quinta-feira, 25 de agosto de 2016

MAR DE BALEIAS

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Ruínas contam história cruel 

Durante 75 anos, companhia de pesca caçou mais de 22 mil baleias no Litoral da Paraíba. Vestígios da matança estão em Costinha. 

por VALÉRIA SINÉSIO

As ruínas que resistem à ação do tempo, em Costinha, no município de Lucena, guardam uma história que poucos paraibanos conhecem: a da caça das baleias. Durante quase 75 anos, o local sediou uma das mais importantes empresas de caça de baleias do século 20, a Companhia de Pesca Norte do Brasil. Os historiadores estimam que em Costinha mais de 22 mil baleias foram mortas, sujando o mar com o vermelho do sangue dos animais, em uma luta desigual entre o homem e a natureza.

A visita à antiga base de pesca de baleias na beira-mar de Costinha representa uma viagem amarga ao tempo, mais precisamente ao ano de 1911, quando o empresário Julius von Söhsten decidiu investir no ramo. Um forte motivo para a escolha de Costinha se deu porque era lá que várias baleias se concentravam anualmente entre junho e dezembro para o acasalamento. As principais espécies encontradas eram jubarte, espadarte, bryde, cachaclotes, minke-austrais e baleias-fin. A caça das baleias foi proibida no Brasil no ano de 1985, através da Lei Gastone.

O que hoje é um enorme terreno abandonado foi, por muitas décadas, palco do esquartejamento de baleias, que depois de caçadas eram arrastadas até a plataforma de corte, onde dezenas de homens tinham a missão de retirar toda a carne existente. Havia também uma arquibancada, para a qual a companhia vendia ingressos aos interessados em acompanhar o processo, conforme lembrou Romilson Costa, presidente do Instituto do Meio Ambiente e Ações Sociais de Costinha (Imaas).

Ele contou que as lembranças do corte da baleia ainda estão presentes em sua memória. Nos últimos anos de funcionamento da companhia (que veio a fechar em 1985 com a proibição da caça no país), Romilson ainda era um menino, que vendia picolé e pastel para os trabalhadores do local.

“Lembro bem daquele tempo. Era muita movimentação, todos queriam ver como acontecia o corte da baleia”, afirmou.

Os arpões e correntes enferrujados, utilizados para matar e puxar os animais, estão guardados na sede da Imaas. Após o fechamento da companhia, em 2000, o local passou a funcionar como um parque temático, chamado Baleia Magic Park, virando atração de final de semana para as famílias que visitavam Costinha. Em seguida foi acrescentada uma pousada. Mas o parque veio a fechar no ano de 2005.

Sem manutenção e abandonado à própria sorte, o local se deteriorou rapidamente ao longo dos últimos anos, embora ainda preserve uma baleia de cimento, que chama a atenção de quem se atreve a entrar, guinchos e outros vestígios do negócio baleeiro que ali se firmou. Onde antes eram as piscinas, hoje são depósitos de água suja e parada. A vegetação toma conta de parte considerável do terreno, no qual se recomenda não entrar desacompanhado.

Há dois meses famílias sem-teto invadiram o antigo estaleiro. A luta da Imaas é pela reativação do local como museu. “Estamos em um processo de recolhimento de fotografias e ossos de baleias que estão em poder de moradores da comunidade.

Nosso intuito é reunir o máximo possível de material para preservar e mostrar a história que se passou em Costinha.

Mesmo cruel, é história, e deve ser preservada”, declarou.

A ONG vai entrar com um pedido de tombamento da área no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba (Iphaep-PB). A Imaas enfrenta uma queda de braço com os proprietários do terreno, que aceitaram doar o acervo existente, mas pretendem fazer um estaleiro no local, segundo explicou Romilson.

Pesca como negócio rentável

O historiador William Edmundson, um dos autores do livro ‘A História da Caça de Baleias no Brasil: de peixe real à iguaria portuguesa’ (Disal editora, 2014, R$ 49,00), conhece como poucos a história que se passou entre os anos de 1911 a 1985 em Costinha. Segundo ele, uma das vantagens da instalação da estação baleeira naquele local foi o fato de que a praia era afastada da área residencial “onde os odores causados pelo processamento das carcaças da baleia e os resíduos industriais teriam tornado essa iniciativa bastante mal recebida”.

Em sua obra, Edmundson destaca a fase moderna da caça da baleia, com o uso do canhão arpão e do navio a vapor. Diferente da era colonial, quando se utilizavam barcos a remo e arpão manual. “O empresário Julius percebeu a presença de baleias naquela área e viu aquilo como uma grande oportunidade de negócio”, frisou. Julius von Söhsten se afastou do negócio em 1929, data na qual a companhia passou para as mãos dos sócios dele (Mendes Lima & Companhia) e posteriormente a empresários noruegueses e por fim japoneses. Foi no ano de 1957 que a companhia passa a ser chamada de Copesbra. 
De acordo com o historiador, na fase mais recente, com os japoneses, a caça das baleias se dava a cerca de 30 quilômetros de Costinha. O interesse principal era pelo óleo de baleia e a carne para a fabricação de charque. No depósito abandonado ainda é possível encontrar a inscrição ‘câmara de estocagem’, local onde a carne era armazenada. Edmundson disse que dez técnicos do Japão estiveram em Costinha para demonstrar a técnica de corte da baleia, que tinha de ser feito em no máximo 33 horas. Depois de aplicada a técnica, o corte da baleia se dava em apenas 20 minutos.

Iguarias congeladas eram exportadas para o Japão, onde a carne de baleia era muito cobiçada, segundo o historiador. Nas décadas de 70 e 80, o estoque de baleia estava sendo muito explorado em outras regiões do mundo, enquanto em Costinha ainda era abundante. Moradores da comunidade eram contemplados com pequenos cortes da carne de baleia, que não eram nobres como os destinados à exportação. Para torná-la mais apetitosa acrescentavam sal, conforme informou Edmundson. Na comunidade, essas pessoas eram chamadas de urubus.

Matança foi considerada 'atração turística'

Durante a caça das baleias, Costinha foi um local de constante visitação turística, conforme explicou William Edmundson, sobretudo entre os anos de 1972 e 1981. “Muitas pessoas foram para Costinha com o objetivo de presenciar a chegada dos navios com as baleias abatidas. Não resta dúvida que foi um dos maiores focos de turismo na Paraíba”, explicou Edmundson.

Ele citou um fato curioso de um grupo de São Paulo que fretou um avião para participar do ‘evento’, mas que não teve como fazer pouso em João Pessoa, o que só foi possível em Recife. Os turistas, então, passaram a noite toda viajando até chegar a Costinha. Como por vingança da natureza, exatamente nesse dia nenhuma baleia foi capturada e o grupo voltou para casa desapontado – mesmo quando deveria estar feliz.

Segundo o historiador, o que aconteceu em Costinha contribuiu muito para o risco de extinção das baleias no Brasil. Depois de quase 30 anos de proibição, o estoque da baleia-jubarte está se recuperando. “Estima-se que hoje existam cerca de 17 mil baleias dessa espécie, o que representa quase 70% da população original”, declarou. Em relação à espécie franca, que nunca foi vista na Paraíba, mas foi muito explorada no Sul e Sudeste do país, a recuperação é bem mais lenta, conforme explicou o historiador. “Hoje temos mais ou menos 500 indivíduos dessa espécie na costa brasileira”, frisou.

A obra de William Edmundson, que há oito anos escolheu João Pessoa para morar, e Ian Hart conta essa história da caça de baleias em Costinha com riqueza de detalhes. Os autores trazem, por exemplo, informações a respeito da captura de baleias e produção de óleo em Costinha e apontam para 68 baleias e 3,3 mil barris de óleo no ano de 1916. Contam ainda sobre a produção de farinha a partir da carne e do osso da baleia.

O livro traz o resultado de uma investigação minuciosa sobre como aconteceu a caça dos mamíferos em Costinha, pontuando, inclusive, as possíveis interrupções no negócio baleeiro durante a Segunda Guerra Mundial. Com a obra em mãos, o leitor tem a oportunidade de conhecer também a história da caça das baleias no país e os principais tratados e acordos para o fim da atividade.

Sobre a época que a caça ficou com os japoneses, os autores contam que uma das metas principais era melhorar a qualidade dos produtos saindo da fábrica. Segundo os autores, “a baleia era dividida basicamente em duas partes: o toucinho e a carne, ambos levados a um lado da plataforma de corte, e os ossos, pele com gordura, vísceras e a cabeça para outro lado”. O livro é considerado o mais abrangente sobre a história da caça de baleias no Brasil. O autor vai fazer uma noite de autógrafos na Livraria Leitura (Manaíra Shopping) no próximo dia 5, no horário das 17h às 19h.

(Do http://www.jornaldaparaiba.com.br/noticia/139254_ruinas-contam-historia-cruel)

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