sexta-feira, 15 de novembro de 2019

O FIM DA ILHA - UM CONTO


Foto Alessandro Gruetzmacher

O Fim da Ilha
por Richard Simas

(Tradução de Margarida Vale de Gato - poeta e acadêmica)

"Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio."
A terceira margem do rio – Guimarães Rosa


Subitamente Fernando mudou o assunto da conversa sobre a pesca à tainha naquela região para me falar de um velho que se opusera a que instalassem a luz numa povoação isolada na ponta da ilha. Segui-lhe o olhar até aos rochedos que se apontavam para o mar mesmo no fim da pequena baía. Também ele vivera em tempos naquela ponta da ilha logo a seguir a mudar-se da capital.
— É muito longe?
Caía a noite. Do lado de fora da janela engordurada do café da praia, os pescadores arrumavam os seus pertences e dispersavam. Uma água branca explodia ao longe sempre que rebentava uma onda, marcando a ponta, no fim.
— Porque se opôs ele com tanta veemência?
Fernando disse que o velho não se manifestara contra o corte das árvores para pendurar cabos em postes altos por toda a ilha. Era uma pessoa prática e compreendia como se devia trabalhar. As casas da sua povoação haviam sido construídas com o mesmo esforço. Não, ele protestara com medo do que poderia vir a seguir.
— O que vinha a seguir?
Coisas que eles não sabiam, respondeu Fernando, e que nem sequer queriam nem podiam prever ou preparar-se convenientemente para elas. Seria demasiado tarde para mudar depois, argumentava o velho. Já não haveria escolha. Tinham passado bem sem luz nem eletricidade desde a primeira casa que construíram na ponta rochosa, eleita pelo seu isolamento. As velas e os candeeiros a petróleo bastavam. Havia lenha nos montes e o mar dava peixe. Encontravam tudo o resto de que precisavam no Pântano. Fernando abanou a cabeça. 
Luz. 
Nem sequer havia pavimento alcatroado até à ponta rochosa.

A filha adolescente do velho tinha defendido a luz, sendo a sua instalação oferecida sem custos. A mãe abandonara marido e filha um ano antes, fugindo com um pintor que vinha todos os anos pintar paisagens nas férias. Nunca mais lhes tinha dito nada, mas o velho insistia que um dia ela havia de regressar. Nunca, dizia a filha. Tudo isto fora há bastante tempo.

— Como se chamavam?
— Talvez Zé.
— Quanto tempo lá viveu você?
— Não muito — respondeu, abanando de novo a cabeça. — Ainda há onze casas na ponta da ilha. Menos de vinte habitantes. Chamam-lhe Saquinho.

A costa estava vazia. Donazinha, a dona do café, estava a apagar as luzes. Fernando levantou-se e apertou-me a mão. No escuro, passou-me um exemplar do seu livro, um dicionário de expressões locais que juntara durante anos. Os urubus pretos e gordos vasculhavam as entranhas dos peixes na orla de areia que o progresso da maré encolhia.

Pus-me a caminho de Saquinho no dia a seguir, assim que a chuva parou de nos fustigar do Atântico Sul. Ao fim da tarde, as nuvens levantaram-se e dissiparam, iluminando subitamente toda a baía. Um espetáculo. Ninguém nos cafés tinha visto Fernando.

Quando a praia se tornou intransponível, subi desde a costa até uma estrada pavimentada na colina. Construções recentes de casas de férias muito elaboradas perfilavam-se no litoral, edifícios imponentes de três e quatro andares com jardins, terraços de vários níveis e fachadas de vidro contemplando o oceano. A maioria parecia trancada a sete chaves naquela época, com frontarias seguras e avisos de câmaras de vigilância. Outras estavam para venda ou ainda em obras, mas não vi ninguém a trabalhar. Ocasionalmente, havia uma divisão iluminada ou um carro estacionado dentro dos portões de entrada.

A estrada estava deserta. Toda a gente me tinha avisado que não andasse sozinho em sítios isolados no Brasil e nunca à noite, mas eu não pressentia qualquer perigo. Continuei, serpenteando pela colina arborizada, mergulhando e subindo a custo, com o mar sempre à vista, sempre audível. Encontrei então a primeira de três pessoas ao cair da noite.

Era um homem de pé junto a um muro, com barba por fazer, as mãos nos bolsos, à espera, como eu às faço às vezes. Teria uns quarenta anos, uma sacola pequena ao ombro esquerdo.

— É por aqui que se vai para Saquinho?
— Saquinho, pois sim. Continue. Quando a estrada acabar, siga pelo caminho sobre os montes.
— É longe?
— Uma hora. Talvez mais.

Agradeci-lhe, deixando para trás as casas de luxo. A estrada tornou-se mais estreita. Os lampiões laranja, fixos a altos postes de cimento, continuavam a tremeluzir. Pairava uma maresia que fazia o piso escorregadio. Se voltasse a chover, eu estava longe de qualquer abrigo. Dobrando uma curva acentuada, vi uma mulher com sacos de plástico em cada um dos braços. Estava debruçada à espreita por entre os arbustos, mas endireitou-se quando eu apareci.

— Olá. — Quis que ela percebesse que eu não representava perigo. Era idosa mas ágil, com calças de fato treino cor-de-rosa e uma blusa desportiva. Óculos de homem.

— Estou a juntar latas – explicou-me. — Valem dinheiro.

Os seus olhos azuis-claros perscrutaram-me.

— Eu vou até Saquinho.

Ela anuiu, mas fiquei sem saber se me compreendia. Desejei-lhe boa sorte. A estrada caía a pique no seu término. Escalei por ali acima, deixando a cada passo mais longe a mulher que procurava entre os arbustos. Agora as casas eram muito poucas, e não havia lampiões. Eu seguia por um trilho de pedra, como me informara o homem, mas lamentava ter partido sem pedir pormenores a Fernando.

Numa tabuleta lia-se “Solidão.” Seria impossível chegar à ponta antes que fosse noite. E se eu voltasse então pelo caminho estreito? 
A massa escura da ilha tornava-se indiscernível do oceano, exigindo-me que olhasse para os pés para evitar o precipício. Mesmo que chegasse a Saquinho, fazia muito escuro para ver o que fosse. Continuei na escalada, esperando a cada curva ver aparecer casas, ou outras pessoas. Talvez luzes.

Dei finalmente com um rapaz encostado ao parapeito rochoso. Se não fosse a sua T-shirt branca, nem teria reparado nele. Tinha uns treze, vinte anos. Um telemóvel iluminou-lhe o rosto. Era impossível passar sem roçar nele.

— Você vive em Saquinho?

Assentiu com a cabeça. Acenou várias vezes, cada gesto uma medida. Esperei que ele me deixasse passar, mas não se mexeu. Encaixei-me no parapeito junto a ele e perscrutei o horizonte obscuro e vasto, sem grande vontade de prosseguir.

A chuva desabou numa rajada do oceano. Um dilúvio. Empurrei o corpo contra as rochas para me proteger, com as suas arestas pontiagudas enterrando-se na minha carne. Quando abri os olhos muito depois, o rapaz desaparecera. Tinham caído rochas que bloqueavam o trilho estreito e as estrelas altas e brilhantes iluminavam a noite. Não fazia ideia que horas eram, não tinha outra hipótese senão desistir do fim da ilha e voltar pelo caminho estreito até à praia do Pântano.

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*Richard Simas é um escritor free-lance, com experiência em literatura e artes performáticas, particularmente música contemporâncea. Mora em Montreal e contribui regularmente para revistas de artes e literatura contemporânea. Seu trabalho foi publicado na Europa e América do Norte, incluindo o premio de antologia de viagem do Canadá e o premio Fiddlehead de ficção. É frequente colaborador de Revistas

de musica em Toronto.



The Point of the Island
(Texto original, em inglês)

"Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro – o rio."

«A terceira margem do rio» – Guimarães Rosa

Fernando suddenly switched from talking about local Tainha fishing to tell me about an old man who had opposed light being brought to an isolated settlement on the point of the island. I followed his glance to the rocks jutting into the sea at the far end of the small bay. He too had once lived on the point of the island when he first moved from the capital.

“How far away?”

Night was falling. Outside the grimy beachside café window, the fishermen gathered their possessions and dispersed. White water exploded in the distance every time a wave broke, marking the point.

“Why was he so against it?”

Fernando said the old man had not objected to cutting trees and suspending cables on high poles across the island. He was practical and understood how work had to be done. The houses in his settlement had been built with similar efforts. No, he had protested for fear of what might come afterwards.

“Come afterwards?”

Things they knew nothing about, Fernando answered, and didn’t even want or could foresee and prepare for as necessary. It would be too late to change afterwards, the old man had argued. No longer a choice. They had got along without lights and electricity ever since constructing the first house on the rocky point, choosing it for its isolation. Candles and oil lamps were satisfactory. There was firewood in the hills and the ocean provided fish. They found whatever else they needed in Pântano, the fishermen’s village. Fernando shook his head. Lights. There was still no paved road to the rocky point.

The old man’s teenage daughter argued in favor of lights when installation was offered at no expense. The mother had abandoned her husband and daughter a year earlier, running off with a painter who came each year to paint landscapes while on vacation. They received no word from her, but the old man insisted she would return someday. Never, said the daughter. All this was years ago.

“What were their names?”

“Perhaps Zé.”

“How long did you live there?”

“Not long,” again shaking his head. “Eleven houses remain on the point of the island,” Fernando said. “Less than twenty inhabitants. They call it Saquinho.”

The shoreline was empty. Donazinha, the café owner, was turning off the lights. Fernando stood and took my hand. In the dark, he handed me a copy of his book, a dictionary of local expressions he had collected over the years. Fat black turkey vultures scavenged fish entrails on the margin of sand narrowed by the advancing tide.

I set out for Saquinho the next day as soon as the rain stopped slashing in from the South Atlantic. In the late afternoon, clouds broke and lifted, suddenly illuminating the entire bay. A spectacle. No one in the cafes had seen Fernando.

When the beach became impassable, I climbed from the shoreline to a paved hillside road. Recent, elaborate vacation constructions lined the seafront, imposing three and four-story affairs with gardens, multi-level decks, and glass façades staring at the ocean. Most of them appeared shut and secured for the season with security barriers and warnings about surveillance cameras. Others were for sale or still under construction, but I saw no one working. Here and there a room was lit or a car parked inside the gated entry.

The road was deserted. Every one had warned me against walking alone in secluded places in Brazil and never at night, but I saw no danger. I continued, winding around the forested hillside, dipping and climbing, the ocean always in view, always audible. Then I met the first of three people that evening.

He was standing alone near a wall, unshaven, hands in pockets, waiting as I often do. Perhaps 40, a small pack hanging on his left shoulder.

“Is this the way to Saquinho?”

“Saquinho. This is it. Continue. When the road ends follow the path over the hills.” He smiled.

“How far?”

“An hour. Maybe more.”

I thanked him, leaving the luxury homes behind. The road narrowed. Orange lamps attached to high concrete poles flicked on. Drifting sea mist made the footing slippery. If it rained again, I was far from shelter. Rounding a sharp curve, I met a woman with plastic sacs over each arm. She was bent searching the bushes but straightened when I appeared.

“Hello.” I wanted her to understand I was not a threat. She was old but agile, wore pink stretch pants and a sweatshirt. Men’s glasses.

“I am collecting cans,” she explained. “They are worth money.” Her pale blue eyes searched me.

“I am going to Saquinho.”

She nodded, but I wondered if she understood me. I wished her luck. The road inclined abruptly as it ended. I climbed, with each step leaving the women searching the bushes farther behind me. There were few houses now and no road lamps. The trail was set with stones just as the man had informed me, and I regretted having set out without asking Fernando for details.

A sign read ‘Solidão.’ It would be impossible to reach the point before night. Then what about returning on the narrow path? The island’s dark mass had become indistinguishable with the ocean, requiring me to watch my feet to avoid the precipice. I hesitated to turn back after coming so far. Even if I reached Saquinho, it was too dark to see anything. I climbed on, hoping at each turn for houses to appear, or someone else. Perhaps lights.

I finally came upon a boy leaning against the rocky ledge. If not for his white t-shirt, I would not have noticed him. He was perhaps thirteen or twenty. A cell phone lit his face. It was impossible to pass without brushing against him.

“Do you live in Saquinho?” He nodded. “How far?” He waved several times, each gesture a measure. I waited for him toallow me to pass, but he didn’t move. I wedged into the ledge next to him and peered into the vast and obscure distance, not really wanting to go on.

Rain blew in from the ocean. A deluge. I forced myself against the rocks for protection, their sharp points digging into my skin. When I opened my eyes much later, the boy was gone. Fallen rocks from the hillside blocked the narrow path and high, bright stars lit the night. I had no idea of the hour, no choice but to abandon the point of the island and return by the narrow path to Pântano.


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(*) Richard Simas is a free-lance writer with a background in literature and the performing arts, in particular contemporary music. He lives in Montreal and contributes regularly to contemporary arts and literary reviews. His work has been published in Europe and in North America, including Canada’s Journey Prize anthology and a winner of a Fiddlehead Fiction Prize. He is a frequent collaborator for Musicworks magazine in Toronto.

(Conto originalmente publicado em "Natural in Verso" - Mariposa Azual, 2015 - Portugal)

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