terça-feira, 8 de novembro de 2016

MORRENDO NO CAMPECHE

Foto Reprodução
O RITUAL DO LUTO NA HISTÓRIA DA COMUNIDADE AÇORIANA DO CAMPECHE

Quando alguém morria a primeira ação era procurar o coveiro que imediatamente tocava o sino avisando a comunidade sobre o ocorrido. O sino era o único meio de comunicação de massa: anunciava a morte, a festa, a missa. Para cada anúncio a toada era diferente e a comunidade identificava a mensagem.

A partir do toque do sino iniciava-se a preparação para o velório, denominado de essa. A denominação essa é atribuído a base em que o caixão é colocado até o traslado para a Igreja e o cemitério.
O defunto era velado na casa da família, em cima de tábuas até que o caixão fosse construído sob medida. Os carpinteiros seu Zé Bernardinho e o Seu João Antônio eram os encarregados da função. Provavelmente haviam outros. O Caixão era de pínus revestido por um tecido preto. Quando se tratava de uma criança o caixão era branco ou azul. As crianças eram enterradas em uma parte separada no cemitério

O traslado do defunto era feito por carro de bois que para não emitir seu som característico, lavava-se o eixo tirando qualquer resquício de banha ou sebo. O traslado era feito em absoluto silêncio.

Não existia capela mortuária. O defunto era conduzido até a igreja, onde se faziam as orações e os presentes eram chamados para benzê-lo, utilizando uma bacia com água benta e um galho de pitangueira.

Não havia carneiras. O enterro era feito cavando-se um buraco de sete palmos de profundidade na fina areia do cemitério. Seu Emílio Serafim da Silva e João Batista Pires eram os coveiros que realizavam a tarefa com um profundo sentimento de respeito. Mais uma vez a comunidade participa. Cada um faz o sinal da cruz depositando sobre o caixão três pás de areia. Após o fim deste ritual o coveiro escrevia o nome do defunto no monte de terra para identificá-lo até a família fincar uma cruz definitiva com seu nome e a data de nascimento e morte.

Nos dias seguintes a família se recolhia em casa para receber as visitas de pêsames.

Outra forma de mostrar sentimento de perda estava na forma de se vestir, o chamado luto. As mulheres da família usavam roupas pretas por um longo tempo se estendendo por meses. Os homens demonstravam luto costurando no bolso da camisa uma faixa de tecido preto, denominado fumo.

A bebida mais servida em todo esse ritual era o chá da folha de laranjeira que servia para acalmar os nervos (medicina popular).

Por fim, as roupas deixadas pelo falecido (coberta) eram doadas a uma pessoa da comunidade escolhida pela família que deveria usá-las na missa de sétimo dia.

E Hoje ? Bem, hoje é tudo diferente. Muitos não são mais sepultados e sim cremados. O sino perdeu a importância e o anúncio se dá pelo Facebook.....

Texto: Hugo Adriano Daniel - Professor/ Historiador
Profhugoadriano@gmail.com

(Via TV Vento Sul)

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