quinta-feira, 31 de março de 2016

VIGÍLIA DO ALMIRANTE

Ilustração de Jeanete Musatti

"Nas solidões do gelo eterno vi pela primeira vez uma baleia azul e na refração espectral de uma aurora boreal apareceu uma tropa de sereias jaspeadas que pareciam translúcidas. De seus corpos ondulantes só se viam os seios redondos e eretos nos quais a cor do gelo e da púrpura se juntavam. Pensei nas sete filhas da Estrela Polar que vivem no mar oceano.
Suas longuíssimas cabeleiras azul-turqui varriam o tímpano no qual flutuavam a deriva com indolente voluptuosidade, como numa gôndola de arco-íris. Como se lhes fizessem guarda, flutuavam a seu redor vários ursos brancos como outros tantos tímpanos flutuantes. Os homens as chamavam com gestos suaves e assovios de fim de mundo. As vozes roucas ficavam suspensas de suas bocas em carambinas encaracoladas. Um velho lobo do mar saltou no gelo. As ondinas mergulharam com timidez de noviças e desapareceram em seu próprio resplendor.
Tem mais de metade da vida que já vou nessa lida. Tudo o que hoje se navega eu já andei. Vi tudo o que é preciso ver. E também o que não se vê. E mesmo o que ainda não é... Tudo é recordação. Não se inventa nada. Só pequeníssimas variações do já dito, acontecido e escrito. Tudo é real. O irreal é apenas um defeito da memória fraca. Experimentei tudo o que é permitido sem negar-me nada que fosse lícito e acorde com as leis de Deus e dos homens."


Trecho do livro "Vigília do Almirante",
do autor paraguaio Augusto Roa Bastos,
que narra a aventurosa viagem de
Cristóvão Colombo e sua descoberta do
Novo Mundo.
Editora Mirabilia
Tradução de Josely Vianna Baptista
Ilustrações de Jeanete Musatti.

Um comentário:

Anônimo disse...

AINDA BEM, QUE NESSE PAÍS, A GENTE (NÓS) NÃO TEM ESSES PO-BRE-MA !!