quinta-feira, 31 de maio de 2018

A PRIMEIRA A GENTE NUNCA ESQUECE...


"Eram os idos da década de 80 e já iam longe as calendas de maio. Uma rádio FM local oferecia a publicitários e jornalistas uma festa regada a bom uísque, bom vinho e outras bebidas nem tanto, mas tudo boca-livre. E o prato principal ? Tainha ! Dito assim parece qualquer coisa, mas era uma mesa com muitas variedades de tainha recheada, suponho que preparadas por mais de um chef. 

Estávamos na era de ouro da freqüência modulada e das agências de propaganda, as comemorações eram muitas e fartas. Dizer que eu me lembro dos magníficos recheios e das saborosas guarnições ? Mentira. Tratávamos os acepipes com uma indiferença blasé, interessados nas fofocas e tendências do meio profissional, bem como nas belezas que circulavam no ambiente – o qual, aliás, merece um parágrafo à parte. 
O local tinha um nome que não deixava antever aquilo que mais tarde se classificaria como spa. Primeiro, aberto a quem pagasse, um tempo depois restrito à fina flor dos poucos endinheirados da city. Piscina, sauna, salões de ginástica, ambientes de repouso, tudo muito funcional e sem frescura. Mas era possível perceber que a cara manutenção necessitava de quantidades off-shoreanas de dinheiro e por isso, havia que se restringir a freqüência a pessoas realmente detentoras de “posses”. 
Era devidamente afastado do centro da cidade para que eventuais aventuras de executivos com seus casos ocultos não fossem facilmente detectadas. Na época, o bairro era deserto e havia pouquíssimos moradores e comércios. Isto posto, voltemos às tainhas. Estavam deliciosas, mas a batalha por um naco era insana.
 Sem pensar no colesterol e na quantidade de lipídios ingerida, só quando estava lá pela terceira ou quarta pratada é que caiu a ficha. E, então, o que restava ? Beber ! e dá-lhe quantidades industriais de uísque e vinho, misturadas ao final com conhaque, já que os cozinheiros capricharam no sal. Não levou muito tempo para que eu tivesse que sair até o estacionamento e devolver à natureza os nutrientes que ela tão prodigamente tinha me proporcionado. E, devidamente ébrio – naquele tempo não dava cadeia – dirigi até em casa sem maiores incidentes. E aquela “instituição” ficava a uns bons quarenta quilômetros de casa. Por isso, talvez o melhor título seria “não foi a primeira, mas foi inesquecível”.

(Do Serginho, o Sergio Maluf Torres - jornalista à moda antiga, publicitário ainda ativo, compositor de música popular. Nascido pé-vermelho, curitibano por adoção, andou pelo mundo afora pra aprender a amar Pindorama.)

ESCALANDO O PEIXE...


Ilustração Andrea Ramos
"E até a madrugada, nessas cozinhas e varandas inundadas de peixe, há uma alegre algazarra de faina que só termina quando a última tainha é escalada. A essa hora então, empilhados os balaios cheios a um canto, onde ficam a escorrer, e despejadas e arrumadas as gamelas, pegam-se em oito ou dez tainhas —, conforme o número de pessoas — e, preparadas, escamadas e reduzidas a postas, são lançadas à panela para o caldo ou peixada da ceia.
 O caldo é o peixe cozido em água e sal, com tomate, cebola verde e poucos outros temperos. É prato simples e comum, mas ali tão bem feito às vezes que constitui excelente repasto. Em geral, ao largar do serviço já a peixada está pronta, pois que fôra cuidada antecedentemente.
 Livre e arranjada a varanda, puxa-se um largo estrado portátil, muito usado na roça como mesa para as refeições, e, estendida sobre ele uma pequena toalha alvíssima, que as mais das vezes não cobre senão a parte central, colocam-se os pratos em quadrado, põe-se-lhes ao pé a panela, com a competente colher de pau para tirar-se o caldo. 
Sentados todos aos seus lugares, a menagère entra a servir — primeiro ao marido que está a seu lado, em seguida aos filhos e outros pela gradação das idades. Um molho de laranja-azeda ou limão, com uma porção de pimentas esmagadas, enche ao centro um prato fundo, junto à cesta da farinha forrada de pano por dentro e junto à travessa colossal onde as postas alastram em montículo.
 Com o seu prato de caldo em frente às pernas, cruzadas comodamente à beira do estrado, cada um abarrotado de farinha, deixando porém um lugar aberto, por onde, antes de mexer o pirão, bebe algumas colheradas... Finda a ceia com uma tigela de café, após a qual todos se vão deitar."

(Virgílio Várzea, no livro Santa Catarina — A ilha. Rio de Janeiro, 1900)

MAR DE POETA

Foto Andrea Ramos
ABRAXAS

Pântano do Sul, março, 1975, Um galo
flameja na soleira do botequim, arauto
da estação feroz. Tudo mergulha
nas cinzas, tu pensavas. Habitual
sobrevivente das marés, nada
te foi dito nem cobrado.
Resignado,
resolvestes ficar por ali. Sozinho.
Apoiado no balcão, duplicado na retina
Impertinente da ave empolgada entre
garrafas, dominós, e um jornal
amassado.
Arrancando as ataduras
interrogas o forasteiro. Fala quase
com doçura e te chamavas Coimbra.
Muitos passaram por ali sem
ver a duna perfeita além
da janela, rasgada pelo corno
da lua. Amordaçados, foram
vendidos em Tanger todos os filhos
da casa. Descendias daquele que
escondeu-se na tulha de azeite.
Sim, gentil Coimbra, dormias sempre
no fundo de algum barco, no morno
rancho da praia. Mostrou-me
logo a moeda: era verde
o
perfil régio, quase apagado.
Na outra face estava
o galo. E o chicote de Abraxas.

(Rodrigo de Haro, em "Andanças de Antonio", 2005)
Rodrigo de Haro (Paris, França 1939 ). Pintor, desenhista, gravador, escritor, poeta e contista. Divide suas atividades profissionais entre Florianópolis e São Paulo. Em 1958, realiza sua primeira exposição individual na Faculdade de Direito de Florianópolis. Em poesia, atua, desde 1960, como organizador do movimento surrealista e tem seus poemas publicados em livros no Brasil e em antologias na Espanha e Estados Unidos.

TRABALHADORES DO MAR

Foto Fernando Alexandre
"Barrinha" e o peso das redes - Pântano do Sul

O GOVERNADOR E AS TAINHAS!


Quando governador de Santa Catarina, na década de 50 do século passado, Jorge Lacerda fez parte da camaradagem da pesca da tainha no Pântano do Sul.
Na foto, que faz parte do acervo do Bar do Arante, puxava a rede, da esquerda para a direita, o Negão do Sertão, Sêo Anibal, o Governador Jorge Lacerda, João da Júlia, Deca do Tomáz, Hilário e Chico Tomáz.
Ganhou peixes e provavelmente muitos votos!

* Se você tem ou descobriu alguma foto da pesca da Tainha nas antigas, envie ou indique para nós no www.tainhanarede@ig.com.br que publicaremos.
Vamos recuperar a memória da pesca no nosso litoral?

QUERENDO PESCAR TAINHAS

Em Santa Catarina, 110 embarcações foram liberadas - Divulgação

Expectativa na pesca da tainha em SC para divulgação do resultado dos recursos

Embarcações de emalhe anilhado aguardam recursos junto a SEAP para poder ir para o mar 

EVERTON PALAORO, PALHOÇA 

Um grupo de 21 proprietários de barcos pesqueiros aguarda a publicação do resultado do recurso para poder ir ao mar. Eles fazem parte de um conjunto de barcos que não tiveram a documentação aprovada na semana passada. Eles tiveram até segunda-feira (28) para recorrer da decisão publicada na portaria 24, da Secretaria Especial da Aquicultura e da Pesca. A expectativa é que a nova relação seja divulgada nesta quarta-feira (30).

José Henrique Francisco dos Santos, Secretário de Maricultura, Aquicultura e Pesca de Palhoça, e um dos lideres do movimento do setor, explica que mais uma vez os pescadores são prejudicados. Segundo ele, apesar dos avanços como a cota de captura global, a burocracia trava o setor. “Vimos que nada mudou na desorganização e falta da capacidade de publicar em tempo hábil as portarias, pela pouca estrutura da SEAP”, lamentou.

Segundo ele, os prazos de abertura da pesca começaram e muitos pescadores não receberam as licenças. Ele cita como exemplo a pesca da tainha de canoa. “Iniciaram no dia 1º maio e as embarcações com rede anilhada não receberam as licenças até hoje”, reclamou.

Ao todo, a região sul do pais teve 149 pedidos de renovação da licença protocolados. Desse total, 110 foram liberados, outros 21 aguardam recurso e outros 18 sequer tiveraram essa oportunidade, sendo inabilitados.

Santos explica que há possibilidade da pesca industrial, que começa na sexta-feira, abrir sem que as embarcações pesqueiras estejam licenciadas. “Mais uma vez o pescador foi enganado quanto a questão dos prazos que foram acordados com a equipe do governo federal. E tenho certeza que as embarcações indústriais não terão suas licenças no prazo previsto para 1º de junho. A portaria sequer foi publicada”, lamentou.

Outra crítica do setor é em relação ao efetivo do Escritório Federal de Aquicultura e Pesca, que teve o efetivo reduzido de 20 para apenas quatro profissionais. No estado, pelo menos 70 mil processos estão na fila de espera para serem análisados. “Faltam investimentos também em pesquisa, que comprovem a real situação dos estoques de espécies”, lembrou.

(Do https://ndonline.com.br/)

quarta-feira, 30 de maio de 2018

TAINHA CRÔNICA


Foto Andrea Ramos
As ovas e o Mercado
"Tagenias. Ou, em grego arcaico, bom para frigir. Principalmente as ovas douradas. Aos poucos, o corpo prateado, de listras escuras no dorso, começa a frequentar as bancas do Mercado, exposto e empilhado como numa morgue da boa gastronomia. Quando deparo com uma “tagenias”, sinto vontade de repetir o ritual de minha avó. Aperto o peito oliváceo de uma delas, duplamente ovada, a boca semiaberta no último esgar da morte. 
Quase levo um susto quando a tainha pisca um olho pra mim, como quem seduz: – Me leva! Sou gostosa, assada ou frita! Aliás, meu nome diz que sou boa para fritar, mas também para ser tostada num braseiro. E às minhas ovas, então, quem resiste? Elas humilham até o caviar... Fritas. As ovas e as postas.
 É como gosto de comê-las, umas como aperitivo. Outras como peixe nobre, embora um tanto gorduroso. Ovas de tainha são “prêmios”, especiarias inigualadas por qualquer outro fruto do mar, aí incluídas as outras espécies de fina estirpe, como as de esturjão, muito salgadas, transformadas em caviar. 
Entre as ovas da nossa tainha mané, que vêm ali da Lagoa dos Patos, e as ovas dos esturjões do Báltico, meu palato é mané e não abre – ou, por outra, a única coisa que abre é a boca, pra comer mais. Pelas manhãs do Mercado Público evolam-se cheiros da Provence, terra que trata os prazeres da mesa, do prato e do copo com a devoção digna de um sacramento. Todo o sul da França é considerado um “mercado ao ar livre”, o próprio ar recende a orégano, alecrim, funcho, alfazema e tantas especiarias herbáceas que qualquer “matinho” tanto pode esconder um mero jardim quanto um fornido guarda-comida. 
Nosso Mercado deveria zelar por esses cheiros e por esse colorido provençal. Tomara que, a pretexto de organizar um novo mix, e de promover uma democracia licitatória, não acabem estragando o que já está bom. E que não encontremos ali, no futuro, algo antinatural, como alguma filial de muambas do Paraguai. 
Boxes que não se destinem à natural vocação da velha casa amarela: ser um tabuleiro de legumes, verduras, frutas, peixes, carnes, víveres, bistrôs para se viver a vida, consumindo umas e “ostras”. Neste outono que se desenha promissor à temporada das tainhas ovadas, vale a pena extrair de um romance de mestre Eça de Queirós – A Ilustre Casa de Ramires – uma receita de tainha bem assada: 
“Aqui está como se prepara, ó estudiosos! Tomai uma tainha. Escamai e esvaziai. Preparai uma massa bem batida com queijo (que pode ser parmesão), azeite, gema de ovo, salsa e ervas fragrantes, e recheai com ela a vossa tainha. Untai-a então de azeite e salpicai-a de sal. Em seguida, assai-a num lume forte. Logo depois de bem passada e alourada, umedecei-a com vinagre superfino. Servi – e louvai Netuno, deus dos peixes...” 
Essa ova “manufaturada” por Eça perde para as nossas ovas naturais, gêmeas, geradas no ventre das nossas tainhas manés. Mas – vinda de quem vem – não custa nada reconhecer que a receita tem lá o seu estilo..."

SÉRGIO DA COSTA RAMOS

(Crônica publicada na edição de 6/4/11, no Diário Catarinense)

TRABALHADORES DO MAR

Foto Fernando Alexandre

TAINHAS, PORTUÑHOL E MERCOSUL!


Ilustração Andrea Ramos
"Cuando eu avisei que pensaba viver uma temporada no Brasil, em la ilha, um amigo falo para eu : “ nao deje de “saborear “ la tainha.! Eu pregunte a ele, insistentemente, que era la TAIÑA , pero ele nao dijo nada mais para eu.
Eu fique pensando varias opciones: Si era un tipo de objeto sexual desconhocido, o si era um noivo tipo de caipirinha, o quiza uma noiva música, porque ele dijo “ saborear “.

Pero a pouco menos que dois meses morando en Pantano, eu vi meu primer arrastron, e ahí los pescadores decían ; tainha, tainha. Entao comprendi porque ele decia “ saborear “, porque eu tive mi primera tainha en la boca! Ese peixe que se deshace e na boca, saboroso, suave, gostoso. Esas escamas, su piel, que refleja o sol mañanero. Ese peixe noble, puntual, que se oferece a los pescadores cada año, para que eles continúen con su ritual, mais ala de la posmodernidad.

Agora eu sé que é uma tainha, e tambein sé que és uma “ tainha na rede “.
Muito obrigada Brasil, muito obrigada tainha! "

(Perla Harduy, psicóloga e escritora argentina (no mais legítimo portunhol)

MAR DE MONET


"Beach in Pourville", uma pintura do artista impressionista francês Claude Monet que foi roubada em um museu da Polonia em 2000 foi recuperada após dez anos pela polícia polonesa. Na época, o quadro era avaliado em US$ 1 milhão.

MONITORANDO A TAINHA

Foto: Matias Quinteros

Grupo de trabalho irá monitorar a pesca da tainha

Nesta terça-feira (29), foi instituído comitê formado por governo e sociedade civil para monitorar a pesca da tainha em 2018. O grupo tem como responsabilidade acompanhar a safra e apontar quando as capturas alcançarem os limites estabelecidos para este ano, fixado em aproximadamente 3.400 toneladas. Estarão sendo acompanhadas pelo grupo a pesca industrial de cerco/traineiras e a pesca artesanal de emalhe anilhado, com base em dados de entrada de tainha nas indústrias de Santa Catarina. Quando as cotas forem alcançadas, o grupo recomendará o fechamento da pescaria.

O Comitê é composto por representantes da Secretaria Especial da Aquicultura e Pesca (SEAP/PR), do Ministério do Meio Ambiente (MMA), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos (IBAMA), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), da Organização Não-Governamental OCEANA, do Sindicato dos Armadores e das Indústrias da Pesca de Itajaí e Região (SINDIPI), do Coletivo Nacional da Pesca e Aquicultura, do Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP), e da Associação dos Pescadores Profissionais Artesanais de Emalhe Costeiro de Santa Catarina (APPAECSC).

De acordo com o diretor geral da Oceana no Brasil, Ademilson Zamboni, a instalação do grupo é um passo fundamental para concretizar os avanços no ordenamento da pesca da tainha no país traduzidos na adoção das cotas de captura e avaliação de estoque periódicas
“O comitê de monitoramento tem o importante desafio de acompanhar de perto a aplicação dos instrumentos de gestão da pesca dessa espécie e ajudar a garantir o futuro dessa pescaria. A Oceana tem orgulho de fazer parte desse processo” concluiu.

(Do http://brasil.oceana.org/)

terça-feira, 29 de maio de 2018

FARSU VERANICO

Foto Fernando Alexandre

MINHA ILHA?

DESTERRO EM 1786
Minha ilha?

Minha ilha são muitas. Vasto arquipélago de palavras, costumes, cores, belezas e odores. Pedaços desgarrados ansiando, à deriva, sonhando com uma África distante, utópica. Cumprindo sua sina, sua saga. De frente para tudo, de costas para o infinito. Sempre abraçada, envolta pelo mistério profundo das águas, dos mares e oceanos que nos unem e nos separam para sempre.

Minha Ilha ?

Minha ilha ainda é a “”Meiembipe” dos “cariós”, amistoso povo da nação Tupi-Guarani que migrou do chaco paraguaio para cá no século XIII em busca do Atlântico. Primeiros moradores e donos absolutos por cerca de três séculos deste paraíso com mais de cem praias, lagoas, enseadas, muito verde e mar prá tudo quanto é lado. Amistosos e valentes “Cariós” que os primeiros navegadores aqui encontraram – antes mesmo desse tal “descobrimento” de 1500 – e dividiram com eles suas baías e portos seguros, sua água potável e abundante, sua madeira para os reparos nas embarcações, seu milho e sua mandioca. “Cariós” que os “descobridores” insistiram em chamar pejorativamente de “Carijós” (um tipo de galinha), e também em caçar e escravizar até a extinção em menos de dois séculos. Minha ilha continua “carió” no pirão d’água, no caldo de peixe, nas canoas de Guarapuvus, nas redes de pesca, nos balaios, nas palavras, na medicina, no seu imaginário.

Minha ilha?

Minha ilha , com certeza é portuguesa. E também muito açoriana nas 6 mil almas que aqui desembarcaram lá pelos anos de 1750. De ilha para ilha. Desterrados em Nossa Senhora do Desterro. Na memória e na bagagem, uma forte religiosidade, uma rica literatura popular, uma culinária diversificada, rituais, danças, festas. Minha ilha tem bruxas, lobisomens, boitatas. Bruxas açorianas, cariós, contemporâneas. Bruxas que resistem nos costões desertos, nos ranchos de canoa das poucas praias ainda isoladas, no meio de suas matas cada vez mais devastadas, no fantástico imaginário de seus moradores: “...Tosca marosca, rabo de rosca / Aguilhão nos teus pés / E relho na sua bunda / Por cima do silvado e por baixo do telhado / Aqui vamos nós com mil diabos.”

Minha ilha? 

Minha ilha não quer ser Florianópolis. Não quer homenagear nenhum “marechal de ferro” sanguinário, que depois de fuzilar quase duzentos de seus filhos troca o nome da cidade para humilhá-la e espezinhá-la ainda mais. Minha ilha não quer ser Miami. Não quer abrigar esse turismo predatório que transforma tudo numa mesma coisa em troca do dinheiro fácil e rápido. Minha ilha quer continuar sendo diversa e variada, alegre e colorida.

Minha ilha?
Minha ilha tem um povo simples, alegre, que fala “ansim, ansim, cantadinho, cantadinho, num tem?”. Um tal de “manezês”, essa estranha, surpreendente e sonora língua que causa “invejume” em muitos e tá sempre “istrovando” o chamado português culto. Minha ilha é mulher generosa, cortesã que sempre abrigou todos em suas reentrâncias, cantos, encantos e recantos. Todos. Navegantes, desterrados, amotinados, fugitivos, sonhadores.

Minha ilha?
Minha ilha é agora. E aqui.
(Fernando Alexandre)
( Crônica originalmente publicada na revista "Almanaque Brasil", fevereiro de 2000)

MALHEIRAS

Foto Fernando Alexandre

TAINHA SERRA & MAR

Resultado de imagem para receita de tainha recheada com farofa de pinhao

Tainha recheada com farofa de pinhão

Ingredientes

Peixe
• 1 tainha de 1,5kg sem a espinha 
• Sal, alho e pimenta do reino a gosto

Recheio
• 200g de pinhão cozido e triturado
• 100g de bacon
• 1 cebola picada
• 300g de farinha de trigo
• Sal e pimenta em grão a gosto
• 100g de manteiga

Modo de preparo
1. Tempere a tainha com sal, alho e a pimenta a gosto e leve ao forno convencional por 45 minutos
2. Em uma frigideira coloque a manteiga, a cebola, o bacon, sal a gosto, o pinhão e refogue. Em seguida acrescente a farinha e mexa até virar uma farofa, reserve
3. Em seguida recheie a tainha com a farofa

MALHEIRAS

Foto Fernando Alexandre

A PRIMEIRA TAINHA A GENTE NUNCA ESQUECE...

"...tô lembrando que a primeira vez que ganhei uma tainha, fresquinha tremelicando, rebrilhando ainda, não pedi, colocaram em minhas mãos.

Era época de fartura. Ponta das Canas todinha estava prateada naquela manhã junina. Bandos de gaivotas, mergulhões, os pássaros que por ali passavam migrando para ondas polinésicas, as fragatas, atobás, alguns pingüins desencontrados, a gentarada, cachorros, lagartos, se misturavam ruidosamente num carnaval fora de tempo, num banquete gratuito: o verdadeiro milagre dos peixes...

Abri a danada meio que com dó e deparei a barrigada alaranjada e joguei tudo fora. Um nativo curioso que passava riu e disse que a parte melhor da tainha, as ovas, eu dispensei. Aprendi um pouco naquele dia sobre peixes e os interiores misteriosos dos seres do mar....."


(Ivan Messiano, poeta e escritor paulista que durante muitos anos morou na Ilha de Santa Catarina)

EMBRULHANDO O PEIXE


A TRISTE PREVISÃO DO BRUXO!

Foto Fernando Alexandre

"...Mas as festas da pesca da tainha está por terminar. Os barcos de alto mar pescam as mantas antes que cheguem às redes dos tradicionais, valorosos e históricos pescadores ilhéus. 
É o progresso, sem dúvida, mas é pena..."

(A. Seixas Netto, em 1971)

segunda-feira, 28 de maio de 2018

TODOS OS BARCOS

SELFINHA


O Selfie da tainha, pela Marciele Galvão, pescadora de São Francisco do Sul!

RAINHAS DO MAR

Em Repouso - Pântano do Sul - Z II
Foto Andrea Ramos

ÁGUAS PASSADAS...

Foto Fernando  Alexandre

É PEIXE PRA DUAS CANOAS...

Luiz Henrique Rosa canta "Lugar Comum" de João Donato e Gilberto Gil. Programa "Estamos Aí" com cenas da praia do Santinho, Florianópolis, em 1981. Uma verdadeira raridade.
Nunca se soube que o grande músico catarinense pescasse tainhas, mas observem que em algumas cenas ele aparece no costão do Santinho abanando a camisa. Segundo os pescadores de tainhas, ele está sinalizando que é peixe para duas canoas...

TROPEÇANDO NA NOITE

Foto Fernando Alexandre

"LIZAS", TAINHAS DO CHILE

Fotos Daniel Santini

Lizas... as Tainhas no Mercado Central de Santiago, no Chile, em dezembro/2017!
4.000 / 4.800 pesos chilenos a Liza, convertendo fica em torno de 20 reais o kg.

(Fotos e informações do Daniel Santini)

MATADORES DE PEIXE...


Um ensaio com cheiro de sal e gosto de vento Sul, de Jean Schwartz, sobre a pesca da tainha na Ilha de Santa Catarina. Jean nasceu em Porto Alegre, em 1976. Um fotógrafo autodidata. Mergulhe mais fundo no www.jeanschwarz.com

OLHANDO ILHAS, ESPERO...

Foto Fernando Alexandre

domingo, 27 de maio de 2018

FÉ EM DEUS, OLHO NO MAR!

Foto Fernando Alexandre

SIMPLES E BÁSICO


TAINHA NA TAQUARA

Limpe as tainhas, desprezando a cabeça, as víceras e barbatanas. 
Porém as escamas deve permanecer. A tainha deve ser escovada internamente para retirada de toda gordura em excesso.
Tempere unicamente com sal a gosto e nada mais.
Encaixe as tainhas nas taquaras ( bambu), e coloque pra assar com a barriga para cima. Depois de uns 30minutos vire-as com a barriga pro fogo. Deixe assar até escorrer o liquido interno.
Sirva. Agora sim pode acrescentar suco de limão.

Dando nome às tainhas...


Curimã - Como são chamadas as tainhas no Nordeste brasileiro, principalmente na Bahia.

ESCAMBO NA PRAIA SEM TAINHAS!


DE TAINHAS & GASOLINA

Foto: Betina Humeres via DC.
Em Florianópolis, no Mercado Público, comerciante faz oferta na manhã deste sábado!
"Compre tainha e concorra a 10 litros de gasolina"

CERCO ILEGAL


sábado, 26 de maio de 2018

SECANDO AS REDES



MARISCOS DO DON PABLO

Foto Duda Hamilton
Porque hoje é sábado...
Ai vai...

O que precisa

 -1 kilo de Mariscos, pré cozidos e sem casca
-  2 cebolas roxas
- 2 dentes de alho
- 2 tomates médios
- 1 pimentão vermelho médio
- 2 limões galegos...

Fazendo...

 Tudo bem picadinho, para temperar, suco dos 2 limões galegos, uma pitada de vinagre de maçã, azeite de oliva extra virgem, sal pimenta do reino moída na hora e grãos de coentro a gosto. 
Para finalizar um pouco de salsinha bem picadinha, se mistura tudo e se deixa descansar por no mínimo meia hora. 
Comer sozinho ou com uma bolachinha, torradinhas ou pãenzinhos e uma cervejinha bem gelada. 
Buon apetit mon ami!

( Do Pablo Corti, arquiteto de gostosuras e otras cositas más!)

NA PRAIA

Em Bombas!

(via Silézio Sabino)

AO MAR!


NA ESPERA E NA ESPREITA

Foto Fernando Alexandre
"Osmarina", com novas cores, esperando as Tainhas!

sexta-feira, 25 de maio de 2018

ESTOPINHA NA MESA

A professora Luciana W. Krause Bernardes ensina a fazer o prato que era bastante comum no cardápio dos primeiros moradores de Itajaí (e que ilustra esta matéria). É uma boa opção para se preparar com aquela sobra de feijão e com peixes como cação ou emplastro. A receita serve duas pessoas: 

Ingredientes: 

Para a estopa:
 • 400g de cação cortados em cubos médios 
• 100g de cebola em cubos pequenos 
• 2 dentes de alho picados 
• Colorau a gosto 
• Alfavaca ou manjericão rasgado a gosto 
• Sal e pimenta a gosto 
• 10ml de óleo 

Para o pirão de feijão: 

• 300 gramas de farinha de mandioca 
• 200 gramas de feijão preto cozido com o caldo 
• 30 gramas de bacon em cubos pequenos 
• Cebola picada e alho esmagado a gosto 
• Sal e pimenta-do-reino a gosto 

Modo de preparo: 
Para a estopa de peixe: 
1 Suar o alho, acrescentar a cebola e o colorau (fogo brando para não queimar). 
2 Acrescentar o peixe, cozinhar e mexer até que ele esteja desfiando. 
3 Conferir o sal e finalizar com gotas de limão, manjericão, salsa e cebolinha. 

Para o pirão de feijão: 
1 Suar o alho e a cebola no bacon (frito). 
2 Acrescentar o feijão com o caldo e esmagar um pouco os grãos. 
3 Desmanchar a farinha de mandioca com água fria. 
4 Colocar a farinha de mandioca na panela mexendo bem para não criar grumos. 
5 Temperar com sal, pimenta do reino e finalizar com cheiro verde, se preferir.

ESPERANDO O NORDESTE!


Foto Fernando Alexandre

Vento sul é quem traz o peixe!
Mas o Nordeste é quem encosta!
(Sabedoria praieira)




MAR DE POETA


Ao longe, no vilarejo,
cada janela parece
tremer à luz de uma vela,
(na vigília de uma prece).

Primeira estrela que vejo
satisfaça esse desejo:
todo dia, em cada casa,
uma tainha na brasa. 

(Josely Vianna Baptista, poeta e tradutora)

OUTRAS TAINHAS...


Ver tradução!

quinta-feira, 24 de maio de 2018

DE OLHO NO PEIXE!

Foto Fernando Alexandre

Capitão Ademir, "patrão", Fabrício e Geisiel, "remêros" e "Pezão", "camarada"!

NA ESPERA E NA ESPREITA!

TAINHAS DO EGITO!


Aquicultura e produção de rações e peixes no Egito

O Egito é o maior produtor de tainha (Mugil cephalus) do mundo e também um dos maiores produtores mundiais de tilápia-do-Nilo!

Terceiro lugar na lista dos artigos científicos mais baixados da revista Aquaculture (Elsevier) nos últimos 90 dias, o Artigo “Value chain analysis of the aquaculture feed sector in Egypt”, de El-Sayed e colaboradores (v. 437, fevereiro de 2015, p. 92-101), mapeou e analisou a indústria de rações no Egito.

Peraí… A primeira pergunta que vem em mente é se a aquicultura do Egito é tão expressiva assim a ponto deste artigo ser bastante “requisitado”? A resposta é sim!

Em 1992, o Egito produzia apenas 64 mil toneladas de peixes, o equivalente hoje aos estados brasileiros de Rondônia ou São Paulo. Em 20 anos, sua produção piscícola aumentou para 1 milhão de toneladas (2012), o que representa 74% do total da aquicultura egípcia. Neste mesmo período, a área de cultivo ampliou de 42 mil para 120 mil hectares. Sim, eles produzem mais peixes que o Brasil, bem mais…

O Egito é o maior produtor de tainha (Mugil cephalus) do mundo e também um dos maiores produtores mundiais de tilápia-do-Nilo, e detalhe importante: lá as tilápias são nativas! No total, o país cultiva 14 diferentes espécies de peixes e duas espécies de crustáceos, sendo 10 espécies nativas e 6 exóticas. As carpas chinesas também têm destaque no Egito (70 mil ton./ano).

Figura 1. Despesca de tilápias em uma fazenda do Egito (Fonte: picssr.com)

Os principais resultados do artigo científico mostraram que a indústria de rações no Egito é relativamente simples e congrega somente quatro principais grupos produtores. Eles são compradores de insumos, produtores de ração, beneficiadores de pescado, atuam no mercado e ainda engordam os próprios peixes.

De 50 a 99% dos ingredientes das rações produzidas no Egito são importados. Cerca de 90% das rações são produzidas pelo setor privado, onde 80-85% são peletizadas e somente de 15 a 20% são extrusadas (quem sabe uma oportunidade para fabricantes de extrusoras?). Aproximadamente 85% das rações são vendidas diretamente para os produtores e apenas 15% para atacadistas.

Com relação à empregabilidade, a média é de 3,9 empregos para cada 1.000 toneladas de ração produzida. Apenas 10% das fábricas de ração são estatais e nelas a taxa é de 90,3 empregos para cada 1.000 toneladas produzidas. Brasil? Não, Egito!

YES, THEY HAVE TAINHA!


Pesca da tainha na costa da FLorida, Estados Unidos, onde ela é chamada Gray Mullet. E notem: É no mês de janeiro.

TAINHAS: OS PEIXES QUE PULAM

Rio Mamanguape - Foto J. Pontual
Pescadores do Estuário do Rio Mamanguape, na Paraíba, contam que tainha, tamatarana e curimã (Mugilidae) são os principais representantes dos “peixes que pulam”, fenômeno comportamental relacionado, principalmente, à fuga dos predadores. Estes peixes chegam a sair da água quando acuados por predadores. Pelo fato de conhecerem bem os “peixes que pulam”, os pescadores desenvolveram uma estratégia de pesca específica, denominada de “zangareia”, para capturar os cardumes de tainha.
Esta técnica consiste na fixação de rede vertical disposta longitudinalmente no fundo da canoa. A operação envolve várias canoas e ocorre em noites escuras, preferencialmente na lua nova. Dez canoas ou mais, cada uma contendo dois tripulantes e um “tocheiro” (lampião de querosene), colocam-se em fila dupla em busca de algum cardume de tainha. Os peixes saltam “encandeados” pela luz dos lampiões e ao baterem na zangareia acabam caindo dentro da canoa. Estas informações fazem parte de um estudo realizado por José da Silva Mourão e Nivaldo Nordi.

QUINHÃO...

 

A nossa sorte
está nas posses
do Patrão:

que tem a rede
o barco
e o caminhão:

que divide o peixe
com a justiça
na sua mão:

a cada homem
a cada coisa
o seu quinhão:

conforme o ritos
sacralizados
da tradição.

(Pedro Bertolino/ Fpolis./ 04.05.014)