terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

OS RIOS E O MAR

Foto Pablito Dutra
"Não havia água na terra dos chocoes. Deus soube que a formiga tinha água e pediu-lhe. A formiga não quis escutá-lo. Deus apertou sua cintura, que ficou fininha para sempre, e a formiga esguichou a água que guardava na boca.
- Agora me dirás de onde a tiraste.
A formiga conduziu Deus até uma árvore que não tinha nada de excepcional.
Quatro dias e quatro noites ficaram trabalhando as rãs e os homens, a golpes de machado, mas a árvore não terminava de cair. Um cipó impedia que tocasse a terra.
Deus ordenou ao tucano:
- Corte-o.
O tucano não conseguiu, e por isso foi condenado a comer frutas inteiras.
A arara cortou o cipó, com seu bico duro e afiado.
Quando a árvore da água caiu, do tronco saiu o mar e dos galhos, os rios.
Toda a água era doce. Foi o diabo quem andou jogando punhados de sal nela."

(Eduardo Galeano, em “Os Nascimentos” 
- "Memória do Fogo" - Vol. 1 - L&PM Editores - 1996))

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