segunda-feira, 26 de junho de 2017

JACK O MARUJO


- O senhor leu algum livro, capitão?
- Nenhum, disse Jack o Marujo. As páginas não sobrevivem em alto mar. Borram tudo. Só leio meu diário de bordo, quando consigo decifrar os garranchos.
- E tem muitas histórias no seu diário?
- Só informações sobre o clima, as marés, as correntes e as estrelas. Houve um tempo que perdi o calhamaço e acharam numa praia distante.
- E ele estava inteiro?
- Nada. Estava incompreensível. Eu adivinhei as letras pela memória.
- Mas aí não dá para confirmar nas informações técnicas, não?
- O diário não da confiança para ninguém. Existe porque viajei e quando viajei anotei. Tenho boa caligrafia, mas uso tinta vagabunda e isso põe tudo a perder.
- Assim mesmo gostaria de ler um trecho do seu diário capitão.
- Lembro de um que diz: Galeão espanhol se aproxima a trinta nós vindo do leste. E ainda estou azeitando a garrucha.
- Isso foi quando, no século 18?
- Não, foi ontem. O tempo é o único fantasma.

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