quarta-feira, 12 de julho de 2017

MAR DE EDUARDO GALEANO

Ilustração Andrea Ramos
AS MARÉS

"Antes, os ventos sopravam sem cessar sobre a ilha de Vancouver. Não existia o bom tempo nem havia maré baixa.
Os homens decidiram matar os ventos.
Enviaram espiões. O mirlo de inverno fracassou; e também a sardinha. Apesar de sua vista ruim e de seus braços quebrados, foi a gaivota quem pôde enganar os furacões que montavam guarda na casa dos ventos.
Os homens mandaram então um exército de peixes, que a gaivota conduziu. Os peixes se jogaram junto à porta. Ao sair, os ventos pisaram neles, escorregaram e caíram, um atrás do outro, sobre a arraia, que os enrolou com a cauda e os devorou.
O vento do oeste foi agarrado com vida. Prisioneiro dos homens, prometeu que não sopraria continuamente, que faria ar suave e brisas ligeiras e que as águas abandonariam as margens duas vezes por dia, para que se pudesse pescar moluscos na maré baixa.
Perdoaram sua vida. O vento do oeste cumpriu sua palavra."

( Eduardo Hughes Galeano (Montevideo, dia 3 de setembro de 1940 - 13 de abril de 2015), jornalista e escritor uruguaio em "Os Nascimentos" - "Memória do Fogo" - Vol. 1 - L&PM Editores - 1996 )

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