terça-feira, 16 de maio de 2017

TAINHA CRÔNICA

Arte Felipe Parucci
Submarinos Escamados

"De repente, no hálito de um frio moderado, chegam as tainhas, como submarinos escamados. O mar se encrespa e um tapete de nervosas espumas risca a linha d’água. Do alto de um costão, o olheiro espreita os cardumes, atento às rugas do mar, a mão transformada em aba, os olhos em luneta de longo alcance. 
Tostados pelo sol, pele curtida pelo vento, esses radares humanos seguem os cardumes com o faro de perdigueiros marítimos, sentinelas da guerra do abastecimento. São como o velho pescador Santiago, criatura de Hemingway. Dão a vida pelo seu peixe de cada dia. 
E as tainhas chegam, como se brotassem de uma prodigiosa maré de escamas, a Armação ou o Campeche tocados por algum milagre do Senhor. — “Tora, Tora, Tora!” — poderia ter gritado o olheiro, como se fosse um tardio radar de Pearl Harbour, anunciando a repentina invasão dos peixes na guerra pela alimentação. 
Mas esses torpedos ovados são pacíficos, flechas submarinas que deixaram a Lagoa dos Patos e subiram as correntes atlânticas, abraçando a Ilha e a Barra da saia da Conceição. Projeção bíblica: as canoas bordadas da Barra da Lagoa se pareciam com as embarcações das Escrituras, como a Arca, ou como os “batelões” dos Doze da Galileia. 
Depois da pobre pescaria, só havia dois peixes no cesto. Dois peixes e cinco pães. Ao desembarcarem, uma multidão aguardava por proteínas do mar. Assustado, o pescador Pedro suplicou ao Senhor: — Manda embora essa gente para que se alimente em suas povoações! Cristo respondeu, placidamente, aos seus apóstolos: — Não será preciso. Dai-lhes vós mesmos o que de comer. — Mas não temos aqui mais do que cinco pães e dois peixes! — Tragam-nos aqui… 
E ordenou à multidão que se sentasse à relva, tocando com as mãos os cinco pães e os dois peixes. Ergueu então os olhos para os céus e os abençoou. Partiu os pães e mandou que aqueles rudes pescadores dividissem os pedaços com todos os acampados, assim como as postas de peixe. Todos se saciaram e ainda restaram 12 cestos, repletos de pães e peixes. 

A cena se repetiu na Barra da Lagoa, numa luminosa manhã de maio. As tainhas pulavam nos cestos ainda forrados de areia molhada, os homens se sentiam solidários com os outros homens. 
Houve festa e partilha — e sobrou peixe para os embarcados e para os olheiros. Na verdade, olhos de pouca valia nessa bíblica multiplicação. As tainhas “atacaram” as embarcações, lembrando os grandes lances de 1997, na Pinheira, quando 15 mil tainhas foram capturadas pelos Pedros pescadores. E o lance recorde de 1977, nas praias do Sul e do Norte da Ilha, quando o “milagre” chegou a inacreditáveis 54 mil tainhas! 

A festa da tainha acontecia, antigamente, ao natural, sem que fosse preciso importar o produto em caminhões frigorificados ou sem que a cobiça dos atravessadores prevalecesse nos balcões e nos tabuleiros. 
Vento sul encanado, friáz, tainha de corso… No mercado, as tainhas estão em decúbito ventral, guelras abertas, a barriga prenha de duas ovas, expostas à cupidez do “fregueis”. 
Neste domingo de suposto céu azul, ou de lestada — nunca se sabe — dedico estas linhas a esses homens do mar, que ainda vivem de sua antiga faina. Como aqueles pobres pescadores de Homens e Algas, manés humildes que Othon Gama D’Eça amou, cultivou e compreendeu."

do Sérgio da Costa Ramos

(A imperdível crônica do Sérgio, "cercada" e "arrastada" do Diário Catarinense de 16-05-2010.)

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