viúva e com cinco filhos para criar. Foi o mar, diz, que lhe deu sustento e renda para alimentar e educar as crianças. Formou duas professoras, um pintor e dois pescadores profissionais. Avó de cinco netos e quatro bisnetos, ela brinca:
Com o mar sou tudo, sem ele sou nada.

PESCADEIRAS
Naca tira os peixes da rede

Tubarão, tempestades e os dentes da caranha

Naca tem fotografias que comprovam suas histórias. O maior peixe que pescou foi um cação de 62 quilos. Nesse dia, lembra, precisou de grande esforço para colocar o bicho mais pesado do que ela dentro da embarcação.

— No começo até me assustei, pois o peso era tanto que pensei ser um defunto.
O maior peixe captura por Naca tinha mais de 60 quilos(Foto: Arquivo Pessoal)

O segundo maior peixe capturado foi uma miraguaia de 45 quilos.

Nas redes de Naca também caiu um tubarão de 32 quilos, bicho valente cheio de dentes e que cortou o cabo da tralha da rede.

— Mas eu o peguei: batendo na cabeça com o pedaço de pau que sempre carrego na embarcação — explica.

Entre outras espécies ferozes que capturou, Naca recorda do dia em que por pouco não sentiu a mordida poderosa de uma caranha. Muito agressivo, o peixe dava pinotes dentro do barco mostrando os dentes grandes e afiados.

— Eu corri para a proa e meu filho para a popa, enquanto a danada dava pulos dentro da bateira — recorda.

Naca tem orgulho em falar dos dias em que tirou das redes 150, 200 quilos de peixes, quantidade que nem cabia na embarcação, que quase afundou. Do tempo em que precisava pedir ajuda para "despescar". Num desses dias foram 12 miraguaias. Total: 220 quilos.

Com o pai, Naca aprendeu muitas lições. Foi ele também que a ensinou a nadar e a boiar. Ela fez o mesmo com os filhos. Um dos ensinamentos nunca esquecido foi dar as costas para o mar.
Se estou numa pedra ou num costão, jamais me viro. É preciso muito cuidado, pois o mar é vivo.

Naca também já enfrentou tempestades severas. Numa delas, a força do vento era tanta que arrastou o bote para a Barra do Rio Tijucas, uns 30 quilômetros adiante. Outro susto foi durante um arrasto de camarão.

O motor estava ligado e o barco andava bem devagar. O vento chegou de repente e ela foi jogada com botas e roupa de oleado para dentro d’água. Agarrou-se na rede, e depois no leme.

Mas a cana, a parte de metal que permite a manobra, se partiu, e teve que se segurar no pedaço que restou. Naca não sabe calcular o quanto andou, mas sabe ter sido salva por um pescador.

— Era um conhecido que tinha ido ver as redes. Ele disse que achou estranho: ‘o barco vem sozinho e cadê a Naca?’. Daí foi ver o que tinha acontecido. Aproximou-se e, então, eu soltei o leme e pulei para o bote dele — recorda, com cara de alívio.
Naca guarda fotos como memória das pescarias(Foto: Arquivo Pessoal)
Preocupação com mudanças climáticas

Mudanças repentinas no clima intrigam a pescadora:

— Há 40, 50 anos, a gente se levantava de manhã cedo, olhava o céu e sabia se o vento viria. Hoje, não.

Para Naca, estas variações do clima se devem à poluição causada principalmente pelo desmatamento. Mas ela também acha que o pescador deveria ser mais cuidadoso:

— Eu já tirei muito lixo das redes, principalmente sacolas de plástico e garrafas PET. Não dá para levar e depois jogar fora, é preciso cuidar da natureza se não um dia tudo acaba — avisa.
Preconceito, coragem e muita paciência

Naca ouvia dizer que lugar de mulher é em casa cuidando dos filhos. Mas ela não se rendeu: cuidava das crianças, deixava a comida pronta em cima do fogão à lenha e cedinho saía para o mar. Hoje, é o orgulho da família.

Acostumada a enfrentar tubarões e tempestades, Naca não foge de um assunto assustador: o preconceito contra a mulher pescadora.
Tem muito homem machista, que acha que só eles podem pescar. Não é assim, a pescadora e o pescador são iguais.

Naca observa que a situação já foi pior.

— Ouvi muitas vezes que lugar de mulher é em casa cuidando dos filhos. Eu cuidava deles e pescava. Teve época em que os cinco estudavam, deixava tudo prontinho em cima do fogão à lenha e às 6h saía para o mar.

Com tanta experiência, Naca aconselha as mulheres que quiserem entrar para a pesca:

— Em primeiro lugar é preciso gostar do mar, pois não é uma vida fácil. Em segundo, tem que ter coragem para lidar com os desafios. Por último, paciência. A gente precisa entender sobre redes, vento, lua. Mas é o mar quem comanda.

Naca conta sentir orgulho do trabalho, de si própria e de ser chamada para falar sobre a profissão em universidades, congressos, encontros de trabalhadores.

— Sinto que meus filhos também se orgulham da mãe que têm, pois os criei assim, remando e pescando, indo e vindo do mar.

Expediente
Reportagem: Ângela Bastos
Edição: Stefani Ceolla
Design: Aline Costa da Silva e Maiara Santos 
Fotos e vídeos: Ângela Bastos, Tiago Ghizoni e Jean Carlos de Souza

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* Matéria multimídia originalmente produzida e veiculada no Diário Catarinense e no Jornal do Almoço da NSC TV sobre as mulheres na pesca artesanal em Santa Catarina!

NO MOVIMENTO DAS ÁGUAS...


O vaivém das águas inspira expressões como "maré poderosa, vento traiçoeiro, mar bravo" e altera cenários de embarque e desembarque(Foto: Ângela Bastos)


Vidas sob o comando das marés: como o movimento das águas impacta na pesca artesanal

O sobe e desce também influencia o vocabulário das pescadoras: se a maré enche, o mar engorda; se a maré vaza, o mar emagrece

Por Ângela Bastos
angela.bastos@somosnsc.com.br

Mais que o relógio, a maré é quem controla a vida das pescadoras artesanais em Santa Catarina. As oscilações — cheia, do mar para a terra; vazante, da terra para o mar — mexem com o cotidiano delas. A dança das águas também influencia o vocabulário: se a maré enche, o mar engorda; se a maré vaza, o mar emagrece.

Também os diálogos ganham expressões — verbos, adjetivos — como se pessoas fossem: maré poderosa, vento traiçoeiro, mar bravo. Esse vaivém das águas movimenta os locais de embarque e de desembarque. Nos picos de abundância as baleeiras se afastam, deixando trapiches e ranchos sob os cuidados de garças e socós.

Unidas pela geografia e parentesco, estas trabalhadoras conhecem os hábitos umas das outras. Da terra, usam os pontos cardeais para apontar localização das parcerias. Para quem de longe observa, as embarcações parecem caixas de fósforos numa piscina olímpica esverdeada.

Foi isso que nossa reportagem presenciou em 17 de maio nas águas da Baía da Babitonga. Na manhã franjeada de sol surge um pequeno barco. É Rosalina de Souza Usa, a Rosa, e sua imersão da silhueta. Cobre-se com um avental de oleado amarado, protege o pescoço com um lencinho e a cabeça com boné jeans. Entre uma tarrafada e outra, Rosa explica estar pescado camarão branco. 

— Camarão é assim: é de dia, é de hora. Somos pescadores de robalo, mas hoje o vento não está ajudando — conta.

Conhecedora da realidade das águas da Baía da Babitonga, Rosa alerta sobre o nadar finito dos cardumes(Foto: Ângela Bastos)

O marido, Pedro, está no leme e ouve a conversa. Rosa fala sobre a experiência de pescar em parceria.

— Tem dia que é bom e tem dia que não (risos), é como em casa: tem dia que não dá certo. 

Quando isso acontece, será que dá peixe?

— Não, aí só dá briga (risos).

Rosa e o marido formam uma das duplas de pescadores mais experientes da região. Acostumada à rotina, ela se mostra ciente do nadar finito dos cardumes. Para ela, a mesma água onde muitas mulheres aprenderam a nadar e viram saltar a vida nas braçadas dos filhos, precisa de cuidados.

— O mar nos dá muita coisa boa.

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Expediente
Reportagem: Ângela Bastos
Edição: Stefani Ceolla
Design: Aline Costa da Silva e Maiara Santos
Fotos e vídeos: Ângela Bastos, Tiago Ghizoni e Jean Carlos de Souza

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* Matéria multimídia originalmente produzida e veiculada no Diário Catarinense e no Jornal do Almoço da NSC TV sobre as mulheres na pesca artesanal em Santa Catarina!

FOGO NO PANTUSÚLI


Planície do Pântano do Sul em chamas nessa noite de terça-feira! Suspeitas de incêndio criminoso!

terça-feira, 1 de outubro de 2019

MULHERES NO MAR


Maria Terezinha de Jesus Vieira, a Tereza, 58 anos, 45 como pescadora(Foto: Tiago Ghizoni)

"Eu sou uma pescadeira", define Tereza de Jesus Vieira, de Laguna

A pescadora segue a lógica da terminação “eira” presente em outros ofícios, como lavadeira, rendeira. Apesar de o termo ser mais usado para se referir à mulher que vende peixe, o raciocínio recolhe uma expressão comum em Portugal

Por Ângela Bastos
angela.bastos@somosnsc.com.br


Uma rua de asfalto separa a casa de Maria Terezinha de Jesus Vieira, 58 anos, das águas do mar. Moradora no Canto da Lagoa, às margens da Lagoa de Santo Antônio, em Laguna, Tereza, como é conhecida, é casada, tem cinco filhos e cinco netos. Quando o assunto é a profissão, ela emprega uma palavra que entre uma redada e outra aparece no vocabulário das artesanais catarinenses. 

Mulher de pouco estudo, Tereza segue a lógica da terminação “eira” presente em outros ofícios — lavadeira, benzedeira, parteira. O raciocínio destampa o baú das memórias dos ancestrais e recolhe uma expressão mais comum em Portugal, berço da nossa língua oficial, que serviu de roteiro para o documentário A Mãe e o Mar (2013) sobre as mulheres-arrais. O vídeo conta a história das pescadeiras, mulheres que décadas atrás desafiaram a tradição, conseguiram licença de pesca e com suas vidas mergulharam num oceano antes só navegado por homens. Popularmente, em algumas regiões do Brasil, a palavra "pescadeira" é usada para se referir às mulheres que vendem o pescado.

A vida de Tereza ajuda a explicar o lugar e o papel das mulheres na pesca artesanal. Ela, que aprendeu a pescar com a mãe e depois de casada aprimorou o conhecimento com o marido, o já pescador Paulo Jovino, ensinou a atividade para os cinco filhos. 

As noras também são pescadoras. Para Tereza, o que faz não é obrigação, apoio, ajuda:

— É trabalho. 
Das águas Tereza tira o alimento, a sobrevivência, a continuidade da vida(Foto: Ângela Bastos)

Usa a própria rotina como exemplo. Vai ao mar todos os dias, incluindo feriados e fins de semana, levanta-se nas madrugadas, cuida da casa, tira carne de siri, descasca camarão, limpa os peixes.

— A gente coloca as redes no final da tarde, antes do sol entrar. Volta no outro dia, antes do sol nascer. É uma vida bem difícil, mas compensada quando dá peixe — diz a profissional, que acrescenta:

— Vem de mãe e passa para a filha. Eu tenho uma filha que pesca comigo, assim como as noras são pescadoras também.

PESCADEIRAS
"Eu gosto muito de flor, mas essa minha pesca é tudo pra mim"

Fé, sobrevivência e lua de mel na embarcação

Tereza tem uma relação intensa com o mar. Das águas tira o alimento, a sobrevivência, a continuidade da vida. Quando chega à praia, molha a mão e faz o sinal da cruz.
Eu falo com a água e converso com o sol. Quase sempre é um agradecimento por tudo que nos é dado.

Tereza diz sentir uma emoção muito grande pelo trabalho que faz:

— Muitas vezes eu escuto para não ir ao mar, pois a gente é mulher, tem saúde delicada, corpo mais frágil. Mas eu deixo casa, faxina, qualquer serviço em terra para pescar.
A fé faz parte da rotina de Tereza(Foto: Ângela Bastos)

No dia-a-dia, as parcerias se alternam. Às vezes com o marido, às vezes com uma das filhas. O marido de Tereza se tornou um camarada (companheiro) bastante presente.

— O primeiro filho foi feito na bateira, no balanço das ondas, lá fora. Nós estávamos em lua de mel — recorda. Tudo que a família Vieira possui foi resultado da pesca. Casa, galpão, carro, rancho, bateiras, redes. 

O avanço dos anos preocupa os filhos. Eles já sugeriram para a mãe diminuir a frequência de ir ao mar, já que com a aposentadoria dela e do marido a situação da família melhorou:

— O mar é tudo na minha vida. Eu mesma digo para os meus filhos: se acontecer alguma coisa, se eu cair na água e morrer eu vou embora feliz.
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Expediente
Reportagem: Ângela Bastos
Edição: Stefani Ceolla
Design: Aline Costa da Silva e Maiara Santos 
Fotos e vídeos: Ângela Bastos, Tiago Ghizoni e Jean Carlos de Souza


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* Matéria multimídia originalmente produzida e veiculada no Diário Catarinense e no Jornal do Almoço da NSC TV sobre as mulheres na pesca artesanal em Santa Catarina!

MAR DE PETRÓLEO

Tartaruga ferida pelo petróleo encontrada no litoral maranhense. 

Desde o começo do mês de setembro, manchas de petróleo se tornaram visíveis em praias do litoral do Nordeste. Até a tarde desta quinta-feira, 26, foram identificadas manchas em pelo menos 105 locais de 46 municípios diferentes da região, pertencentes a oito Estados: Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Maranhão. Em nota oficial, o IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente) afirmou que a origem do vazamento de petróleo ainda não foi identificada, mas que uma análise feita pela Petrobras confirmou que o produto não é brasileiro. Já a Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas) de Pernambuco, um dos Estados onde as manchas apareceram primeiro, afirmou no dia 13 de setembro que o material "foi descartado há mais de um mês em águas oceânicas por um navio ainda não identificado".

As primeiras manchas foram registradas nas praias de Paraíba e Pernambuco, mas só o segundo trouxe informações acerca da origem do petróleo. Na mesma nota em que mencionou o descarte do navio, a Semas ressalta que o material visto no litoral pernambucano não tem relação com o vazamento da Refinaria Abreu e Lima, da Petrobras, ocorrido no fim de agosto. A refinaria fica localizada no município de Ipojuca, no sul de Pernambuco.

Entre os oito Estados afetados, o que apresenta a maior quantidade de manchas é o Rio Grande do Norte, com 43, mais que o dobro de Paraíba e Pernambuco, que têm 16. De acordo com os analistas da equipe de monitoramento do IBAMA, o Rio Grande do Norte já apresenta situação "estável" apesar da grande quantidade. Alagoas e Maranhão, com 10 manchas, Ceará, com seis, Sergipe, com quatro, e Piauí, com apenas uma, aparecem na sequência da lista de Estados afetados. A Bahia é o único Estado do Nordeste que não registrou manchas de petróleo no litoral.

Um mês após o aparecimento de manchas de óleo em 39 praias de sete estados do Nordeste, que prejudicou pescadores e afastou turistas, o material derivado do petróleo atingiu Sergipe na manhã de quarta-feira 25/09/2019.

Apesar dos números, o Maranhão, no momento, necessita mais atenção do instituto nesse momento. Isso porque o órgão detectou novos vestígios de óleo chegando no estado mais ao norte da região, enquanto as outras situações estão mais controladas. Por essa razão, "o grupo de comando [do IBAMA] foi transferido de lá [Rio Grande do Norte] para o Maranhão. Mas o IBAMA também continuará acompanhando as ações de limpeza no litoral potiguar".

A investigação feita pelo IBAMA em conjunto com o Corpo de Bombeiros do Distrito Federal também constatou que o petróleo que está poluindo todos os locais é o mesmo. O órgão federal diz estar coordenando ações de limpeza em todos os locais afetados em parceria com a Petrobras, que disponibilizou um contingente de cem pessoas. A empresa também divulgou nota reforçando que "o material encontrado não é produzido e nem comercializado pela companhia. No entanto, desde a última quinta-feira, estamos contribuindo com a limpeza das praias que apresentaram manchas de óleo".

O levantamento do instituto apontou sete animais mortos desde o início da contaminação, sendo seis tartarugas marinhas e uma ave. "Até o momento, não há evidências de contaminação de peixes e crustáceos", reforçou a nota do IBAMA. Porém, o órgão deixa claro que a avaliação dos animais capturados para consumo nas áreas afetadas é competência da vigilância sanitária local, além de pedir para que banhistas e pescadores não tenham contato com o petróleo. "Caso seja identificado produto no mar ou nas praias, o cidadão deve informar o local à prefeitura. O óleo recolhido deve ser destinado adequadamente". Ainda há o alerta do órgão para que sejam acionados autoridades ambientais se forem encontrados animais com óleo, uma vez que eles não devem ser lavados e nem devolvidos ao mar antes de avaliação do veterinário.

MALHEIRAS

Foto Fernando Alexandre

OSTRAS & MEXILHÕES


Liberado consumo de ostras e mexilhões de algumas regiões

Está liberado o consumo, retirada e comercialização de ostras, mexilhões, berbigões e vieiras da localidade de Caieira da Barra do Sul, em Florianópolis, e da Armação do Itapocorói, em Penha.

A Secretaria de Estado da Agricultura, da Pesca e do Desenvolvimento Rural desinterditou o cultivo desses moluscos e seus produtos, inclusive nos costões e na beira de praia na sexta-feira, dia 27.

A liberação ocorre após dois resultados negativos consecutivos, com a demonstração pelas análises de que as concentrações de toxina diarreica nos moluscos bivalves da região estão dentro dos limites de segurança para o consumo humano. As análises são repetidas semanalmente.

Novas interdições

Porém, a Secretaria de Estado da Agricultura, da Pesca e do Desenvolvimento Rural anunciou a interdição de cultivos de berbigões, ostras, vieiras e mexilhões das localidades de Freguesia do Ribeirão e Costeira do Ribeirão, em Florianópolis, devido à presença de toxina diarreica. Desde sexta-feira, 27, estão proibidas a retirada, comercialização e o consumo dos moluscos e seus produtos, inclusive nos costões e beira de praia. A medida foi necessária após exames laboratoriais detectarem a presença de ácido ocadaico nos cultivos de moluscos bivalves da região. Quando consumida por seres humanos, essa substância pode ocasionar náuseas, dores abdominais, vômitos e diarreia.

As localidades de Barra e Laranjeira, em Balneário Camboriú, seguem interditadas para retirada, comercialização e consumo de todas as espécies de moluscos e seus produtos.

Consumo liberado de ostras

Seguem liberadas para a comercialização e o consumo de ostras as localidades de Zimbros e Canto Grande, no município de Bombinhas; Araça, Perequê e Ilha João da Cunha, em Porto Belo, e Ponta do Papagaio, em Palhoça. Porém, nestas localidades ainda permanece a interdição para mexilhões, vieiras e berbigões.

O gerente de Pesca e Aquicultura da Secretaria da Agricultura, Sérgio Winckler, explica que ostras e mexilhões se comportam de forma diferente diante das concentrações de algas tóxicas, por isso a liberação é parcial. “Existem diferenças nos sistemas de filtração dos moluscos. A ostra concentra menos toxinas, por isso é possível a sua liberação antes dos mexilhões”.

Monitoramento constante

Santa Catarina é o maior produtor nacional de moluscos e o único estado do país que realiza o monitoramento permanente das áreas de cultivo. O Programa Estadual de Controle Higiênico Sanitário de Moluscos é um dos procedimentos de gestão e controle sanitário da cadeia produtiva, dando garantia e segurança para os produtores e consumidores.

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

MULHERES NO MAR





Pescadeiras como sinônimo de pescadoras. Assim se definem as mulheres que vivem da pesca artesanal em Santa Catarina. No vocabulário delas, a palavra ganha a mesma terminação de outros ofícios, como parteira, benzedeira, cozinheira. São elas as protagonistas desta reportagem multimídia, que mostra como é profunda a presença feminina nos mares catarinenses.

* À partir de amanhã, terça-feira, publicaremos diariamente a matéria multimídia da repórter Ângela Bastos originalmente produzida e veiculada no Diário Catarinense e  no Jornal do Almoço da NSC TV sobre as mulheres na pesca artesanal em Santa Catarina!