sexta-feira, 16 de junho de 2017

MAR DE CRENÇAS, REZAS E BENZEDURAS...


"Entre nossos valentes e audazes pescadores existem crenças bastante arraigas, naturalmente herança dos seus antepassados. Desde que põem o pé na praia com destino à pescaria, fazem o possível para não falarem em pena de aves, em cobra etc. Quando estão preparando seus apetrechos e aparelhos de pesca, evitam que senhoras grávidas os toquem, ou passem por cima dos aparelhos. Têm verdadeiro horror quando recebem encomendas de peixes e muito principalmente quando são feitas por mulheres. Se estiverem na praia preparando-se para irem ao mar realizar o trabalho de pesca e um dos camaradas por acaso falar dos elementos já citados e por eles considerados azarentos, chegam até a desistir e, se o fazem, conservam-se contrariados, prevendo sempre o mau êxito da pescaria na ocasião. Os mais fanáticos chegam a voltar do mar, quando já estão pescando, se, por esquecimento, um camarada falar num dos elementos que eles considerem azarados.

Costumam embarcar na canoa com o pé direito. Acreditam piamente que quebranto, mau-olhado e inveja. Alguns escondem os peixes que pescaram, quando voltam da pescaria, embaixo do paineiro da canoa, para que quando chegarem na praia os "olhos grandes" não os vejam. Se um pescador tem a felicidade da fazer uma pescaria farta, os que não conseguiram na mesma ocasião também fazê-la atribuem a causa do fracasso ao poder maléfico dos "olhos grandes". Para afastá-lo, consultam uma benzedeira experimentada e entregam seus aparelhos e apetrechos aos cuidados dela, na certeza de que ela, com o emprego das suas benzeduras de efeitos rápidos e poderosos, quebrará as forças maléficas e traiçoeiras dos "olhos grandes", anulando o seu efeito diabólico, colocando-os para sempre no fundo do mar sagrado "onde o galo preto não canta" conforme cita a reza.

Se os instrumentos estiverem muito impregnados pelas forças anuladoras do quebranto, a pobre benzedeira passa por grandes sofimentos físicos no momento de praticar o ato da benzedeura contra os poderes misteriosos do mal. Boceja, verte lágrimas, espreguiça-se, enfim, fica exausta. Depois de terminado o trabalho, a benzedeira respira fundo e se dirige ao dono dos instrumentos de pesca e faz o comentário dos elementos sobrenaturais que "viu com os olhos que a terra há de comer" e dos que ela sentiu maltratar-lhe o corpo "sem dó nem piedade".

"Credo! Cruz! Virge Maria! Sô Janjão!. "Puxa que passê um bucado mali". "Si não fosse os 'contra' que carrego comigo, pra mode me defendê, e não tivesse feito a benzedura com fôia de guiné e arruda, não sê não o que haverá acuntecido".
"Tive inté arripio no fio da espinhela". "O máu zóio que butaro em riba dos seus traste de pescaria é zóio de quemá inté pimenta braba". "Vôte bicho ruim! "Credo, mô Deus, esta gente dagora não pode vê os zôtro miorá de vida". "Dargum tempo não era ansim. Quás não havia essas coisa".

Então, "seu" Janjão, que havia escutado religiosamente a "sinhá" Chica benzedeira, concordou plenamente com o que ela o expusera, e respondeu-lhe: "É, sinhá Chica, prô mode destas e dôtras é que eu acostumo a incundê os pêxe que mato em baxo do pânero da canoa". "Sinhora, quando mato um bucadinho de pêxe má mió, essas gente fica quás doida pra riba da minha canoa". "Nesse dia não posso cume nem drumi dereito, pra mode de tanto abri e fachá a boca". Fico inté com o braço dereito cansado de tanto levá a mão na boca, pra mode fazê o sinali da cruz dentro dela; mas não arresove, é quebrante muito forte".

E voltando-se para a mulher: "Eu não te disse, Noca que quando vi a Dica cáquela barrigona muito grande em vorta da minha canoa, junta cá muié do finado Zé Antonho, a oiarem muito pro lado que tava a espinhela e os pêxe que não ia arresurtá coisa boa".


SUPERSTIÇÃO DOS NOSSOS AUDAZES 
PESCADORES DA ILHA DE SANTA CATARINA

(De " Crônicas de Cascaes" 
Primeiro volume Fundação FRANKLIN CASCAES - 1956
Acervo: Museu Universitário Oswaldo Rodrigues Cabral/UFSC, pesquisa de
José Luiz Sardá )

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