terça-feira, 7 de janeiro de 2020

FÉRIAS DE VERÃO? COISA DE COMUNISTA!

A Riviera Francesa. Paul Rysz / Flickr

Os socialistas inventaram as férias de verão

Por
David Broder
Tradução
Cauê Seigner Ameni

O trabalho no verão é insuportável, sobretudo quando não temos um tempo de folga. Na França dos anos 30, o movimento trabalhista fez da luta por férias remuneradas uma prioridade – e obrigou os patrões a pagar pelo nosso lazer na praia.

O sol não brilhava para a França burguesa no verão de 1936. As senhoras da alta sociedade queixavam-se que as hordas invasoras de proles estavam ocupando muito espaço em suas praias favoritas; os donos de restaurantes da Côte d’Azur até se preocupavam se os operários que chegavam em seus resorts saberiam usar uma faca e um garfo. Em junho daquele ano, o governo socialista tinha acabado de garantir a todos os trabalhadores duas semanas de férias pagas, tornando as férias de verão uma realidade para milhões. Agora, os trabalhadores podiam parar de fabricar bicicletas e baguetes por duas semanas e começar a construir castelos de areia – e seus chefes tinham que pagá-los por isso.

A lei que deu férias aos trabalhadores foi aprovada pelo primeiro-ministro socialista judeu Léon Blum, eleito em maio. No entanto, a mudança aconteceu, principalmente, devida ao poderoso movimento de greve que se seguiu à sua eleição. Em todo o mundo, os sindicatos resistiram por muito tempo à dominação da vida pelo trabalho: a greve geral iniciada em Chicago no dia maio de 1886 iniciou a exigência de “oito horas para o trabalho, oito horas para o descanso, oito horas para o que quisermos”. Após a conquista dos limites legais do horário de trabalho e, em seguida, a invenção dos fins de semana, no século XX, a cruzada trabalhista pelo tempo livre começou a brigar por feriados remunerados.

Tendo as raízes surgidas primeiramente na França, o período de férias remuneradas foi logo alcançado em outros lugares, em muitos casos complementados por direitos como salário por doença e licença de maternidade. A luta pelas férias não era apenas para dar aos trabalhadores uma quinzena de liberdade por ano para voltar em seguida ao chão de fábrica. Impulsionada por uma nova cultura de massa, a luta para expandir o campo do lazer também tinha como objetivo democratizar as sociedades em que vivemos. Os trabalhadores franceses não apenas conquistaram o direito de férias, como construíram albergues, acampamentos e clubes sociais pelos quais poderiam passar melhor seu tempo juntos.

Construindo uma barraca ampla

Otempo livre sempre foi um campo de batalha político. O movimento trabalhista inicial era uma colmeia de sociedades e cooperativas amigáveis, através das quais os trabalhadores reuniam seus recursos para fazer melhor uso de seu tempo ocioso. Desde 1919, os prefeitos socialistas e comunistas de Ivry-sur-Seine, um subúrbio de Paris, administraram um fundo de solidariedade para proporcionar aos filhos dos trabalhadores viagens às praias. Assim como organismos como o YMCA promoveram formas de recreação compatíveis com os valores cristãos, os partidos dos trabalhadores criaram atividades de lazer, esportes e sociais – dentro do tempo livre que pudessem encontrar.

No verão de 1936, foi revindicada uma ação governamental para universalizar o pagamento de férias anteriormente alcançado por uma pequena minoria de trabalhadores. Entretanto, o sucesso dessa ideia não é mérito apenas de Léon Blum, ou da Frente Popular que uniu os socialistas aos liberais radicais e comunistas. O programa que a Frente Popular anunciou antes das eleições de maio de 1936 foi cauteloso: prometeu nacionalizar as indústrias de guerra e dar maior liberdade aos sindicatos, mas seu pedido por “uma redução na semana de trabalho sem redução nos salários semanais” não indicava como e quando redução poderia ser feita.

O triunfo eleitoral da Frente Popular em 3 de maio de 1936 – com 57% dos votos – inspirou um clima de mudança mais amplo. Em 11 de maio, trabalhadores ocuparam uma fábrica de aeronaves para exigir a reintegração de dois colegas demitidos na greve; isso levou a uma ação solidária dos estivadores, iluminando o caminho para um movimento mais amplo. A greve se espalhou por milhares de locais em toda a França, abrangendo cerca de 2 milhões de trabalhadores. A atmosfera festiva nas fábricas ocupadas mostrou não apenas que os trabalhadores se sentiam encorajados, mas também que tinham grandes expectativas em relação ao que viria a seguir.

Encorajados pela onda de greves – mas também cautelosos com conflitos sociais prolongados – Blum buscou um acordo com os empregadores que também satisfizesse os ativistas nos principais partidos de esquerda. Nos dias 7 e 8 de junho, o primeiro-ministro socialista, os sindicatos e os empregadores selaram os Acordos de Matignon, promulgando uma versão mais detalhada – e, de fato, mais radical – das promessas do manifesto da Frente Popular. Os chefes tiveram que engolir um limite de quarenta horas semanal de trabalho (sem perda de pagamento), maiores liberdades sindicais e pelo menos duas semanas de férias pagas para cada trabalhador.

República da juventude

Os trabalhadores conquistaram o direito de férias remuneradas por meio de ações solidárias. Isso também foi moldado pelos debates anteriores sobre o que realmente significava férias. Na época de Karl Marx, uma viagem à praia era frequentemente vista em termos de restauração da saúde, longe da sujeira e da fumaça da cidade – a historiadora Yvonne Kapp observa como ela ficou obcecado com os benefícios de viagens à beira-mar “tanto na área médica quanto à leitura, uma panaceia perdendo apenas para o álcool“. Mas o que os trabalhadores realmente faziam no período de folga continuava sendo uma questão um tanto quanto disputada no início do século XX.

Como observa o historiador Gary Cross, muitos socialistas denunciaram o efeito prejudicial que a rotina da fábrica teve na saúde dos trabalhadores, privando-os de exercer outras atividades, como a intelectual, para fazer mais do que consumir passivamente entretenimento. As críticas aos esportes e jogos de azar eram comuns no movimento trabalhista. Os ativistas da “temperança” expressaram não apenas o moralismo cristão, mas o reconhecimento de que os trabalhadores não deveriam desperdiçar a renda da família em bebidas. Os partidos de esquerda se concentraram em promover a educação política, mas também em atividades mais lúdicas, como bandas musicais, buscando atrair trabalhadores para atividades mais intelectual.

No entanto, a esquerda queria fazer mais do que integrar os trabalhadores mais politizados – especialmente quando a extrema direita promoveu sua própria visão de lazer em massa. Desde 1925, as organizações “Depois do Trabalho” e “Balilla” do fascismo italiano forneceram atividades de lazer subsidiadas pelo Estado e, a partir de 1935, o programa “Força através da alegria” da Alemanha nazista usou recursos do Estado para promover atividades esportivas e feriados coletivos que exaltavam “valores nacionais ”, dividindo as divisões de classe. A Frente Popular procurou, assim, promover sua própria visão democrática do que poderia ser o lazer.

Isso ficou especialmente evidente no trabalho do subsecretário de Estado para esportes e lazer do prefeito Blum, um posto ocupado por Léo Lagrange. Refletindo os diferentes objetivos da política de lazer, esse papel criado pelo governo da Frente Popular foi inicialmente vinculado ao Ministério da Saúde, mas depois transferido para o Ministério da Educação. As escolhas de Lagrange também refletiram a diferença entre imperativos socialistas e fascistas. Como ele disse, a preocupação da Frente Popular não era apenas relaxamento, mas promover a dignidade dos trabalhadores. Por exemplo, em contraste com o esporte de elite exibido nas Olimpíadas de Berlim, Lagrange pretendia “menos criar campeões e levar 22 jogadores ao estádio diante de 40.000 ou 100.000 espectadores, do que convidar os jovens de nosso país a ir regularment no campo de jogo e na piscina”.

A chave aqui foi o foco na capacidade do lazer para superar as divisões de classe – Lagrange não apenas patrocinou a “Olimpíada do Povo” em Barcelona, alternativa às Olimpíadas de Hitler, mas também proporcionou passeios a trabalhadores agrícolas de outras regiões a Paris. O apoio do governo às associações dirigidas por membros visava promover uma gestão coletiva do tempo de lazer, livre do patrocínio associado a iniciativas da igreja ou de caridade: para Lagrange, isso permitiria ao “mineiro, artesão, camponês, pedreiro, balconista e o professor entender gradualmente a unidade do trabalho humano”.

Essa experiência ecoou nas iniciativas de baixo. De 1935 a 1938, o “Sindicato do Esporte e Ginástica Laboral” da CGT aumentou de 42.000 para 100.000 membros, ao adotar o pedido de um “clube para todas as fábricas”. Obviamente, assim como os trabalhadores não podiam se dar ao luxo de sair de férias sem licença remunerada, eles também precisavam gastar seu tempo de uma forma economicamente viável. As viagens de trem subsidiadas (com desconto de 40%) forneceram uma bases para uma parte dessa política, mas também foram os comitês locais da Frente Popular, organizações como “Holidays for All” (que prometiam “mais do que uma versão barata do turismo burguês”) e o CLAJ associação de albergues da juventude.

Como o próprio nome sugeria, o CLAJ – o “Centro Secular de Albergues da Juventude” – era uma alternativa às associações religiosas de lazer, ficando em grande parte sob o domínio comunista. Aumentou bastante sua presença durante a época da Frente Popular, de 45 albergues em 1933 a 90 em 1935 e 450 em 1938. Fornecer acomodações baratas para dezenas de milhares de pessoas também alimentou uma liberalização dos costumes sociais. Se a política formal foi desencorajada, a revista Le Cri des Auberges do CLAJ proclamou “todo albergue é uma república da juventude”, rompendo com o modelo de “férias em família” nas propagandas da Frente Popular.

Como observa o historiador Siân Reynolds, o papel do CLAJ foi particularmente importante por causa dos costumes sociais mais livres que promoveu e, em particular, pelo fato de não ser segregado por gênero (embora os dormitórios fossem). A socialização coletiva entre home e mulher, a disseminação do “você” ou “tu” coloquial sobre os valores formais e a falta de códigos de vestimenta para as mulheres se baseavam na prática existente da Juventude Comunista, enquanto minavam as hierarquias de gênero: para Lucette Heller-Goldenberg, elas “pararam as relações falsas entre uma jovem que se esforça para conseguir um marido e um jovem que procura uma vítima”.

Um raio de luz

AFrente Popular não era só sorrisos e sol – afinal, foi criada como uma muralha defensiva contra ascensão do fascismo, e alguns dos colegas de Lagrange encararam com mais gentileza os benefícios “patrióticos” da mistura cultural do que sua capacidade de minar os costumes familiares. No entanto, a política de Blum teve grandes efeitos, inclusive no surgimento de uma prática semelhante na Grã-Bretanha. Embora os esforços legislativos em Westminster tenham falhado em 1929 e 1936, a crescente demanda dos sindicatos por férias remuneradas, inspirada no exemplo francês, viu o número de trabalhadores que conseguiram tais licenças subir de 1,5 milhão em 1935 para 7,75 milhões em março de 1938.

A pressão financeira e a Guerra Civil na Espanha encerraram a Frente Popular naquele outono. Os radicais liberais se voltaram para os conservadores, implodindo as principais medidas de Blum, que foram destruídas completamente sob a ocupação alemã. O próprio Lagrange foi morto em junho de 1940. Blum, enquanto isso, foi julgado por traição em 1942. Defendendo seu histórico, ele usou o tribunal para defender sua política de lazer, subvertendo a retórica dos valores familiares do regime de Vichy. Para o socialista judeu, férias pagas ofereceram um “raio de luz às vidas sombrias e difíceis”, não apenas para “proprocionar facilidades para a vida familiar, mas proporcionar uma promessa para o futuro com uma esperança”.

Este raio de luz seria lembrado por muito tempo. As notas da música de 1936 de Charles Trenet “Y’a d’la joie” ecoaram ao longo dos anos, enquanto os fotógrafos Henri Cartier-Bresson e Pierre Jamet, membro do CLAJ, imortalizaram a alegria de viver de carona e acampamentos rudimentares. A luz do verão de 1936 foi, sem dúvida, aliviada pela escuridão do que se seguiu sob o domínio de Vichy. Alguns historiadores o retrataram como um mito reconfortante – para Julian Jackson, imagens de “multidões que saíam de trens partindo se tornaram um símbolo tanto de 1936 quanto as barricadas de 1968“.

No verão de 1940, as famílias parisienses fizeram as malas para um tipo diferente de jornada – por causa da evacuação da capital diante da invasão alemã. No entanto, mesmo nos dias sombrios de ocupação, o verão que aconteceu quatro anos antes deixou mais do que boas lembranças. Os partidos comunista e socialista ainda estavam de pé, banidos pelos conservadores e por Vichy. As estruturas que os trabalhadores criaram para aproveitar ao máximo seu tempo livre conquistado também foi usada como uma rede de solidariedade para os militantes sobreviverem ao período da ocupação. Após a invasão alemã, a rede da CLAJ tornou-se a base da resistência armada.

Hoje, nosso tempo livre enfrenta outros inimigos que não são as tropas de assalto nazistas. Os chefes estão usando nossas condições precárias e nossos telefones celulares para nos manter constantemente de plantão, acorrentados ao trabalho e desesperados por novos turnos surpresas. Mas o pagamento de férias é justamente feito para nos libertar da escolha entre tempo livre e o emprego de que precisamos – é uma obrigação de todos os empregadores nos pagar uma parte do tempo livre, independentemente de suas circunstâncias particulares. Na França dos anos 30, a luta por férias remuneradas criou uma estrutura para dar suporte e condições aos trabalhadores, às custas de seus chefes. É exatamente disso que precisamos hoje.

SOBRE O AUTOR

David é historiador do comunismo francês e italiano. Ele está atualmente escrevendo um livro sobre a crise da democracia italiana no período pós-Guerra Fria.

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