terça-feira, 14 de novembro de 2017

MAR DÁ, MAR TIRA!

Tr
Praia do Matadeiro, em Florianópolis, em outubro deste ano
Foto: Marco Favero / Diário Catarinense

Três fatores explicam avanço do mar no litoral catarinense

Oceanógrafos e engenheiros marinhos afirmam que a sobreposição de três fenômenos naturais por um período prolongado ajudam a explicar o avanço do mar sobre as praias de Santa Catarina. Nessa equação, há influência da maré astronômica, que é o resultado da força gravitacional do Sol e da Lua e do movimento orbital da Terra; da maré meteorológica, com ventos no oceano, que podem contribuir para o empilhamento ou a retirada de água da costa; e das fortes ondulações vindas do Leste, que potencializam o impacto das ondas na orla.

Como consequência, nas praias de orientação noroeste-sudeste (como em Ingleses, em Florianópolis, ou na Prainha, em São Francisco do Sul), as ondas que vêm do leste “retiram” o pacote sedimentar da praia, levando-o como um cordão arenoso para a parte submersa e formando bancos de areia. Já nos balneários de orientação Norte-Sul (como o Caldeirão do Morro das Pedras, em Florianópolis, ou Mariscal, em Bombinhas), há um maior transporte de sedimentos para o sul da orla.

– Por que levanto essa hipótese? Eu corro na Armação e percebi o agravamento do problema no Caldeirão. Quando eu chegava lá na ponta sul, via os galhos todos lá e que a faixa de areia está bem gordinha ali. Também tem erosão na parte norte do Matadeiro, mas na Armação não tem. Ou seja, o sedimento está se acumulando naquela área – afirma Felipe Pimenta, oceanógrafo da UFSC.
Entre os nativos e pescadores experientes, corre a teoria de que esses eventos mais extremos costumam ocorrer a cada sete anos. Luiz Eduardo Machado, diretor da Defesa Civil de Florianópolis, lembra fenômenos recentes que reforçam essa tese e faz um alerta para os próximos anos:
– Em 2003, 2010 e agora em 2017 presenciamos esses fenômenos. Então, é bem provável que vamos ter outro em 2024, o que é bastante preocupante. Precisamos começar a nos planejar, desde o morador até os empresários e donos de hotéis, não esperando apenas que o poder público tome a frente. No próximo ciclo, a probabilidade de danos é maior do que agora.
Praia do Matadeiro em 2015Foto: Google Street View / Google

Caminhos para a recomposição

A recuperação natural das praias é lenta e nem sempre volta ao que era antes. Além disso, as construções nas orlas agravam a erosão costeira e podem permanecer ameaçadas. Entre as possíveis soluções para o problema, duas ações se destacam: o enrocamento de pedras para conter danos à infraestrutura pública e o engordamento artificial da faixa de areia para recuperar a balneabilidade da orla.

– Com o passar do tempo, as praias podem se recuperar, mas isso não quer dizer que os órgãos responsáveis pela infraestrutura estão isentos de planejamento urbano e de cálculos de obras costeiras que protegem a orla – explica Felipe Pimenta, da UFSC.

Algumas das medidas são de relativa facilidade de execução e já foram tomadas pelas prefeituras, como o enrocamento de pedras no Caldeirão do Morro das Pedras, em Florianópolis, para preservar a rodovia SC-406. Já o engordamento da faixa de areia é uma ação mais complexa, que requer investimentos e estudos técnicos.

– É preciso iniciar um projeto conceitual, com estudo das ondas e da incidência na costa, além de encontrar uma areia com granulometria compatível com a nativa da praia. Depois que a obra está pronta, o turismo gera mais recurso do que o valor que foi gasto – diz Rodrigo Barletta, gerente de projetos de uma multinacional de consultoria em engenharia costeira.

No início de novembro, Barletta esteve nos EUA, onde participou de uma conferência sobre gerenciamento de proteção costeira e combate à erosão marinha. De lá, traz o exemplo de Miami e todo Estado da Flórida, onde as praias também sofrem com o constante avanço do mar.

– Desde 1900 eles trabalham nisso. A cada quatro anos, em média, algumas praias são “engordadas” e há um trabalho constante de manutenção. Tem toda uma política de recursos e gerenciamento baseada em normas técnicas.

Em Santa Catarina, a prefeitura de Balneário Camboriú lançou um anteprojeto para o engordamento da Praia Central de 2 a 3 milhões de metros cúbicos de areia, quantidade suficiente para aumentar a orla de 25 para 70 metros, ao custo estimado de R$ 110 milhões. Em Florianópolis, um cálculo preliminar para o aumento da praia de Canasvieiras de 10 para 30 metros aponta um custo de, pelo menos, R$ 30 milhões.

– O que se perde de dinheiro movimentado pelo turismo é muito maior do que aquele investido no engordamento das praias. Tem uma discussão muito grande sobre até que ponto o governo e o cidadão têm que pagar por isso, porque muitas vezes o ganho econômico é localizado. Nada mais natural, e isso ocorre nos países desenvolvidos, que aquelas instituições que se beneficiam daquela parte da praia paguem um imposto a mais ou colaborem com a obra – sugere Pimenta.

O secretário Leonel Pavan esteve recentemente em Alicante, na Espanha, onde viu de perto o resultado do engordamento de uma praia. Apesar de reconhecer os benefícios para os empresários do ramo de turismo, ele acredita que seria uma “aberração cobrar do setor privado”.

– (Os municípios) têm que investir do próprio bolso, porque o retorno vem nos impostos. O engordamento tem que ser feito não só em Balneário Camboriú, mas também em Piçarras, Penha, Navegantes... Precisamos adensar, construir marinas e restaurantes. Danem-se as críticas. Essa visão de alguns ecologistas, salvadores do mundo, é ruim para nós – afirma Pavan.

Pimenta, da UFSC, alerta que esse tipo de projeto precisa ser assessorado por pessoas com formação devida para calcular reestruturas no mar, como oceanógrafos ou engenheiros costeiros:

– Para lembrar de um acidente em que não houve esse envolvimento, temos aquela passarela no Rio de Janeiro, onde as ondas destruíram a ciclovia suspensa.

Expectativa pela temporada

Às vésperas de mais uma temporada de verão, diversas praias atingidas pelo avanço do mar continuam em situação de emergência. Em alguns casos, os decretos das prefeituras municipais já foram homologados pelo Estado e reconhecidos pela União, como em Florianópolis. Os recursos para as obras emergenciais na Capital foram liberados essa semana.

Com prazo de recuperação das praias para 15 de dezembro, uma semana antes do período de maior movimento de visitantes, o trade turístico de Santa Catarina está cauteloso quanto ao prejuízo causado pelas notícias que circulam no Brasil e no exterior.

– Tivemos praias bastante prejudicadas, fiquei impressionado com as imagens que vi. Sabemos da situação financeira restritiva, por isso dificilmente a recuperação será feita completamente até a temporada e vai ficar por conta da própria natureza – comenta Raphael Dabdab, presidente estadual da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel).

De fato, a perspectiva é de que as praias não se recuperem naturalmente até o início da temporada. De acordo com o diretor da Defesa Civil de Florianópolis, Luiz Eduardo Machado, não se pode esperar que a reposição natural de sedimentos aconteça em menos de 60 dias. O trabalho, agora, é fazer a remoção dos escombros e deixar a orla o mais aproveitável possível:

– A limpeza dos escombros será feita assim que o mar recuar, com as equipes da prefeitura. Neste mês, vamos entrar nas praias para promover ao turista a melhor faixa de areia possível, mas é lógico que haverá mudanças no uso das orlas. 

Como apontam climatologistas e oceanógrafos, esses fenômenos extremos irão se tornar mais comuns. Atualmente, Santa Catarina ainda sofre relativamente pouco com o avanço do mar em comparação aos países asiáticos, como Indonésia e Japão (atingidos por tsunamis em 2004 e 2011, respectivamente), ou aos países caribenhos (atingidos por três furacões somente neste ano), mas, segundo o oceanógrafo Felipe Pimenta, é preciso ligar o sinal de alerta especialmente no que diz respeito à relação entre o homem e a natureza:

– A pior influência antrópica é a ocupação desordenada da zona costeira. As regiões de dunas, que absorvem a energia das ondas, têm muitas construções. O maior planejamento do governo, junto à fiscalização do poder público, é sanar esse problema. São questões que envolvem geografia, oceanografia, engenharia, planejamento urbano... Temos que começar a planejar melhor nossas cidades.
Foto: Arte DC

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

INVADIDO E DESTRUIDO

Praia do Caldeirão, Outubro de 2017 (FOTO: Marco Favero, Diário Catarinense)

Litoral de Santa Catarina e erosão provocada por mau uso

Por João Lara Mesquita 11 de novembro de 2017 
O mau uso do litoral de Santa Catarina, e de quase todos estados costeiros, provoca grande destruição
As pessoas querem ‘vista para mar’ seja a qual for o custo. Está no imaginário do brasileiro. Aquele mesmo que deu acostas para o mar há gerações. Não se incomoda, não tem desconfiômetro; ignorantes, não sabem que 90% da cadeia de vida marinha começa justamente onde constróem: praias, dunas, restingas e até costões. Um dia a fatura chega. É sempre assim. Mas ninguém aprende a lição. Continuam edificando onde não pode (por Lei), ou onde não se deve (pelo simples bom senso). Por isso o litoral de Santa Catarina e erosão.

Com esse gosto perverso de parte dos ‘ricos’, a especulação imobiliária explode. Ciente disso, as incorporadoras põem seus tratores nas praias. E arrasam a linda paisagem secular para erguer em seu lugar condomínios gigantes, filas de ‘paliteiros de concreto armado’; ‘Resorts’, se possível com nome estrangeiro, e em estilo neo- clássico, também. Eles pipocam nas praias nordestinas. Por que? Porque as pessoas compram. Já a paisagem? A vida marinha? E a total falta de infraestrutra (leia-se coleta e tratamento de esgotos)? Ora, que se dane! O que importa é ‘vista por mar.’ Disso, pouca gente abre mão…

Litoral de Santa Catarina e erosão: situação de emergência em seis municípios

“Desde o início do inverno, as águas avançaram com força sobre as praias catarinenses, arrancando estruturas de concreto, contorcendo vergalhões de ferro, derrubando construções de tijolos. Uma destruição implacável que já levou seis municípios do Estado a decretar situação de emergência.” Assim o dc.clicrbs.com.br, de novembro de 2017, abriu sua matéria.
O que aconteceu este ano?

Nada que não tenha acontecido antes, como uma combinação de fenômenos naturais que provocam ressacas, das bravas, em vários pontos do litoral de Santa Cataria, e consequente erosão, assustando pessoas desavisadas.
As praias de Santa Catarina e a ocupação desordenada

Algumas das mais afetadas foram o Matadeiro, em Florianópolis, o Ervino, São Francisco do Sul, ou o Balneário Cambiju, em Itapoá e praia dos Ingleses, na Capital, onde 2/3 da areia foi-se. A praia do Caldeirão também sumiu…

Hoje todas as citadas têm poucos metros de areia. E, mais uma vez, ocupação desordenada não é exclusividade do litoral de Santa Catarina. Até que aconteça uma recomposição natural vai custar de dois a três anos, dizem especialistas.
Praia dos Ingleses, Out. 17 (FOTO: Marco Favero, Diário Catarinense)

Os prejuízos em Florianópolis: R$ 4 milhões, em Navegantes, R$ 1,4 mi

Florianópolis foi dos que decretou estado de emergência, ao lado de Navegantes (prejuízo de R$ 1,4 milhões, segundo G1). Já para o dc.clicrbs.com.br, “os prejuízos causados pela ressaca que atingiu praias de Florianópolis nas últimas semanas foram estimados em R$ 4 milhões. O levantamento feito pela Defesa Civil do município e pela Secretaria de Infraestrutura.” Em Itapoá, a ressaca do mar causou erosão em vários pontos da orla, acumulou lixo e inundou a via pública, disse a defesa civil.

Praia dos Morro e das Pedras. Litoral de Santa Catarina e erosão. (Foto: Odemar Andrade/NSC TV)
Exemplos de ocupação desordenada em praias no Sul, Sudeste, Nordeste e região Norte

Guarujá, a ex- pérola do Atlântico, em São Paulo.
Querem vista pro mar? Bora lá, destruir a paisagem. Obra das incorporadoras, em Guarujá, SP.

Ou a aberração conhecida como Balneário Camboriú, no próprio estado de Santa Catarina.
Balneário do Camboriu, SC, onde os prédios ficaram tão altos que não bate mais a luz do sol na praia…(Foto: Curto e Curioso)

O Nordeste não fica de fora, o ‘exemplo’ de Pipa é só mais um.
O cara- pálida faz a primeira merda: constrói onde não deve. Depois faz a segunda, joga pedras…

Assim como o Norte e ‘sua contribuição’, na praia do Atalaia, Salinópolis, PA.
Não satisfeitos em destruir a paisagem, os nortistas ainda entram de carro nas praia (com o som na mais alta potência), esmagando a vida marinha.

Sabedoria popular

Aliás, nem todos são ignorantes. Os cara- pálidas, sim; nativos, nem tanto. ‘Valdir Mata-fome’, personagem de 61 anos, um dos moradores mais antigos foi ouvido pelo http://dc.clicrbs.com.br. Eis o que disse:
Toda vida essa maré existiu, só que em outros tempos não tinha bar e casa na beira da praia. As pessoas invadiram o mar. É uma revolta da natureza, porque hoje existe muito individualismo e muitos interesses. A Ilha está perdendo a alma, e as bruxas estão revoltadas

Aprenderam, cara- pálidas? Mas, antes de saíram entupindo a orla de pedras, ouçam o que diz um especialista.

Sabedoria dos experts

O http://dc.clicrbs.com.br cumpriu bem a sua função, e foi atrás de Carlos Eduardo Salles de Araújo, pesquisador da Epagri/Ciram do grupo de monitoramento costeiro, que ensinou:
A gente só não pode fazer mais besteira, como colocar pedra em tudo, porque isso pode contribuir ainda mais para a erosão no longo prazo

Sabedoria da Constituição Estadual da Paraíba

A Constituição do estado teve a sorte de ser feita na época da Rio- 92. Um grupo da sociedade, inclusos arquitetos, ambientalistas e organizações civis como a OAB, se uniram, escreveram e ofereceram o capítulo de meio ambiente ao governador da época que topou a parada. É o único dos 17 estados costeiros que soube domar a especulação imobiliária, não permitindo a destruição da paisagem costeira por espigões e os ‘resorts’ monstrengos. Na primeira linha da praia só casas térreas; na segunda, os sobrados; na terceira, prédios baixos, e assim por diante. É um exemplo a ser seguido.

Não culpem as mudanças climáticas e subida do nível do mar: a culpa é de quem faz merda

…Se o nível do mar estivesse subindo, nós teríamos problemas em todas as praias. E não temos. O efeito é localizado, associado à orientação das praias e à maneira que elas interagem com ondulações e ventos atípicos…

Palavras do físico e oceanógrafo, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Felipe Pimenta, também ouvido pelo http://dc.clicrbs.com.br.
Litoral de Santa Catarina e erosão: culpa de quem constrói, ou compra

Assista o vídeo produzido pelo Diário Catarinense. E veja como foi.

(Do https://marsemfim.com.br/)

sábado, 11 de novembro de 2017

MARES DE PORTUGAL


Foto Ahcravo Gorin
os afectos e as malhas

mandei escrever no braço
o amor por ti

não esqueço

nunca esquecerei
és-me enquanto me for
eu aqui pescador

tece o tempo
as malhas que os afectos
acolhem
malhas largas

os deixam ir sem saudades de
outras miúdas são
nelas se guardam os mais caros
os mais perto do coração

quem amiúda
as malhas alargadas?

(torreira; companha do marco; 2011)


o agostinho a porfiar o saco


(Ahcravo Gorin)

A MANHÃ SENDO...

Foto J.J. Brewster
Pântano do Sul

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

NA PRAIA...

foto Fernando Alexandre
TARRAFEIROS E GAJEIROS!

Olhando ilhas e de olho no peixe!
Pântano do Sul, com a tarde indo e a noite sendo!

MAR DE PAULO GOETH

Foto Paulo Goeth
Pântano do Sul

A VELA DOS NÁUFRAGOS

Imagem relacionada
Imagem sem crédito
Um conto de Virgílio Várzea

A VELA DOS NÁUFRAGOS
Ao Dr. Gama Rosa

I 
A lestada amainara após seis dias de fúria tremenda, em que o pequeno arraial dos Ingleses jazera, agachado e tranzido, sob as bátegas diluviais e os espessos nevoeiros. A costa toda, desde a Lagoinha até a Ponta Grossa, estivera abandonada e deserta, sob a ação aterradora dos vagalhões revoltos, estourando, dia e noite, em cachões espumantes, que alagavam as praias, os baixios e os cômoros, turbilhonando ululantemente sobre os mais altos cabeços. Tudo ficara abandonado, parado ao Deus dará por aquela semana; nenhuma rede se arriscara no meio da tormenta; cessara de todo o trabalho. E a pobre e laboriosa população do lugar, condenada à inação, permanecera penosamente durante esses dias, que se arrastavam longos e cheios de miséria, tomada de tédio, encolhida, apinhada em casa, tremendo de frio em rodados braseiros em chamas.

Mas voltara o bom tempo. Uma madrugada de ouro, uma dessas maravilhosas madrugadas catarinenses no litoral atlântico, vinha resplandecendo feericamente. O céu, no alto, arqueava-se todo azul, do azul ideal e transparente de uma velha faiança holandesa. As praias límpidas e curvas, e os cordões sucessivos dos cômoros extensos, destacavam magnificamente à luz, numa alvura cegante de trigo. E a planura verde do mar, levemente ondulada, na estagnação de uma vasta calmaria, estendia-se para todos os lados, aqui e além mosqueada de altos relevos de ilhas encravadas em grandes anéis movediços da espuma. A costa inteira tinha de novo a alegria e o alvoroço das manhãs de bonança: pelos ranchos, reuniam-se já, numa ruidosa algazarra marítima, os pequenos grupos de roceiros e pescadores do sítio; canoas grandes de rede, carregadas e prontas, tomada a palamenta, aguardavam a faina, sobre grossos rolos de madeira; velas curvas em bojo cruzavam ao longe, num voo branco, como grandes asas ligeiras; e uma embarcação maior, um iate, que parecia o Andorinha, do Joaquim Patesca, bordejava a todo pano, em direção ao porto, na altura do Arvoredo.

Então, a Maria Virgínia, que esquadrinhava minuciosamente o mar desde muito cedo do alto do pequeno terreiro da casa, seguindo atentamente o navio, mal o viu aproximar-se, na atitude de dar fundo, começou a descer apressada a encosta até à venda do Lemos, a colher notícias do Espadarte, o brigue onde andava o marido, o Manuel Siqueira, e que arrancara para o Rio Grande na véspera da medonha tormenta. Estava abatida, emagrecida, desfeita, a pobre rapariga, que ainda há três anos era a primeira beleza dos Ingleses. Tinham-na posto nesse estado os dois filhos que criava, dois hercúleos fedelhos rosados, de um louro rembrandtesco, e os cuidados, os temores e as aflições daquela semana, em que a sua alma não tivera sossego, a se debater, à noite, em meio de pesadelos horríveis, em que, por vezes, flutuavam, como num quadro estranho de Doré, um casco de navio perdido e a imagem amada do marido, abandonada e náufraga, num desespero, sobre as ondas do mar em fúria. Percorrendo nervosamente o tortuoso atalho vermelho, que se torcia entre a verdura espessa, ela não tirava, um instante só, o olhar ansioso de sobre as vagas verdes onde, agora, um pequeno batelão a remos vogava a toda para terra: estugava o passo com esforço, para colher as notícias dos próprios marinheiros, falar-lhes, perguntar-lhes de onde vinham, e se tinham apanhado a tormenta. Mas o atalho deprimia-se aí até cair na estrada do rei, distante ainda muitas braças dos cômoros, e o batelão, já contra a costa, sumira-se-lhe da vista que, nesse instante, apenas alcançava uma esteira branca de espuma smorzandosaudosamente para além...

No porto, um grupo de homens aglomerava-se já em torno da pequena embarcação, em que vinham dois tripulantes do iate e o contramestre Pedro, um rapaz dos Morretes, que lidava no mar de menino e era muito conhecido e estimado em toda aquela vizinhança. De pé, à popa do batelão, o grosso tórax possante atacado numa ampla camisa de flanela azul, com belo peito escarlate em forma de lira e ornado de bolso, o boné carregado sobre os olhos, gritou:

— Ó gente, cá estamos de novo! Tudo a salvamento... Felizmente, desta vez, ainda o mar rejeitou-nos!

De um pulo destro saltou, distribuindo aqui e ali apertos de mão, falando a um e outro, todo risonho, numa rude expansão de marítimo; e avistando o Lemos à porta da venda, rotundo e rubro na sua camisa de algodão grosso:

— Olá! Olha uma bela pinga da branca!

E rompeu, praia acima, a fortes passadas gigantes, que faziam cantar vivamente, sob as solas das botas, a alva areia escaldante.

A Maria Virgínia chegou à praia exausta, ofegante, as pernas trêmulas, quase a cair de fadiga. Quando entrou na venda, o contramestre Pedro, cercado de povo, a fisionomia animada, loquaz e gesticulante, perorava, com ardor, sobre o temporal.

— Havia muito tempo, dizia, não se sabia de tamanha borrasca ao sul. Nem na costa de Laguna, nem em Itajaí, nem na barra do Rio Grande... Fazia já vinte anos que ele se batia com o mar, em inúmeras latitudes, sob aguaceiros e trovoadas medonhas, mas jamais vira tanto vento e tamanhos vagalhões. Verdadeiras montanhas d'água, deslocando-se, esbarrando-se numa fúria dos demônios... Bordejava para fora, na Barra Velha, quando a lestada caiu. A princípio, aguentou-se com pouco panovela grande nos rizes e bujarrona, — a ver no que dava aquilo. Mas o iate era um cabrito — saltava, empinava-se, investia na vaga ameaçando ir a pique. Tentou uma arribada, porém a costa toda sumira-se: nevoeiros densos amortalhavam tudo, carregados de cinza. Então pôs-se à capa, e toca a rolar para aí... Seis dias e seis noites vogou perdido, aos tombos, no redemoinho das águas. Ninguém parava, ninguém dormia, numa faina incessante. Até que, naquela manhã, a borrasca amainara de todo e, sem saber como, por um acaso imprevisto, quase um milagre, avistou terra, por barlavento, à distância de milhas. Reconheceu logo o Arvoredo, os Ingleses, e puxara todo à bolina. E ali estava, graças a Deus, são e perfeito, com aquela casca de noz do Andorinha e toda a sua companhia...

Quando ele acabou, a Maria Virgínia, que ouvira tudo atentamente, imóvel e muito pálida, o coração palpitante, acercou-se, por entre os homens; e, saudando-o, numa voz doce e trêmula, cheia de emoção:
— Então, por aqui, depois de tantos trabalhos, hein? Que desgraças por esse mar! E que grande lestada, nem o temporal de Março de que falava a mãe! Nunca se vira uma coisa assim! Ali, no arraial, fora uma calamidade, parecia que era o fim do mundo! E como ele escapara, com tantos perigos, tantas aflições? Só por Deus, só por Nossa Senhora dos Navegantes!...

— É verdade, Marica, graças ao Pai do Céu, escapamos...

E, num gesto da sua mão hercúlea, descobriu-se, deixando ver a bela testa tisnada, toda aureolada de espessos caracóis castanhos.

Em seguida, ela contou-lhe, num grande abalo íntimo, em frases entrecortadas e soluçantes, os lindos olhos negros arrasados de pranto, que o que a levara até ali fora a profunda ânsia em que estava por “alguma nova” do Siqueira, que se fizera ao mar um dia antes de cair aquele “inferno de tempo”. De certo, andara rolando também, aos trambolhões, por esses mares de Deus... E quem sabe o que lhe teria sucedido sobre as ondas em sanha?... Desde que aquilo desabara, não parara um instante, inquieta, num desespero contínuo, passando os dias e as noites junto ao oratório, rezando. E não sabia porque, mas, “por dentro”, uma coisa lhe dizia que tinha havido um desastre, alguma desgraça, pois sentia como um “peso” terrível sobre o coração.

E desatou a chorar alto, perdidamente, batida de uma rajada de dor.

O Pedro, com a sua bondade de gigante, sensibilidade incomparável e santa de todos os marujos, cujas almas vivem perpetuamente carregadas de amor, de ternura, da nostalgia sem fim do oceano, ficara logo com os seus grandes olhos azuis mareados de lágrimas; e, atarantado, num enleio, numa perturbação, mal podia dizer meigamente:

— Que, infelizmente, não encontrara um só navio, uma única vela, durante a terrível viagem, mesmo porque era impossível distinguir coisa alguma em meio à cerração. Mas que não se amofinasse, não perdesse a esperança. O Siqueira era um marinheiro às direitas, conhecia o mar como as palmas das mãos. Depois, o Espadarte era navio de aguentar todo o tempo; aquilo era seguro como um rochedo; para ele não havia vagalhão. Certamente a lestada fora de tremer, mas não faltavam recursos para um bom mareante: havia a capa, havia o encalhe em um costão de remanso e, se nada disso se pudesse alcançar, era dar à popa e deixar-se levar sobre as águas, aos trancos... Não! Que ela não pensasse em desgraças! Era uma tolice! O Siqueira, àquela hora, talvez estivesse chegando ao Rio Grande...

Sob estas palavras, que lhe caíam docemente na alma, como um alívio, uma consolação, a Maria Virgínia foi pouco a pouco serenando; mas lembrando-se de repente de que os pequeninos, os filhos, tinham ficado sozinhos lá em cima com a mãe, coitada, que vivia paralítica, a um canto, quase sem se poder mover, despediu-se imediatamente:

— Ora, há de ser o que Deus quiser... E adeusinho, Pedro; até depois. Olha, aparece lá em casa. Assim que puderes, dá uma chegadinha ao morro. A mamãe há de gostar de te ver...

E saiu correndo, num movimento adorável dos quadris cheios, da cinta estreita e do lindo busto alto onde o seu pescoço bem feito e o moreno rosto escultural se erguiam deliciosamente em meio da luz radiante.

II 
Daí a quinze dias, pela manhã, espalhava-se por todo o arraial dos Ingleses a lutuosa notícia de que o Espadarte tinha ido a pique, uma madrugada, a vinte milhas do cabo de Santa Marta, tendo perecido nele o contramestre, o gajeiro grande e o capitão Siqueira. Soubera do caso o filho do Patesca, que viera da cidade onde estivera com os tripulantes que haviam escapado, e que de certo chegariam ali pela tarde, porque vinham por terra, de sítio em sítio, em procissão com a gávea, a tirar esmolas para uma promessa à Senhora dos Navegantes. Um deles, o Manuel Figueira, narrara-lhe, na véspera, como se dera o naufrágio.

O navio abrira água, um dia antes do sinistro, com dois mares de través, que o alagaram de popa, ao desfazer de uma capa. Mas, com as bombas a trabalhar incessantemente, aguentara ainda até à noite seguinte, em que a guarnição, já exausta, largou tudo por mão, e o brigue entrou a se sentir mal sobre as vagas. Os marinheiros começaram então a tratar da salvação, ensacando provisões, entrouxando a roupa, arranjando os objetos náuticos mais necessários — remos, velame, cabos — safando ao mesmo tempo as talhas do escaler pequeno e da lancha grande de carga, a fim de os poderem arriar ao primeiro sinal. E as horas corriam, sob o fragor clamoroso do mar e a negrura densa da noite insondável... De repente, um marinheiro, que descera ao rancho, deparou com o porão cheio d'água e, voltando, correra à ré, a dar parte ao contramestre que estava ao leme, enquanto o capitão, a um bordo, contra a balaustrada, com os olhos fisgados na noite e nas ondas, acenava, a espaços, com o braço gritando: orça! alivia! para evitar as montanhas de mar embatendo em assaltos gigantes... Nessa ocasião, já o navio ameaçava soçobrar, em horríveis balanços. Eles, imediatamente, lançaram o escaler e a lancha fora das amuradas, destacando o gajeiro grande para a popa, a prevenir o capitão de que tudo estava pronto a largar. Porém, nisso, um vagalhão terrível inopinadamente rebentou sobre o salto, avançando, carregando tudo num turbilhão formidando... Ouviram-se gritos... O brigue medonhamente enterrava-se, de alheta, erguendo a proa balouçante. Eles, alucinados, num estranho pavor no meio do tumulto infernal, cortaram logo as talhas, e, a toda força de remos, aguentaram para o largo, à distância... Quando o dia alvorou, já em calma, nada mais se avistou sobre o mar, além deles e do disco ermo e nostálgico do horizonte ao longe...

E a viva narração do marinheiro voava de boca em boca, eletricamente, despertando enternecimentos e lágrimas pelas casas, os engenhos e os ranchos, e adquirindo, a cada nova edição oral, cores e linhas estranhas.

À casa da Maria Vírgínia já haviam acudido os parentes, as amigas e toda a vizinhança — e as portas e as janelas cerradas, deixavam escapar desoladoramente, apesar do belo sol da manhã, um coro abafado e lúgubre de vozes soluçantes.

A pobre rapariga recebera o grande golpe aflitivo logo ao amanhecer, quando, como de costume, depois da tempestade, postada ao paredão do terreiro, esquadrinhava, com um longo olhar melancólico, a linha clara do horizonte. Levara-lhe a dolorosa comunicação uma comadre sua, a Josefa Dutra, que passara ainda escuro pela casa do Patesca, onde se detivera a tomar o “aparado” e a descansar da longa caminhada que trazia, desde o cantar do galo, lá do Rio Vermelho, onde estivera em busca de remédios para o marido, caído com as sezões, havia dois meses. Desde esse instante até aquela hora, a Maria Virgínia se debatia, em gritos, numa ânsia e num desalinho, na agitação do desespero, inconsolável, aturdida e perdida no fundo do seu infortúnio. Todos a rodeavam afetuosamente, procurando acalmá-la com palavras meigas e enternecidas, que envolviam uma imensa consolação de carinhos — palavras deliciosas, palavras santas, que são, na desgraça, como um vasto manto aconchegante de plumas e um suave, incomparável bálsamo bendito!...

A casa inteira parecia também envolta na rajada sinistra, em meio à desolação: de todos os lados, de todos os cantos, erguia-se, funerariamente, na desordem das coisas, como uma levada tumultuosa de sofrimentos, que se desprendia do choro inconsciente das criancinhas órfãs e do soluçar rouquejante da pobre avó paralítica. Até na cozinha as velhas pretas da casa faziam um coro vivo de pranto. E a imensa aflição deste lar humilde ecoava lutuosamente por aquelas cercanias onde, como em todos os sítios, a vida corre docemente enlaçada, na solidariedade fraternal de uma mesma família, compartilhando igualmente as alegrias e as privações.

Mas o dia encaminhava-se para a tarde e a luz desbotava lentamente num dourado esvaído. Pelos morros, distinguiam-se os grandes lençóis coloridos das rocas, onde predominavam intensamente o verde negro da mandioca e o louro seco dos milhos. E na serenidade do ar erguia-se, por vezes, um vago trêmulo amoroso de campesinas cantigas. Pela costa, canoas de rede, na faina intensa da pescaria, iam traçando incessantemente, sobre a lousa verde do mar em calma, longos hieróglifos de giz. Pequenas velas ao longe abriam melancolicamente o triângulo claro e vogador da sua asa alígera. E no horizonte além, a saudosa neblina de pérola das águas longínquas...

De repente, vozes frescas de rapazes estalaram lá embaixo, no caminho:

— Olha uma vela de navio! Olha uma vela de navio! E a gente do Espadarte... Aí vem!...

E logo a notícia de que os náufragos tinham chegado espalhou-se por todo o sítio dos Ingleses.

Efetivamente, na encruzilhada da praia, de onde partia um ramal de estrada branco e arenoso estendendo-se pelo litoral até à Ponta das Canas e a Cachoeiras, um grupo triste de homens descalços, em camisa, o boné sob o braço, as calças arregaçadas, apertadas na cinta escarlate dos marujos, avançava, conduzindo à mão, pelas carregadeiras, o pano grande de uma verga. Molhos de rosas e palmas, deitados decerto por mãos piedosas de roceiras trigueiras — mães, filhas, noivas e irmãs — na passagem pelos sítios, perfumavam, enfeitavam risonhamente aquela velha lona que fora outrora, no alto das mastreações, tão amada do sol e dos ventos do oceano.

O préstito caminhava cantando. Era uma dessas canções embaladas e monótonas, de uma cadência acre da onda em tormenta, implorativas, convulsas, ansiosas, de uma nostalgia sem termo. Cada estrofe dizia, primeiro, o rugir dos ventos, o espumar dos vagalhões em fúria, o despedaçar dos lenhos; depois, os gritos, as pragas duras, blasfemas, os fundos desesperos da marinhagem impotente, em luta brutal com os elementos. Mas o estribilho ritmado e frequente, tinha uma mansidão suplicante, o ansiar resignado de íntimos sofrimentos, a doçura suavíssima de uma prece plangente:

Senhora dos Navegantes,
Amparai-nos lá dos céus:
Que por todos os quadrantes
Acalmem-se os escarcéus.

De vez em quando, em frente às casas, a vela parava, e um marinheiro se destacava, abordando as janelas ou as portas, de barrete estendido, esmolando. E as moedas negras de cobre e os níqueis radiantes surgiam de toda a parte, caindo de mãos femininas e brancas, num rápido gesto espontâneo.

Uma aglomeração de rapazes e homens cercava logo a companhia, e os conhecidos e amigos a inquiriam candidamente, pedindo notícias, pormenores do sinistro.

As famílias dos náufragos que moravam distante, lá para a Lagoinha, desciam em direção à praia, num alvoroço: para abraçar os pais, os maridos e os filhos. Havia por isso, em todo o arraial, um movimento de romaria. E quando algum dos marinheiros avisava os seus entes queridos, o seu lar, o bem maior da sua vida, desprendia-se, por instantes, do lutuoso cortejo, e eram então abraços ardentes, choros de emoção e de alegria, nas porteiras, nos terreiros sob as ramagens verdes dos caminhos...

Mas logo a vela prosseguia, naquela peregrinação dolorosa.

Ao chegar à venda do Lemos, uma multidão de ajudantes, camaradas das redes e alguns tripulantes do Andorinha, que ainda permanecia no porto carregando — correram ao encontro dos náufragos, ruidosamente, num júbilo:

— Ó Antonio! Ó Figueira! Ó Constâncio!... Então por aqui, depois de tantos perigos?... Ora sempre Deus era grande e tinha compaixão dos infelizes!

— É verdade, gente. Mas lá ficou o nosso capitão, lá ficaram o Samuel e o Justino, coitadinhos! Quem diria que tornaríamos sem eles! O que era a vida, o que era o destino!

E dos olhos de todos aqueles marítimos, raiados de sangue pela refração solar do oceano, nos tombadilhos, as lágrimas corriam, duas a duas, silenciosamente...

Lá em cima, no morro, a Maria Virgínia, a essa hora mais calma, mais resignada, naquela quase consolação de poder ver ao menos a vela do navio do marido, queria por força descer abaixo, ao caminho. Mas os parentes e as amigas protestavam, opunham-se:

— Que não! Que não! Pois se a vela ia passar por ali, porque tinha de ficar aquela noite na ermidinha da Senhora dos Navegantes! Não! Que tivesse paciência, esperasse um instante. Ela viria...

Com efeito, o pano do brigue ia ser depositado ali até outro dia. O Figueira já falara ao sacristão, e este apressara-se logo a subir à capelinha, cuja porta abria-se agora lá no alto da montanha, dominando as praias, as ilhas, todo o oceano, como nas manhãs claras de missa...

Mas o sol rolava já no horizonte, numa barra sulferina. A planura imensa das águas resplandecia a oeste, maravilhosamente, como um estranho tablado de pedrarias. Canoas ao longe corriam, com velas tintas a zarcão, sob a luz fugidia, evocando feericamente o esquisso luminoso de uma remota marinha fenícia, singrando, num poente vermelho, o cetim do mar de Tiro. E contra a costa arenosa e límpida fechada a um lado pelas rochas altas do Rapa, cobertas agora de uma fascuração sanguínea de mica, o cair lento e melancólico de uma poeira de nanquim, onde se distinguiam, numa eteral agonia, os primeiros lilases e lírios das ave-marias...

Então os náufragos apressaram-se e, arrumados à vela, de onde as rosas e palmas pendiam, já murchas e tristes, como sobre um pano de esquife, tomaram o tortuoso e empinado caminho que levava à ermida. E, de novo, repetidamente, o estribilho sonoro da canção marítima ecoou pelo ar, manso, súplice, pungentíssimo:

Senhora dos Navegantes,
Amparai-nos lá dos céus:
Que por todos os quadrantes
Acalmem-se os escarcéus.

Em frente ao terreiro da Maria Virgínia o préstito estacou. Uma aglomeração de pessoas tomava aí a estrada, numa altitude compungida. E logo, da casa toda aberta e em sombra, rompeu uma orquestração clamorosa de choros e gritos. Dentro, a pobre rapariga debatia-se, numa angústia sem nome, em meio aos braços das amigas, que a conduziam carinhosamente para uma das janelas, procurando impedi-la de sair ao caminho, dizendo-lhe docemente:

— Olha daqui! Olha daqui!

Porém ela, desatinada, convulsa, num nervosismo, retorquia-lhes:

— Não! Não! Deixem-me sair! E com a ideia sempre fixa no marido: — Quero ir beijar ao menos a vela que lhe escutou o último suspiro...

E, desprendendo-se de repente, atirou-se para a rua, como uma louca, por entre a multidão estarrecida.

Foi então uma cena comovente, tristíssima. Todos, em volta, tinham os olhos rasos d'água, as pessoas do povo como aqueles velhos marítimos.

E a Maria Virgínia, de joelhos, abraçada à vela, toda banhada em pranto e agitada por soluços que a sacudiam intermitentemente, beijava a velha lona náufraga, beijava-a, como numa ardente e extraordinária consagração divina. A sua voz, a espaços, debilmente vibrava: trêmula, entrecortada, aflitíssima, no meio do pesado silêncio do céu vespertino:

— Ai! que dor! Ai! que dor!... Virgem Santíssima!...

E como ela se delongava sonambulamente nessa genuflexão de martírio, o rosto desfigurado, muito branco, como quem vai cair numa síncope, os parentes acudiram, arrancando-a piedosamente dali.

A vela, sempre acompanhada de povo, pôs-se outra vez a caminho, embalada pelo ritmo sonoro da canção, cujo agro estribilho aumentava agora de dolência monótona. Nesse instante, o crepúsculo cerrara-se de todo, amortalhando os longes, as montanhas e as águas, com os seus grandes véus mortuários de cinza...

Rio, 1893.

(Virgílio Várzea)

MARES DE PORTUGAL

ah mar

sem porto nem cais
areal onde varar
procurar na memória
nas imagens retidas
um poiso um lugar

barco sem terra
condenado ao mar

resta
esperar a onda
o instante exacto
largar

ganhar o longe
ser poiso de gaivotas cansadas
sorrir à espuma

o que há para além de mar?

(torreira; companha do marco; 2011)

de braços abertos o maria fátima espera o largar

domingo, 5 de novembro de 2017

NA TARRAFA...

Foto Andrea Ramos

MARES DE PORTUGAL

Mariscadores da Ria de Aveiro

OLHANDO ILHAS, ESPERO...


Ilha e olhar do Paulo Goeth

MAR DE PESCADOR


Argentina afunda barco chinês por pesca ilegal
© REUTERS/ Argentine Naval Prefecture

A guarda costeira disse que o barco pescava sem permissão a 1.300 quilômetros ao sul de Buenos Aires na terça-feira (16), isto é, havia penetrado na zona econômica exclusiva da Argentina. Depois de receber advertências, o barco apagou as luzes e tentou fugir para águas neutras.

A pesca é um problema perene no Atlântico e no Oceano Austral, mas é altamente incomum que tais incidentes terminem com uma embarcação a ser afundada.

O Ministério do Exterior da China disse em seu site que tinha recebido informações de que os 32 marinheiros chineses a bordo foram resgatados ilesos, quatro pela guarda costeira e os outros por barcos chineses nas proximidades.
O capitão do barco será entregue à polícia argentina e julgado.

Pequim "expressou grave preocupação por este incidente e apelou para a Argentina fazer uma investigação imediata e exaustiva, transmitindo os detalhes para a China", disse o porta-voz Lu Kang na quarta-feira (16).

© AFP 2017/ PARK YOUNG-CHUL

Pequim cobra explicações a Seul sobre tiros disparados contra barco patrulha chinês
Os vizinhos de Pequim, Seul e Hanói, acusam muitas vezes os navios chineses de entrarem ilegalmente em suas águas.

A Argentina anunciou em 2012 ter capturado dois navios chineses que efetuavam ilegalmente a pesca de lula na sua zona econômica exclusiva, depois de disparar tiros de advertência. Na época, os relatórios locais indicavam que a pesca chinesa ilegal foi muitas vezes facilitada por funcionários corruptos no governo e na guarda costeira argentina.

sábado, 4 de novembro de 2017

NO DESPENQUE DO DROP...


Federación de Surf de Costa Rica

LÁ NO FUNDO

Restos de uma embarcação - que provavelmente naufragou no século XIX - foram encontrados em agosto sob as areias de uma praia em Santos, no litoral de São Paulo. Os pesquisadores aguardam autorização da Marinha para iniciar a escavação e retirar o barco. A expectativa é que ele esteja conservado e possa ser exibido num museu a céu aberto.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

FAROL DAS CONCHAS - ILHA DO MEL



Foto Nunsey Diquem
Mandado construir em 1870 pelo Barão de Cotegipe, durante o reinado do imperador D. Pedro II, o Farol, feito de ferro fundido, com uma altura de 18 metros, vindo de Glasgow – Escócia, orienta os navegantes através do seu piscar desde 1º de abril de 1872. Localizado no alto do Morro das Conchas, pode ser avistado de quase todos os pontos da Ilha do Mel, da mesma forma que lá de cima se pode observar quase toda a Ilha e região. Uma escada com quase 140 degraus leva até o alto do morro. Situada na embocadura da Baia de Paranaguá, no estado do Paraná com uma área de 2.700 ha, dos quais apenas 200 têm permissão de uso - o restante é reserva ecológica (tombada pelo Patrimônio Histórico em 1975, é administrada pelo Instituto Ambiental do Paraná desde 1982) a Ilha do Mel possui um restrito programa de manejo.
Não é permitida a
tração animal ou a motor, não existindo ruas, apenas trilhas. Com belíssimas praias, grutas e uma fortaleza construida em 1769, a Fortaleza Nossa Senhora dos Prazeres, a Ilha é um dos principais pontos de visitação turística do litoral do Paraná.

O aparecimento de um mapa constante do “Livro de Toda a Costa da Província Santa Cruz”, feito por João Teixeira Albbernas - Anno D. l666 e que se encontra na mapoteca do Ministério das Relações Exteriores, onde a Ilha já aparece com a denominação de Ilha do Mel, praticamente desvendou o mistério sobre o seu nome. No século passado a Ilha também era conhecida como “Ilha da Baleia”, talvez pelo seu formato.

Várias outras versões circulam no imaginário da ilha para a origem de seu nome: - A existência de uma família de origem alemã que habitava a região da Fortaleza, e onde havia um engenho para produção de farinha de mandioca.



Farinha em alemão, escreve-se “mehl”;
- A cor da água do mar vista do alto do Morro das Conchas
– Farol, principalmente no início da Praia do Farol (Paralelas); 
- A lua-de-mel que os escravos mais fortes desfrutavam com várias negras, onde os mesmos eram deixados na Ilha por vários dias, para a reprodução, no século passado;
- Antes da Segunda Guerra Mundial a ilha era conhecida coma a ilha do Almirante Mehl que se dedicou à apicultura e cuja família lá freqüentava; 
- Marinheiros aposentados viviam na Ilha e dedicaram-se à apicultura, produzindo uma quantidade tamanha que chegaram a exportar o produto até os anos 60;
- A água doce existente na ilha contém mercúrio. Em contato com a água salgada isto causa uma coloração amarela, semelhante à cor de favos de mel; e os índios Carijós que viviam na região e apreciavam muito o mel de abelhas.

NAS ANTIGAS...

Fotos de arquivo, anos 50 e 60 Destruída com a construção da nova ponte, na década de 70 do século passado, quando passou a servir de apoio para uma das colunas da obra, a Ilha do Carvão - também conhecida como Ilha dos Ratos -tinha este nome porque nela existia um depósito de carvão que abastecia as caldeiras dos navios que por aqui passavam. Como o Porto de Florianópolis era essencialmente importador de carga geral, ferramentas, máquinas, combustível e alimentos para o abastecimento da capital e das vilas próximas por meio da navegação pelas baías Norte e Sul, o carvão era desembarcado na Ilha do Carvão e os outros combustíveis na Ponta do Coral, parte insular, e na Ponta do Leal, parte continental.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

PESCA INDUSTRIAL

Resultado de imagem para sardinhas

Maior enlatadora de pescado do país paralisa produção em Itajaí

A baixa produção do pescado nacional e problemas na importação levaram a Gomes da Costa a suspender a produção de atum e sardinha em lata em Itajaí. É a primeira vez que a empresa paralisa as atividades em pelo menos 10 anos. Mais de mil funcionários estão em casa desde sexta-feira e devem permanecer assim até o final desta semana, quando será feita uma nova avaliação. 

Além da produção de enlatados, o setor de embalagens da indústria também terá atividades suspensas entre os dias 6 e 20 de novembro.

A paralisação ocorre no momento em que, tradicionalmente, a indústria _ que é a maior enlatadora de pescado do país _ está no pico de produção, com foco na distribuição para o período da Quaresma. Andrés Eizayaga, diretor comercial e de marketing da Gomes da Costa, diz que a empresa havia selecionado 200 novos trabalhadores para esta época, que não serão chamados por enquanto.

O problema envolve uma série de fatores e começou com a sardinha. A indústria esperava uma boa captura e chegou a fazer novas contratações no início do ano, mas foi surpreendida pela pior safra dos últimos anos. A solução foi aumentar o volume de peixes importados, e passar de uma média de 30% de sardinhas “estrangeiras” para 95% _ o que prejudicou a velocidade de reposição dos estoques.

Recentemente o entrave se estendeu ao atum. Divergências na interpretação da lei fizeram o governo mudar a postura em relação à chegada do atum importado e passar a exigir documentos que, até então, não eram solicitados. A alteração resultou em uma série de contêineres da Gomes da Costa devolvidos ao país de origem e em dificuldade para conseguir a matéria-prima. 

Para completar, o embargo da indústria de processamento de bioproteína BFP, sócia da Gomes da Costa que reaproveitava os resíduos de pescado, trouxe um problema para o descarte do que sobra da produção. A fábrica foi fechada pela Fatma porque vinha causando mau cheiro na vizinhança. 

_ Temos uma incerteza sobre como gerenciar os resíduos da fábrica. A empresa embargada retirava e processava, e depois de 10 meses de trabalho desta forma, não é simples retomar outro destino _ afirma o diretor comercial. 

Investimentos

A suspensão das atividades ocorre apenas dias depois de ter sido assinado um protocolo de intenções entre o grupo espanhol Calvo, que comanda a Gomes da Costa, e a prefeitura de Itajaí para um investimento futuro de R$ 1 bilhão, com a construção de um novo parque fabril. A indústria produz em Itajaí 2 milhões de latas de sardinha por dia, e 500 mil latas de atum. A empresa não comentou se os entraves podem mudar os planos em Itajaí. 

(Do http://dc.clicrbs.com.br/)

ARTESANAL X INDUSTRIAL

Foto Fernando Alexandre