quarta-feira, 1 de junho de 2016

A TAINHA E O HOMEM

Motorizados, barcos navegam entre Garopaba e Araranguá atrás dos cardumes

A tainha e o homem (ou a saudosa procissão da Praia do Cardoso)

Do Fabio Bispo

Como lócus do imaginário a boa nova se espalha pela vila: lá vem tainha. O barco já apontou no Cabo de Santa Marta. As gaivotas chamam os passantes. A areia está em polvorosa. De dentro do barracão, cada um salta para seu posto. E mais um tubo fecha no horizonte da praia do Cardoso.

O homem com a camiseta “Farol de Santa Marta” estampava um sorriso satisfatório ao subir no barco para ajudar a puxar a rede. Aliás, perceptível também é a divisão de gêneros: homens e meninos desmalham o peixe; as mulheres fazem fila do outro lado do barco e pegam das mãos dos pescadores uma ou outra tainha que não vai para caixa; já as meninas ajudam a distribuir nos caixotes. Dali, o peixe segue na carroceria de uma Toyota Bandeirante até a peixaria. Uma carroça também aguardava seu quinhão para sair anunciando.

A rotina da comunidade que gira em torno da pesca e do turismo reúne todos numa espécie de celebração. O ritual remonta o princípio da vila, nos arredores do Farol inaugurado pela Marinha em 11 de junho de 1891, formando importante colônia pesqueira de Santa Catarina.

Os envolvidos na pesca e no desmalhe levam sua porção. Senhoras se apressam em carregar as ovadas para garantir o almoço. Alguns fazem negócio ali mesmo com a garantia de peixe fresco assegurada pelo vendedor: “oito, o quilo”, se ouve dum lado. “Esses três por cinquenta”, apresenta outro, que volta a enrolar os peixes num pedaço de pano embaixo do braço em direção à vila.

Espíritos tosqueados passam ao largo da praia, tão longe quanto os pescadores conseguiram ir para capturar cerca de 3.500 peixes na manhã de sábado, 28 de maio de 2016. É que há muito a cultura pesqueira local abandonou o cerco de arrasto, quando uma canoa com quatro remadores saia na praia e fazia o circulo lá por fora, fechava o peixe, vinha arrastando e pegava 10, 12 toneladas numa tacada só.

— Nós vamos de Garopaba até a foz do rio Araranguá, os barcos grandes começam a pescar lá do Chuí até o Rio de Janeiro [e não obedecem as três milhas exigidas pelo Ibama] — .

O preço do desenvolvimentismo da pescaria industrial é que os barcos a motor têm 15 dias a menos que a pesca artesanal na safra, que vai de 1º de junho a 31 de julho.

— Na costa não pegamos nada, os cardumes passam tudo por fora e só vão encostar lá na Barra da Lagoa — , conta o pescador.

Uma velha broxólica ronda a canoa, senta-se no chão, acende um cigarro e conversa com os cachorros. A procissão segue. Outro barco, com anchova, embica detrás do Cabo. Faltam caixas para tanto peixe:

— Mais quantas? — Pergunta o dono do barco ao atravessador.

— Quinhentos quilos. Cinco caixas.

Perdida entre o cardume de tainha, uma corvina de uns cinco quilos salta aos olhos de quem chegou à praia. A dona não espera a pergunta: “essa é pra fazer ensopada, essa assada.” O sol contorna o Farol e a vida escorre entre os paradoxos que conseguimos arrestar. Como pode, cada um volta pra casa com seu peixe na mão.


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