quarta-feira, 6 de março de 2019

RODANDO O MUNDO



Fernão de Magalhães autor da mais extraordinária viagem marítima desde sempre.

Fernão de Magalhães, 500 anos da primeira circunavegação

Oriundo do norte de Portugal, não se sabe ao certo o local de nascimento, se Porto, ou Trás-os-Montes. Também não é precisa e a data de nascimento, provavelmente 1470. Ainda jovem foi para Lisboa. Torna-se escudeiro ao serviço de D. Manuel I. Em 1505, parte para a Índia na armada de D. Francisco de Almeida. Ali permanece por anos. Durante o período, participou em campanhas militares no Índico, lutando na conquista de Sofala, Quiloa e na tentativa da conquista de Malaca. Retorna a Portugal em 1513. Poucos anos depois, em 1517, se desentende com D. Manuel I, troca Portugal pela Espanha onde oferece seus serviços a Carlos I. Propôs-lhe atingir as Molucas pelo Ocidente. O que tinham estas ilhas de especial? Eram a única produtora mundial de cravo, além de outras especiarias. Durante os dois anos seguintes Fernão de Magalhães estudou a navegação, juntou mapas e documentos, e convenceu Carlos I.



2019 – V Centenário do inicio da primeira circunavegação do globo

No dia 20 de Setembro de 1519, os cinco navios, Trinidad, comandado por Fernão de Magalhães; Victoria, San António, Concepción e Santiago,– saíram de Sanlúcar de Barrameda, na foz do Guadalquivir. Começava a mais extraordinária viagem marítima desde sempre. A soma dos tripulantes era de 265 homens.




A frota de Fernão de Magalhães.Ilustração: www.timetoast.com.

Fecho de ouro para a era das grandes navegações portuguesas

A viagem de Magalhães também é considerada o fecho de ouro para a era das grandes navegações portuguesas. Elas começaram com a descoberta da Madeira, em 1418. Nos cem anos seguintes, Portugal surpreenderia o mundo descobrindo mais da metade de todas as terras conhecidas até então. A saga ultramarina é considerada por diversos estudiosos uma das mais ousadas e importantes da história da humanidade. Infelizmente, só nós, brasileiros, não sabemos disso. Nosso ‘ensino’ decidiu por bem banir este capítulo da história. Como já dissemos antes, ‘o movimento náutico português foi o precursor da globalização, cujo ápice vive a nossa geração’.



O roteiro da viagem de Fernão de Magalhães.

Embarque na viagem de Fernão de Magalhães

Para nossa sorte, na frota de Magalhães seguiam ao menos seis ‘literatos’. Eles foram os autores de seis relatos escritos da viagem, o mais conhecido dos quais, o do italiano Antonio Pigafetta. Entretanto, o livro ‘Fernão de Magalhães – A Primeira Viagem À Volta Do Mundo, contada pelos que nela participaram, publica na íntegra, e comenta, os seis relatos. É dele que vem o texto a seguir.

Livro Primeiro – De Sevilha até à saída do Estreito de Magalhães

“Aos perigos inerentes a esta empresa podia acrescentar uma desvantagem a mais para Fernão de Magalhães. Os capitães dos outros quatro navios que estariam sob o seu comando eram seus inimigos, pela única razão de serem espanhóis, ao passo que Magalhães era português. A 20 de setembro partimos de São Lucar. Navegamos para sudoeste, e a 26 chegamos a uma das ilhas Canárias, chamada Tenerife, situada em 28º de latitude norte. Detivemo-nos três dias num local apropriado, para nos aprovisionarmos de água e lenha. Em seguida entramos num porto da mesma ilha, onde passamos dois dias. Em 3 de outubro fizemos-nos à vela, diretamente rumo ao sul.”

No Rio de Janeiro

“…Depois de passar a linha equinocial, ao aproximar-se do polo Antártico, perdemos de vista a estrela Polar.” Finalmente a frota chega ao Rio, onde Pigafetta relata as trocas que fizeram. “Fizemos aqui vantajosíssimas trocas. Por um anzol ou uma faca deram-nos cinco ou seis galinhas; por um pente, dois gansos; por um espelhinho o peixe suficiente para alimentarmos dez pessoas. Trocamos também por bom preço as figuras das cartas de jogar. Por um rei de ouros deram-nos seis galinhas, e ainda se convenceram de que tinham feito um magnífico negócio. Os brasileiros não são cristãos, nem tampouco idólatras, porque não adoram nada. A natureza é sua única lei.”

Descrição das canoas

Pigafetta: “os seus barcos são chamados canoas e são feitos de um tronco de árvore escavado com uma pedra cortante, usada em vez de ferramentas de ferro que não conhecem. São tão grandes estas árvores que numa só canoa cabem trinta e mesmo quarenta homens, que se servem de remos que se parecem a pás dos nossos padeiros.”

Descrição dos indígenas

“Os homens e as mulheres são tão vigorosos e tão bem proporcionados como nós. Comem algumas vezes carne humana. Mas somente a dos seus inimigos. Não é pelo apetite nem pelo sabor que o fazem, mas por um costume. Para não serem menos ferozes que outros, determinaram comer, de verdade, os inimigos aprisionados. Os brasileiros, tanto homens como mulheres, pintam o corpo, principalmente a cara. Quase todos os homens têm o lábio inferior com três perfurações, através das quais passam pequenos cilindros de pedra de duas polegadas. Nem as mulheres nem as crianças usam este incômodo adorno. A cor de sua pele é de um tom mais azeitonado do que negro. Demoramo-nos treze dias neste porto, após o que prosseguimos a nossa rota. Costeamos o país até 34º 40′ de latitude sul onde encontramos um grande rio de água doce (era o Prata).”
Figuras fantásticas, o imaginário de Pigafeta no rio da Prata

“Aqui habitam os canibais, ou comedores de homens. Um deles, de figura gigantesca e cuja voz parecia a de um touro, aproximou-se de nosso navio para animar os seus camaradas, que, temendo que lhes quiséssemos fazer mal, se afastaram do rio. Se retiraram com seus haveres para o interior do país…saltamos em terra cem homens e perseguimo-los para capturarmos alguns, mas davam tão grandes passadas que nem mesmo correndo ou saltando os pudemos alcançar.”
Porto de São Julião, Argentina, e os Patagões

“…Chegamos aos 49º 30′ de latitude sul. Encontramos um bom porto, e, como se aproximava o inverno, julgamos conveniente passá-lo ali.” Pigafetta se refere a San Julian, na província de Santa Cruz. Neste local, mais uma vez, o imaginário falou mais alto: “…um dia quando menos esperávamos se apresentou um homem de figura gigantesca. Este homem era tão alto que a nossa cabeça apenas chegava à sua cintura. O seu vestuário, ou melhor, o seu manto era feito de peles muito bem cozidas umas às outras, de um animal que abunda neste país, como adiante veremos…Parece que sua religião se limita à adoração do Diabo. O nosso capitão chamou este povo Patagões. Permanecemos neste porto cinco meses…”

Motim contra Fernão de Magalhães

O clima na flotilha era o pior possível. Eram quatro capitães espanhóis sob comando de um português. Pior que que rivalidade que temos com nossos ‘hermanos’. Não podia dar outra. Explode um motim. Com a palavra, Antonio Pigafetta: “Apenas ancoramos neste porto (São Julião), os capitães dos outros quatro navios planejaram uma conspiração para assassinar o capitão-general. Estes traidores eram: João de Cartagena, vedor da frota, Luís Mendonça, tesoureiro, Antonio Coca, contador; e Gaspar de Quesada. A conspiração foi descoberta. O primeiro foi esquartejado e o segundo apunhalado. Gaspar de Quesada foi perdoado, mas alguns dias depois organizou nova traição. Então o capitão- general expulsou-o da frota e abandonou-o na terra dos Patagões com um sacerdote seu cúmplice. Sucedeu-nos deste local outra desgraça: o navio Santiago que tinha sido destacado para reconhecer a costa naufragou entre os escolhos.”



A descoberta do Estreito de Magalhães, obra de Oswald Walters Brierly.

Navegando para a boca do Estreito de Magalhães

“Continuando nossa rota para o Sul. A 21 de outubro, estando em 52º de latitude sul, descobrimos um estreito, que chamamos ‘o estreito das Onze Mil Virgens’, porque foi no dia que a igreja as consagra. Este estreito, como depois pudemos verificar, tem 440 milhas de comprimento, e meia légua de largura, pouco mais ou menos, e desemboca noutro mar, a que chamamos Pacífico. Toda tripulação acreditava que o estreito não tinha saída para o oeste que não era prudente mesmo ir procurá-la sem ter os grandes conhecimentos do capitão-general. Este, tão hábil como valente, sabia que era preciso passar por um estreito muito oculto, mas que tinha visto numa carta feita pelo excelente cosmógrafo Martim da Boémia, que o rei de Portugal guardava na sua tesouraria.”


O Estreito de Magalhães.

Livro segundo – Desde a saída do estreito até à morte do capitão Magalhães e nossa partida de Zebu

Pigafetta é econômico quanto ao grande problema desta etapa: o frio intenso e o vento normalmente muito forte em toda a região. E principalmente, no inverno. Já naveguei por ali, e posso afirmar: mesmo com toda a tecnologia, e as roupas sintéticas que hoje temos, não dá pra ficar mais de meia hora exposto ao vento e ao frio, mesmo com três ou quatro camadas de roupas. O sofrimento da tripulação da frota de Magalhães foi mais que tenebroso.

O frio tenebroso no Estreito de Magalhães

Busco exemplo em matéria recente que fizemos sobre o terceiro homem a fazer a circunavegação da Terra, o inglês Thomas Cavendish. Quem relata é o marinheiro Anthony Knivet , eles estavam no mesmo local, o estreito: “ao tirar minhas meias alguns dedos saíram junto, vi que meus pés estavam negros feito fuligem e não conseguia mais senti-los de todo. Não mais conseguia caminhar… nesse lugar um ourives chamado Harris perdeu o nariz. Quando tentou assoá-lo, ele acabou caindo de seus dedos no fogo.”

Saindo do Estreito de Magalhães. Medo do escorbuto, e a fome, dominam

“Dia 28 de novembro saímos do estreito e entramos no grande mar, que logo chamamos ‘mar Pacífico’. Navegamos durante três meses e vinte dias sem comermos nenhum alimento fresco. O biscoito que comíamos já não era mais pão, mas um pó misturado com vermes, que haviam devorado toda a substância, e que, além disso, tinha fedor insuportável, por estar empapado com urina de rato. A água que nos víamos obrigados a beber estava igualmente putrefata e repugnante.


Ilustração de Gustave Doré. O escorbuto foi responsável por mais mortes no mar do que tempestades, naufrágios, combate e todas as outras doenças combinadas.

Comendo pedaços de couro para não morrer

“Para não morrermos de fome chegamos mesmo ao terrível transe de comermos pedaços dos couros de boi com que se encontra revestido o mastro grande. Estes couros, sempre expostos, estavam tão rijos que havia que os pôs de molho ao mar durante quatro ou cinco dias para embrandecerem um pouco, em seguida os cozíamos e comíamos. Muitas vezes a nossa alimentação reduzia-se a serradura de madeira; até os ratos, tão repugnantes ao homem, chegaram a ser um manjar tão procurado que se pagava um ducado por cada um.”

A peste ataca a tripulação: escorbuto

“Mas houve pior: a nossa maior desgraça era vermo-nos atacados por uma doença em que as gengivas inchavam até ao ponto de ultrapassarem os dentes, tanto da mandíbula superior como da inferior. Os doentes não podiam comer nada. Morreram dezanove. Entre eles o gigante patagão e um brasileiro que ia conosco. Durante estes três meses e vinte dias percorremos quatro mil léguas, pouco mais ou menos, no mar que chamamos Pacífico, porque enquanto durou a nossa travessia não sofremos a menor tempestade.”



Escorbuto, pavor dos marinheiros quinhentistas.

Sobre a própria viagem

Pigafetta: “Se ao sairmos do estreito tivéssemos continuado a correr para oeste pelo mesmo paralelo, teríamos dado a volta ao mundo. E, sem encontrarmos nenhuma terra, teríamos voltado ao Cabo Desejado ao cabo das Onze Mil Virgens, dado que os dois estão em 52º de latitude sul. Penso que ninguém no futuro se aventurará a empreender uma viagem semelhante (de fato, foram precisos 58 anos para que o próximo, Francis Drake, fizesse nova circunavegação).”

Navegando ao largo do Japão

“Na nossa rota passamos perto das costas de duas ilhas muito altas, uma das quais está a 20º de latitude sul e a outra a 15º. A primeira chamas-se Cipangu (Japão) e a segunda Sumbdit-Pradit. Em seguida começam a aparecer novas ilhas, estas bem próximas das naus.” Nossos amigos haviam chegado às Filipinas. Pigafetta: “Tendo avistado à nossa roda, ao quinto domingo da Quaresma, que se chama Lázaro, umas tantas ilhas, demos-lhes o nome de ‘arquipélago de São Lázaro‘ (atual Filipinas).” Ali novos encontros aconteceram. Pigafetta: “sexta-feira, 22 do mês (março), os insulares cumpriram sua palavra, e vieram com duas canoas cheias de nozes de coco, laranjas, um cântaro com vinho de palmeira e um galo. Compramos-lhes tudo o que trouxeram.”

Explorando as Filipinas

A frota de Fernão de Magalhães explorou dezenas de ilhas das proximidades. Ficaram amigos de um dos ‘reis’ , com quem trocaram presentes. A amizade prosperou. Indígenas foram batizados, e missas rezadas. Pigafetta: “o capitão-general perguntou qual era, nas imediações, o porto mais apropriado para aprovisionar os seus navios e comerciar com as suas mercadorias. Disseram-lhe que havia três, a saber: Ceylon, Zubu (atual, Cebu), e Calagan, mas que Zubu era o melhor, e, como ele estava decidido a ir aí, ofereceram-lhe pilotos para o conduzir.” Entusiasmado com a boa maré, e procurando selar a amizade, Fernão de Magalhães cometeu seu único erro na épica viagem. Erro que lhe custaria a vida. Mais uma vez, palavra de Pigafetta: “O capitão disse ao rei que se ele tinha inimigos se juntaria voluntariamente a ele com seus navios e os seus guerreiros para combater.”



Batizando ‘reis’.

Em Cebu, para comerciar

“No domingo, 7 de abril, entramos no porto de Zubu. Passamos perto de muitas aldeias onde vimos casas construídas em cima das árvores. Perto da povoação, o capitão mandou içar todos os estandartes e amainar as velas, dando uma descarga geral de artilharia, o que causou grande alarme entre os insulares.”

A escaramuça em que se meteu Magalhães

“Sexta-feira, 26 de abril, Zula, um dos chefes da ilha de Matan enviou ao capitão um de seus filhos com duas cabras, dizendo-lhe que não enviara tudo que lhe prometera, não era por sua culpa, mas de Cilapulapu, o outro chefe, que não queria reconhecer a autoridade do rei de Espanha, mas que, se o capitão o queria socorrer na noite seguinte, apenas com uma chalupa com homens armados, comprometia-se a combater e subjugar completamente o seu rival. O capitão-general determinou ir em pessoa com três chalupas. Pedimo-lhes que não fosse ele próprio, mas respondeu-nos que, como bom pastor, nunca deveria abandonar o seu rebanho.”
A refrega fatal…’se lançaram sobre nós com horrível gritaria’

“Esperávamos pelo dia, e saltamos então em terra com água pelas coxas. As chalupas não podiam aproximar-se por causa dos recifes e bancos de areia. Éramos 49 no total, porque deixamos 11 de guarda às chalupas. Precisávamos de andar dentro de água um pedaço antes de atingirmos terra firme. Os insulares eram 1500, formados em três batalhões, que imediatamente se lançaram sobre nós com uma horrível gritaria. O nosso capitão dividiu seus homens em dois pelotões.”
‘Uma flecha envenenada atravessou a perna do capitão’

“Os mosqueteiros e os balistários atiraram de longe durante uma meia hora. Mas causaram pouco dano ao inimigo. Por outro lado, confiando na superioridade do número, atiravam-nos nuvens de lanças, de paus endurecidos ao fogo, de pedras, e até terra, sendo muito difícil defendermo-nos. Uma flecha envenenada atravessou a perna do capitão, que mandou logo retirar devagar e em ordem, mas a maior parte de nós fugiu precipitadamente, de maneira que ficaram apenas 7 ou 8 com o capitão.”

“Por duas vezes lhe derrubaram o capacete…”

“Como conheciam nosso capitão, principalmente contra ele dirigiam seus ataques, e por duas vezes lhe derrubaram o capacete. Durou o desigual combate quase uma hora. Por fim, um insular conseguiu ferir, com a ponta de uma lança, a testa do capitão, o qual, furioso, o atravessou com a sua espada, deixando-lha encravada no corpo. Quis então tirá-la, mas não o pode fazer por estar gravemente ferido no braço direito. Deram-se conta disso os indígenas e lançaram-se todos sobre ele; um deles, descarregando-lhe uma lançada na perna esquerda. Fê-lo cair de bruços, arrojando-se então sobre ele. Assim morreu o nosso guia, a nossa luz, e o nosso conforto.”



‘A morte de nosso guia’.Ilustração: www.timetoast.com.

A confiança de Magalhães
Pigafetta: “O rei podia ter-nos socorrido, mas o capitão-general, longe de prever o sucedido, quando pisou em terra com a sua gente ordenou-lhe que não saísse do balangué (tipo de barco) e que permanecesse como mero espectador, vendo como combatíamos. Chorou muito ao vê-lo sucumbir. Esta desgraçada batalha deu-se em 27 de abril de 1521.” Em seguida a esta batalha, ainda houve novas escaramuças em que mais tripulantes foram mortos. Mas a viagem tinha que continuar. Pigafetta: “Elegemos depois em seu lugar dois governadores: Duarte Barbosa, português, e João Serrão, espanhol.”

Livro terceiro – De Zubu até à saída das ilhas Molucas

“Deixamos a ilha de Zubu e ancoramos na ponta de uma ilha que chamam Bohol, a dezoito léguas de Zebu. Como as tripulações, dizimadas por tantas perdas, não era suficientes para os três navios, decidimos queimar um, a Concepción, depois de mudarmos ara os outros dois tudo o que nos podia ser útil.”

A fome atormenta de novo

Os dois navios restantes vieram pingando de ilha em ilha, mas sem nelas desembarcar. Até que…Pigafetta:”Chegamos a outra ilha, maior, que estava bem provida de toda a espécie de víveres, o que para nós foi uma fortuna, porque estávamos tão esfomeados que estivemos muitas vezes a ponto de abandonar os nossos navios e estabelecer-nos em qualquer terra, para nela terminarmos os nossos dias.”

Briga de galo no século 16

Depois de desembarcarem para recolherem víveres, Pigafetta explora a ilha e escreve admirado: “Têm também grandes galos domésticos, que, por uma espécie de superstição, não comem, mas ensinam-nos a combater entre eles, fazendo apostas, e ganhando prêmios os proprietários vencedores.”Fica aí, o registro, para aqueles que ainda acreditam no mito do ‘bom selvagem’.
Em Bornéo

Entre muitas outras ilhas, nossos heróis desembarcam em Bornéu, Pigafetta:” Dizem que o rei de Bornéu tem duas pérolas tão grandes como ovos de galinha e tão perfeitamente redondas que, colocadas sobre uma mesa lisa, nunca ficam em repouso.” A esta altura, uma das naus sobreviventes estava se desmantelando. Quem conta é Pigafetta: ” ao sairmos desta ilha voltamos atrás a procurar um lugar apropriado para carenar os navios (colocá-lo no seco para limpar e consertar o casco), pois um tinha uma grande entrada de água e o outro, por falta dose piloto, encalhara perto fr uma ilha chamada Bilalon (atual, Sampanmangio).” E completa, “levamos 42 dias neste serviço.”

Recepção a Magalhães em Bornéo.

Chegada nas ilhas Molucas

Sexta-feira, 8 do mês de novembro, três horas antes do por do sol, entramos no porto de uma ilha chamada Tadore (era uma das Molucas).”Mais uma vez desembarcaram e ficaram amigos do rei. Pigafetta descreve detalhadamente os costumes da corte, e os da população, suas casas, modo de viver, etc. Enquanto isso, faziam comercio trocando miudezas com as famosas especiarias como noz-moscada, cravo, gengibre, etc. É chegada a hora da partida: “O primeiro navio a desfraldar as velas foi a Victoria, que se fez ao largo onde esperou pela Trinidad. Mas este navio levantou âncora com muita dificuldade, e neste meio-tempo os marinheiros descobriram que tinha uma grande entrada de água no porão.”

O conserto da nau, e decisão de alguns de ficarem nas Molucas

Levou muito tempo mesmo com o rei local ajudando com mergulhadores, Pigafetta:” Estes homens mergulharam no mar com a cabeleira flutuante, porque supunham que a água, ao entrar pelo orifício, arrastaria os seus cabelos indicando-lhes a sua localização. Mas, depois de uma hora de procura subiram à superfície sem nada terem encontrado.” Pigafetta diz que por causa disso, voltou a ideia de carenarem o Trinidad, que rei ‘prometera ajudar com 250 carpinteiros.”

A decisão de ficar
Antes de partirem em definitivo, janeiro de 1552, mais mudanças que nosso escriba detalha; “Houve alguns de nós que preferiram ficar nas ilha Molucas em vez de retornarem a Espanha, já que receavam que o navio não resistisse a tão grande viagem.” Finalmente, aconteceu a partida:”Então os navios despediram-se com uma descarga recíproca de artilharia. Os nossos companheiros seguiram-nos na chalupa tão longe quanto puderam, e por fim separamo-nos chorando. João carvalho ficou em adore com 53 europeus. A nossa tripulação era de 47 europeus e 13 indígenas.”

Fernão de Magalhães e os encontros com os gentios.

Livro quarto – Regresso a Espanha desde as ilhas Molucas

Pigafetta segue descrevendo as ilhas pelas quais passaram. Numa delas, ficaram por 15 dias para nova carenagem na Victoria. Estiveram em Timor onde mais uma vez desembarcaram. Na saída, mais algumas baixas. Tripulantes cansados da saga decidiram por lá ficar. Pigafetta: “terça- feira 11 de fevereiro, à noite deixamos Timor e entramos no grande mar chamado Laut- Chidol (o mar do Sul).” Neste ponto houve mais uma decisão de gênio, que Pigafetta não atribuí a Juan Sebastian Elcano, espanhol, que assumiu o comando. Como sabiam que os portugueses costeavam a Índia e a costa africana, eles desceram para o Sul, para não encontrá-los, em mais uma rota totalmente nova e desconhecida. “Rumamos a oeste- sudoeste, deixando ao norte, à direita com medo dos portugueses.”

No Cabo da Boa Esperança

“Para dobrar o cabo da Boa Esperança subimos até 42º de latitude sul, e tivemos que permanecer 9 semanas frente a este cabo com as velas colhidas, devido aos ventos de oeste (contrários) e do noroeste que tivemos constantemente e que acabam numa terrível tempestade. Finalmente, com ajuda de Deus, dobramos o terrível cabo a 6 de Maio, mas tivemos que nos aproximar dele a uma distância de 5 léguas, sem o que nunca o teríamos passado. Navegamos depois em direção noroeste durante dois meses inteiros sem descaso. Neste intervalo perdemos 21 homens entre cristãos e indígenas.”

Mais mortes e uma descoberta ‘curiosa’
“Fizemos uma observação curiosa: ao lançamento-los no mar, os cadáveres dos cristãos ficavam sempre com a cara voltada para o céu e o dos indígenas com o rosto mergulhado no mar.”

Ilhas de Cabo Verde

“Carecíamos completamente de víveres, e, se o céu nos não houvesse concedido tempo favorável, teríamos morrido todos de fome. Quarta-feira, 9 de julho, avistamos as ilhas de cabo Verde e ancoramos na chamada de Santiago.” A tripulação desembarca atrás de víveres, mas nem bem conseguiram alguns tiveram que abortar e voltar à navegação. Portugueses descobriram quem eles eram…

O retorno depois de três anos

“Graças à Providência, no sábado, 6 de setembro, entramos na baía de Sanlucar, e, de 60 homens que se compunha a tripulação quando saímos das ilhas Molucas, não restavam mais que 18, na maior pate doentes. Dos demais, uns ficaram na ilha de Timor, outros foram condenados à morte por crimes e, enfim, outros morreram de fome. Desde a nossa saída da baía de Sanlucar até o nosso regresso calculamos ter percorrido mais de 14.460 léguas, dando a volta completa ao mundo, navegando sempre de Leste para Oeste.”



Fernão de Magalhães e a nau Victoria. Ilustração: HULTON ARCHIVE/GETTY IMAGES.

Em Sevilha

Terça-feira, 8 de setembro, ancoramos junto ao molhe de Sevilha e disparamos toda a artilharia.


Porto de Sevilha em 1590, por Alonso Sanchez Coello.

Terca -feira, saltamos todos em terra, em camisa e descalços, com um círio na mão, e fomos à Igreja de Nossa Senhora da Vitória e à da Santa Maria de Antígua, como havíamos prometido fazer nos momentos de angústia. Regressei, enfim, a Itália onde me consagrei para sempre ao excelentíssimo senhor Filipe Villiers de L’Isle- Adam, grão-mestre de Rodes, a quem também entreguei o relato da minha viagem.

O CAVALEIRO ANTONIO PIGAFFETA
(Nosso escriba não fala, mas quem assumiu o comando da Victoria foi Juan Sebastian Elcano. Por isso, em muitas fontes atribui-se a viagem a Magalhães – Elcano)

Fonte: Fernão de Magalhães – A Primeira Viagem À Volta Do Mundo, contada pelos que nela participaram, editora Publicações Europa-América

(Do https://marsemfim.com.br/)



OLHAR DO TASSO CLAUDIO SCHERER

Foto Tasso Claudio Scherer 

segunda-feira, 4 de março de 2019

MAR DO PAULO GOETH

Foto Paulo Goeth


SEM CAMARÃO



Período de defeso do camarão começou!
Para aqueles que forem flagrados desrespeitando a proibição, as penalidades previstas vão desde multa a detenção, além de apreensão dos petrechos de pesca (conforme a Lei n° 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, e o Decreto nº 6.514, de 22 de julho de 2008).

domingo, 3 de março de 2019

DE MULHERES, NUDISMO & COBRAS!

Imagem relacionada
Luz Del Fuego, a dançarina e atriz que é pioneira do nudismo na América Latina completaria 100 anos e alem do nudismo, foi a primeira mulher a posar com uma " cobra " na mão ao vivo. 

Salve Luz del Fuego!!!

Dora Vivacqua (Cachoeiro de Itapemirim, 21 de fevereiro de 1917 — Rio de Janeiro, 19 de julho de 1967), mais conhecida pelo nome artísticoLuz del Fuego, foi uma dançarina, naturista, atriz, escritora e feminista brasileira. Destacou-se como pioneira na implementação do naturismo no Brasil entre os anos 1940 e 1950, tendo sido a fundadora do primeiro reduto naturista da América Latina e a primeira nudista brasileira. É também reconhecida por sua contribuição na luta pela emancipação das mulheres.

Nascida no Espírito Santo, Dora pertencia a uma família de intelectuais e políticos, que realizava em sua residência reuniões literárias com a presença de relevantes personalidades do modernismo brasileiro, em Belo Horizonte, onde se estabeleceu em 1920. Bacharelada em Ciências e Letras, optou por seguir a carreira artística em meados de 1942. Amestrou serpentes e, dois anos mais tarde, estreou nos teatros de revista do Rio de Janeiro sob o pseudônimo Luz del Fuego, com espetáculos de dança em que aparecia com um casal de ofídios enrolado em seu corpo quase sempre nu. As apresentações da moça logo provocaram furor por todo o país e transformaram-na em uma das principais atrações do teatro nacional. Embora repudiada pelos mais conservadores, que a consideravam "uma ameaça aos bons costumes", Luz del Fuego atraía enorme público para os seus espetáculos e tornou-se uma das vedetes mais conhecidas dos anos 1950 no Brasil, tendo sido contratada, inclusive, para excursionar pelo exterior.

Por suas apresentações enfrentou forte repressão das autoridades em algumas cidades, sendo, em várias delas, expulsa ou impedida de entrar. No final dos anos 1940, começou a expor os seus ideais existencialistas, naturistas, em defesa dos direitos da mulher e da liberdade de expressão, e em combate aos preconceitos sociais. Escreveu dois livros, em um dos quais lançava a teorização do movimento naturista brasileiro e, como resultado, viu-o ser banido das livrarias. Tentou candidatar-se a deputada federal com um partido político por ela fundado, mas impedido de ser registrado, e aventurou-se esporadicamente em algumas produções cinematográficas ao longo dos anos 1950. Por meio de uma autorização que recebeu da Marinha do Brasil, foi viver em uma ilha por ela rebatizada de Ilha do Sol, onde fundou o Clube Naturalista Brasileiro.

Apesar da popularidade de seus espetáculos, a artista sofreu dificuldades financeiras em seus últimos anos de vida. Luz del Fuego foi assassinada, juntamente com o seu caseiro, por dois pescadores na Ilha do Sol, em 19 de julho de 1967. Seus corpos foram lançados ao mar, mas recuperados em 2 de agosto. Sua história foi tema do documentário A Nativa Solitária, de 1954, recuperado pelo Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES), de cujo acervo faz parte, bem como de um filme que leva o seu nome lançado em 1982. Em 2010, Luz del Fuego foi incluída na lista "Musas que fizeram a história do Rio", elaborada pelo portal G1.
(Da https://pt.wikipedia.org/wiki/Luz_del_Fuego)



MAR DO TASSO CLAUDIO SCHERER

Foto Tasso Claudio Scherer

MARISCOS GRATINADOS




Ingredientes:
• 2 dúzias (aproximadamente 1 kg) de mariscos em concha, bem lavadas 
• 300 g de manteiga 
• 4 dentes de alho picado bem picados 
• Salsinha picada 
• 1 colhar cheia de farinha de rosca 
• 1/2 cálice de conhaque 
• Sal e pimenta-do-reino a gosto 
• Sal grosso (1 a 2 kg, para forrar a forma) 

• PREPARE OS MARISCOS ASSIM: 
• Em uma panela grande, coloque aproximadamente um dedo de água e leve ao fogo forte; 
• Quando estiver bem quente, coloque os mariscos crus e tampe a panela, deixando cozinhar no vapor por 3 a 4 minutos (os mariscos estarão cozidos quando as conchas estiverem abertas); 
• Retire a carne dos mariscos e depois lave as conchas com água corrente, pois serão usadas na montagem do prato. 

• • PREPARE A MASSA PARA GRATINAR ASSIM: 
• Misture bem os ingredientes e vá apurando o gosto de sal e pimenta; •Acrescente o conhaque e continue mexendo até ficar uma massa uniforme; 
• Pré-aqueça o forno a 250 graus; 
• Enquanto isso, pegue uma forma e forre o fundo com uma boa camada de sal grosso, formando um leito que irá acomodar as conchas; 
• Recoloque um ou dois mariscos sobre as conchas e cubra tudo com uma camada generosa da massa de manteiga; 
• Passe um pouco de farinha de rosca sobre as conchas e acomode-as sobre o leito de sal grosso; 
• Leve ao forno para gratinar por 10 minutos, aproximadamente; 
 • Sirva ainda quentes.

MAR DE PESCADOR



Nova portaria do MAPA ignora decisão judicial favorável aos pescadores e pescadoras artesanais

DPU entrou com petição informando à Justiça a publicação da nova portaria e o descumprimento de decisão judicial.

Por Assessoria Jurídica e Assessoria de Comunicação do CPP
pescadores 

A Portaria nº 24 tem o mesmo conteúdo da Portaria nº 2546-SEI, publicada em 29 de dezembro de 2017, que considerou válidos os registros suspensos ou ainda não analisados e reconhecidos os protocolos de solicitação de registro como documentos válidos para o pleno exercício da atividade de pesca. Ocorre que a Portaria estabeleceu que as regras não se aplicavam para fins de requerimento do benefício do seguro-defeso. E ainda determinou um marco temporal, considerando válidos somente os protocolos expedidos a partir de 2014.

O Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais (MPP) tem denunciado que desde 2012 o governo não emite novas carteiras. Milhares de pescadores têm sido prejudicados no exercício da pesca e no acesso a benefícios previdenciários, por não conseguirem o cadastramento no Registro Geral de Atividade Pesqueira (RGP), apesar de cumprirem todos os requisitos.

No dia 23 de julho de 2018, por meio de uma decisão que tem validade em todo território nacional, a Juíza Federal Substituta da 9ª Vara Federal do Distrito Federal deferiu tutela de urgência em Ação Civil Pública ajuizada pela Defensoria Pública da União (DPU) derrubando os efeitos da Portaria nº 2546-SEI.

Com a edição da Portaria nº 24, o MAPA está descumprindo a decisão judicial, já que a portaria tem o mesmo conteúdo da anterior (2546-SEI). Após a publicação da nova portaria, a DPU entrou com uma petição na Justiça Federal, no dia 27 de fevereiro, informando à justiça sobre a nova portaria, que descumpre a decisão judicial de julho de 2018 e pedindo que os efeitos da decisão judicial anterior sejam estendidos à nova portaria.

“A DPU já levou ao conhecimento da juíza federal vinculada a ação civil pública a edição da referida portaria publicada pelo MAPA e sustentou que tal ato administrativo acarreta o descumprimento da decisão judicial por meio da qual foi deferida a tutela de urgência em prol dos pescadores artesanais", explica o defensor regional de direitos humanos (DRDH) no Distrito Federal, Alexandre Mendes Lima de Oliveira, responsável pela petição da Ação Civil Pública.

O defensor defende que a decisão judicial de julho de 2018 ainda mantém os efeitos, mas explica que é importante a confirmação da justiça para que não haja incertezas. "Entendemos que a decisão judicial continua plenamente válida, mas é salutar novo provimento judicial afastando os efeitos dessa nova portaria para que não paire qualquer dúvida, podendo a magistrada inclusive cominar sanções pecuniárias ao INSS e a União em caso de novo descumprimento da decisão. Aguardamos novo pronunciamento judicial”, afirma Oliveira.

http://cppnacional.org.br/

EMPROADA

Olhar e clique do Tasso Claudio Scherer

sábado, 2 de março de 2019

NUNCA

LADRÕES DE OSTRAS


A maricultura vem sofrendo com roubos de produção ao longo dos anos.

O maricultor enfrenta as adversidades do tempo, sol, chuva, frio, vento... tudo para fazer o manejo correto e ter produto padronizado para vender. Ver que o fruto de seu árduo trabalho foi roubado a noite ou por pessoas que se dizem pescadoras que vão até a área de cultivo saquear produtos que estão dentro das lanternas causa indignação e revolta.

Pedimos aos que realmente são pescadores que antes de entrarem em uma área de cultivo, procurem o cessionário ( maricultor responsável pela area) e solicite autorização para pescar na área, mesmo que seja amigo, vizinho ou parente.

sexta-feira, 1 de março de 2019

MAR DE POETA


Amar
sem ser amado
é pra poucos...
Poetas
cães
e loucos


MAR DE ILHAS


Paranaenses pedem proteção da Ilha do Mel e condenam construção de agressivo complexo industrial no litoral do estado

Em busca de mais informações, clareza e transparência na proposta apoiada pelo governo do Paraná, que prevê a construção de um porto privado em frente à Ilha do Mel, no litoral do Estado, no município de Pontal do Paraná, e de uma rodovia que, só para ser feita, derrubaria cinco milhões de metros quadrados de Mata Atlântica em bom estado de conservação, mais de 20 organizações que trabalham pela conservação da biodiversidade e instituições de pesquisa se uniram e criaram a campanha #SalveAIlhaDoMel.

O movimento busca estimular a população a exigir, por meio do site da campanha, esclarecimentos do poder público sobre o modo duvidoso e antidemocrático com que a viabilização de um gigantesco complexo industrial em Pontal vem sendo defendida. Até agora, mais de 210 mil e-mails já foram enviados pela sociedade.

Entre os apoiadores da causa, então nomes como SOS Mata Atlântica, Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), Observatório de Justiça e Conservação (OJC) e até a norte-americana, Sea Shepherd. A instituição é mundialmente conhecida pelos confrontos que trava contra navios noruegueses e japoneses caçadores de baleias e golfinhos nas águas geladas do Oceano Ártico. Uniu-se ao grupo, por entender o grande impacto dessas propostas que, até agora, não foram devidamente debatidas com a sociedade.

No site da campanha, um vídeo também denuncia a manobra, conduzida por representantes do governo do Paraná, para aprovar a licença de construção da chamada “Faixa de Infraestrutura” – que inclui a nova rodovia e um canal de dragagem.

A manipulação desconsiderou um pedido de vista feito por membros do Conselho de Desenvolvimento Territorial do Litoral Paranaense (COLIT), entre eles, um representante da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Eles pediam vista defendendo que mais de 100 questionamentos da sociedade civil sobre os impactos sociais e ambientais causados pelas obras ainda não haviam sido respondidos. Por ser um direito previsto no regimento interno do COLIT, o pedido chegou a ser aceito, mas pouco tempo depois, acabou cassado de modo opressor e ilegal.
Danos socioambientais incalculáveis

Do modo como estão sendo propostas, as obras gerariam prejuízos incalculáveis e irreversíveis à região. Mais de 170 danos socioambientais foram listados pelos Estudos de Impacto Ambiental (EIAs) feitos para a construção do porto e da Faixa de Infraestrutura, entre eles, a diminuição da qualidade de vida da população, a inibição de novos investimentos em turismo devido às atividades portuárias, redução da disponibilidade de água subterrânea de boa qualidade, contaminação dos recursos pesqueiros, maior ocorrência de problemas de saúde, aumento da criminalidade e até, do trabalho e da prostituição infantil.

A piora das condições de trafegabilidade na região em função do maior número de caminhões é outro dano reconhecido pelas análises. Na operação do novo porto, milhares de contêineres precisariam ser transportados e, para cada contêiner, seria necessário um caminhão. No próprio relatório técnico, estima-se a previsão de 138.240 viagens de caminhões por ano ou, aproximadamente, 388 por dia. Um volume elevadíssimo de carga pesada para uma estrada de pista simples e que também teria a prometida função de atender a veranistas e pontalenses.

“A estrada está sendo vendida à população como a solução para os congestionamentos que predominam na PR-412, que dá acesso a Pontal do Paraná. O que não está sendo considerado, no entanto, é que a nova rodovia proposta seria de pista simples, como a PR-412, e sua construção tem como maior objetivo avalizar, como condicionante dos órgãos ambientais, o licenciamento do porto privado e do conjunto de outras empresas ligadas ao pré-sal”, lembra o diretor do Observatório de Justiça e Conservação, Giem Guimarães. “Certamente, haverá ainda mais trânsito e congestionamentos caminhões de carga para a população local enfrentar”, completa.

Só a construção da Faixa de Infraestrutura vai ter custo de R$ 369 milhões. Depois, seriam feitos, ainda, um gasoduto, uma ferrovia e uma linha de transmissão de energia. Fala-se até da possível instalação de uma termelétrica no local. Toda essa estrutura para atender ao novo porto privado, construído muito próximo do porto estadual de Paranaguá, onde existem condições amplas de expansão e melhor aproveitamento de sua capacidade logística.

A localização pretendida para o porto é em frente – mais especificamente a 3 km – da Ilha do Mel, o segundo local turístico mais visitado no Paraná, atrás apenas do Parque Nacional do Iguaçu, e um “Patrimônio da Humanidade” reconhecido pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). O mesmo título também já foi concedido pela organização a Fernando de Noronha, um dos destinos mais procurados e valorizados do Brasil. Com a proximidade da Ilha e diante dos prejuízos ambientais gerados ao entorno, haveria risco de a perda do reconhecimento por parte da UNESCO ocorrer.

Ilha do Mel: um paraíso natural sob ameaça
Interesses individuais e históricos “manchados”

A empresa acionista-majoritária da construção do porto é o Grupo JCR, do empresário João Carlos Ribeiro. Ele também é dono de outras corporações e atua no ramo imobiliário na região há décadas. Empresas como Techint, a construtora Odebrecht, a Melport Terminais Marítimos (controlada da Cattalini) e a Subsea 7 também têm interesses diretos na viabilização do complexo industrial.

Além de estarem envolvidas em sérias denúncias de corrupção – a exemplo da Odebrecht – corporações como a Cattalini carregam um histórico nada positivo na região. O navio Vicuña, que explodiu três vezes e afundou em 15 de novembro de 2004, causando pânico na população, danos a residências próximas, sérios prejuízos financeiros a pescadores e a morte trágica de incontáveis animais, era da Cattalini.

O acidente foi causado durante a operação de descarga de onze mil toneladas de metanol. Camila Domit, bióloga e pesquisadora da UFPR, trabalhou no resgate da fauna depois da explosão recorda o drama do que viu. “Muitas tartarugas e mamíferos foram encontrados já mortos e encalhados nas praias com óleo na parte interna da boca e orifício respiratório, no caso dos golfinhos. Também achamos muitas aves com os corpos tomados de óleo e peixes agonizando, com óleo nas brânquias. Foi uma das situações mais tristes que já vivemos”.

Após o incidente, dúvidas sobre o cumprimento efetivo das indenizações e compensações que a Catallini foi obrigada a fazer ainda permanecem e os prejuízos da explosão do navio à biodiversidade e à sociedade são tão grandes, que se tornam impossíveis calcular. “A chegada de mais um porto na região, com novos e maiores navios, é inegável, aumenta significativamente a chance de que tragédias parecidas com aquela voltarem a ocorrer”, lembra Camila.

De tão grandes, são impossíveis de calcular os prejuízos causados pela explosão do Vicuña em 2004. Até hoje, a efetividade das compensações ambientais que foram feitas gera muitas dúvidas.
Prejuízos às comunidades tradicionais e interesses estrangeiros

As obras expulsariam comunidades tradicionais que ocupam a região há séculos. No contato com elas, são comuns relatos de ameaças de grileiros e funcionários dos maiores interessados na viabilização das obras para que deixem o lugar onde vivem. Com os prejuízos que vai gerar à fauna marinha, o complexo industrial também comprometeria até mesmo a pesca artesanal, de subsistência.

Outra possibilidade que precisa ser levada em conta é a chance real de, depois de finalizado, o Porto Pontal ser vendido a corporações estrangeiras. Os chineses, por exemplo, há anos já viram no litoral do Paraná oportunidades de lucro fácil. A gigante CMPORT, por exemplo, uma das maiores operadoras de terminais de contêineres do mundo, é grande interessada na compra de portos no Estado.

De acordo com Glavio Leal Paura, professor da Universidade Positivo (UP) e especialista em trânsito, logística de estradas e planejamento de cidades, é contraditório e questionável que “um projeto que acumula incoerências relativas a questões básicas de engenharia de trânsito e logística vá adiante”.

“O inchaço populacional, os impactos ambientais e a utilização além da conta da infraestrutura local provocados pelo porto também trariam desvalorização imobiliária para muitos proprietários, além do aumento da criminalidade, como, infelizmente, ainda ocorre na vizinha Paranaguá”, explica.

Para o diretor-executivo da SPVS, Clóvis Borges é fundamental alertar a sociedade para que faça resistência à proposta de construção desse complexo industrial no litoral do Paraná, que pretende ser aprovado às pressas, sem considerar a opinião da sociedade.

Para ele, permitir que esses empreendimentos sejam viabilizados é ser conivente com verdadeiros crimes contra a sociedade e a natureza. “Não podemos consentir com a destruição de um patrimônio natural com características tão únicas, assistindo sem reação a perda de ambientes naturais protegidos por lei e colocando em risco espécies raras. É preciso fazer frente a propostas abusivas e exigir investimentos sérios e planejados em turismo para a região”, defende.

“Infelizmente, a história revela, não são incomuns tentativas que envolvem alternativas abusivas de empreendimentos de alto impacto social e ambiental sejam expostas como a salvação para todos os problemas”, conclui.
Intenções suspensas voltaram a receber autorização

A licença prévia e o licenciamento ambiental da Faixa de Infraestrutura estavam suspensos até o dia 12 de fevereiro, quando, após solicitação do Governo do Paraná, o ministro João Otávio de Noronha, do Superior Tribunal de Justiça (STJ) derrubou a liminar que suspendia o licenciamento concedido pelo Instituto Ambiental do Paraná (IAP) para a construção da Faixa de Infraestrutura, em Pontal do Paraná.

Em novembro de 2018, o desembargador Cândido Alfredo Leal Júnior, do Tribunal Regional Federal da 4ª região (TRF4), havia concordado com os argumentos do Ministério Público do Paraná (MP-PR) – que apontava diversas nulidades no caso – e suspendido a concessão para a licença e a abertura dos licenciamentos. Isso para “evitar a ocorrência de danos ambientais e prejuízos às comunidades envolvidas (inclusive indígenas) e ao erário”, que se refere às finanças públicas.

A decisão do dia 12 foi mais uma amostra de que a opinião da sociedade não está sendo considerada no processo. Mais de 210 mil e-mails já foram enviados pela população ao poder público, que não retornou com mensagens de consideração. Mas continua a responder com condições como essa.

O que a campanha #SalveAIlhaDoMel pretende é reforçar a ideia de que a sociedade não pode permitir que interesses individuais predominem sobre os coletivos, nem aceitar discursos de “ganância disfarçada de desenvolvimento”.

Para entender melhor a polêmica e enviar um e-mail a representantes do Governo do Paraná sobre o abuso que representa a situação, acesse aqui.
Venda de produtos em apoio à defesa da Ilha do Mel

A campanha #SalveAIlhaDoMel lançou, em dezembro de 2018, uma linha de camisetas e ecobags para dar fôlego às ações e incremento de recursos a novos trabalhos conduzidos pelo movimento – na área jurídica, de comunicação e parcerias estratégicas, por exemplo -, que busca conscientizar a opinião pública sobre os riscos e prejuízos que seriam causados ao litoral do Paraná, caso o complexo industrial portuário se instale em Pontal.

São camisetas e Ecobags com duas opções de ilustrações diferentes, disponíveis em algodão cru (produzidas com mínimo impacto ambiental) ou pretas. Elas são feitas com algodão orgânico e 100% certificado.

Toda renda obtida com a venda dos produtos será dedicada ao apoio de novas ações favoráveis à conservação e proteção dos patrimônios natural e cultural, tremendamente ameaçados pela possibilidade de construção do complexo. Parte dos recursos também vai ser destinada a ações em benefício da comunidade e de crianças da Ilha.

A expectativa da campanha é de que televisores, projetores e outras necessidades das escolas locais possam ser atendidas com esses recursos. As opções podem ser conhecidas no site da campanha.

Os produtos já podem ser encontrados em Pontal do Paraná, na loja FOLKS, em Nova Brasília, nas lojas, BeeHouse, Pousadinha, Pousada das Meninas, Pousada das Gêmeas, Pousada Treze Luas e no Canto da Vó Maria e, na Encantadas, na Pousada Fim da Trilha. 

Imagens: divulgação campanha #SalveAIlhaDoMel

(Dohttp://conexaoplaneta.com.br/)