segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

SABOR DO MAR

Vamos fazer uma brincadeira: conte em seus dedos quantas espécies de peixes diferentes você costuma consumir. Foram muitas? Mais de cinco? O motivo desta pergunta é que, infelizmente, apesar das comunidades pesqueiras capturarem uma grande variedade de peixes, na área urbana o consumo é restrito a algumas poucas espécies. Uma enquete realizada na cidade de Laguna, Santa Catarina, mostrou que as pessoas conhecem e consomem em média cinco espécies diferentes. CINCO. E uma delas é o salmão, que não é nativo. Ou seja, apenas quatro espécies suportam hoje a grande maioria do consumo de peixes na região. Duas delas possuem medidas de proteção, como o tamanho mínimo de captura, e uma delas possui o status de ameaçada de extinção na famosa "lista da 445".
 A enquete foi realizada como parte de um projeto de extensão pesqueira do curso de Engenharia de Pesca da UDESC, chamado "Sabor do Mar". Título nada original, eu sei, mas a intenção foi boa. O projeto teve como objetivo incentivar o consumo de espécies de peixes que são descartadas por não ter preço de venda devido à baixa procura.

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Neste projeto foram feitos dois tipos de entrevistas. Uma na cidade de Laguna para a identificação das espécies mais consumidas pela população local. A outra foi realizada na comunidade pesqueira do Farol de Santa Marta, cuja pesca quase totalmente oceânica captura peixes de alta qualidade. Neste local, os pescadores foram questionados sobre as espécies que são descartadas por não terem valor de comercialização mas que são consumidas localmente. 

Os resultados foram confrontados e adivinhem só: das 31 espécies capturadas pelos pescadores, apenas três delas eram descartadas por não agradarem o paladar (baiacu, savelha e mamangava). Todas as outras espécies são consumidas na comunidade, mas não são procuradas pelos compradores e acabam sendo descartadas. O próximo passo do projeto então foi pesquisar a frequência de ocorrência destas espécies, a situação atual de sua população perante os órgãos ambientais reguladores, e claro, a qualidade nutricional e o sabor também. Duas das espécies mais abundantes foram selecionadas para fazer parte do próximo passo (e o mais delicioso): a degustação. Conhecidas como guaivira e peixe espada na região, estas duas espécies apresentam estado de conservação favorável, assim como requisitos nutricionais e culinários que justificam sua escolha. 
Os peixes utilizados foram comprados na comunidade onde foi realizada a pesquisa e preparados seguindo orientações dos pescadores referentes ao manuseio e preparo. Foi preparado então um evento de degustação na UDESC. O peixe-espada já era conhecido por algumas pessoas que participaram do evento, embora não seja consumido normalmente em suas casas. O peixe-espada é uma espécie apreciada por restaurantes do litoral central e norte de Santa Catarina para a preparação de iscas. Já a guaivira não era conhecida por nenhum dos participantes, e o sabor deste peixe foi uma grande surpresa.
 Como aprendizado para os realizadores e para os participantes ficou a percepção de que talvez a mudança que tanto cobramos tenha que começar por nós, consumidores. O fato de só consumirmos um pequeno número de espécies, e insistirmos em comprá-las mesmo quando estas encontram-se ameaçadas acaba nos impedindo de conhecer novas possibilidades de consumo. Dar uma chance a novas espécies em nossa mesa pode ajudar a tirar um pouco da pressão das espécies mais consumidas. Pense nisso!

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