terça-feira, 30 de maio de 2017

A PRIMEIRA A GENTE NUNCA ESQUECE...


"Eram os idos da década de 80 e já iam longe as calendas de maio. Uma rádio FM local oferecia a publicitários e jornalistas uma festa regada a bom uísque, bom vinho e outras bebidas nem tanto, mas tudo boca-livre. E o prato principal ? Tainha ! Dito assim parece qualquer coisa, mas era uma mesa com muitas variedades de tainha recheada, suponho que preparadas por mais de um chef. 

Estávamos na era de ouro da freqüência modulada e das agências de propaganda, as comemorações eram muitas e fartas. Dizer que eu me lembro dos magníficos recheios e das saborosas guarnições ? Mentira. Tratávamos os acepipes com uma indiferença blasé, interessados nas fofocas e tendências do meio profissional, bem como nas belezas que circulavam no ambiente – o qual, aliás, merece um parágrafo à parte. 
O local tinha um nome que não deixava antever aquilo que mais tarde se classificaria como spa. Primeiro, aberto a quem pagasse, um tempo depois restrito à fina flor dos poucos endinheirados da city. Piscina, sauna, salões de ginástica, ambientes de repouso, tudo muito funcional e sem frescura. Mas era possível perceber que a cara manutenção necessitava de quantidades off-shoreanas de dinheiro e por isso, havia que se restringir a freqüência a pessoas realmente detentoras de “posses”. 
Era devidamente afastado do centro da cidade para que eventuais aventuras de executivos com seus casos ocultos não fossem facilmente detectadas. Na época, o bairro era deserto e havia pouquíssimos moradores e comércios. Isto posto, voltemos às tainhas. Estavam deliciosas, mas a batalha por um naco era insana.
 Sem pensar no colesterol e na quantidade de lipídios ingerida, só quando estava lá pela terceira ou quarta pratada é que caiu a ficha. E, então, o que restava ? Beber ! e dá-lhe quantidades industriais de uísque e vinho, misturadas ao final com conhaque, já que os cozinheiros capricharam no sal. Não levou muito tempo para que eu tivesse que sair até o estacionamento e devolver à natureza os nutrientes que ela tão prodigamente tinha me proporcionado. E, devidamente ébrio – naquele tempo não dava cadeia – dirigi até em casa sem maiores incidentes. E aquela “instituição” ficava a uns bons quarenta quilômetros de casa. Por isso, talvez o melhor título seria “não foi a primeira, mas foi inesquecível”.

(Do Serginho, o Sergio Maluf Torres - jornalista à moda antiga, publicitário ainda ativo, compositor de música popular. Nascido pé-vermelho, curitibano por adoção, andou pelo mundo afora pra aprender a amar Pindorama.)

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