segunda-feira, 12 de junho de 2017

MINHA ILHA?

DESTERRO EM 1786
Minha ilha?

Minha ilha são muitas. Vasto arquipélago de palavras, costumes, cores, belezas e odores. Pedaços desgarrados ansiando, à deriva, sonhando com uma África distante, utópica. Cumprindo sua sina, sua saga. De frente para tudo, de costas para o infinito. Sempre abraçada, envolta pelo mistério profundo das águas, dos mares e oceanos que nos unem e nos separam para sempre.

Minha Ilha ?

Minha ilha ainda é a “”Meiembipe” dos “cariós”, amistoso povo da nação Tupi-Guarani que migrou do chaco paraguaio para cá no século XIII em busca do Atlântico. Primeiros moradores e donos absolutos por cerca de três séculos deste paraíso com mais de cem praias, lagoas, enseadas, muito verde e mar prá tudo quanto é lado. Amistosos e valentes “Cariós” que os primeiros navegadores aqui encontraram – antes mesmo desse tal “descobrimento” de 1500 – e dividiram com eles suas baías e portos seguros, sua água potável e abundante, sua madeira para os reparos nas embarcações, seu milho e sua mandioca. “Cariós” que os “descobridores” insistiram em chamar pejorativamente de “Carijós” (um tipo de galinha), e também em caçar e escravizar até a extinção em menos de dois séculos. Minha ilha continua “carió” no pirão d’água, no caldo de peixe, nas canoas de Guarapuvus, nas redes de pesca, nos balaios, nas palavras, na medicina, no seu imaginário.

Minha ilha?

Minha ilha , com certeza é portuguesa. E também muito açoriana nas 6 mil almas que aqui desembarcaram lá pelos anos de 1750. De ilha para ilha. Desterrados em Nossa Senhora do Desterro. Na memória e na bagagem, uma forte religiosidade, uma rica literatura popular, uma culinária diversificada, rituais, danças, festas. Minha ilha tem bruxas, lobisomens, boitatas. Bruxas açorianas, cariós, contemporâneas. Bruxas que resistem nos costões desertos, nos ranchos de canoa das poucas praias ainda isoladas, no meio de suas matas cada vez mais devastadas, no fantástico imaginário de seus moradores: “...Tosca marosca, rabo de rosca / Aguilhão nos teus pés / E relho na sua bunda / Por cima do silvado e por baixo do telhado / Aqui vamos nós com mil diabos.”

Minha ilha? 

Minha ilha não quer ser Florianópolis. Não quer homenagear nenhum “marechal de ferro” sanguinário, que depois de fuzilar quase duzentos de seus filhos troca o nome da cidade para humilhá-la e espezinhá-la ainda mais. Minha ilha não quer ser Miami. Não quer abrigar esse turismo predatório que transforma tudo numa mesma coisa em troca do dinheiro fácil e rápido. Minha ilha quer continuar sendo diversa e variada, alegre e colorida.

Minha ilha?
Minha ilha tem um povo simples, alegre, que fala “ansim, ansim, cantadinho, cantadinho, num tem?”. Um tal de “manezês”, essa estranha, surpreendente e sonora língua que causa “invejume” em muitos e tá sempre “istrovando” o chamado português culto. Minha ilha é mulher generosa, cortesã que sempre abrigou todos em suas reentrâncias, cantos, encantos e recantos. Todos. Navegantes, desterrados, amotinados, fugitivos, sonhadores.

Minha ilha?
Minha ilha é agora. E aqui.
(Fernando Alexandre)
( Crônica originalmente publicada na revista "Almanaque Brasil", fevereiro de 2000)

2 comentários:

vinícius alves disse...

Fernando e Andréa,

o blog de vocês tá cada vez mais lindo. precisamos nos ver com mais frequência.

grande abraço

vinícius

obedef.blog@gmail.com disse...

Prezado Alexandre...há alguns anos comemoramos o aniversário da Ilha com sua crônica na sala de aula. Abraços e obrigada. Cris