quarta-feira, 13 de junho de 2018

DE TAINHAS, OVAS & MOELAS


A foto ilustrativa é do colega Cristiano Estrela
Seu peixeiro, cadê a ova da tainha que dona Salete comprou?
Estava no ônibus quando subi. Sentei-me ao lado dela. Logo pergunta:
- Vais fazer compras ou pagar conta?
- Pagar conta.
Dona Salete, uns 70 anos, queria conversar.
- Meu Deus! A luz tá muito cara: R$ 137 e uns quebrados. Vou pagar o telefone (R$ 59) e o carnê da prestação da TV (R$ 120).
É daquelas que gosta de provar o que diz. Mostra o boleto que vence dia 12 (hoje): dez prestações em dia. Faltam só cinco. Nada de atraso, né dona Salete?
- Lá em casa a gente não deixa atrasar nada. Todo mundo precisa de dinheiro, até o dono da loja.
Guarda o carnê. Acha a conta da luz:
- Quase R$ 138. E olha que a gente não deixa lâmpada acesa sem necessidade. Tem vizinho que fez gato (ligação clandestina), mas meu marido é um homem muito correto.
Elogiei. Furtar energia é crime e pode render multa e cadeia de até quatro anos.
- A gente aprendeu em criança: não se mexe e nem se pega nada dos outros.
Tá certa dona Salete. Melhor dormir com a consciência tranquila.
- Mas tem quem não pensa assim, sabia?
Sei.
- Tem gente que passa a perna, que tira vantagem, que faz os outros de tolo.
Concordo com Dona Salete.
- Nem falo de roubar coisa de valor, dinheirama que nem aquele político da mala cheia (ex-ministro Geddel Vieira Lima), esses que desviam remédios, os que explodem bancos.
Assino embaixo o que diz a seguir: Tem gente que suja as mãos por bobagem. Conta o que lhe ocorreu recentemente.

SURRUPIAR MOELA?

- Sábado fui ao mercado comprar tainha. Escolhi um peixe bonito, azul-escuro (como recomenda o marido, neto de pescador em Biguaçu), com ova amarelinha de dar água na boca. Paguei R$ 25. Pedi escalado pra assar no forninho.
Ela falava. Eu imaginava o prato.
- Como é bom, né? Também gosto muito de...
Dona Salete me interrompe:
- Acreditas que a tainha só chegou com uma ova?
Como assim?
- E nem moela tinha! 
Senti a frustração.
- Mas a senhora comprou uma tainha inteira? O que aconteceu?
Está convicta:
- Só pode ter sido o peixeiro, o que limpa o peixe. De certo ele pegou pra vender em separado depois, entendes?
Pensei na possibilidade. Mas achei mesquinharia. Furtar ova de tainha? “Uma”? Surrupiar moela? Isso é demais!
- E olha que quando ele me entregou o pacote com folha de jornal ainda perguntei se estava tudo certinho. 
A conversa mostrou o desânimo da dona de casa aposentada. Não só com o tal peixeiro:
- Como diz meu marido, que está aposentado e trabalha como pintor de parede pra ganhar um troco a mais, coisa assim fica feio até para a imagem do nosso Mercado Público.

PREÇO SALGADO

O ônibus chega ao Centro e nos despedimos. Passei por dentro do Mercado Público. Não sei em qual peixaria dona Salete fez a compra. Mas vi que o quilo das iguarias está salgado: R$ 60 (ova) e R$ 15 (moela). Encostei-me a uma banca e perguntei pro vendedor:
- É R$ 60 mesmo o quilo da ova?
A resposta foi atenciosa:
- Sim. Mas é o que tem de melhor, senhora. E rende muito! Experimente fritar ou assar. Já fez farofa?
Óbvio que pensei em dona Salete.
- Mas é muito caro: imagina uma ovinha dessas aí...
O moço reagiu:
- Moça, dependendo do tamanho do par dá pra duas, três pessoas.
Um salvo pra dona Salete:
- Mas é uma ‘tripa’ ou duas? Pergunto.
- Sempre em par, ova de tainha é sempre em par...

Anotei o número dessa banca. Vá que encontre dona Salete por aí. Quero ajudá-la a comprar confiante sua tainha ovada e com a devida moela.

(Da jornalista Ângela Bastos)


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